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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Las Calles de Madrid

Madrid. A cidade real. A cidade do Real. Real Madrid. Madrid. Acordamos no meio da tarde e qualquer sinal de efeito do Rivotril já havia evaporado de meu cérebro. Queria sair, passear, tirar fotos, explorar as calles de Madrid. “Ayer la vi bailando por ahí, con sus amigas en una calle de Madrid”, como diz a letra de uma música que viria a conhecer na noite de ano novo, em Burgos. Antes de sairmos, apenas confirmei na recepção do hotel o que temia: nenhum sinal de minhas malas. Bueno, o jeito vai ser encarar tudo com a roupa do corpo mesmo: calça jeans, manga curta e o mesmo jaquetão que comprei num outlet em New Jersey anos antes para encarar o inverno americano.
A primeira coisa que gostei em Madrid, aliás, foi o hotel Barajas Plaza. Discreto, pequeno, mas aconchegante e com funcionários receptivos e sorridentes. Fica em uma rua super estreita no bairro de Barajas, perto de uma pracinha em formato oval. Aliás, a recepcionista nos deu um mapinha do tamanho de um cartão de visitas para chegarmos ao metrô. O plano era esse: deixar o carro na garagem por onde passássemos e usá-lo apenas na estrada, pois qualquer estacionamento custa muito mais do que os tickets do metrô. E o mapa do metrô de Madrid é um dos mais lógicos, fáceis e práticos que já vi. Sem querer bancar o convencido, mas para quem praticamente memorizou o mapa de Nova York no um ano em que morei lá, o de Madrid é fichinha. Seguimos o mapinha impresso até a estação: contorna-se a pracinha, segue reto, dobra à esquerda, à direita, chega à outra pracinha e logo na frente está o metrô. Embarcamos e descemos em Nuevos Ministerios. A lógica de Barajas até qualquer parte da cidade é essa: vai até Nuevos Ministérios, última parada, e de lá se vai para qualquer outro lugar. Ou quase. Pegamos mais um trem, que não me recordo o número, e descemos em Tribunal. Dali, estávamos praticamente na Gran Vía. Madrid! Europa! Finalmente cheguei a ti!
Ainda era dia e caminhamos um pouco pela Gran Vía até a fome bater. Critica-se muito os americanos, mas a praticidade das grandes redes de fast food somada ao preço baixo fez com que entrássemos em um Burger King. De estômago cheio, fomos descendo em direção a Plaza Mayor passando por uma espécie de calçadão lotado de lojas. E, lojas, quem conhece sabe, é com a Cris. De cara, já compramos alguns presentinhos para a nenê e para a vovó (da nenê). Para a minha sorte, não estava tão frio. Descemos até a Plaza Mayor.
Eu fotografava tudo o que via: a estátua do figurão no cavalo, o pinheiro de Natal, o urso, Puerta del Sol, o Mr. Been feioso que zanzava por ali com seu ursinho velho, os espanhóis, as espanholas, los niños e las niñas. Nada era poupado pela minha lente. Passeamos por ali, entramos e saímos de algumas lojas, voltamos para a Gran Vía, até o prédio onde está a placa com as letras luminosas Schweppes (que ainda estavam apagadas), andamos mais um pouco, paramos num Starbucks para tomar um café e, quando saímos, estava noite. A questão é que era outro visual.
Assim, aproveitei a intenção da Cris de visitar mais lojas com a minha vontade de fotografar tudo de novo, mas agora com o visual noturno e a iluminação de decoração natalina, e praticamente percorremos o mesmo caminho feito anteriormente até a Plaza Mayor. Fotografei tudo de novo, porém dessa vez com as luzinhas: o pinheiro, Puerta del Sol, o urso, as lojas, a placa do Schweppes, o Mr. Been com o ursinho velho, os espanhóis, as espanholas, los niños e las niñas. Fomos, voltamos, caminhamos mais pela Gran Vía, entramos nas lojas do Corte Inglêz, numa outra galeria sinistra que não sei o nome, fotografei, curti las calles de Madrid até que cansamos. Uma última parada para um jantar: um sanduichão com um pão francês gigante e algumas coisas sem ovo dentro. Resolvemos voltar, pois a ideia era pegar a estrada cedo na manhã seguinte.
Na chegada, uma passada num mercadinho na frente da praça de Barajas que estava aberta e lá abastecemos com suplementos para a viagem: refrigerante, salgadinho, bolachas, água mineral, etc. Não vou ser hipócrita para dizer que compramos frutas e coisas saudáveis, porque não fizemos isso... Mas enfim, poupamos uns bons euros estocando alimentos.
Chegamos ao hotel e, agora sim, a mala havia chegado. Senti-me completamente aliviado. Ali estavam as minhas botas de neves para os alpes suíços! Minha camiseta do Grêmio! Minha camiseta Xavante! Enfim, só coisas importantes que os 200 euros que me pagariam não compensariam, pois não seria possível comprar a tempo relíquias novas, afinal, onde acharia uma camiseta do tricolor gaúcho ou do Brasil de Pelotas na Europa para tirar fotos nos Alpes suíços??? Carajo! Esses espanhóis tem cada ideia... querer compensar isso com 200 euros... O cu deles.... Arrumamos as coisas que desarrumamos em pouco tempo e assim, na manhã seguinte, às seis horas pelo horário espanhol (três da madruga pelo horário de Brasília) acordamos para pegar a estrada rumo a Barcelona.
Para ser sincero, a excitação da viagem não me permite ter sono. O que surpreende a muita gente que me conhece, pois às vezes sou meio Bukowski nesse ponto: gosto de deitar para um cochilo a qualquer hora, não importa se de manhã, de tarde ou de noite. O sono vindo é o que conta. Isso faz com que muitos pensem que sou sempre sonolento... Mas, quando estou viajando, é como se me ligassem na tomada. Lembro, em 2005, num carnaval no Rio em que me disseram que o bloco Bola Preta começava às 8h. Posamos no apartamento de uma finlandesa em Botafogo, que morava com o marido e o filho, depois de chegarmos às quatro da manhã. Eu e meus três ou quatro amigos cariocas que estavam junto dormimos espalhados pelo sofá e pelo chão do apartamento. Acordei para mijar lá por 7h e tratei de fazer com que todo mundo levantasse para ir no Bola Preta. Só ouvia os cariocas falando com sotaque: “Esse gaúcho não dorme não, pow?”. Pois é, quando estou viajando, não durmo.
Carregamos o carro novamente, o fiatizinho 500, e pegamos las calles de Madrid até a autoestrada. A capital espanhola ainda dormia e praticamente não havia movimento. Foi fácil seguir o GPS e deixar a cidade (missão difícil e demorada em outras cidades, como Barcelona e Paris, na hora do rush). A estrada estava vazia e quase fiz o nosso Fiat 500 decolar. Talvez tenha levado alguma multa, não sei ainda. A máxima era de 130, mas, como não tinha praticamente mais ninguém dirigindo pelas vias sem nenhum buraco, com três ou quatro pistas, cheias de espaço, sem que eu percebesse o marcador chegava a 150, 160...
Quando via, diminuía, mas 130 parecia tão devagar naquelas estradas... Dirigindo, viajando e aprendendo, descobri uma peculiaridade da Europa: não há muitos postos de combustível pelo caminho. E eu, acostumado com o Brasil, que tem posto de combustível a cada 10 ou 15 quilômetros (ou bem menos do que isso) esperei o combustível chegar na reserva para abastecer. Passaram-se 10 minutos. 20 minutos. Meia hora e nada. Nenhuma placa, nenhum sinal, nada. Dos três risquinhos da reserva, dois já tinham ido para o espaço. Apelei para o GPS, que me indicou o posto mais próximo. Obviamente, era fora da estrada, numa cidadezinha no caminho. Quando chegamos (após pagar um pedágio que ficava na entrada da porra da cidadezinha) já não tinha mais risco nenhum no painel, que avisava: “peligro, poco combustible”. Completei e, a partir daí, assim que o painel marcasse que o tanque estava cheio pela metade eu já tratava de procurar um posto. E, geralmente ele aparecia quando o sinal entrava na reserva. Em síntese, outra dica: na Europa, pelo menos nos países por onde passei (Espanha, França, Itália e Suíça), é comum você andar 60, 70 ou até 80 quilômetros sem passar por nenhum posto de combustível de beira de estrada.
Depois de aproximadamente seis horas de viagem, chegamos a Barcelona, onde eu havia feito as reservas em um hotelzinho perto de Las Rambas, na parte sul. Era início de tarde e o GPS indicou um caminho que passava justamente na frente do Camp Nou. Assim, antes de chegarmos ao hotel, fizemos a nossa primeira visita na segunda maior cidade espanhola e capital da Cataluña.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Um sofá novo, trocar de carro, dar entrada numa casa ou viajar?

Quem é viajante não tem dúvidas em responder a essa pergunta. No seu livro Viajando, viajando, que já comentei aqui, Sérgio Stangler aborda a mesma temática. No início de 2018 recebi um dinheiro inesperado. Para ser mais preciso, um dinheiro a qual eu tinha direito, mas que demorou pra caralho para sair. E, então, saiu. Na época, a dona da casa que alugamos pediu o seu sofá de volta. Assim, surgiu a dúvida: comprar um sofá novo ou viajar? Além disso, o carro já estava com uma quilometragem alta. E havia a pressão de pessoas relativamente próximas para dar a entrada na compra de uma casa/apartamento. Apesar dos argumentos favoráveis ao sofá e dos palpites externos para a troca do carro ou a entrada em um imóvel, eu mandei tudo às favas e disse para a patroa: é a nossa chance de ir para a Europa. Não fazia ideia se algum dia apareceria uma chance como aquela. E, assim, passamos a planejar a viagem.
O fato de uma tia da Cris, a tia Ella, morar em Burgos, na Espanha, foi um facilitador. Entramos em contato com ela, que ficou super empolgada com a nossa visita. Assim, depois de muito especular, pesquisar, estudar, contatar meus pais para ver sobre a possibilidade da Larissa ficar com eles, de consultar agendamento de férias, finalmente comprei as passagens lá por março de 2018: partiríamos do Salgado Filho, em Porto Alegre, rumo a Madrid com escala em Guarulhos. Passaríamos Natal e ano novo em solo europeu e voltaríamos em voo no dia 6 de janeiro de noite. Tudo foi feito pela eficientíssima agência One Life, de Toledo-PR. Foi com ela que também mediei a minha ida para Nova York e de minha irmã, quando foi me visitar nos States e, depois, quando ela também foi para a Europa. Não é nada de roteiro turistão: eu informei as datas que queria ir e voltar, eles acharam os voos mais baratos, comparei com os da Decolar e outros sites, e valia a pena fazer o serviço com eles, que também trataram do seguro viagem e, no caso dos Estados Unidos, do visto americano. Em resumo, paguei duas passagens à vista - com o dinheiro inesperado - e as outras duas parcelei em dez vezes no cartão (porra, não tenho RBS pra pagar minhas passagens...).
E, assim, ficamos com o mesmo carro e com os sofás velhos que estavam atirados num canto da sala. E a casa, fica para outra. Está longe de ser minha prioridade comprar um imóvel. Pra mim, tendo uma barraquinha num parque público é o suficiente, desde que eu possa partir quando quiser. Liberdade não tem preço.
Passagens compradas, nos meses que se seguiram fui reservando os hotéis, para otimizar o orçamento. Otimizar. Uma ex-colega, Relações Públicas, disse que em uma entrevista de emprego sempre se deve utilizar essa palavra. Os chefes adoram. E eu otimizei meu orçamento. Cada mês pagava a hospedagem em um lugar. Uma outra reserva da grana recebida serviu para comprar euros, peguei mais a grana das férias e décimo e.... ficou tudo pronto! E, agora com a viagem findada, só posso dizer uma coisa: deu tudo 100% certo. Não faltou nem sobrou. Enquanto escrevo esses textos, como todo o viajante chato metido a besta faz, vou dando algumas dicas. Eu fiz um “caixa 2” para imprevistos, que sempre aparecem. E, financeiramente, uma das coisas que confirmei é o seguinte: se perde aqui, se ganha ali. Explico-me: paguei uma batata pra ver PSG x Nantes no Parque de Príncipe. Mas compensei jantando sanduíche comprado no mercado em Paris a dois euros. A vida é assim. Ganha-se aqui, perde-se ali. Sabendo dosar, vamos longe.
Questões financeiras resolvidas, chegou a hora de fazer o roteiro. A Cris combinou de passarmos o natal e o ano novo em Burgos, na Espanha, com a Tia Ella e a família. Concordei na hora. Sobraram duas opções: ou chegaríamos e pegaríamos a estrada para conhecer alguns destinos ou iríamos direto para Burgos, passaríamos o Natal lá e no dia 26 pegaríamos a estrada. Inicialmente achei a segunda opção melhor, mas depois, pensando bem, conclui que seria ruim chegar no dia 6, cansado de tanto viajar, e ter que pegar um avião de volta para o Brasil. Outra hora falo do meu trauma de aviões... Na dúvida, liguei para a tia Ella: e aí, tia, o que fica melhor para vocês? Ela sugeriu viajarmos primeiro e depois ficarmos lá para natal e ano novo. Perfeito. Comecei a traçar a rota. Primeira dúvida: trem, ônibus ou alugar carro? Todo mundo dizia que o melhor era pegar trem. Aí vai outra dica: siga o seu instinto e o seu interesse. E pesquise! No meu caso, eu tinha a experiência de alugar carro nos Estados Unidos. Então eu não era um novato no assunto, pois cruzei da costa Oeste à costa Leste dirigindo pelas estradas americanas, que se parecem muito com as europeias. Acabei botando tudo no papel: ok, de trem ou busão ficaria mais barato. Mas o barato sairia caro.
Estaríamos com bagagens. Seria horrível chegar de madrugada num lugar e pegar metrô para hotel. Se pegássemos taxi ou uber a economia já ia para as cucuías. Dois fatores me fizeram decidir: 1) era inverno. Chegar e partir cedo da manhã ou de madrugada seria uma tortura. De carro, seria muito mais confortável. 2) a perda de tempo. Se você vai pegar um trem ou ônibus você tem que se programar para estar tudo pronto na estação antes da hora, pois o trem não vai te esperar. Se você está de carro e se atrasar 10, 20 minutos, uma ou duas horas, pouco importa. O carro está lá. Um exemplo. Um trem que sai ao meio dia. Você vai ter que pegar um metrô até a estação carregando todas suas malas e sacolas. No inverno. Com a sua esposa pronta para jogar tudo na sua cara se alguma coisa sair errado. Muito arriscado. Você vai ter que levantar às 9h para deixar tudo pronto até às 10h para pegar o metrô para chegar pelo menos meia hora antes na estação de trem para achar o ponto de partida. Vai ter que pegar o trem. Vai ter que chegar no destino e se virar para achar o hotel. Vai perder tempo. Sua mulher vai ficar bravo com você. Vai estar frio e você vai estar cansado. De carro, você se levanta às 11h, toma um banho, da uma cagada, desce, faz o check out, põe o endereço do próximo destino no GPS e parte. Muito mais simples, fácil e confortável, não? Foi o que fiz. Óbvio, ai entra o caixa 2 dos imprevistos. Eu tinha reservado uns bons euros para pedágios, gasolina e outros gastos que pudessem surgir na estrada. E surgiram, como os 40 euros que tivemos que pagar para colarem um adesivo no carro para entrarmos na Suíça. Enfim, aí já estou adiantando a história... Voltemos àprogramação.
Peguei o mapa. Tínhamos duas possibilidades: ou chegar em Madrid e de lá irmos para Paris e fazermos a volta até Barcelona e irmos a Burgos (o que não seria muito sensato ou lógico) ou chegarmos em Madrid, partimos para Barcelona, subirmos a Milão para de lá ir para os alpes suíços, Zurique, Paris e Burgos. Como tínhamos pouco tempo, fiz essa segunda opção e deixei o passeio em Madrid para o final. Ou seja, chegaríamos em Madrid, dormiríamos uma noite e já partiríamos no dia seguinte para Barcelona. Assim, em agosto paguei o hotel em Barcelona, em setembro em Milão, em outubro na Suíça, em novembro em Paris. Resumindo: pegamos o avião com tudo pago: passagens, aluguel do carro e hospedagem. Só nos preocuparíamos com o que gastaríamos lá. Sei que o Sérgio, por exemplo, é contra planejamentos. Mas quando os recursos são escassos, eles são necessários. Se eu tivesse uma conta cheia de grana no Brasil faria tudo sem planejar. Iria para onde o vento apontasse sem me preocupar com preço de hotel ou em gastar com táxi. Mas não é meu caso. Minha conta no Brasil ficou raspadinha. No máximo, havia a opção do crédito que, graças a Deus, praticamente não usei.
Estando tudo planejado e organizado, finalmente chegou dezembro. A hora de pegar o avião. O momento de encarar o meu fantasma: o monstrengo que pesa toneladas e viaja por cima das nuvens como se fosse um beija-flor.
O avião sairia no dia 12 de dezembro. Uma semana antes começou a insônia. Coração dispara. Frio na barriga. Penso em desistir. Porra, perderia uma puta grana. A grana do sofá novo, da troca do carro, da entrada na casa. Penso que minha filha não vai. Se o avião cair, ficará órfã. Puta que pariu. Penso que meus pais e irmãos cuidariam bem dela. Penso, penso, penso. Acabo guardando para mim esses pensamentos. Vou me chapar de Rivotril e já era. Foi assim que fiz para ir para Nova York. Tomei um Rivotril antes de pegar o táxi e um quando o avião estava lá em cima. Apaguei e acordei com a aeronave descendo no JFK. Decido não tomar nada no trecho Porto Alegre – São Paulo. O avião sairia meio dia e pouco. Chegaríamos duas e pouco e pegaríamos o avião para Madrid às 17h05 pela Ibéria. Fui no seco até São Paulo. Quase esmaguei a mão da Cris. Suava frio, barriga gelava e aquela porra tremia tanto quanto eu. Mas chegamos. Quando as rodas tocam no chão, é o alívio. Aquele era o meu limite. Mais que isso, só com Rivotril. Rodamos, comemos e, quando fomos para o embarque, tomei um comprimido. Resolveu. Fiquei tranquilo, sonolento. Entramos na aeronave. O troço acelerou e zuummmmmm saiu do chão. Passou-se, sei lá, quase uma hora. No mapinha estávamos no nordeste quando, de repente, ZUMMMMMMM. O troço deu um solavanco. As pessoas gritaram “UUUOOOOOUUUUUU”. Se estivéssemos sem cinto pararíamos no teto. Na sequência, ele deu umas tremidas, como um carro que está apagando.
A Cris me olhou, apavorada. E eu só pensava “já era. É o fim. Eu sabia!!! Essa porra não é confiável, caralho!!!! Porque eu teimo comigo mesmo?!!!!”. O susto passou. Uma guria do outro lado chorava. O piloto falou em espanhol. Não entendi patavinas. Perguntei para umas cinco pessoas ao redor, todos brasileiros. Ninguém tinha entendido porra nenhuma. O que esse porra falou??? Que a merda vai cair??? Vamos ter que fazer pouso de emergência em Recife?? Caralho???? A aeromoça passou lá do outro lado. Eu, de pescoço esticado, tentando chamar a atenção dela. Quando ela olhou, comecei a abanar feito o Mr. Been. Ela veio. “O que o piloto disse???”, eu perguntei apavorado. “Ele disse que a viagem vai durar X horas e a previsão é de tempo bom em Madrid”, ela respondeu. Ufa. Por via das dúvidas, tomei mais um Rivotril. Capotei. Acordei quando estávamos cruzando o Marracos. Dali o troço passou rápido e logo pousamos em Madrid. Assim como quando cheguei em Nova York, estava chapado de Rivotril.
Fomos pegar as malas e a minha havia sumido. Fui até o balcão de malas extraviadas e disseram que se não aparecesse eu receberia 200 euros. Fiquei puto. Não houve Rivotril que me alcamasse?
- MAS NA MINHA MALA TEM MUITO MAIS DE 200 EUROS!!! EU QUERO A MINHA MALA!!!! TEM MINHAS BOTAS DE NEVE!!!!
A mulher se assustou um pouco. Pegamos o carro: um Fiat 500. Nada mal. Achamos sem maiores dificuldades o Hotel Barajas Plaza, que fica pertinho do aeroporto. Entramos no quarto e dormimos. Não sonhei com nada. Nem com o avião tremendo. Nem com a minha mala extraviada.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Aprendiz de viajante

Sempre gostei de narrativas de viagem. Não é a toa que mantenho um projeto de pesquisa que trata da temática no jornalismo. Gosto de todos os tipos de estilo: das crônicas ingênuas, das reportagens, das memórias, das poesias, dos romances, dos contos, enfim, de qualquer história em que haja deslocamento. Pode ser dentro do país, como Jack Kerouac fez, não só em On the road, mas em muitas de suas outras obras não tão conhecidas. Pode ser em uma estadia mais longa em outros países, como fez George Orwel em Na pior em Paris e Londres. Pode ser uma viagem a convite de um governo, como Erico Verissimo fez em deslocamentos aos Estados Unidos e Israel. Ou pode ser uma viagem para fazer uma grande reportagem, como fez Flavio Alcaraz Gomes em Um repórter na China. Também pode ser os livros anuais de Airton Ortiz, um jornalista viajante profissional. Ou ainda, pode ser a conversa fiada que às vezes fascina e noutras irrita pelos preconceitos e clichês, como nos textos da patricinha veterana Martha Medeiros ou do playboy de cabelos brancos David Coimbra, dois rebeésseteveéticos que já vi encarnarem a arrogância de alguns que trabalham no grupo, com a postura: foda-se o que você pensa, eu trabalho na RBS e você não. Como se alguém além da fronteira do Rio Grande do Sul soubesse o que quer dizer RBS... Sem ressentimentos, conheci o David pessoalmente e já fui xingado pela Marta por email. Independente disso, volta e meia pego alguma coisa deles para ler (acabei há pouco o primeiro volume do Um lugar na janela, da Martha, e estou em andamento com Um trem para a Suíça, do David. Geralmente procuro algo deles quando quero ler algo não muito complexo, mais para relaxar mesmo.
O fato é que os textos que vou postar aqui nos próximos dias sobre a minha primeira ida para a Europa (não sei se será a única ou não, só o futuro vai dizer) não tem nenhuma pretensão jornalística nem literária. Na verdade são mais textos para que, talvez, no futuro eu possa consultar quando estiver velho e sem memória para saber o que aconteceu no meu passado. Não posso me comparar à literatura de gênios como Orwel, Kerouac ou Verissimo e tampouco posso concorrer com a quantidade de viagens feitas por David Coimbra, Martha Medeiros, Arthur Verissimo ou qualquer outro jornalista relativamente famoso que é escalado para cobrir eventos ao redor do mundo e que vivem em aeroportos. Os meus, são textos amadores de um viajante amador. Ninguém nunca pagou as minhas viagens, portanto, para faze-las tive que passar por muita coisa, que, como já relatei aqui, vai da panfletagem no centro de Porto Alegre até jornadas em redação de rádio e jornal de interior de 12 horas para ganhar 300 reais sendo cagado na cabeça praticamente todos os dias por diretores e editores. A minha grande viagem naquele tempo era pegar o Tracisa velho e lotado no sábado de tarde para ir de Ijuí para Santo Ângelo ver meus pais e sair na balada no final de semana com o pouco que sobrava e voltar já no domingo para estar na redação na segunda-feira de manhã cedo. Aliás, para poder ter alguma grana para sair, almoçava na casa da minha tia Eva (in memorian) e de noite era o tradicional pão com mortadela e queijo no kitnet em que fazia os trabalhos da faculdade em um PC 486 usado que comprei de uma ex-colega e que não tinha mouse (aprendi todos os atalhos do Windows nessa época).
Quando sobrava alguma grana me dava ao luxo de comprar carne moída de segunda para comer com pão cacetinho. Certa vez, meu amigo e colega de rádio Célio Ferraza se surpreendeu porque eu disse, em meio ao expediente, que naquela noite teria um jogo importante do Grêmio e que na saída da rádio eu não poderia esquecer de passar no mercadinho para comprar R$1,50 de carne moída para a ocasião especial. Ele disse que, apesar de rir, sentiu pena porque geralmente as pessoas dizem que vão fazer um churrasco para ver uma partida importante... Até hoje, quando o Grêmio tem alguma decisão, ele me pergunta se já comprei a carne moída. Isso apenas para ilustrar que meus sonhos de viagens sempre foram modestos e para fazer cada viagem eu abri mão de muitas coisas e não me arrependo em nada de nenhuma delas. A primeira “grande” viagem foi em fevereiro de 2005 para o carnaval no Rio. Carnaval de pobre, da zona norte, ficando na casa de um amigo em Bonsucesso, que incluiu noite no Terreirão do Samba, ao lado da Sapucaí, mas que o ingresso custava 5 reais. Já escrevi sobre isso outras vezes... Depois, por mérito, ganhei uma bolsa para estudar um ano em Nova York (também já escrevi sobre isso). E, agora, essa outra “grande” viagem: umas férias de quase 30 dias na Europa com a minha esposa. São histórias ingênuas, naturais para quem está acostumado a viajar, idiotas para viajantes experts como os citados anteriormente e talvez interessantes para quem gosta de viajar na imaginação lendo narrativas que envolvem deslocamentos pelo globo. Aliás, desde que li Dom Quixote elegi Miguel de Cervantes o melhor escritor de todos os tempos, pois ele fez uma dupla viagem: a andança de Dom Quixote com Sancho Pança por campos inexplorados na geografia e na imaginação. E foi pela terra dele, a Espanha, que começou a nossa viagem. No entanto, antes, no próximo post, vou contar como tudo começou a ser planejado, um ano antes, lá no início de 2018...