.

domingo, 17 de setembro de 2017

Autores


Eu leio autores
Que já ganharam muitos prêmios
Jabutis, Pulitzers, Nobel da paz
E eu provavelmente
Nunca ganharei
Nenhum

Eu leio autores que são colunistas
De jornais importantes
Da humanidade
Como Zero Hora, Folha de S. Paulo
New York Times, Le Monde
Enquanto eu, no máximo fui
Colunista
Do Jornal das Missões

Eu leio autores ovacionados
Alguns bons, alguns chatos
Todos considerados gênios
Por alguém
E outros considerados gênios
Apenas
Por eles mesmos

Eu nunca ganharei um Jabuti
Nunca integrarei qualquer Academia
De Letras
Nem a Brasileira nem a santo-angelense
Talvez, no máximo
A pelotense

Também nunca serei colunista
De nenhum jornal importante
E nem terei meu nome impresso
Nas páginas do Estadão ou do Extra
E nunca serei entrevistado
Por um global

Enquanto escrevo isso
Uma mulher ouve
Música sertaneja
Na minha cozinha
E eu concluo
Que nunca serei nada mais
Do que um sopro
E do que uma microscópica bactéria
Em um pedaço de merda que está
Na privada chamada
Literatura

sábado, 16 de setembro de 2017

Crônicas do golpe

Textão que postei no Facebook:

Há algum tempo desisti de falar de política nas redes sociais. Decidi postar apenas cornetas futebolísticas e rotinas fotográficas familiares, acadêmicas e de viagem (até porque, quando tenho algo a dizer - geralmente sem ninguém querer saber - uso meu blog). Mas terminei de ler há exatos 8 minutos e 39 segundos (tempo exato que levei para escrever esse texto) o livro "Crônicas do Golpe", do Felipe Pena, professor da UFF e com um currículo que, por si só, já seria outro textão. Após terminar de ler (coincidentemente dois dias depois de ver uma palestra foda do Juremir Machado da Silva em FW, criticando os "em cima do muro"), só posso assinar embaixo de tudo o que Pena escreveu sobre o golpe civil-midiático de 2016 (que começou em 2014, se não antes). Identifiquei-me com cada linha escrita pelo Pena, mas, em especial, com essa que, sem a autorização do autor, transcrevo abaixo (e que está na parte dos agradecimentos de Pena). Acho que todos os que tem consciência do que aconteceu, passam por isso, ou em família, ou com amigos, colegas de trabalho, etc. Enfim, segue:
"Almoço de família.
Pergunto aos parentes que vestiram a camisa da CBF e seguiram o pato amarelo pela Av. Atlântica contra Dilma por que não fazem o mesmo contra Temer. Argumento que, desta vez, as provas são incontestáveis. Há gravações, documentos, malas de dinheiro e até uma confissão feita em rede nacional. A resposta é seca, recheada de hipocrisia: 'Pelo bem da estabilidade econômica é melhor o Temer ficar'.
A indignação seletiva é escancarada. As manifestações pela saída de Dilma nunca forma contra a corrupção. Meus parentes só confirmam o que já sabíamos: eles foram às ruas por misoginia, ódio de classe e ignorância histórica".
Perfeito. E, fazendo propaganda para o Pena, o livro é baratinho (paguei 25 pila no Intercom e se acha por 23 na internet). Vale a pena. Pena (a palavra, não o sobrenome de Felipe) que geralmente quem lê são os que já sabem o que aconteceu, enquanto que os que deveriam ler (como os parentes do Pena e de tantos outros) preferem continuar se informando pelos canais que apoiaram o golpe. E, para quem é da minha família ou de meu ciclo de relações (favoráveis ou contrários ao golpe), o livro está aqui, esperando para ser emprestado. Esse é o documento que traduziu em uma linguagem clara, coloquial e objetiva o que milhares e milhares de documentos jurídicos, depoimentos políticos, gravações, etc, já provaram: em 2016 o Brasil viveu, sim, um golpe.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dudu has a cold

De uns tempos pra cá, toda a vez que algo me delimita fisicamente fico pensando: carajo, o que somos nós? O que significa estarmos dentro desse monte de carne com ossos frágeis que de uma hora pra outra simplesmente estraga e para de funcionar? Já li alguns livros espíritas, de Alan Kardec e Chico Xavier, por exemplo, mas esse não é o ponto que quero tocar – apesar de estar diretamente ligado à teoria espírita, que prevê justamente isso: você precisa cuidar do seu corpo, pois sem seu corpo você não faz nada. Também esse é o princípio do cuidar de si da Grécia Antiga: você precisa, primeiro, cuidar de si para depois cuidar dos outros. Eu sei, eu sei.. já li muito sobre isso (e algumas dessas coisas foram parar em minha tese de doutorado). E concordo plenamente, pois no momento, por exemplo, estou gripado. Uma daquelas gripes fortes. Tipo a que derrubou Frank Sinatra, impedindo que Gay Talese o entrevistasse e obrigando o jornalista a conversar com as pessoas próximas ao músico para escrever a clássica reportagem literária “Frank Sintra has a cold”. E esse é o ponto aqui: o poder da gripe.
Depois de uma semana no Intercom em Curitiba, de 10 horas dirigindo de ida mais 11 horas dirigindo na volta (com problemas mecânicos) eu simplesmente desabei. Definitivamente, a idade começa a chegar (para os novos, isso parece perfeitamente crível, e para os mais velhos é puro exagero). Desabei de cansaço somado a uma gripe federal. E, todos os planos que tinha para os primeiros dias da semana, foram por água abaixo. Simplesmente não consigo pensar. Não muito mais do que está saindo agora dos meus dedos para o teclado e para a tela do computador. Queria adiantar a preparação de algumas aulas, mas nem pensar. Os alunos me convidaram para o futebol, tive que dispensar. Academia? Sem chances. No máximo, assisti alguns episódios de Californication na Netflix (anotação mental: escrever sobre essa série qualquer hora) e a leitura lenta de algumas poucas páginas de “Crônicas do golpe”, do Felipe Pena, que comprei lá no Intercom. Fora isso, apenas sono, cansaço, dor no corpo, dor de garganta, tosse incessante, nariz entupido e o caralho a quatro.
Até recebi uma boa notícia: a inclusão de um capítulo escrito por mim e pelo Felipe Pena (UFF) em uma coletânea internacional de jornalismo gonzo. Eu sinceramente tinha desistido da ideia, depois de várias solicitações de alteração por parte dos editores. Então, abro o email e vejo que eles aceitam publicar, apenas fazendo algumas correções do inglês e a colocação nas normas de uma entidade, defensora das normas e dos bons costumes textuais, americana. Sem condições de pensar em fazer isso (e imaginando qual seria a resposta se eu solicitasse ao Pena: “um livro gonzo não pode ter tantas regras”), acabo por pedir esse pequeno gigantesco favor ao meu amigo Ron Whitehead, de Lousiville (KY, US) amigo de Thompson, enquanto ele foi vivo. Obviamente, aproveitei para deixar ele a vontade para acrescentar o que quisesse. Fiz isso certo de que não obteria resposta, ou que ela viria negativamente, mas para a minha surpresa, ele topou. Quem tem amigos, tem tudo. Assim, teremos Felipe Pena, Ron e eu, um capítulo de um livro internacional sobre jornalismo gonzo publicado em breve (assim espero).
Mas voltando ao ponto, ou melhor, à gripe, cada vez que algo mais forte compromete a minha saúde, fico pensando: caralho, o que somos nós? Às vezes me acho muito esperto, inteligente, forte, perspicaz e o caralho. Porém, de repente, vem uma gripe e PÁ, te derruba e reduz você a nada. Nadica de nada. Você não consegue pensar, não consegue se empolgar, não consegue acordar direito, não consegue ir na farmácia comprar remédio para a gripe sem se sentir um sujeito de 90 anos, não consegue prestar atenção no que falam, não consegue ter paciência, não consegue.. não consegue.. não consegue!! Agora entendo Frank Sinatra. Eu sempre o culpei. Assisti Gay Talese falando na NYU e achava que o músico negou a entrevista por estrelismo, por arrogância. Mas se a gripe dele foi como a minha, eu o entendo perfeitamente. Você não quer fazer absolutamente nada quando está assim. Faz as obrigações mínimas e escreve um texto inútil como esse, num dos raros alívios provocados pelos remédios, mas isso é o máximo que você consegue fazer. Você gostaria de ir à academia, gostaria de estar inspirado e empolgado para convidá-la para sair e conversar como você fazia num passado não tão distante, você queria jogar bola, você planejava escrever mais alguns capítulos daquele livro que você talvez nunca publique porque contém cenas inenarráveis, você sonhava em preencher 15 páginas em branco com ideias acadêmicas brilhantes e geniais (ao menos para você) para serem publicadas um ano depois em uma revista acadêmica, enfim, você tinha mil planos para um ou dois dias e... de repente... eles se vão. Capuft! Já era. A gripe veio e a sua inspiração, força, capacidade de raciocínio lógico, de paciência, de esperança, enfim, tudo foi pro brejo e você só espera terminar a digestão da janta para poder deitar sem sofrer com a esofagite... Caralho, que merda.
O fôlego se foi. A digestão está quase feita. Foda-se. É isso.

PS: esse texto teve a trilha sonora de Three Original Hit Recordings (youtube), de Sinatra, e muitas tosses.