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domingo, 19 de maio de 2019

Viajando nas páginas de Airton Ortiz


Nos últimos meses, tenho mergulhado nas narrativas de viagem do jornalista e escritor gaúcho Airton Ortiz. Desde 1999, quando começou o seu projeto literário e profissional, Ortiz lançou um livro por ano, atingindo, até o momento, a publicação de 19 livros, entre crônicas, romance-reportagem e narrativa de ficção. Ler a obra de Ortiz é viajar pelo mundo com ele, conhecendo diferentes culturas, diferentes povos e diferentes pessoas. Mas uma das curiosidades que eu tinha desde que descobri esse autor que ainda não tem o devido reconhecimento no cenário da literatura nacional era: quem é esse sujeito? Quem é esse cara que consegue viver de literatura e de viagens? Será um milionário sem ter o que fazer que passa torrando o seu dinheiro para viajar pelo mundo e escrever sobre ele? Será um filho de alguma família rica do Rio Grande do Sul que é patrocinado pelos seus antecedentes? Ou será um jornalista que conseguiu meter a cara e conquistar patrocinadores e o público que bancam essa carreira invejável? Bingo para quem apostou na última alternativa. Mas, antes de chegar lá, vou contar um pouco da história dele, que tive acesso com entrevistas informais feitas por whattsapp e por e-mail em diversos e diferentes dias deste ano de 2019, além de leituras e pesquisas sobre material já escrito por ele e sobre ele.
Airton Ortiz nasceu em Rio Pardo em novembro de 1954. Desde a infância, sempre foi um apaixonado por rádio. Foi ouvindo as grandes reportagens radiofônicas, ainda na infância, vivida em parte no município de Candelária-RS, que ele teve desperta a vontade de viajar e conhecer o mundo. Em 1968, por exemplo, ele ganhou um prêmio literário na escola ao escrever sobre a amizade de Brasil e Portugal. Além disso, ele passou a trabalhar na Rádio Cachoeira, ode estreitou ainda mais os seus laços com o jornalismo quando começou a contribuir para a editoria de esportes do Jornal do Povo. Em 1975, mudou-se para Porto Alegre onde encontrou no jornalismo uma forma de conhecer o mundo.
Formou-se na PUCRS no início dos anos 1980 e, dentre outros trabalhos, criou a editora Tchê! (eu já li alguns livros dessa editora, como o Erico Verissimo, escrito pelo meu orientador de mestrado, Antonio Hohlfeldt, mas nem sonhava que fosse dele). Nesse meio tempo, também concluiu um curso de pós-graduação em Administração de Empresas pela UFRGS, onde, também ampliou o seu conhecimento sobre outras línguas, dentre as quais o espanhol e o inglês. Na capital, atuou também na Rádio Farroupilha, onde trabalhou com Flávio Alcaraz Goms, que já escreveu livros fantásticos de viagem, como Um repórter na China (vale muito a pena!).
Admirador da música e da cultura gaúcha, ele também participou do programa Galpão do Nativismo, da Rádio Gaúcha, como comentarista, e mais tarde do programa Mapa Mundi, da Rádio Bandeirantes, dessa vez falando sobre turismo.
Além de criara  editora, Ortiz também lançou e editou o Jornal Tchê, focado justamente na cultura gaúcha. Tudo isso durou até 1997, quando ele encerrou as suas atividades na editora para trabalhar como freelancer e focar no seu projeto de jornalismo literário de viagem. Chegamos, então, a reposta da pergunta apresentada no primeiro parágrafo.
Já sendo um jornalista relativamente conhecido no Rio Grande do Sul, Ortiz encontrou em grandes editoras (como a Record e a Saraiva) e em uma grande empresa do estado (o Zaffari) a viabilização para colocar o seu projeto em prática. Ele já estava com 45 anos quando estreou, em 1999, no gênero lançando “Aventura no topo da África”, o seu primeiro livro-reportagem de viagem. Desde então, ele lança um livro por ano, dentre crônicas, livros-reportagens e ficção. E qual o segredo para esse sucesso?  “É preciso ter paciência, dedicação e convicção de que é isso que se quer”, conta.
“Desde a primeira viagem que eu fiz para produzir o primeiro livro, a viagem foi bancada pelo Zaffari e desde então todas as viagens são bancadas pelo Zaffari. É verba de publicidade deles e eles têm um bom retorno com isso”, explica. No total, o escritor já viajou para mais de 80 países e, além de publicar as narrativas de viagem, ele também já lançou livros infantis, infanto-juvenis e contribuiu para diversas coletâneas.
Curioso sobre as duas obras de ficção escritas por ele, pedi para que me enviasse um áudio comentando os dois livros do gênero, “Cartas do Everest” e “Gringo”. Coloco aqui, na íntegra, as respostas. 
Sobre Cartas do Everest:
“É baseado em fatos reais porque eu juntei em uma única história fatos que aconteceram, alguns comigo, e outros aconteceram com outros alpinistas. Tudo aquilo que está relatado ali, ou quase tudo, aconteceu, não na mesma montanha e não na mesma temporada. Mas são coisas que foram acontecendo com os alpinistas e que eu fiquei sabendo, por estudar muito alpinismo e as grandes escaladas. Então, tudo que está ali foi inspirado em fatos reais. Claro, não aconteceu exatamente como está ali, porque senão não seria ficção. Mas é uma ficção baseada em fatos que realmente aconteceram pelas montanhas, alguns comigo, outros com meus amigos, outros com relatos que eu ouvi nos acampamentos nas montanhas e outros que eu li nas biografias dos caras e nas grandes reportagens. Isso serviu de pano de fundo para contar a história que eu queria contar, que é como pessoas reagem de maneira diferente diante da mesma situação. Coloquei os três personagens, um brasileiro, um americano e um alemão, mostrando que diante da mesma situação cada um deles reage de maneira diferente. A ideia era mostrar a diversidade das pessoas, a diversidade da cultura de onde eles vem, e a diversidade das nossas reações diante das mesmas situações”.

Já sobre Gringo:
“Criei a história, o personagem passando pelos lugares que eu já tinha passado antes. Todas as locações do Gringo são conhecidas por mim. Isso é um projeto meu, pessoal, do meu projeto literário, que os meus livros só vão acontecer em lugares que eu conheço, mesmo os de ficção. E o que o Gringo tem de diferente, é que depois de ter construído toda a história eu peguei a mochila e refiz a viagem do gringo, aí no ritmo e na sequência que está descrita no livro. Eu queria ver se há grandes modificações entre a história que eu imaginei naqueles lugares que eu passei em tempos diferentes e em épocas diferentes para uma viagem que eu passei por todos os lugares numa sequência cronológica. A grande diferença do Gringo, talvez única no mundo, é que depois do ficcionista ter inventado uma viagem, ele foi lá na vida real e fez aquele roteiro. Muitas das coisas que aconteceram durante a viagem já estavam no Gringo. Depois de fazer tantas viagens pelo mundo e ter tanta experiência a gente já tem ideia do que vai acontecer. Quebra um pouco aquela expectativa porque eu já sei, dependendo de onde eu chegar no mundo, eu já sei como vou ser recebido. O objetivo do Gringo é mostrar o amadurecimento de uma pessoa. Geralmente quando uma pessoa passar por uma situação de tragédia, de quase morte, elas repensam a vida delas ou dão um novo rumo para a vida delas. Eu acho que não precisa chegar a uma situação dessas para a gente repensar a vida da gente. Uma viagem é a melhor oportunidade par aa gente repensar a vida da gente e ver o que a gente quer ou não quer. O Gringo é uma experiência de autoconhecimento,, um romance de formação e de aventura, em que conta o amadurecimento de um cara a partir das experiências que ele vai tendo na viagem. Incluí a troca com outros viajantes e com os nativos em que a pessoa vai amadurecimento. Ela é também toda inspirada em fatos reais”.

Em síntese, para quem gosta de viajar e de ler, Airton Ortiz oferece um prato cheio! E isso que nem falei dos diversos prêmios que ele ganhou, além de ser patrono de variados eventos literários, tendo já sido patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. E esperamos que muitas outras obras do autor ainda sejam lançadas, pois esse mundo é grande e bom, Sebastião!  

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves: História para bolsonarista ver e aprender


Enquanto lia Meio Sol Amarelo, da escritora nigeriana Chimamanda Gnozi Adichie (comentei sobre esse livro em texto aqui do blog de 3 de fevereiro de 2018), apanhei um pouco para memorizar os nomes africanos dos personagens: Olanna, Kainene, Ugwu, Inatimi, etc. No entanto, lembro que fiquei me questionando: considerando que mais da metade da população brasileira é parda ou negra, por que não temos sobrenomes africanos em nosso país? Cheguei a pensar em pesquisar sobre isso, mas acabou passando. Então, no último verão eu li Na Minha Pele, do Lázaro Ramos (também escrevi sobre esse livro aqui no blog) e, através dele, cheguei no livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (foto acima), que responde à minha pergunta sobre a ausência de sobrenomes africanos, além de contar muito mais da história praticamente (e provavelmente, intencionalmente) esquecida do Brasil.
Porém, para contar sobre o sumiço dos sobrenomes africanos, tenho que contextualizar a história toda e, assim, já abordo o livro de maneira geral. No romance, publicado originalmente em 2006 (a minha edição é da Record, 2017), a personagem narradora, chamada Kehinde (nascida em 1810), ainda criança e vê guerreiros tribais estuprarem e matarem a sua mãe e o irmão mais novo. Ficando apenas ela, a irmã gêmea e a avó, elas partem para Uidá, localizada onde hoje é Benin, entre Togo e Nigéria. Em Uidá, um belo dia Kehinde e a irmã, ambas com sete anos, veem chegar à costa africana um navio que é cercado por uma pequena multidão. Estando ali no meio do povo, um homem branco pede para as gêmeas mostrarem os dentes e, após avaliar os corpos e estado geral de saúde, seleciona as duas crianças para embarcarem. A avó aparece, a procura das netas, e implora para embarcar junto. O homem checa as condições de saúde e acaba aceitando. Enquanto alguns dos africanos pensava que seriam transformados em carneiro para virar comida de branco “no estrangeiro”, os africanos muçulmanos acreditavam que a travessia seria um sacrifício até chegar a terra de Alá.  E, assim, a personagem é literalmente sequestrada da África, ainda no tempo do Brasil colônia, para ser escrava no Brasil.

Claro que a narrativa da Ana Maria é muito mais complexa, literária e instigante do que esse breve, rápido e superficial resumo. Ela dá ênfase ao caráter humano, à inumanidade da viagem da África para o Brasil, que dura mais de mês e muitos acabam morrendo de fome ou de doenças, inclusive a irmã e a avó de Kehinde, que são jogadas ao mar. É algo que deveria ser lido por todo o brasileiro. Algo que não está humanizado nos livros de história que falam sobre a escravidão no Brasil.
Chegando à terra tupiniquim, encontro a explicação para a operação borracha, não só nos nomes, mas na cultura e nas diversas religiões africanas no Brasil: todos os escravos que chegam ao país são obrigados a serem batizados com nomes brasileiros (afinal, os brancos não querem selvagens pagãos) e, consequentemente, recebem sobrenomes portugueses, como Silva e Sousa. Assim, sobrenomes como Azikiwe, Awolowo, Adichie, etc, sumiram do mapa brasuca. Os escravos também eram proibidos de falar na sua língua materna e de expressar qualquer tipo de ritual religioso ou cultural (a não ser em raros momentos de folga, desde que não houvesse nenhum de seus “donos” por perto). Assim, Kehinde passa a ser Luísa Gama, mesmo tendo conseguido fugir do batismo católico.
As histórias são todas arrepiantes: a viagem praticamente sem comida, o tratamento dados aos africanos que eram vendidos nos mercados (quanto mais demorava a ser vendido, pior eram as condições, pois muitos morriam de fome e outras doenças nessa espera por um “dono”), as chibatadas nas fazendas, os estupros (geralmente o dono guardava as meninas para ser o primeiro a fazer sexo com elas), o tratamento desumano, enfim, tudo é cruel demais para você pensar que, no Brasil, um presidente da República tem a cara de pau de dizer durante uma entrevista que o país não tem dívida histórica nenhuma e que ele não é racista porque o sogro dele é chamado de “Negão”.... Mas enfim, não vamos mudar de assunto...
A obra é absolutamente demais, em todos os sentidos. Eu li em pouco mais de 20 dias as suas 950 páginas. Nelas, Ana Maria Gonçalves dá vida aos escravos, mostra o seu lado humano, bem como é feito no americano “12 Anos de Escravidão”. Detalha as suas crenças, conta sobre as capturas, sobre as fugas, as revoltas, etc.
Kehinde (imagem ilustrativa de como foi Kehinde ou Luísa Gama) desembarca em São Salvador (hoje Salvador) e é vendida para um fazendeiro chamado José Carlos Gama (daí o seu sobrenome). A personagem é comprada para fazer companhia à filha dele, chamada de “sinhazinha” até o fim do romance, com quem, na fase adulta, ela faz uma forte amizade. Após entrar na adolescência, José Carlos estupra Kehinde e castra o escravo que era seu pretendente diante dos olhos dela. Do estupro, nasce Banjoko, seu primeiro filho. Depois que José Carlos morre, a viúva, chamada Ana Felipa, muda-se para a fazenda e leva consigo alguns escravos, dentre eles Kehinde, com quem ela tem uma implicância muito forte. No entanto, para manter Kehinde longe de um escravo pela qual ambas estavam apaixonadas, Ana Felipa coloca Kehinde a trabalhar “a ganho”, que era quando os “donos” permitiam que os escravos trabalhassem na rua (geralmente com comércio – assim muitas mulheres iam para a prostituição) para ganhar algum dinheiro. Obviamente havia uma quantia que o escravo deveria pagar ao seu dono. Bom, estou detalhando muito um livro que tem 950 páginas, então, em resumo, após vários desencontros e dramas, Kehinde finalmente consegue comprar a carta de alforria (liberdade) e a de seu filho, justamente quando a “sinhá” resolve se mudar para o Rio de Janeiro, querendo separar Kehinde da criança (algo que também era normal: mães e filhos serem separados em compra e venda de escravos).
Após passar por várias situações horríveis, Kehinde conhece e se apaixona por um português, com quem tem mais um filho: Luiz Gama, que nasce em 1830. Assim temos a romantização de uma história real: Luiz Gama foi um importante jornalista e advogado negro que lutou durante  sua meia década de vida contra a escravidão (eu já tinha lido o livro de Luiz Carlos Santos, sobre ele). Em síntese: o romance conta a história da mãe de Luiz Gama (foto).
Em algumas entrevistas disponibilizadas no youtube, Ana Maria conta todo o processo de produção do romance, que foi justamente um trabalho de muuuuuita pesquisa, leitura, consulta à acervos, e tudo o mais. Mas, voltando à narrativa do romance, Banjoko morre cedo, aos sete anos. Mas o drama maior vem mais tarde, quando a personagem Kehinde se envolve em vários trabalhos e busca conhecimentos pelo Brasil sobre as religiões africanas, passando a ficar longe de casa por longos períodos. Nesse interim, o português, pai de Luiz Gama, casa-se com uma brasileira (afinal, nunca um português assumiria publicamente um relacionamento com uma ex-escrava). Aproveitando a ausência da mãe, o português (que estava atolado em dívidas de jogo) vende Luiz Gama como escravo, mesmo ele sendo livre, para uma embarcação que o leva ao Rio de Janeiro. Após a venda, o português some e nunca mais se tem notícias dele. Então, começa a saga da busca de Kehinde pelo filho perdido. Fazendo novamente um pulo e resumindo tudo ao máximo: eles nunca mais se encontram. Kehinde passa por diversas situações limites, mas consegue se dar bem financeiramente. Ainda relativamente jovem, mas já no final da narrativa, ela acaba voltando para a África, onde segue tendo sucesso financeiro. De lá, a personagem conta como era a vida em um território que ainda estava sendo divido pelos europeus. Ou seja, Uidá, para onde ela volta, e Lagos, hoje capital da Nigéria, eram reinos diferentes mas, de certa forma, pertenciam a um mesmo país. Bem, não vou descrever aqui os outros personagens, como por exemplo, o marido africano com quem Kehinde casa e tem filhos. Mais uma vez tentando ser o mais breve possível, o romance conta os 88 anos de vida da personagem, que atravessa o século XIX, revelando muito da vida dos escravos brasileiros, da política dos primeiros anos do país após a independência, a continuidade do tráfico de escravos, mesmo após a sua proibição legal, a vida na África, a vida dos africanos que compravam a liberdade e voltavam ao velho continente africano, as rixas entre os africanos e os negros nascidos no Brasil, as rixas entre os africanos que retornavam para a África e que se achavam superiores aos africanos que nunca tinham deixado o continente, a escravidão na própria África (nas guerras, os perdedores eram escravizados pelos vencedores e também eram vendidos e comercializados – sendo que muitos desses eram enviados para o Brasil, Estados Unidos, Cuba e todas as outras colônias espalhadas pelo mundo), enfim, é tanta coisa que realmente só lendo o livro para você entender a magnitude da filha da putice que o ser humano é capaz de fazer com o próximo...
Ah, e por que o título é “Um defeito e cor?”. Simples: porque em dado momento, o negro que conseguisse comprar a sua liberdade, para conseguir um emprego, tinha que assinar um documento assumindo ter “defeito de cor”. E isso seguiu por um bom tempo. Aliás, do jeito que estamos caminhando para trás nesse país, não duvido que não surja um decreto bozal propondo a volta de tal documento, bem como “defeito de gênero”, “defeito de ideologia”, “defeito de genes”, etc.
A boa notícia é que, segundo uma das entrevistas da Ana Maria, a Globo está adaptando o livro como série para 2020. Estou muito curioso para assistir e, espero que consiga ser minimamente fiel ao livro, principalmente colocando atrizes africanas para interpretar Kehinde, pois a autora do livro faz a descrição da cor da pele justamente no início da obra, salientando a diferença entre os negros africanos e os negros brasileiros que nasciam filhos de mãe negra e pai branco (ou vice-versa).
Bom, sei que deixei muita coisa importante de fora, pois esse é um livro que faz você viajar longe. Minha única crítica, sob o ponto de vista da narrativa, é que lá pela metade o texto (sempre em primeira pessoa) passa a ser uma carta de Kehinde escrita para o Luiz Gama. Tudo bem a narrativa ser uma carta, mas até então isso não fica claro. Ou seja, você lê até a metade como um romance em primeira pessoa e, de repente, o troço todo vira uma carta, falando “você não deve saber disso” ou “se eu pudesse te falar e ouvir sua voz”, etc. Aliás, falando agora como leitor, também penso que há algumas descrições com detalhes excessivos (possivelmente tentando dar verossimilhança a tudo e, claro, porque depois de toda a pesquisa que autora fez, é normal que ela quisesse expor o máximo possível dessa pesquisa ao leitor). Portanto, considero que seria totalmente possível (e aconselhável, penso eu) cortar umas 200 páginas, ou até mais, fechando a obra em umas 700 páginas. Mas enfim, isso não tira em nada o mérito do livro. Inclusive, eu diria que até a metade da obra a narrativa é de tirar o fôlego e não há nada que pudesse ser suprimido. Porém, depois, talvez para balancear melhor os períodos, a autora colocou todos aqueles detalhes para compensar a falta de ação, como por exemplo, quando descreve a Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, e festas religiosas de todos os tipos.

Ah, e falando em religião, um dos pontos altos do romance é a Revolta Malês, que foi quando escravos muçulmanos planejaram uma rebelião em Salvador para escravizar os mulatos e crioulos (como eram chamados os filhos de escravos nascidos no Brasil) e matar os brancos. É sensacional, porém, como a revolução não deu certo e os seus organizadores e participantes, na sua enorme maioria, foram mortos, essa importante batalha da história brasileira foi praticamente apagada dos livros didáticos (e com a bozaiada no poder, agora é que não vão ganhar espaço mesmo). Aliás, como a região da Nigéria e Benin é formada por uma porcentagem alta de muçulmanos, nada mais normal do que haver muitos muçulmanos no Brasil naquele tempo – a maioria enviados para o nordeste. Porém, assim como os sobrenomes, eles também foram sufocados até não sobrar quase nada da cultura e da religião muçulmana negra no país.
Para encerrar, fica essa dica de leitura e os parabéns a Ana Maria Gonçalves por escrever uma das mais importantes e espetaculares obras da literatura brasileira. E obrigado ao Lázaro Ramos, por escrever sobre essa obra em seu livro, pois sem isso eu nunca teria descoberto esse tesouro da literatura.
Coloco abaixo alguns trechos aleatórios para você ter ideia do que estou falndo:
Sobre a viagem da África ao Brasil: “O calor e o cheiro forte de suor e de excrementos misturado ao cheiro da morte, não ainda do corpo morto, mas da morte em si, faziam tudo ficar mais quieto, como se o ar ganhasse peso, fazendo pressão sobre nós. Já estávamos todos muito fracos, pois era o início do quarto dia sem comer” (p.51).  
Sobre os negros vendidos nos mercados: “O comum a todos eram os ossos, que de tão aparentes quase rasgavam a pele sem viço e sem cor definida, coberta por imensa quantidade de escaras” (p.68).
Sobre poderosos na África que foram escravizados: “Mais tarde, vendo que isso não mais bastava, ele a acusou de feitiçaria e a vendeu aos mercadores de escravos para que a levassem para longe do Daomé, fazendo o mesmo com várias pessoas da família real. Era a primeira vez que isso acontecia na família dos reis do Daomé” (p.132).
Sobre o estupro cometido pelo “dono” branco na frente do pretendente escravo: “Eu queria morrer, mas continuava mais viva do que nunca, sentindo a dor do corte na boca, o peso do corpo do sinhô
José Carlos sobre o meu e os movimentos do membro dele dentro da minha racha, que mais pareciam chibatadas [...] O Lourenço tinha conseguido chorar e, ao perceber isso, o sinhô José Carlos o chamou de maricas e perguntou se estava chorando porque também queria se deitar com um macho como o que estava se deitando com a noivinha dele. [...] Passou cuspe no membro e possuiu o Lourenço também, sem que ele conseguisse esboçar qualquer reação ou mesmo gritar de dor, pois tinha a garganta apertada pelo colar. [...] Virou o Lourenço de frenet, pediu que dois homens do Cirpriano o segurassem e cortou fora o membro dele” (p.171-172).
Sobre a revolta malês: “Entre os pretos havia a ideia de tomar o poder e matar ou escravizar todos os que não fossem africanos, principalmente os crioulos. Mas mesmo entre os pertos havia desunião, quase sempre desde a África, por pertencerem a nações inimigas. Eles não entendiam que no Brasil precisavam comportar de modo diferente, esquecendo a inimizade e ficando todos do mesmo lado” (p.416).
Sobre o falso fim da escravidão: “Mas há um ou dois anos mais ou menos, perguntei a um retornado bastante esclarecido se não havia mesmo mais escravidão no Brasil e ele me disse que ainda havia sim. Não nas grandes cidades, onde os pretos e crioulos eram mais bem-informados, mas havia lugares mais para o interior do país, nas fazendas, onde as pessoas nunca ficariam sabendo que não podiam mais ser mantidas como escravas. A notícia não tinha chegado até elas, e talvez ainda fique assim por algumas gerações” (p.868).
Enfim, o livro inteiro é uma grande citação imperdível. Portanto, reserve um mês da sua vida para mergulhar no tempo e entender um pouco mais sobre o fato de o racismo não ter nada de “mimimi” como ainda insistem os bolsonaristas desse país.   

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Menino Mbape!! – Paris é demais!!! – Parte 4


A gente estava tentando encontrar o metrô para voltar ao hotel quando vi um grupo de brasileiros (com camisetas da seleção) parados próximos à torre Eiffel. Fui lá pedir informação e, como o nosso metrô era o mesmo que pegava para o Parc des Princes, eles perguntaram:
- Também vai no jogo?
- Quê jogo? – questionei.
- Do PSG.
- Sério?
- Sim.
- Que horas?
- Às 21h.
Olhei no relógio: passava um pouco das 18h. Fiz um cálculo mental rápido e dava tempo. Agora teria que passar essa informação para a Cris da maneira mais suave possível.
- Está cansada? – perguntei.
- Sim, morta!
Beleza! Falei da maneira mais meiga possível que a deixaria descansar tranquila no hotel, sem perturbá-la. Aliás, eu a deixaria sozinha para descansar e repor as energias indo ao jogo do PSG naquela noite! Não encontrei muita resistência, pois o convite para ir junto foi prontamente recusado. Pegamos o metrô, chegamos ao hotel, tomei um banho rápido, tomei duas latinhas de cerveja, coloquei a camiseta do Grêmio por cima do blusão e parti. Não estava tão frio e, na minha ingenuidade tropical, acreditei que o clima ficaria naquela faixa dos 9° ou 10°C e não levei casaco.
Ganhei a rua e parti para o metrô. Lá, dois franceses acompanhados de dois garotinhos de uns 7 ou 8 anos perguntaram em inglês que camisa era aquela:
- Do Grêmio – respondi.
- Do Brasil? – perguntou um deles.
- Sim!
- Vai no jogo? – questionou o outro .
- Vou.
- E vai torcer pra quem?
Senti uma certa hostilidade na pergunta.
- Para o PSG! – respondi.
Começamos a conversar sobre o time e eles não sabiam se Mbape e Neymar iriam jogar. Tudo era traduzido pelos dois adultos aos pequenos, que participavam ativamente da conversa. Logo, um paranaense, que estava acompanhado da namorada, disse que o Neymar tinha ido para o Brasil passar as festas de final de ano, portanto, apenas Mbape jogaria. Os franceses não gostaram da informação e só não xingaram o Neymar porque estavam diante de brasileiros. O paranaense, então, perguntou se eu havia comprado ingressos. Antes de sair do hotel vi que havia muitos ingressos disponíveis e deixei para comprar no estádio. Os dois franceses se olharam, como se dissessem, “mas que burro!” e recomendaram eu chegar lá e correr, porque era o último jogo antes da parada de final de ano e o estádio certamente ficaria lotado.
Chegamos ao Parc des Princes e me indicaram o caminho das bilheterias. Corri, corri e corri. Me perdi umas três vezes até que cheguei num guichê onde torcedores entravam. Perguntei para um carinha de colete, funcionário do estádio, onde era a bilheteria.
- Bilheteria? Não tem mais ingresso, man!
- Sério?
- Sure!
Bah! Duvidei. Segui indo em direção às bilheterias e, chegando lá, tudo fechado. Sem ingressos. Tudo vendido. Voltei para o mesmo portão de acesso ao estádio e perguntei para outro funcionário, já desesperado pensando na viagem perdida, se havia outra bilheteria. A resposta foi a mesma.
- Os ingressos acabaram, man!
Um senhor negro ouviu a conversa e me chamou de canto.
- Procurando ingresso?
- Sim! – respondi.
- Eu tenho aqui.
A sirene de alerta tocou na minha cabeça. Comprei duas vezes ingressos de cambistas na vida e, em uma delas, o ingresso era falso. Disse para o cara que apenas compraria se ele me acompanhasse até eu entrar no estádio. Ele topou, apesar de que isso era impossível, pois no primeiro portão eles apenas checavam se você tinha ingressos, sem conferir se eram falsos ou não. O cambista queria um dinheiro que eu não tinha e acabou aceitando tudo o que eu tinha em espécie na carteira, pois já estava quase na hora do jogo e talvez ele não vendesse se não aceitasse a minha contraproposta. Entrei e ele me desejou um bom jogo. Fui suando frio, passando por vários portões onde os funcionários do estádio checavam o meu bilhete com uma lanterninha. Quando sentei na minha cadeira, imaginei que apareceria outro torcedor com o mesmo bilhete que eu, e então, eu teria que ficar fugindo dos fiscais pelos cantos. Mas isso não aconteceu: o ingresso não era falso e pude assistir ao jogo contra o Nantes, que foi o último do Sala, o atacante do time francês que morreu poucas semanas depois, num acidente aéreo.
Havia um garotinho acompanhado do pai ao meu lado. Ele parecia um mini Mbape. E, realmente, ele era fã do craque francês. Aliás, logo descobri que o maior ídolo do PSG hoje é o Mbape. Não tem pra Neymar nem Cavagni. O pai do guri não falava inglês e nos comunicávamos por mímica. Ele mostrou fotos do guri com os craques do PSG e entendi que o garoto, que devia ter uns 6 anos, jogava na escolinha do clube. Tirei uma foto do ingresso dele para não esquecer o nome. Disse para o pai dele, numa mistura de inglês e espanhol que ele parece ter entendido, que se o guri ficar rico e famoso eu irei procura-los.

Dentro do estádio, me surpreendi, pois mesmo com o PSG tendo uns 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o estádio estava absolutamente lotado. A torcida cantava o tempo todo e tem uma espécie de Geral do Grêmio que também fica atrás do gol, fazendo muito barulho, com bandeirões gigantes e sinalizadores. Um sujeito fica comandando tudo com um megafone. Mais um mito que desconstruo viajando pelo mundo: a de que as torcidas sul-americanas são mais fanáticas e fazem mais barulho que as europeias. O estádio lotado cantava o tempo inteiro e foi uma festa de arrepiar. Fiquei imaginando um jogo de Champions... No entanto, quando assistimos aos jogos europeus pela TV no Brasil o som da torcida não chega até nós e ficamos com a impressão de que fica todo mundo sentadinho, calado. Nada mais distante da verdade do que isso.
Vibrei muito com o gol da vitória, marcado pelo Mbape, e foi bonito ver o garotinho feliz da vida pelo gol anotado pelo seu maior ídolo. Ao deixar o estádio, estava morrendo de frio, e me perdi mais umas três vezes até encontrar a parada certa do metrô que me levaria até o hotel. Volta e meia algum brasileiro gritava: “e aí, gremista!”. Cheguei a parar para conversar com alguns, que disseram ser parentes do Marcelo Oliveira, do Grêmio. Mostraram fotos com ele, tiradas em uma viagem recente à Israel. Depois de andar feito barata tonta, finalmente encontrei a parada certa e voltei, são, salvo e com frio, para o hotel. Tomei um banhão quente e dormi o sono dos justos, pois no dia seguinte teríamos uma longa viagem pela frente até Burgos, no norte da Espanha.  

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Torre Eiffel e Arco do Triunfo - Paris é demais!!! – Parte 3


Lembro que tiramos um dia para fazer esses dois passeios com mais calma. Estávamos no Ibis Hotel Canal Saint Martin e pegamos o metrô rumo ao Arco do Triunfo. Havia manifestações dos coletes amarelos e tivemos que descer uma parada além da normal. Depois, com o mapinha no celular, conseguimos achar o arco. Sinceramente, eu achava que o arco era apenas um arco. Mas não, é muito mais do que isso. Vi pessoinhas lá em cima e comentei com a Cris: “olha, dá para subir lá em cima!”. Pois é, já tinha lido sobre dicas de passeio em Paris, mas não lembrava de ninguém que tivesse comentado o básico: sim, a gente entra no arco, sobe no arco, tira fotos de cima do arco.... Claro, paga-se um ticket, mas que não era tão caro, algo em torno de 10 ou 15 euros, não lembro bem.
Como havia a manifestação dos coletes amarelos, tinha muita polícia ao redor do arco. A princípio achei que nem conseguiríamos chegar lá, pois o monumento estava cercado por policiais armados. Não vou contar a história do arco, se você quiser saber mais sobre isso, leia o capítulo do livro do Airton Ortiz sobre o local, no livro Paris, que ele conta de forma super atrativa.
Uma dica sobre o arco: se você estiver com dores nas costas, nas pernas, ou for idoso ou não puder fazer grandes esforços físicos, nem pague o ticket, pois a única forma de chegar lá em cima é pelas escadarias que devem ter, sei lá, uns mil degraus. É cansativo, mas vale a pena. Chegando lá em cima você tem uma puta vista de Paris, da torre Eiffel e de toda a Champs-Elysées, que se estende até o museu do Louvre. Sintetizando tudo: é um lugar do caralho, como diria a música do Raul Seixas, mesmo sem ter cerveja barata, pessoas a foder super chapadas.
Tiramos muitas fotos, observamos, admiramos a paisagem, pensamos na vida, e descemos. Os coletes amarelos seguiam lá, protestando, gritando frases de ordem, xingando o presidente, enfim, fazendo coisas que a humanidade sempre fez ao longo da história contra a classe política que, até hoje, sempre foi muito filha da puta, umas mais, outras menos...




Como disse o Airton Ortiz, se Nova York tem a Time Square, Paris tem a Champs-Elysées. Sem querer me gavar, mas conheço as duas. Não posso afirmar qual é melhor, pois enquanto devo ter passado umas 100 vezes pela Time Square no um ano em que morei em Nova York, em Paris só andei uma única vez pela Champs Elysée. Posso dizer que a sensação é de que essa avenida é a cara da cidade. Há vários cafés, restaurantes, lojinhas com quadros tipicamente parisienses, sebos ao ar livre, etc. Também é um lugar do caralho. Almoçamos por ali e, quando saímos do restaurante (ok, não vou mentir para vocês, foi no McDonlad’s mesmo...) os coletes amarelos estavam cruzando a Champs Élysées. Juntamo-nos a manifestação. Havia uma mulher vestida de Marianne, a personificação da República Francesa. O povo todo cantava o hino francês. Inigualável. Nenhum hino se compara ao francês. E, cantado em um protesto, é simplesmente mágico. Para quem leu e estudou minimamente sobre a Revolução Francesa, é algo espiritual. Arrepia. Eu praticamente chorei enquanto filmava e fotograva o troço todo.



De lá seguimos a pé para a Torre Eiffel. É uma boa caminhada e vale a pena para conhecer um pouco mais a cidade e respirar o autêntico ar de Paris. Chegamos lá e andamos e andamos e andamos. Havia dezenas de carinhas tentando dar golpe e, se não estivesse comigo, a Cris certamente teria sido vítima dos golpistas. Havia um sujeito fazendo aquele jogo de adivinhar em qual copo a bolinha está escondida. Um sujeito, que certamente é cúmplice do golpista, erra umas duas ou três vezes. Então, alguém do público que está assistindo a tudo pensa “nossa, eu vi onde está a bolinha!” e resolve apostar. E as apostas são altas, de 20 euros pra cima. O sujeito se empolga, aposta uns 50 euros pensando que vai acertar, mas ai o golpista faz o troço valendo e, óbvio, o turista otário erra e perde 50 paus (200 em reais) num piscar de olhos.
Quando a Cris se interessou pelo negócio, achando que poderia ganhar uns euros fáceis, eu simplesmente a puxei pelo braço antes que fosse tarde...
Entramos na fila para subira até a Torre. Começou a chover. Quando chegamos na frente do guichê, aconteceu uma daquelas cenas dignas de filme de comédia. A Cris desistiu de subir, mas tipo, ela deixou para me falar isso depois de duas horas na fila e na chuva! Ok, ok, estávamos em Paris, no problem. Comprei meu ingresso e parti sozinho rumo ao topo. Novamente, uma puta experiência que vale muito a pena. A vista é maravilhosa e é emocionante subir e descer escadas por dentro da torre. Novamente, mesmo com os sites e blogs tentando explicar como é que funciona, é só indo lá mesmo.
Na saída, novamente, vários e vários golpistas de todos os jeitos tentavam arrancar euros de turistas. O negócio é não dar conversa mesmo. Num piscar de olhos já era noite. Encontramos um pessoal com bandeira do Grêmio e aproveite para tirar umas fotos na frente da Torre em homenagem ao tricolor. Depois, perguntando para turistas sobre como pegar o metrô para voltar ao hotel descobri que o PSG jogaria naquela noite em Paris. Mas essa já é outra história...





Hasta!

sábado, 20 de abril de 2019

Cinzas, corcundas e escritores - Paris é demais!!! - Parte 2


Justamente quando dei uma pausa nas memórias da minha primeira ida para a Europa acontece o histórico incêndio que praticamente destrói a Catedral de Notre Dame. Quando defini os lugares que visitaria em Paris durante a curta estadia na cidade, a famosa igreja do corcunda estava no topo da lista, junto com outros pontos imperdíveis, como torre Eiffel e Arco do Triunfo. Nunca imaginava, enquanto admirava a parte externa e interna de uma das catedrais mais famosas do mundo, que aquilo tudo estaria em cinzas poucos meses depois. Lembro que as obras de restauração já estavam acontecendo e havia uma fila imensa para subir às torres quando passei por lá. Como tinha muitos outros lugares para ir, acabei desistindo da fila, tirando algumas fotos à frente da catedral e outras dentro.
É triste pensar que, mesmo em um país riquíssimo se comparado com o Brasil, algo assim acontece. Eu, particularmente, detonei o Brasil quando ocorreu o incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro – e continuo detonando -, então, fico imaginando como alguém que estudou a fundo a basílica e que é apaixonado por ela e toda a sua história esteja se sentindo agora. Já li de tudo na internet sobre o incêndio, inclusive teorias da conspiração que devem fazer todo o sentido para o pessoal do Brasil Paralelo. Mas não vou entrar nesse assunto agora...
Gosto de visitar lugares que conheço um pouco sobre a história para ficar viajando no tempo enquanto admiro a paisagem (natural ou urbana). Sobre a Catedral de Notre Dame, li atentamente o capítulo do livro “Paris”, do Airton Ortiz, em que ele conta de forma contextualizada a construção da basílica sob o comando do bispo Maurice de Sully em 1160, ou seja, cerca de 900 anos atrás. A partir de então, ele especifica as medidas, os estilos e a história da igreja, que não vou repetir aqui (vale a pena ler direto na fonte, ou seja, no livro de Ortiz). Apenas lembro que, conforme aponta o jornalista, Notre Dame já foi parcialmente destruída durante a revolução francesa, sendo restaurada justamente a partir do sucesso do livro de Victor Hugo que criou o personagem corcunda que vivia por lá. E, assim como eu olhava toda a catedral pensando nisso tudo e muito mais, quem for até a catedral daqui a 50, 100 ou 200 anos vai ficar tentando imaginar as chamas que deixaram o mundo inteiro atônito através de filmagens feitas por telefones celulares...
Foi com esse clima de “quero visitar lugares de história” que também sai da catedral indo diretamente para a livraria Shakespeare & Company, uma das mais famosas e históricas de Paris e ponto de encontro de monstros da literatura ao longo da história, inclusive da geração beat, quando Kerouac e seus amigos passaram pela França. Não é permitido tirar fotos na parte interna (sempre lotada), mas vi livros de Bukowski, Henry Miller, George Bataille e muitos outros clássicos do mundo inteiro para vender em francês e inglês e outras línguas. Fiquei tentado a comprar alguma coisa, mas meus euros eram escassos. Ainda nesse clima de intelectualidade (odiada por extremistas e ignorantes que gostam de se informar exclusivamente por vídeos nas redes sociais) passei pelo Pantheon e pela Sorbonne, por onde passaram centenas e centenas de intelectuais clássicos no pensamento universal, tais como Michel Foucault e Edgar Morin.
Também andei pelos gramados seculares dos jardins de Luxemburgo, que imaginava que ficavam afastados da cidade, mas na verdade ficam ali, meio que no centrão do troço todo. Aquele gramado com bancos e o lago ao centro dão um clima interiorano surreal para a capital francesa.
Bom, poderia escrever textos e mais textos sobre Paris (bem como os outros destinos), mas antes de relatar a minha ida a um jogo do PSG e de contar a visita a Torre Eiffel e Arco do Triunfo, finalizo esse relato sobre a cidade das luzes dizendo que ainda fui até os números 113 da Rue Notre-Dame Des Champs, onde morou Hemingway, 58 da Rue Vaugirard, onde moraram Scott e Zelda Fitzgerald, 36 da Rue Bonaparte, e 6 da Rue du Pot de Fer, onde morou George Orwell quando viveu as histórias de “Na pior em Londres e Paris” (foto).
Impossível descrever o que senti ao parar na frente de cada uma dessas casas, voltando no tempo, imaginando os seus moradores ilustres que mudaram a história do pensamento universal e da minha vida passando por aquelas ruas e entrando naquelas residências. Devo a todos eles por me apresentarem o mundo e a humanidade através de uma perspectiva totalmente gauche e imperfeita, como todos nós somos, conscientemente ou não.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

1964 o Brasil entre armas e livros: propaganda política e esquizofrenia disfarçados de documentário


Antes de falar sobre o filme 1964: o Brasil entre armas e livros, quero fazer um esclarecimento.
Caso tivesse nascido em Cuba, certamente eu seria um dos milhares que fugiu para Miami. Bem como se eu tivesse nascido na China comunista, também faria de tudo para fugir para o Ocidente. Da mesma maneira, se tivesse nascido em qualquer ditadura, de direita ou esquerda, eu tentaria escapar, pois espíritos livres não nasceram para ser controlados por governos.

Dito isso, quero dizer que fiquei exatamente as duas horas e sete minutos assistindo ao referido filme. Para quem é da área da Comunicação, como eu, fica fácil perceber as estratégias persuasivas e a tentativa de dar uma roupagem jornalística a um conteúdo completamente propagandístico. No entanto, é óbvio que o filme não foi feito para agradar a pessoas como eu, mas sim, a milhões de sujeitos que nunca leram nada ou se informaram minimante sobre o assunto. Aí, você coloca um monte de cara desqualificando historiadores e pesquisadores e forma uma massa acrítica que vai acreditar em uma única história, como bem critica a escritora nigeriana Chimamanda Adichie.
Em meu livro sobre o jornalismo Gonzo, estudei o conceito de parresía, que trata justamente sobre a questão do dizer a verdade. Quem quiser saber mais, pode ler. Em determinado trecho, falo justamente isso: é possível mentir falando verdades. Um exemplo bem banal: estou com um amigo meu, passa uma linda morena por nós, e eu digo “uau! Caso não fosse casado, eu convidaria aquela morena para sair”. Meu amigo ouve isso e, dias depois, ao avistar a mesma morena, fala para uma terceira pessoa: “Tá vendo aquela morena? O Eduardo disse que convidaria ela para sair”. Ele mentiu? A rigor, não, eu realmente disse que a convidaria para sair. Porém, apenas se não fosse casado. Com essa omissão, meu amigo contou uma mentira falando um pedaço da verdade. É mais ou menos isso que o documentário faz. E vou lhes dizer como.
Primeiro, o documentário não cumpre qualquer função jornalística. Apenas são ouvidas fontes que partilham de uma mesma visão de mundo para tentar reescrever a história a partir dos interessados nessa nova perspectiva (o atual governo Bolsonaro). Para piorar, geralmente são fontes citadas apenas como “filósofo”, “jornalista” ou “ensaísta”. Por que não ouvir pesquisadores que foram a fundo na temática durante anos?? Ou as vítimas ou filhos das vítimas da ditadura?? É legítimo entrevistar os sujeitos que eles entrevistaram, mas faltou o outro lado. É um filme que aponta uma única história como se fosse a verdade absoluta. E, claro, vacina o telespectador ao dizer que os especialistas na área foram marionetes do comunismo.
Se você é um fã do filme deve estar achando esses meus comentários bem genéricos, né? Pois então vamos esmiuçar melhor.
O filme começa abordando a Guerra Fria com depoimentos de “especialistas” que apresentam os comunistas como o mal supremo e os Estados Unidos como a sociedade mais bem sucedida da humanidade. Mencionam a ascensão de Fidel ao governo de Cuba, sem falar sobre a ditadura ferrenha de Fulgêncio Batista que imperava na ilha até então, e que foi contra ela que Fidel lutou.
Também não menciona que toda a pobreza de Cuba e do comunismo cubano se deu justamente devido as sanções econômicas desumanas aplicadas a Cuba pelos Estados Unidos que historicamente há séculos sonha em agregar Cuba ao seu mapa, como já fez com Porto Rico. Em outras palavras, usando um exemplo citado pelo próprio filme, assim como a União Soviética tentou dominar todo o leste europeu, os Estados Unidos quis com a América Latina. O sonho de todos os presidentes americanos, republicanos ou democratas, foi conquistar Cuba. Nesse sentido, Fidel tem uma importância significativa de resistência. Ele acabou encontrando nos russos uma forma de apoio de lutar contra o avanço americano. Tanto é que, como geralmente ocorre, a população apoiou Fidel durante o seu golpe/revolução mas, depois que ele chegou ao poder, muitos se arrependem pois percebem que outra ditadura estava por vir.
A tecla da tentativa do comunismo em dominar o mundo segue sendo batida insistentemente, já para antecipar a justificativa do golpe. Aliás, é mencionado que a União Soviética impôs ao leste europeu o comunismo, sem democracia, sendo que o mesmo feito com os golpes militares na América do Sul, impondo-se um governo, e não deixando que o povo escolhesse. Fala de uma conspiração soviética para tentar se inserir na América do Sul, mas não menciona, por exemplo, o Repórter Esso, criado pelos americanos para difundir notícias favoráveis ao seu país em toda a América Latina durante a Guerra Fria, bem como a existência de agentes americanos no país. Também não menciona que militares da América Latina e do mundo foram aos Estados Unidos nesse período para aprender técnicas de tortura.
As fontes consultadas no filme dizem que havia agentes soviéticos infiltrados no coração do FBI, mas não menciona as ações de inteligência americana em Cuba, também com mercenários cubanos, contratados pelos Estados Unidos para fazer atentados terroristas na ilha desde a revolução. Coloca as revoluções históricas dos operários como algo negativo, quando na verdade foi graças a essas rebeliões incentivadas, sim, pelos comunistas, que nasceram questões como: jornada de trabalho com horas limitadas, teto salarial, inserção da mulher no mercado de trabalho, direito dos negros, etc. Sem revoluções e rebeldes, estaríamos exatamente como no início do século XX, cumprindo jornadas de 15 horas com crianças de 8 anos trabalhando nas fábricas.
O filme também coloca a criação do Partido Comunista Brasileiro como algo do diabo, sendo que, em uma democracia pode, sim, haver ideias comunistas e capitalistas para disputar a preferência do eleitorado. Cita, também, Luiz Carlos Prestes como um representante maligno dos comunistas, mas não menciona que a Coluna Prestes ocorreu, por exemplo, para derrubar o governo corrupto de Arthur Bernardes. Questiona o direito de Prestes de se candidatar e ser eleito senador. São apresentadas falas distorcidas e descontextualizadas de Prestes para o “incriminar”. É mencionado que é caçado o registro do PCB, ou seja, passava a ser ilegal, a ser criminoso pertencer ao partido, mas não questiona tal decisão. Menciona de maneira bizarra uma “conspiração da União Soviética e China” para transformar o Brasil em uma república socialista. Mais adiante, há uma parte em que fala que a história conta somente o lado da infiltração americana no Brasil e não menciona uma infiltração comunista, como se isso justificasse as atrocidades do regime militar. Algo como: nós erramos porque eles também erraram.
Também é mostrada mais detalhadamente toda a infiltração comunista no Brasil, com fontes que tiveram acesso a documentos que compravam isso. Mas fica a questão: a Guerra Fria, como o nome diz, foi uma guerra e havia, reconhecidamente, agentes americanos no país. Pois então não é normal que também houvessem soviéticos, tchecos, etc? Ou queriam que os soviéticos ficassem de braços cruzados venço os avanços americanos? Para ser mais claro: havia gente dos dois lados da guerra infiltrados no país.
Bom, no entanto, nem tudo é esquizofrenia total. O trecho que menciona a construção de Brasília, na minha humilde opinião, é um dos que mais faz sentido. Eu, historicamente, sempre critiquei tal construção. E, de fato, não foi a toa que a nova capital ficou isolada do resto do país. O modelo pode até ter sido inspirado nos comunistas, no entanto, a Casa Branca e Washington não são tão diferentes. Já estive lá e digo que também não é nenhum Palácio do Catete no meio da muvuca do povão....
Chama a atenção a crítica feita ao plano de desenvolver 50 anos em 5 de JK. Realmente é ridículo, no entanto, é o mesmo estilo iniciado com Temer e seguido por Bolsonaro, congelando salários e fazendo a reforma da previdência, tudo em nome de uma aceleração no crescimento econômico do país. O filme também faz uma crítica a condecoração de Che Guevara pelo governo brasileiro (Jânio Quadros), como se Che Guevara não tivesse atuado nas revoluções sul-americanas que derrubaram ditaduras, inclusive em Cuba. No entanto, o que talvez ele não imaginasse, é que os novos governos se tornassem ditaduras tão ferrenhas quanto as anteriores, como aconteceu com Fidel. É a revolução dos bichos em prática.
Em seguida, é contada toda a história da renúncia de Jânio, que estava isolado politicamente e pensava que o povo sairia às ruas para pedir a sua volta. Assim, assume João Goulart, apresentado como ministro do trabalho de Vargas, deputado federal e vice de JK (que anteriormente tinha sido caracterizado como o comunista construtor de Brasília). Tenta mostrar Jango como um sujeito ligado às ditaduras populistas do mundo, tudo para justificar o golpe. Haveria um interesse comunista em apoiar João Goulart. Aí iniciou a história de evitar que Jango assumisse a presidência por questão de segurança nacional. Quando Jânio renuncia, Jango está na China de Mao Tse Tung estreitando o relacionamento entre os dois países. Isso tudo é apresentado como justificativa do golpe, pois haveria uma conspiração em andamento. Mostra a campanha da legalidade de maneira distorcida, como se fosse uma ação dos comunistas contra os militares salvadores da pátria. Há vários livros mais sérios que esse filme que falam sobre isso. Indicaria aqui o do Juremir Machado da Silva, que não só é jornalista professor e pesquisador, mas também viveu essa época. Assim, o filme questiona a legalidade da posse de Jango, sendo que ela estava na constituição.
Na narrativa do filme, a chegada ao poder do Jango, com o vínculo de Prestes, seria a forma do Brasil se tornar comunista. Segundo um dos entrevistados: “Eram indicativos que a esquerda estava se reinventando”, como se isso fosse uma crime demoníaco. Também cria-se a justificativa econômica: governo Jango chega a inflação de 100% ao ano, com greves e problemas sociais. Jango seria o promotor das greves, incitando o povo a pressionar o congresso. Fala de brasileiros que faziam curso de guerrilha em Cuba, mas não menciona os cursos de torturadores que os militares faziam nos Estados Unidos.
Outro tema abordado é a possível conspiração de se usar sindicatos e ligas campesianas para revoluções, movimentos, etc, e se critica muito isso, mas sem abordar as condições dos trabalhadores nessa época nem das pessoas no campo. Ou seja, se marginaliza qualquer movimento popular que reivindique melhorias, como se todos os sindicatos, movimentos, revoluções, greves não tivessem na origem uma necessidade de mudança, a injustiça social e busca por melhorias de maneira geral. Como disse, se não fosse isso, estaríamos ainda na era da revolução industrial com as pessoas trabalhando 15 horas por dia ganhando um salário, além de ter crianças e mulheres grávidas fazendo trabalho pesado.
Coloca-se para baixo do tapete toda a carreira de nomes como Jânio Quadros e Leonel Brizola, como se fossem conspiradores comunistas malvados. Como mencionei, não conta a história de Cuba. Apenas coloca Fidel como vilão, sem fazer menção que ele, bem como Mao Tse Tung, na China, derrubaram ditaduras piores que as deles. Óbvio que isso não torna a ditaduras deles menos ruins, no entanto, para as fontes, o golpe é justificado por um governo ruim de Jango. Eu diria mais: o golpe poderia ter sido chamado de revolução se fosse para derrubar uma ditadura comunista que já estivesse implementada no Brasil. Mas o que aconteceu foi que os militares tocaram Jango de Brasília para assumir o poder. Em outras palavras: golpe!
Para os produtores do filme (usando as fontes como marionetes, como eles bem gostam de dizer), comunistas e militares insubordinados estariam bolando um possível golpe comunista, usando Jango para tomar o poder e transformar o Brasil em uma nova China ou Cuba. Ao invés de colocar a voz de Jango e Brizola discursando, um entrevistado fala, de maneira descontextualizada e com as próprias palavras (conforme lhe convém), os discursos dos dois. Conforme venho ressaltando, em nenhum momento se ouviu o outro lado da história, muito pelo contrário, tenta se desqualificar tudo que vá contra essa teoria da conspiração. É esquizofrenia total.
Para piorar, fala da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, como um movimento do bem contra a ameaça comunista do mal. Também menciona que esses movimentos anti-comunistas eram gigantescamente maior do que os de esquerda: então por que não tirar o Jango e fazer novas eleições? Ou por que então os militares não ficaram dois ou três anos, antes de reconduzir o governo aos civis através de eleições??
A leitura do Cid Moreira numa reportagem televisiva da época é cômica: é como o anúncio da chegada do Chapolim Colorado para salvar a população indefesa que estava sendo ameaçada pelos comunistas vilões que comem criancinhas. Nas falas dos militares ou dos apoiadores, como Carlos Lacerda, se coloca o áudio do discurso deles, diferentemente das falas de Prestes, Brizola e outros, que são lançadas na boca das fontes, que modificam as palavras e fazem uma voz para ridicularizar qualquer pessoa de esquerda... Aliás, o maior pecado do filme: tentar colocar qualquer ideia de esquerda na panela do comunismo. É o mesmo que fazer um documentário tentando colocar qualquer pensamento de direita na panela do nazismo ou do fascismo.
Diante da movimentação dos militares, João Goulart parte para o exílio. Isso também não é aprofundado e não se ouve ninguém do outro lado. As fontes são “escritor e jornalista”, “presidente de centro de tradições” (!?!), “filósofo”, etc. Como disse: por que não entrevistaram professores de história?? Pesquisadores?? Pessoas que viveram o outro lado na época? Há uma edição na escolha das fontes que lhes favorecem, sem o contraponto. Típico da propaganda.
Considerando que a chegada dos militares no poder foi uma resposta ao caos, como Fidel chegou ao poder para derrubar uma ditadura, não se admite que os militares derrubaram uma possibilidade de ditadura de esquerda para implementar uma ditadura militar de direita. Nesse sentido, se fala em forjar cartas que comprovariam a ligação da CIA com o golpe, porém, as fontes apresentadas ao longo do filme são totalmente questionáveis, inclusive as estrangeiras.
Olavo de Carvalho chama as pesquisas e livros de história como “um massacre publicitário” (como nomear esse filme, então? Charlatanismo?). Em nenhum momento se aprofunda isso, apenas são apresentados com descrédito e ironia. Obviamente que, como mencionei, esse filme não foi feito para pessoa que leram sobre as temáticas ou consultaram outras fontes, ele é voltado justamente para o sujeito que usa a internet e se informa por memes, desenhos e vídeos.
Em seguida, Castelo Branco é apresentado como um grande militar, primeiro militar escolhido presidente, eleito “democraticamente” pelo congresso. Inicialmente era para ser uma intervenção militar por um período curto para se realizar novas eleições, e não um regime militar. Começa a caça aos “subversivos”. Todo mundo era subversivo (mas isso o filme não mostra, obviamente). Foi feita uma caça às bruxas no congresso e vários políticos foram expulsos do governo e de todas as esferas políticas sem nenhum tipo de julgamento. Se isso não é ditadura, não sei mais o que é...
Mostra que os militares agora tinham uma missão importante para o país: tirar da vida política os “agentes” comunistas. Começa a se justificar, com metáforas toscas (primeiro era uma intervenção cirúrgica, mas depois viram que tinha que internar, sedar, etc) a permanência dos milicos no poder, obviamente, sem destacar as atrocidades que fizeram. Muito pelo contrário, tenta se justificar cada uma delas.
Criticavam que o João Goulart queria governar por decretos, impondo uma ditadura, mas os militares passaram a governar por atos institucionais. O n° 2 estende o governo de Castelo Branco. Limita-se a dois partidos e ainda quem vota é apenas o congresso. Assim, ficou a Arena, dos militares, e o MDB, que era uma oposição de faixada. Costa e Silva é “eleito” o sucessor de Castelo Branco, sendo o primeiro “linha dura” a chegar ao poder. Começa a se justificar as perseguições, falando em terrorismo comunista de guerrilhas (contra uma ditadura, a guerrilha é totalmente justificável). Tenta ridicularizar a oposição armada feita ao regime, como Araguaia e a participação de Dilma em outros movimentos que, para eles, seriam todos grupos terroristas para tomar o poder para os comunistas. É o ápice da esquizofrenia.
Qualquer um contra o governo era agente comunista. Não menciona nenhum dos tantos mortos e desaparecidos, vítimas do próprio governo. Pelo contrário, mostram toda a luta contra a ditadura como uma ação criminosa, novamente sem ouvir o outro lado, apenas mostrando o pessoal de esquerda como se fosse um noticiário policial. Não faz menção ao filme “O que é isso companheiro”, que conta a história do sequestro do embaixador americano, filme que concorreu ao Oscar e que tem muito mais credibilidade do que esse.
Nega que a tortura era uma política de estado, no entanto, comprovadamente o governo mandava torturadores treinarem nos Estados Unidos e também há os arquivos abertos recentemente que mostram que a alta cúpula do governo (incluindo presidentes) ordenou execuções e torturas. Chamam isso de “publicidade” da esquerda e “exagero”. Esses elementos tiram totalmente qualquer credibilidade que o documentário pudesse reivindicar. Claramente é um produto com fins de enterrar a esquerda e tentar garantir que partidos como o PT nunca mais voltem ao poder. É publicidade política disfarçada de jornalismo. Querem dizer que foi feita fraude para aumentar o número de desaparecidos, pois eles teriam se auto exilado ou mudado de nome. Vai falar isso para os órfãos das vítimas da ditadura...
No entanto, a maioria das fontes admite que houve uma ditadura militar no Brasil a partir de 1968, com o AI-5. É uma “mea culpa” para deixar a mensagem: “ok, nós admitimos alguns erros, mas nem se compara com os comunistas”. Tem uma imagem do Médici com Nixon que mereceria um aprofundamento maior, pois Nixon sim foi o demônio disfarçado de gente.
Há estratégias que certamente vão enganar os menos avisados. Por exemplo, mostra-se vídeos da época para exemplificar que o apoio do povo aos militares era evidente, como se a TV não estivesse sendo controlada por eles, por bem ou por mal, pois em 1968 é instaurado o AI-5 que dá total poder de censura ao governo.
Mas o mais bizarro de tudo é a demonização da geração hippie, da contracultura, do maio de 68. Tudo isso é mostrado como se os jovens fosse uma massa de manobra dos comunistas!!!!
Fiquei imaginando a geração beat, Kerouac (foto) e Thompson, sendo tachados de comunistas. Tudo isso é apresentado como se fosse uma estratégia marxista. Ao invés de fazer a revolução das armas seria a revolução pela cultura com a rebeldia. Em síntese, ou você é um cristão “cidadão de bem” ou é comunista ou é ingênuo sendo usado como massa de manobra. Eles dividem as pessoas dessa forma. Inclusive, há uma relativização do discurso de homofobia, racismo e machismo, como se isso fosse conceitos comunistas para tentar tomar o poder. Haja paciência!!
Em síntese, as pessoas medíocres (no sentido de média intelectual da população) terminará de ver o filme pensando que a cultura da esquerda é do mau e que a história escrita até hoje está deturpada. Isso tudo renderia um baita estudo sobre persuasão. Aliás, se os mulas muçulmanos conseguem convencer pessoas a se tornarem homens bombas, por que não lançar produtos que vão convencer as pessoas de que qualquer ideia de esquerda vem do demônio??
Outro ponto bizarro é a tentativa de relativizar a censura. Ao invés de ouvir jornalistas que viveram isso, colocaram Olavo de Carvalho e outros comentaristas de direita dizer que era uma censura de faixada. Leiam “Cale a boca jornalista”, do Fernando Jorge, que não tem nenhuma conotação política, apenas apresenta casos de perseguição de jornalistas ao longo da história do Brasil e tirem suas próprias conclusões.
Para completar, é feito todo o descrédito a historiadores e pesquisadores, se combate o intelectualismo, exatamente nas características do fascismo apresentadas nos museus do holocausto. Eu vi essa placa, por exemplo, no museu de Washington D.C. Todas as ditaduras têm horror aos intelectuais e tentam demoniza-los, tanto nas Américas, quanto na Europa e no Oriente Médio. De esquerda e de direita. “O terror da repressão era exagerado”, chega a dizer um dos entrevistados. Outro sujeito, apresentado como ensaísta e jornalista, que pela idade não viveu o período, tem a cara de pau de dizer que não houve perseguição. Geralmente são argumentos rasos. Um show de avereza cognitiva e intelectual, tentando simplificar questões complexas.
O intuito do filme fica claro no final, quando se faz toda a ligação dos políticos do PT na atualidade com os agentes que tentavam implementar o comunismo no Brasil nos anos 1960. PT, Dilma e Lula são demonizados, obviamente. Para fechar com chave de latão, chamam o exército de quarto poder e criticam ferrenhamente a constituição. Parece já estarem criando um argumento para, em breve, acabar com as eleições e colocarem novamente militares no poder até não sobrar nada do PT. Isso tudo mostra a obviedade dessa produção: é um amontoado de ideais propagandísticas e esquizofrênicas tentando conquistar o coração de pessoas que, certamente, nunca leram um sequer livro sobre o tema. E que, com certeza, depois de verem esse filme não o farão.

terça-feira, 19 de março de 2019

Paris é demais!!! - Parte 1


Nova York é bom, Paris é demais, algo que eu não vou esquecer jamais! Cantei muito essa música do Papas da Língua lá por 2009, quando comprei o DVD acústico dos caras nos camelôs de Porto Alegre. E agora, depois de conhecer as duas cidades mais famosas do mundo, eu finalmente podia confirmar isso com meus próprios olhos. Saímos de Zurique um pouco antes das 11h e chegamos a Paris por volta das 19h. O cansaço das oito horas de viagem e o engarrafamento do horário do rush não diminuíram a satisfação de enxergar ao longe a Torre Eiffel toda iluminada pela primeira vez. Paris é demais, mas o trânsito do início da noite é caótico. Creio que ficamos mais ou menos duas horas no engarrafamento até chegar ao Íbis Canal Saint Martin. Fazendo o check-in, tive que estacionar em outro Íbis, que ficava ali perto, mas que tinha a garagem escondida (era um portão muito estranho). Dei umas dez voltas na quadra, desci, perguntei na recepção, voltei, dei mais umas dez voltas na quadra até que finalmente acertei o portão. Óbvio que tive que parar o carro na frente e ir até a recepção pedir para o carinha abrir. Ô, coisa difícil! Mas deu tudo certo.
          Nova York é bom e Paris é demais porque as duas têm um clima vagamente semelhante. Claro que você pode dizer que Nova York tem uma noite mais agitada, que Paris é mais cultural, mas me refiro ao clima nas ruas. E não ao clima de tempo, mas ao clima humano. Ambas têm gente andando para todos os lados preocupadas com alguma coisa. Ambas são cosmopolitas em último grau. Em ambas você vê aglomeração no metrô ouvindo todas as línguas do mundo e vendo os mais variados tipos de rostos: orientais, negros, germânicos, latinos, muçulmanos, árabes, etc. Em outras palavras, achei o ritmo de vida em ambas muito semelhante. Isso quer dizer que, sim, apaixonei-me por Paris e moraria lá sem pestanejar, como fiz durante um ano em Nova York.
           
Na primeira manhã em Paris, fomos ao Museu do Louvre, o maior do mundo. Estava garoando e caminhamos pra caralho dentro e fora do museu. Foram várias corridas para achar as duas principais atrações: o quadro da Mona Lisa e a escultura Venus de Milos. Em ambas as obras havia bolinhos de gente ao redor, o que significa que você tem que sair no cotovelo com os outros turistas para conseguir tirar boas fotos. Flanando pelo museu, vi vários quadros que conhecia de capas de livros de história, coroas de reis e rainhas seculares, esculturas milenares e muito mais. Não posso comparar com o Moma, de Nova York, pois lá eu fui mais vezes e com mais tempo, enquanto no Do Louvre fiquei uma manhã e seria necessários uns três dias inteiros, ou mais, para curtir tudo.
Na saída do museu, ainda garoava e a Cris estava cansada. Eu, obviamente, queria caminhar muito mais. Combinei de leva-la ao hotel e voltar para fazer as minhas andanças pela catedral de Notre-Dame e o Quartier Latin. Tinha uma listinha de lugares que eu queria visitar mas, olhando no Google, as coisas pareciam bem mais perto do que realmente eram. Devo ter andado uns 30 quilômetros a pé nesse dia. Mas, como há inúmeros roteiros para turistas indicando caminhos a serem seguidos por Paris, no próximo post vou contar mais o que senti ao visitar determinados lugares, inclusive porque a essa altura, já esqueci a ordem das visitas e os dias dos passeios. A única coisa que não tenho como esquecer é a satisfação de estar realizando um sonho ao conhecer Paris. Certamente, de todas as cidades europeias pela qual passei nessa primeira viagem ao velho continente, essa é a que tenho mais certeza de que um dia ainda voltarei.
Jusqu'à la prochaine. C'est tout pour aujourd'hui, les gens.