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sábado, 19 de agosto de 2017

Smell like love

E então, a chuva caiu, a noite chegou e você partiu. Partiu, e deixou aqui nos meus lençóis o seu cheiro, alguns fios de cabelo e lembranças eternas. Você partiu com a sua blusa branca que a água da chuva deixou transparente. Depois que fechou o portão, recusando os meus insistentes convites para ficar, pelo menos até a chuva passar, eu permaneci parado na porta, de coração apertado, louco para ir atrás de você, segurar pelo braço e dar um daqueles beijos típicos de cena de filme romântico em que a moça ergue um pezinho e, depois que os lábios se afastam, os dois ficam se olhando, se admirando, se apaixonando cada vez mais. Mas essa cena ficou apenas na minha imaginação, assim como tantas outras que frequentemente me invadem como se tivessem vida própria, como se existissem de verdade em um mundo paralelo. Porém, essa noite foi real, mais real do que o mais doido e excitante sonho que pudesse ter contigo. Você partiu e eu voltei para a cama, onde dessa vez não liguei a TV e não peguei o celular para ver se tinha mensagem sua dizendo que chegou bem. Simplesmente fiquei deitado, ouvindo o barulho da chuva, imaginando você entrando em casa toda molhada, tirando a roupa, indo para debaixo do chuveiro, curtindo a água quente caindo em você, aquecendo o seu corpo, seus seios, a sua barriguinha que eu tanto adoro beijar, o seu pescoço e, inclusive, os seus pés sempre gelados. A chuva ficou mais forte, e mais intenso ficou o meu pensamento em você. Lembrei da primeira vez que nos vimos, dos vários encontros, dos sumiços e reaparecimentos, das palavras carinhosas, dos toques, dos beijos e abraços, dos corpos se encaixando, dos olhares se cruzando, das conversas de madrugada. E a chuva, que sempre me traz sono, dessa vez ficou tocando uma música única, uma música que fez com que eu sentisse uma puta saudade sua, um sentimento incompreensível, pois você deixou a minha cama há pouquíssimo tempo...
Cheiro o lençol e penso que provavelmente não vou lavá-lo ou trocá-lo enquanto ainda tiver o seu aroma. Lembro-me de quando você esqueceu o seu cachecol no meu carro. Era uma data especial e eu tinha te largado no aeroporto para você fazer a tão sonhada viagem para Roma. Durante os 15 dias em que você ficou fora, eu cheirava todos os dias o seu cachecol e isso me ajudava a matar a saudades. Cada fez que eu cheirava, o seu perfume ia correndo até os pulmões, mas depois de dar o ar da graça por lá, ele se acomodava lá no fundinho do meu coração. Agora, cheirando o lençol, penso que terei que adotar a mesma tática que utilizei com o cachecol: cheirar só um pouquinho, senão gasta o cheiro e depois o seu perfume fica apenas na minha lembrança, junto com o calor do seu corpo, o brilho do seu olhar, o gosto do se beijo e a música da sua voz. Ouvindo a chuva, tento não pensar que você vai viajar de novo e que por um bom tempo só nos encontraremos nos meus sonhos. Por isso, vou tentar dormir, com a cara afundada nos lençóis enquanto eles ainda têm o calor do teu corpo.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Três Palavras

Eram três as palavras que ele guardava no peito, apenas para si mesmo. Ela até desconfiava que ele estivesse com aquelas palavras guardadas a sete chaves em seu interior, mas preferia não saber. Ele também não tinha a mínima intenção de proferi-las, pois sabia que o efeito disso poderia ser catastrófico: ela poderia ter os seus anticorpos anti-palavrinhas despertado e consequentemente fugiria, sumiria, ficaria com medo, apagaria ele de sua mente. Por isso, ele não cogitava pronunciar as três palavras. Pelo menos não até aquela noite.
Era uma noite morna de verão quando os dois se encontraram na rua, numa passarela tão bem iluminada que fazia tudo parecer dia. Ao se reconhecerem, ambos ficaram sem jeito. Aquele papo do “oi, você por aqui?” rolou, ele estava passeando com o cachorro, e ela apenas tomava um vento para espairecer depois de um longo dia de trabalho. Ele engoliu seco, as palavras fugiram de sua mente. Ela puxava assuntos banais, perguntando sobre o cachorro, a família, o trabalho... Ele sabia que ela não gostava de beber, mas a única coisa que lhe veio à mente naquele momento para mantê-la por perto foi convidá-la para ir a um bar ali perto. Ela disse que tomaria apenas refrigerante, e ele disse que não tinha problema. Eles ficaram no bar por volta de uma hora e, depois disso, ele convidou-a para ir até o seu apartamento novo, com a desculpa de mostrar a sua biblioteca particular, pois sabia que ela amava livros. Seus lábios já haviam se tocado algumas vezes, seus corpos também já se conheciam, mas cada encontro sempre soava como se fosse o primeiro. Toda a vez que ficavam a sós, o jogo da conquista rolava, ele tentava avançar o sinal, ela pisava no freio, então ele recuava e ela lhe puxava de volta para o jogo com palavras que tiravam o fôlego dos dois. Entraram no apartamento, ele já meio tonto da cerveja, e ela com o mesmo receio da primeira vez em que ficaram sozinhos, daquela vez, no apartamento dela. Ele a levou para a biblioteca, onde ela começou a analisar os livros daquela biblioteca pitoresca: Luis Fernando Verissimo, John Fante, George Orwell, Hunter Thompson, Mario Prata, Augusto Cury, Bertó, Kafka, Cervantes, Borges, Caio Fernando Abreu, etc. Mas foi um livro de Charles Bukowski que a impressionou. Ele se surpreendeu, pois achava que ela odiaria o velho Buk.
“Eu já li outras coisas dele”. Ele duvidou. Disse para ela ter cuidado se fosse ler aquele livro. Ela disse que não se surpreenderia e pediu para levar. Ele concordou – apesar de geralmente não emprestar seus livros nem para os próprios pais. Eles voltaram para a sala. Ela olhava a capa do livro e, quando fitou-o, sentada no sofá, ele a beijou. Ela disse que ele estava com bafo de cerveja. Ele disse que sabia. Ela o beijou mais. Os lábios se tocavam, as mãos exploravam os corpos, o fôlego foi indo para o espaço. A cada avançada de sinal dele, ela recuava. E quando ele hesitava, ela avançava o sinal. Eles ficaram nesse jogo de gato e sapato por um bom tempo, como na primeira vez. Até que, sem perceber, estavam sem roupas. Lentamente, o desejo tomava conta dos dois. Os olhos se conectavam, as peles se esfregavam, as mãos acariciavam, os corpos se encaixavam. Foi então que a mistura do álcool consumido horas antes com o poder daquele olhar provocador e com o calor das peles fez com que aquelas três palavrinhas, que estavam guardadas lá no fundo do peito dele, a sete chaves e 20 cadeados, fossem arrebentando uma a uma para saírem inesperadamente pela boca dele. Eles pararam. Ela disse que ele estava bêbado. Ele disse que não, mesmo sabendo que estava e que ela não acreditaria em nada que ele dissesse naquele momento. Então, eles resolveram deixar isso pra lá e seguir a fusão dos corpos que se queriam muito naquele momento. Entre beijos e carinhos eles seguiram pela madrugada, até que ela partiu e o deixou sem fôlego atirado no sofá, onde dormiu para levantar apenas na tarde do dia seguinte. Ao acordar, ele ficou uma hora olhando para o teto, pensando na noite anterior, enquanto ela já estava trabalhando, tentando manter a concentração na planilha que tinha que terminar, mesmo com ele não saindo de sua mente.
Ele pensou no fato dela acreditar que ele falou aquilo apenas por ele estar bêbado, então, ele concluiu que era melhor assim, e voltou a guardar aquelas três palavras para dentro do seu peito. Colocou novas fechaduras e comprou novos cadeados e guardou todas as chaves em um lugar secreto. Tão secreto que apenas ela sabe onde encontrá-las.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

How knows, baby...

Hoje à tarde fui abrir o meu email e vi que tinha uma mensagem “Who knows, baby”, de um tal de Brad. Achei que fosse vírus, mas o título me chamou a atenção e acabei clicando. Não havia nenhum anexo e, correndo os olhos pelo texto em inglês, não identifiquei meu nome em nenhum momento. Então, simplesmente passei a ler o tal email que, sei lá como, veio parar na minha caixa de entrada. Não vou tentar explicar o que esse cara escreveu para uma moça, que não entendi bem se é alguma namorada, crush ou coisa parecida, mas sim, vou postá-lo na íntegra. Bom, quando terminei de ler acabei apenas clicando em responder e escrevi: “força, man! Vocês dois serão felizes, juntos ou não”. E, há pouco, acabei de traduzir tal texto para postar no blog, pois me identifiquei com a parte do “dinossauro das tecnologias” desse sujeito que, como fica claro, mostra que não é só no interior do Brasil que resistimos... Há gente como a gente em New York, por exemplo. Chega de enrolation e vamos ao email:


Hey honey. É no mínimo contraditório eu usar o email para dizer o que tenho que lhe dizer, mas é a única maneira eficaz que encontrei para chegar até você, pois, como sabe, sou um daqueles dinossauros da tecnologia: não uso redes sociais, não tenho celular e sequer sei o número do seu telefone para te ligar do meu aparelho convencional. Poderia ter te procurado pessoalmente, mas mesmo morando na mesma cidade que você, sinto-me como se morássemos em países diferentes, pois nunca conseguimos nos ver. Acho que nos víamos mais quando eu morava em Louisville e você em Chicago e reclamávamos da distância em cartas e telefonemas, afinal, são só seis horas de Megabus. Mas agora, nem mesmo o fato de morarmos em uma das maiores cidades do mundo justificaria todo esse tempo sem nos cruzarmos, pois o Harlem não é tão grande e, afinal, seu apartamento fica a apenas três quadras do meu. E é justamente por isso que hoje resolvi sentar diante do meu velho computador para abrir o email e lhe escrever, afinal, faz tanto tempo que a gente não se fala, não é?
Estou te escrevendo para dizer que tenho pensado em você. Como sempre, muito mais do que gostaria ou imaginaria. Você sabe que mexe comigo. Você sabe que meus olhos são só seus, que minha boca é só tua e que meus carinhos são guardados só para você. Ou pelo menos eram, pois não nos vemos mais e não tenho como fazer isso por email. Você sabe que eu simplesmente adorava quando íamos ali no dogão da esquina fazer um lanche e conversar ou quando nos encontrávamos em um café em downtown e passávamos horas jogando conversa fora, ou ainda, quando fazíamos aquele happy hour no Smithfield, enquanto você brigava comigo porque estava presentando atenção no jogo dos Yankees na televisão e não no que você estava falando... Ainda hoje, eu gosto disso tudo. E seria hipocrisia de minha parte negar que sinto falta. Mas acho que isso não vai mais acontecer, por motivos óbvios. Somos diferentes. E a diferença nos distanciou. Como sempre conversamos, sou o cara que você nunca apresentaria para a sua família. Bebo muito, falo alto, digo palavrões sem parar, odeio fingir ser outra pessoa, tenho um emprego de merda mas faço o que gosto e não pretendo mudar, além disso, já casei três vezes, tenho quase o dobro da sua idade, um casal de filhos para criar, ex-mulheres para brigar que não largam do meu pé e que te odeiam, detesto tecnologia e amo estar na rua (principalmente à noite). Já você, vem de boa família, é uma princesa, linda, inteligente, esperta, com um futuro brilhante pela frente, viciada em telefone celular e em netflix (que eu nem sei exatamente o que é, mas que deixa as pessoas meio estranhas). Justamente por gostar de ti, percebo que só iria te atrapalhar ficando na sua vida.
Aliás, provavelmente você já saiba disso tudo, e por isso tem evitado me ver pessoalmente.
Lembro da última vez que nos vimos e assistimos a um episódio daquela série que você ama, Californication (isso é na tal da Netflix, certo?), e você me comparou ao Hank, dizendo que eu estava com você por fetiche, por ser mais nova e por não querer que ninguém ficasse sabendo sobre a gente. Well, honey, nem preciso lembrar você que odiei a palavra “fetiche”, pois a última coisa que eu penso quando penso em você ou quando estou (ou estava) com você é em “fetiche”. Fetiche é um sentimento muito pequeno para ser comparado ao que sinto quando te encontrava e quando lembro de nossos momentos juntos. E, sempre que quis ficar longe de amigos e parentes quando estamos juntos foi justamente para evitar que todo mundo caia de pau na sua cabeça por estar com um cara como eu. Mas te entendo, baby, te entendo... E você tem toda a razão em não querer mais me ver. O fato é que eu simplesmente precisava te falar isso, pois não tenho como aderir à vida virtual para te encontrar, e sei que provavelmente você vai encontrar outro cara mais parecido com você, que vai te tratar bem, que vai te amar, que vai ficar horas falando contigo pelas redes sociais quando você estiver longe e que, provavelmente, eu vou cruzar com vocês dois no final de um domingo deprimente qualquer e, possivelmente, depois de ver vocês, eu vá ligar para o Jack e dizer: “hey budy, passa aqui que estou precisando encher a cara hoje” e, então, o Jack vai lá com meia dúzia de garrafas de cerveja, e vamos beber até de madrugada, comentando sobre tudo aquilo que gostaríamos de ter e que não temos e, em especial, vou dizer que o que eu mais queria era você, mas que te perdi porque simplesmente não consigo mudar e levar uma vida online que não me pertence. Então, vou olhar para ele e vou dizer:
“hey, motherfucker, vamos catar um boteco e ver gente” e aí nós vamos ao Harlem Pub beber mais e comer as pipocas de graça que você gostava e eu vou lembrar que você gostava das pipocas e vou tentar encontrar o teu rosto no rosto das outras garotas, a tua voz na voz delas e o teu beijo em outras bocas. Possivelmente eu faça isso pelo resto da vida, mas fazer o quê, não consigo imaginar a minha vida com a única perspectiva de te beijar através da tela de um computador..
Mas não me leve a mal, baby, sei que você tem anticorpos que não te deixam gostar de alguém (especialmente alguém como eu e na minha situação) e acho que combinando os seus anticorpos com os meus (que não me permitem pensar em algo majoritariamente online, fora da vida real, de carne, osso e calor de peles e bocas e corpos) não há muito o quê se fazer a não ser guardar bem as lembranças do que passou e, como você disse naquela noite de dia dos namorados em que te pedi em namoro: “relaxa, não vamos estragar tudo.. vamos levando a vida na boa que quem sabe o destino nos conecta novamente mais pra frente”... Quem sabe, baby, quem sabe um ano depois de cruzar com você e o seu crush, quando eu já estiver morando na Califórnia, não nos encontramos em um cassino em Las Vegas e, então, voltamos a acreditar que não somos tão diferentes e percebemos que nós somos feitos de carne, ossos, sentimentos e amor. Quem sabe, baby, quem sabe...

domingo, 9 de julho de 2017

More unanswered questions

Existem pessoas, conselhos, frases, palavras, que nunca esquecemos. Pela minha situação atual, veio-me à mente um conselho que o professor Juremir Machado da Silva deu durante uma aula de Sociologia da Comunicação no mestrado da PUCRS há mais de oito anos atrás. Eu lembrava que tinha escrito sobre isso no passado, e consegui recuperar o texto “Estranho no ninho”, publicado nesse blog, em abril de 2009. Apresento aqui um trecho do que contei: “Ele [Juremir] disse que, quando não está inspirado para escrever as suas colunas diárias no Correio do Povo, ele expõe o seu cérebro e as suas ideias ao maior número de estímulos possíveis, e esses estímulos são o combustível para as novas ideias e inspirações”. Naquela ocasião, eu radicalizei: fui para o Beira-Rio assistir a final do Gauchão entre Inter x Caxias (8x1) e quase apanhei. Agora, apesar de ter viajado durante uma semana recentemente, nos últimos dias tenho me sentido um pouco assim: estou tomando um banho de produção cultural com leituras, séries, filmes, produções de artigos, correções de provas e trabalhos, etc, mas tenho sentido falta do vento no rosto, da multidão, das pessoas, do mar, de paisagens, etc. Sei que é momentâneo, que logo vou voltar para as ruas como um flânuer qualquer, mas senti a necessidade de escrever isso. E senti essa necessidade, possivelmente porque, ou quando eu leio muito e vejo filmes, ou quando fico semanas envolvido em andanças por aí, preciso escrever... Sei lá.. cada com seus vícios...
De sexta para cá, consegui a proeza de assistir a dois filmes (o que é bem difícil de se fazer quando há crianças em casa). Moonlight, o vencedor do Oscar de melhor filme, e Uma longa jornada, adaptação do livro que já comentei aqui outra vez. Também assisti a vários episódios que ainda não tinha visto de Friends, Two and half man (com Charlie) e até de Um maluco no pedaço.. (Yes, I like Will Smith). E, ao mesmo tempo, escrevi um artigo inteiro, brinquei com a Larissa, corrigi trabalhos, preparei provas, levei a Bolinha passear e estou quase terminando de ler Gringo (um romance sobre um mochileiro que cruza a América Latina e que te deixa louco para cair na estrada) e Sobre o amor, livro de poesias do velho Bukowski.
Também tenho ouvido algumas músicas diferentes, que eu nem conhecia, como Beirut (que toca nesse momento, enquanto escrevo) e Outro Eu. Sei lá, acho que tudo isso mais as viagens mais os sentimentos vão nos transformando com o tempo e penso que isso só termina quando a nossa passagem por esse planeta chega ao fim...
Com certeza posso dizer que hoje não sou mais o mesmo de um ano atrás, nem de cinco, nem de oito, quando estava na sala de aula ouvindo atentamente o professor Juremir. E muito menos sou o mesmo dos tempos de graduação e, menos ainda, de antes disso, quando eu vivia no meio de um monte de gente que pensava que a cidade em que morávamos era o centro do universo. Para o bem ou para o mal, mudamos: viajamos, lemos, nos apaixonamos, deixamos de ter aquele sentimento que pensaríamos que seria eterno (thanks, God!), assistimos a filmes, revemos e relemos aquilo tudo que nos marcou, lembramos de conselhos feitos por pessoas que nos marcam como, no meu caso, o professor Juremir, que por sinal me mandou ontem um puta prefácio para o meu segundo livro que terá como tema o Jornalismo Gonzo e que será publicado, talvez, ainda nesse ano (\o/).
Mas, em meio a tudo isso, a essa espécie de fuga da realidade na literatura, no cinema, nos artigos, nas brincadeiras de criança e nas lembranças, como num filme, numa saída sem maiores pretensões, eu me deparo com a imagem que talvez mais tenha me mudado e me feito acreditar que tudo é possível (algo que sempre levei comigo, mas que é reforçado quando me deparo em uma situação como a que vivenciei esses dias). Foram poucos minutos (talvez segundos), mas que me tocaram lá no fundo: aquela imagem não me saiu da mente por praticamente nenhum instante durante os últimos dias e, enquanto eu lia, assistia a vídeos, escrevia artigos, passeava com a cachorra, brincava com as crianças, aquele brilho, aquela energia, aquela sensação de tirar o fôlego por ver o que eu vi, esteve sempre presente. E, justamente por ter tido essa experiência simples, rápida, mas marcante, de um simples encontro casual, de ver uma bela paisagem, é que bateu novamente essa vontade de sair de casa e voltar a tentar conhecer e entender o desconhecido. Como escreveu o personagem do livro que estou lendo: “Antes desta viagem, eu tinha respostas para tudo, agora não sei mais nada; só tenho perguntas”. E é essa sensação que essa bela imagem que ficou gravada em minha mente causa quando penso nela: eu não sei nada sobre tudo aquilo que eu pensava que sabia.
É algo único. Mágico. Inesquecível. Para tentar entender o incompreensível, uma dose de álcool pode ser útil, como diria o velho Buk. Portanto, garçom, traga uma caipirinha, afinal, eu amo caipira!

sábado, 24 de junho de 2017

A garota de azul

Era um meio de tarde de um dia de semana qualquer. Era horário de trabalho. As pessoas corriam a pé ou de carro de um lado para o outro, preocupadíssimas com seus compromissos diários intransferíveis: contas para pagar, reuniões cansativas, cobranças para fazer, desculpas para inventar ao chefe ou à esposa chata pelos minutos atrasados. E eu estava ali, sentado de frente para a garota de azul, bebericando minha cerveja. As outras três garotas que estavam com ela, não me interessavam. Na verdade, nem sei como eram, pois meus olhos estavam todos voltados para a garota de azul. Lá dentro do bar, meia dúzia de caras com cara de mau jogavam sinuca. Volta e meia um deles cutucava o outro e apontava para a mesa ocupada por quatro garotas. E uma delas, era a garota de azul. A única que me interessava.
Ela não me olhava. Nem precisava. Eu olhava por nós dois. Ela conversava com as outras e eu não ouvia as palavras, apenas observava a sua pele branca, o cabelo negro e a blusa azul. Eu viajava no som de sua voz que chegava quase inaudível aos meus ouvidos, dançava mentalmente com ela em um salão de festas fitando os seus olhos verdes que, naquele momento, não estavam nem aí pra mim. Da minha mesa eu apenas observava enquanto sonhava acordado. Eram três da tarde de um dia de semana. Eu deveria estar no meu escritório, preocupado como todo mundo, pensando de onde vou tirar dinheiro para fechar o orçamento do mês, apoquentado com as pensões das duas ex-mulheres, mães de meus dois filhos. Eu deveria estar preocupado com a minha avó, internada na UTI há uma semana. Deveria estar de luto pelo Banzé, meu único companheiro desde que me separei da última vez e que foi para o céu dos caninos há duas semanas. Deveria estar respondendo as mensagens das outras garotas, as de vermelho, branco, amarelo e verde, que apareceram na minha vida desde o último divórcio. Mas eu não gosto de vermelho, branco, amarelo e verde. Eu gosto de azul. E aquela garota na mesa em frente à minha estava de azul. E ela fica absolutamente perfeita de azul. Fico imaginando o que ela pensa, o que ela faz, do que ela gosta, o que ela já viveu, qual foi a melhor viagem de sua vida, quais são seus sonhos, se ela conseguiria enxergar que eu posso ser bem mais do que um cara comum sentado numa mesa de bar num dia de semana qualquer no horário do expediente. Penso nisso tudo enquanto a observo. Ela ri. Seu sorriso é lindo. Apaixonante. Uma das garotas fala e fala e fala e ela fica observando a sujeita com testa semi franzida. Como eu gostaria de ver aquele rosto me olhando com aquela expressão. Talvez se eu levantasse e perguntasse qualquer coisa banal, do tipo: “Hey, garota de azul, vamos sair daqui, esquecer essas pessoas, colocar meia dúzia de roupas numa mochila e cair na estrada pela América Latina? Eu até conheço um hostel legal perto de Macho Picho, acho que você iria gostar e...”. Não, ela não tem jeito de ser aventureira. Minhas duas últimas esposas também não eram. Tive que optar: ou viver a vida ou viver para elas. Escolhi viver a vida. Mas, não sei por que, a garota de azul parece me entender. Seus olhos transmitem uma sensação de liberdade, de paz, de ficar bem, de amar e ser amado sem cobranças... Como se fosse possível.... Olhando para ela, penso que tudo é possível... Só posso estar ficando louco...
Acaba a cerveja, peço mais uma. Elas seguem conversando. Bebem Coca Cola. Minhas duas últimas ex também não bebiam bebida alcoolica. Mas a garota de azul me da uma espiada, como se quisesse um gole da minha cerveja. Seu olhar dura 2,2 segundos. É o suficiente para entender: é o tipo de garota que procura muito mais do que um rostinho bonito ou um cara que anda de carro importado e telefone celular, como diria o Chorão... É o tipo de garota que sabe o que quer, que pode não aceitar um copo de cerveja num bar como aquele, mas que topa tomar um bom vinho viajando com um mochilão nas costas na beira da Cordilheira dos Andes. É a garota que eu sempre sonhei, mas nunca encontrei. Aliás, é a garota que eu achei que sequer existisse. Mas ela existe, e está ali, na minha frente, numa mesa de bar num dia de semana qualquer durante o horário de expediente vestindo uma blusa azul.
De repente elas se levantam. Parece que vão embora. Sinto que tenho que fazer alguma coisa, mas nada me ocorre. Estou paralisado pela beleza da garota de azul. Elas vão ao balcão pagar a conta e não me olham. Normal. Por que olhariam para um cara sentado sozinho numa mesa de bar num dia de semana no horário do expediente? Elas pagam a conta e vão embora. Eu fico olhando a garota de azul até que ela some do meu campo de visão. Tento guardar a sua imagem para sempre, mesmo sabendo que, no fundo, em alguns dias eu não terei condições de lembrar como era o seu rosto. No máximo lembrarei da blusa e dos cabelos negros. Um nó invade meu peito, pois sei que terei que voltar para as garotas de amarelo, verde, roxo, lilás, rosa, preto, branco, laranja e bege. Sei que posso ter todas elas, mas eu só quero a garota de azul.
Duas semanas se passam, até que vou pegar o ônibus da minha cidade para a fronteira com a Argentina. Vou começar um mochilão de dois meses por aí, sem rumo. Na minha mente, não observo as blusas multicoloridas das outras garotas, pois penso apenas na garota da blusa azul. O ônibus anda e, após algumas horas, para na rodoviária de uma cidadezinha qualquer. Meu coração quase para quando vejo ela, a garota de azul, entrar no mesmo ônibus. E com apenas uma mochila nas costas. Sorrio ao ver ela passar sem me olhar e concluo: sim, ela é a garota da minha vida. Para a minha sorte, dessa vez também estou vestindo uma blusa azul.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Vida e morte

Na última semana, quando estava indo de Frederico Westphalen, no norte do Rio Grande do Sul, para Pelotas, no sul do estado, tive duas experiências na mesma viagem que me deixaram pensando na vida e na morte. São coisas banais, que vezemquando a gente pensa, mas que quando menos esperamos resolvem aparecer diante dos nossos olhos para mostrar: hey, babaca, não é só teoria não! Isso também é prática!
Primeiro, eu já tinha passado da metade do caminho e estava ouvindo uma música qualquer no rádio, cantando, batucando com as mãos no volante, feliz da vida, pois o sol havia aparecido e a minha vida parecia perfeita. Eu olhava para os lados, olhando a “paisagem” em volta. Aquele caminhão com uma porta preta gigante na minha frente e uma barra de ferro vermelho e branca era só mais um trambolho em cinquenta rodas entre tantos que já estava acostumado a ultrapassar viajando por aí. Eu REALMENTE estava distraído e feliz. E nesse momento de distração que, de uma hora para a outra, a minha vida quase se encerrou. Numa fração de segundos, eu via aquele caminhão absolutamente parado na minha frente, derrapando para o acostamento. Por reflexo, desviei dele, mas, para isso, entrei na contramão. Atravessei a outra pista e derrapei num barranco, quase caindo para baixo, obviamente, pois seria difícil cair pra cima.. Enfim... O susto foi grande. Fiquei quase uma hora parado. O cara do caminhão na minha frente bateu na traseira de outro caminhão. E o motorista do primeiro disse que freou repentinamente para não bater em um carro, que como não foi atingido, seguiu viagem tranquilamente.
Bom, vamos às possibilidades, que seriam normais, se tivessem acontecido. Primeiro, e mais óbvio, seria na hora em que entrei na contramão vir um carro ou um caminhão e bater de frente no meu carro. Difícil imaginar o que aconteceria, mas é bem possível que não estaria aqui, agora, digitando essas linhas. Segundo, eu poderia estar olhando para o lado e ter parado literalmente embaixo daquele caminhão. Também seria difícil escapar. Terceiro, eu poderia ter virado no barranco. Nesse caso, acho que até escaparia. Acabou acontecendo o menos pior: apenas bati de leve na ponta do caminhão, amassando um pouco o carro. Eu, particularmente, saí ileso.
Respirei fundo, tentei assimilar tudo aquilo, e segui viagem. Já havia escurecido, eu recém havia passado por um pedágio (se não me engano, em Canguçu), não tinha nenhum outro carro ou caminhão por perto, e acelerei, pois não via a hora de chegar. Estava a uns 110 ou 120 km/h quando, de repente, vejo sair do matagal um gato. Não deu tempo de nada, só de pensar “não corre, filho da puta. Fica aí, fica aí, fica aí... Putamerda”. Lastimei, mas não pude fazer absolutamente nada. Apenas senti um “blupt” no pneu dianteiro. Fiquei mal. Porra! Há poucos momentos tive muita sorte. Sei lá se foi o destino ou o acaso que me salvou, mas tudo o que sobrou pra mim, faltou praquele pobre bichano.
Ele estava no lugar errado, na hora errada. Foi cruzar a rodovia justamente no momento em que eu passava. Isso poderia ter acontecido comigo, se um caminhão viesse na contramão na hora em que mudei de pista para não bater no outro, que freava repentinamente na minha frente... Por que eu tive essa sorte e o gato não? E se fosse uma gata, que estava procurando comida para seus gatinhos pequenos? E se esse gato tivesse tido um dia super feliz, como o que eu tive? Se ele tivesse deixado a sua gata em casa e, voltando para o seu canto, teve que cruzar a pista justamente na hora em que eu passava? A pobre gata pode estar esperando o amado bichano até agora... Difícil entender...
É complicado processar o que acontece na nossa vida, inclusive o fim dela, a morte. Até agora não assimilei a perda do meu amigo e colega Wesley Grijó, que partiu na sexta-feira da mesma semana dessa viagem. Por que ele, e não outro? Não vou (até porque nem posso) tentar responder a essa pergunta. Mas, futuramente, pretendo escrever um texto sobre ele, que em pouco tempo encantou a todos com quem ele teve um pouco mais de contato, com sua inteligência e humor sutil e, por vezes, cínico-realista. Aprendi muito com ele em pouco tempo. Pena que não teve a mesma sorte que eu tive, pois sorte é a única palavra que justifica o fato de eu estar aqui, escrevendo essas linhas agora.

sábado, 3 de junho de 2017

Uma dose de loucura


Some may never live
But the crazy never die
Alguém talvez nunca viva
Mas o louco nunca morre

Diz o quadro que está
Acima da minha cabeça
Não sei se sou louco o suficiente
Para nunca morrer
Às vezes gostaria de ser só um pouco
Mais louco do que tento ser

Contudo, há pessoas que ainda conseguem
Puxar-me de volta para a terra
Para a realidade
Nua e crua
Triste e fria
Solitária e vazia

Então eu grito:
Não, deixem-me flutuar
Deixem-me acreditar no impossível
Sonhar com o improvável
Desejar o intocável

Deixem-me voar por ai
Sendo mais um louco
A cantar pelos bares e praças
A dançar na chuva agarrado
Às patas dianteiras de um cão de rua
A gritar para dizer que é bom

É bom ser louco
E eterno
Mas não sou louco o suficiente
Para ser tão bom quanto
Um morto imortal

Preciso só de mais uma dose de insanidade
Para me desprender de tudo o que me faz mal
Que me deixaria eternamente terno
E que talvez me faria
Sentir o gozo infinito
Daqueles que não sofrem
Por serem loucos