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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Mais que demais

Todos os dias, na mesma hora, quando chegava o final de tarde e eu deixava o escritório, ouvia aquelas músicas que vinham da janela do segundo andar ao fundo de um prédio azul e branco localizado no centro de uma cidade qualquer. A primeira música que ouvi, fui descobrir depois, era La Camisa Negra. “Tengo la camisa negra. Hoy mi amor esta de luto. Hoy tengo en el alma una pena. Y es por culpa de tu embrujo”. Era impossível não prestar atenção naquela música que mesclava um estilo caribenho com bandinha alemã. Com aquele som alto, imaginava que havia algum tipo de festa por lá, um happy hour secreto e badalado ao mesmo tempo. No segundo dia, ouvi “Despacito” pela primeira vez. Semanas depois, essa música viraria hit e tocaria em todas as rádios e canais fechados especializados em música pop. “Uma caribenha”, pensei. Mas, no terceiro dia, Mallu Magalhães mandava o recado: “Você não presta”. E a vontade de sair dançando pela rua desajeitadamente, num desejo reservadamente gaúcho de ser carioca, tomou conta do meu corpo. Comecei a desacelerar o passo toda a vez em que passava na frente daquele prédio, só para curtir as músicas que vinham de lá, daquele fundo. Até fiz o teste de passar por ali em outros horários ou nos finais de semana. Mas, nesses casos, só encontrei o silêncio.
Numa segunda-feira Lord Huron cantava “The Night We Met”. Na terça, “Shape of you”, de Ed Sheeran. Na quarta, deu vontade de entrar no prédio, bater na porta, e tirar a pessoa do outro lado “da mesma” para dançar no meio da sala no embalo de Vance Joy, com Riptide. Na quinta, confesso que cheguei a ficar parado na entrada do corredor que leva para a garagem do prédio, que não tem nenhum portão, e que me permitiu ficar escorado na parede ouvindo Entrelaços, de Scalene.
Fiquei olhando pela janela de onde vinha a música e apenas vi uma sombra, que quase desaparecia com o pôr do sol, mas que revelava cabelos lisos e um corpo feminino solitário dentro do apartamento.
Um dia um cliente chegou perto das seis. Fiquei tenso, não queria perder a música da sexta-feira. Nervosamente, perdi um ótimo negócio, despachando o sujeito para um ex-colega meu, que me contou posteriormente que ganhou uma boa grana com ele. Foda-se, naquele dia tocou Love Someone, de Jason Mraz. Já estava me acostumando a ficar naquele horário na entrada da garagem ouvindo as músicas que saíam da janela lá do fundo. Vezemquando um carro chegava ou saia, mas ninguém dava muita bola para a minha presença. Apenas uma vez uma senhorinha de cabelos brancos pensou que eu estava passando mal e perguntou se eu precisava de ajuda. Eu respondi que não e ela entrou prédio adentro, desconfiada. Na outra semana, cada dia tocava uma música do Holzier: Work Song, Someone New, From Eden... Quando pensei que a moça era muito internacionalizada, ela colocou “Fica”, de Anavitória com Matheus & Kauan. Fazia mais de um mês que eu seguia essa rotina de final de tarde, de segunda à sexta-feira. De vez em quando eu via por alguns segundos aquela sombra dançante, e noutras, sendo levemente mais ousado, tentei me aproximar da janela, para ouvir mais a música e menos o som das gotas de água que despencavam com toda a força no meu guarda-chuva. Um dia o som estava mais baixo, e cheguei a ir até a porta de entrada do prédio para ouvir Long Drive, de Jason Mraz.
Mas o dia que nunca vou esquecer foi aquele em que tocava uma música qualquer, que sequer consigo lembrar, pois foi abafada pelos latidos daquele cachorro. Ele era peludo, me fez lembrar o velho Pingo, o meu cachorro favorito, que ganhei quando tinha cinco anos e morreu 16 anos depois.
Era baixinho, patas curtas, pelos longos, marrom claro com preto e orelhas pontudas. Quando cheguei ao portão ele começou a latir e a correr em direção a porta de entrada, como se quisesse me mostrar algo. Por instinto, resolvi segui-lo. Paramos na frente da porta de entrada do prédio. Ele passou a latir mais forte e a abanar o rabo. “Deve ser de alguém do prédio e ficou para fora”, pensei. Vi que alguém descia as escadas. Só podia ser o dono ou a dona. O cachorrinho colocou as duas patas nas minhas coxas, pedindo carinho. Acariciei a cabeça dele. Quando olhei para a porta, suspendi a respiração por um tempo ao ver aqueles olhos verdes e curiosos me fitando:
- Olá – disse ela.
Demorei para colocar o cérebro à processar novamente.
- Olá – respondi, quase sem fôlego – É seu?
Ela sorriu. E no seu sorriso, no seu olhar, no seu gesto, eu reconheci quem ela era: a moça do apartamento dos fundos de onde vinham todas aquelas músicas. Aliás, naquele momento “Nobody knows” de The Lumieers começava a tocar.
- Não... Não é meu...
Perdi a voz. Não sabia o que falar. Nem precisava, ela falava por nós:
- Faz dias que ele vem aqui. Fica na garagem um tempo, e vai embora.
Fitei o cachorro, que me respondeu com olhar cúmplice. Estava de língua de fora, com cara de feliz, abanando o rabo.
- Desci porque essa foi a primeira vez que ele latiu – confessou, com um leve sorriso no rosto.
Eu estava totalmente hipnotizado: seus olhos verdes, seus cabelos negros, combinando com a pele branca, seu sorriso envolvente, sua voz sedutora e o gosto musical, revelado todos os dias na mesma hora, me deixaram completamente desarmados. Apontei para a janela e arrisquei:
- É você que mora... lá?
- Sim, sou eu. Por quê?
- Nada não. Gosto dessa música.
Ela sorriu. O cachorro latiu. Acariciamos a sua cabeça ao mesmo tempo.
- Bom, se você não é a dona do cachorro, nem eu...
Ela jogou o cabelo para trás da orelha esquerda, fitou meus olhos, e sorriu, antes de dizer:
- Ele fica aqui um tempo e vai embora... Nem esquenta...
- Acho que entendo ele perfeitamente.
- Entende?
O cachorro, percebendo que um dialogo mais extenso começava, sentou-se e ficou ali, esperando. Depois de alguns longos minutos de conversa, despedi-me. O cachorro latiu, também dizendo um “até logo”. Ele me seguiu até em casa e não pude deixar de convidá-lo a entrar. No dia seguinte, saí do escritório mais cedo para pegar o cachorro em casa para me acompanhar, afinal, ele também adorava as músicas dela. E, tão acostumado que estava, escorei-me no muro e fiquei ouvindo, dessa vez, “Mexeu comigo”, de Tiê. Quando ela cantou a última frase “você veio e mexeu comigo” eu olhei para a janela. E ela estava lá, me olhando e sorrindo. Ela também veio e mexeu demais comigo. Mais do que demais.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sobre literatura, amor e preconceito

Sempre tentei ser um cara sem preconceitos. No sentido mais amplo do termo. E uma das formas de preconceito mais difíceis de serem evitadas é o preconceito cultural. Mas hoje vou falar de literatura. E, por ser uma das áreas culturais em que mergulho mais a fundo, também tenho meus dilemas. Lembro-me de uma vez em que em uma aula do mestrado eu comentei algo relacionado ao Charles Bukowski e um colega meu torceu o nariz e disse: “ai você está apelando”, no sentido de que a literatura dele é uma literatura menor ou de baixa qualidade. Como eu era um novato, acabei ficando na minha. Se fosse hoje o papo seria diferente.
Porém, confesso que tenho alguns preconceitos culturais. Mesmo tentando evita-los. Hoje vou ficar apenas na questão da literatura. Uma vez ganhei um livro de autoajuda em um amigo secreto, do Augusto Cury. Eu tinha o maior preconceito com livros de autoajuda. Mas li. E gostei. Fiquei com a expressão: e não é que funciona? Outra vez li o Quem mexeu no meu queijo, emprestado do meu irmão. Também gostei. Dei para o meu pai de dia dos pais, certa vez, Pai Rico, Pai Pobre. Também gostei. Então, aos poucos, meu preconceito com livros de autoajuda quase que terminou, apesar de que tem alguns que são muito apelativos, ou seja, não é porque eu gostei de alguns é que vou gostar de todos, bem como não é porque gosto de Jack Keorouac que adoro toda a obra dele: tem alguns abacaxis no meio da miscelânea.
Agora sim, chegamos ao ponto: também tinha (e ainda tenho, de certa forma) preconceito com best sellers. Se na capa do livro diz algo como “mais do que 90 milhões de livros vendidos”, o sinal de alerta começa a piscar em meu cérebro. E, nessa semana, acabei de ler um livro que é best seller e que tem exatamente essa frase escrita na capa. Confesso que, se não fosse uma dica de alguém que eu confio muito nos seus gostos culturais, eu nunca teria lido. Mas li e gostei.
Trata-se de Uma Longa Jornada, de Nicholas Sparks. O cara é um autor de romances no sentido clássico do termo, ou seja, histórias de amor. E, confesso, o cara é bom nisso. Ou seja, ele é bom no que está se propondo a fazer. Apesar de serem facilmente identificadas algumas técnicas narrativas e de enredo (aquelas consagradas nos folhetins, no cinema e na telenovela) a história é boa e envolvente. Além disso, tem um “quê” de autoajuda voltado para o campo amoroso. Uma das técnicas utilizadas é a clássica da narrativa de ficção de se colocar o herói numa situação irreversível, fazendo o leitor crer que não vai dar certo, mas então, com uma onda de coincidências e de intervenções do destino, o impossível acontece. E, mesmo você sabendo que o autor está jogando com isso, mesmo já tendo adivinhado por antecedência o que aconteceria, você sente um prazer, e até certo alívio, ao ver que as coisas terminaram bem.
Agora, no entanto, deixamos a forma de lado para falar sobre o que interessa: o conteúdo. Essa é uma história de amor. Aliás, duas, que se relacionam, se cruzam e se encontram. Mas, como diria a pessoa que me indicou o livro, é uma história de amor verdadeiro, não aquele tão comum hoje em dia, de pura brincadeira entre duas pessoas que se relacionam ou se envolvem tendo o sexo, o interesse financeiro, o status e outros elementos mais superficiais como interesse. Em resumo, são histórias que representariam o que hoje é exceção. Ou melhor, que representa um sentimento que muitos poucos realmente acreditam existir: o amor romântico entre duas pessoas. Mas são histórias tão encantadoras que, como eu disse, tornam o livro quase uma autoajuda do amor, porque você termina de ler e fica pensando: caralho, não é tão difícil quanto parece. Claro, a palavra “difícil” na verdade – como acontece com os personagens – está presente na história (que como o nome do livro diz, é uma longa jornada), mas o sentimento, o companheirismo, a mútua compreensão, a parceria, a atração e tudo o mais acabam ficando acima das dificuldades, por pior que elas venham a ser.
Bom, chega de enrolação que agora vou dar uma de estraga prazer para esmiuçar a história (se você pretende ler o livro sem querer saber nada do que acontece, pare por aqui).
O romance conta a história de dois casais: Ira, 91 anos, é viúvo de sua esposa Ruth. A história deles é contada de maneira intercalada com a de Luke e Sophia, de vinte e poucos anos, que estão começando um namoro. As duas histórias apenas se encontram ao final do livro. Ira sofre um acidente e fica preso dentro do carro. Então, ao longo do romance ele dialoga com a esposa falecida, Ruth, que aparece ao seu lado. O casal vai lembrando dos momentos bons, dos difíceis, das emoções, enfim, da vida que viveram juntos desde que se conheceram. Luke e Sophia, por sua vez, se conhecem a partir de uma confusão em um rodeio em que Luke estava montando e Sophia briga com o então namorado, Brian. Luke intervém e, a partir dali, começam a se envolver. Há todo o drama de um relacionamento que se inicia: Brian ainda a persegue e começa a namorar a melhor amiga de Sophia, Luke encontra-se em dificuldades financeiras e têm, juntamente com a mãe, uma dívida gigantesca que resultará na perda da fazenda deles, etc. Em síntese, são duas pessoas diferentes com destinos diferentes, pois enquanto Sophia é de New Jersey (ou seja, é uma criatura totalmente urbana) e estuda Artes, Luke é um peão de rodeio e mora em uma fazenda na Carolina do Norte. Sinceramente, quando li, pensei: “conheço essa história, não tem como duas pessoas totalmente diferentes darem certo”. Até porque, Luke não quer sair da fazenda e Sophia sonha em trabalhar em um grande museu em Nova York ou Denver. Já a história de Ira e Ruth é mais clássica (e mais fácil de encontrar uma parecida entre os idosos que ficaram casados a vida inteira que você conhece): eles são do período pré-Segunda Guerra Mundial, se conheceram, casaram-se e viveram uma vida juntos. Até ai tudo bem. A novidade da história é que eles realmente se amaram até o fim da vida. O romantismo entre o casal ultrapassa a questão temporal e as declarações de amor vão cruzando as décadas, conforme Ira vai dialogando com a esposa morta dentro do veículo acidentado. Por exemplo, ele comenta sobre como era encará-la no início do namoro: “Você era a garota mais bonita que eu já tinha visto. Era como tentar olhar para o sol”. Em outro trecho, ele comenta uma das regras para a vida que o pai dele tinha lhe passado. Eu até marquei no texto, pois essa é uma boa dica para quem tem filho homem: “casar com uma mulher mais inteligente que você”. Hoje considero isso muito importante e vou passar a aconselhar os mais novos que pretendem se casar.
Entretanto, o principal ponto da história entre Luke e Sophia, a meu ver, é que era um negócio que não era para acontecer. Justamente por serem diferentes e terem destinos opostos. E, apesar de serem diferentes, eles eram relativamente parecidos. Complexo não? É que apesar de serem de mundos diferentes, eles tinham uma forma de ver o mundo e personalidades semelhantes. E isso talvez seja o principal. Muitas vezes são duas pessoas do mesmo mundo (agrário, acadêmico, profissional, econômico, etc) mas com visões de vida completamente opostas. E, outras vezes, como foi o caso, eles eram de mundos diferentes, mas com perspectivas semelhantes. Mesmo assim, havia a questão da logística: Sophia se formaria e iria embora. Luke não queria deixar a mãe sozinha na fazenda. E essa falta de perspectiva futura atormentava os dois: eles se amavam, se queriam, gostavam um do outro, mas a logística era toda contra. É nesses momentos que a emoção supera a razão. E, penso eu, isso às vezes funciona e às vezes não. Tudo depende de tudo.
Bom, a essa altura, você, imaginário leitor, deve ter percebido que não estou indo para lugar nenhum. Então, volto para a história para resumir o restante do romance: ao final, Luke e Sophia encontram Ira, que já estava há alguns dias preso no carro, e chamam socorro. Eles têm um encontro rápido com Ira no quarto do hospital, onde ele pede para Sophia ler uma carta que ele escreveu para Ruth. Aliás, ia esquecendo um ponto importante: Ruth também era professora e admiradora de arte. Ao longo da vida, ela e Ira (que não entendia patavinas de arte) compraram várias obras que passaram a valer milhões. Mas eles não ligavam para o valor financeiro das obras. Como eles não tiveram filhos ao longo da vida, Ira deixou um testamento com um critério especial para os compradores. Agora, esse é realmente o finalzinho da história, e o que aconteceu eu não vou contar. Aliás, há várias historinhas paralelas dentro da história ampla, mas que cada uma delas renderia um texto a parte, então, vou parando por aqui.
O único ponto a mais que destacaria é que, apesar do livro pegar o caso de casais tradicionais, ou seja, um homem e uma mulher de 90 anos que passaram a vida juntos e um jovem casal bonito e interessante, fiquei pensando que, sim, o amor é possível (pode me chamar de idiota, imaginário leitor), mas que ele não precisa obrigatoriamente acontecer entre duas pessoas perfeitas.
Nos dois casos, são jovens que começam a namorar e passam a vida juntos (o primeiro casal já passou, e o segundo está iniciando, mas dá a entender que eles também passaram a vida juntos). Infelizmente a vida não é tão lógica assim e penso que pode haver um amor verdadeiro, por exemplo, entre dois idosos que se encontraram já ao fim da vida, ou entre duas pessoas com diferenças de idade, ou entre uma pessoa magra e um obeso, ou entre duas pessoas do mesmo sexo, ou entre duas pessoas de meia idade que já se decepcionaram bastante na vida, ou entre um negro e um branco, ou entre um índio e um ruivo, ou entre um rico e um pobre, ou entre um cachorro e um gato... Enfim, agora sim, concluindo, penso que o amor pode existir, sim, mas que nem sempre ele precisa seguir esse padrão hollywoodiano de dois personagens perfeitos que se amam e ficam juntos para sempre. Também creio que é possível se amar mais de uma vez na vida e que só o tempo pode dizer o prazo de valide de um amor, que a meu ver pode durar uma semana ou uma vida inteira. Como eu disse antes, tudo depende de tudo. Ou seja, algumas coisas não são possíveis, mas nada é impossível. Complexo, não? Então, deixe a complexidade de lado e viva cada amor verdadeiro como se fosse o último, afinal, quem sabe ele não se torne único.


PS: as fotos dos casais são do filme, que ainda não assisti.

sábado, 6 de maio de 2017

Doce fumaça

A fumaça que vejo
Vem de trás das torres
Partem de uma xícara de café
Que chama subitamente
Para mergulhar em olhos acidamente doces
Fazendo o coração viajar longe
Flutuando lepidamente
Até a sacada da moça do sorriso fácil
Das bochechas ruborizadas que tanto encantam
Que fazem sucumbir ao desejo que antes se tentava evitar
Mas que diante da magia da sua companhia
E do calor do beijo macio e áspero
Deixa os lábios e o coração totalmente desarmados
As mãos que se tocam
A lividez das peles que se encostam
As carícias e a dádiva súdita do desejo
Que não pode mais ser calado
Faz com que toda a noite a solidão inevitável
Torne o desejo cada vez mais crescente
Pela companhia da menina de olhos profundos
Deitada apaixonadamente ao lado
Inspirando e levando a suspiros e beijos tétricos
Que fazem um coração apaixonado viajar cada vez mais
Da sacada na noite de lua cheia, embarcando nas nuvens da fumaça da xícara de café
Até o paraíso das palavras ditas pelos olhares
De dois corpos que ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo
Fazendo com que uma noite fria de um mês qualquer
Deixe as marcas com todos os álibis
Que justificam o sentimento mais puro
De se querer cada vez mais
O beijo que não vem da boca
E aquela companhia com uma boa dose de cafeína
Que tem o gosto mais doce do que brigadeiro
Pois tem o sabor inconfundível
Daquele sentimento que você conhece
Mas que temos medo de pronunciar
Aquela afeição que está contigo
No gosto dos seus lábios
E na doce fumaça que me chama
Nas noites frias em que passo na sacada
A olhar as estrelas e a pensar em ti
Minha doce fumaça
Fumaça que confundiu meu corpo
E trocou o pulmão pelo coração.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Have a good trip, Fronza Brother!

Depois de uma séria discussão com Dudu Fronza, o Fronza Brother do grande Ronaldo Fronza Júnior, aceitei (por intervenção do Ronaldo) publicar o texto que se segue:

Escrevi esse texto após uma discussão com o Mr. Ritter, pseudo dono desse blog. Eu mandei um texto meloso e ele me retornou dizendo, de forma educada – quase acadêmica - algo como: “porra, xará, assim não dá mais! Isso aqui tá virando novela das nove, novela mexicana, música sertaneja, o caralho! Mais um texto desses e será o último!”. Parece um membro da família Ochs dando mijada em jornalista do New York Times ou algum descendente de Assis Chateaubriand achando que ainda manda no Correio Braziliense. Confesso que fiquei ofendido com o Mr. Ritter, que disse cagar e andar para o que eu penso ou sinto. Ainda fez uma das coisas que mais odeio, comparou-me ao meu irmão: “Porra, nem parece irmão do Ronaldo! Ele sim, leva jeito para escrever para o blog, mas nunca quer, aquele grandíssimo filho da puta”. Ok. Então, combinei com o Mr. Ritter o seguinte: esse será o meu último texto, a minha última contribuição para esse espaço. (Até parece que ouço a voz do larápio falando “contribuição? Só se for para esse lugar ficar mais às moscas do que já está!”).
Vou escrever esse último texto para falar de coisas boas. Para falar de você. Para falar do quanto eu gosto de você. Do quanto eu gosto de falar com você, de ver você, de pensar em você e de escrever sobre você. Deve ser por isso, aliás, que você ficou de saco cheio - quase tão cheio quanto o do Mr. Ritter. Da última vez em que conversamos falei várias coisas sem sentido, que não valeria a pena comentar ou tentar explicar – do tipo, “vou abandonar o meu gato para ficar com você, afinal você tem alergia a pelos de animais. Mas uma coisa em especial, dentre as várias que você me disse, fez com que eu brigasse com o Mr. Ritter para publicar esse último texto. Foi algo como “eu ainda não sei o que você viu em mim”. Pensando nas coisas que vi em você, eu poderia escrever uma música e mandar para o pessoal do Kings of Leon gravar em inglês e fazer um clipe que seria o maior sucesso musical do século. Poderia escrever um livro de poesias que voltaria a colocar o gênero na lista de best sellers assim como acontecia quando Vinícius de Moraes se inspirava nas suas deusas gaúchas, cariocas e paulistas, em Copacabana, Ipanema e Leblon (nenhuma chegava aos seus pés), nos bons tempos em que palavras e sentimentos eram valorizados. Poderia escrever um romance de ficção em que eu seria o Dom Quixote e você a minha doce e linda Dulcineia del Toboso. Aliás, até poderia dizer que você é a minha Dulcineia, no entanto, a diferença entre você e a musa do Dom Quixote é que você é exatamente como eu te enxergo, enquanto a do Dom Quixote é apenas fruto da imaginação dele... Mas já enrolei demais, e antes que o impaciente Mr. Ritter corte esse texto ou desista de publicá-lo, vou explicar aquilo que você ainda não sabe.
Se não estou enganado, no dia em que conversamos sobre isso eu falei algo como aquela letra do Deixa em off, “eu sei que não era pra gente se envolver, que não era pra gente se encontrar, mas esse amor bandido não posso evitar”. E completei dizendo que no início eu não tive a intenção de me encantar tanto por você, mas foi acontecendo e que eu não entendia o motivo daquilo. Então, você concordou, dizendo a tal frase: “sinceramente, eu também não sei o que você viu em mim”. Agora, quando decidi escrever esse último texto, eu vi tudo claramente. Pois o que vi em você só está em você e em mais ninguém.
Primeiro, vi teus olhos lindos (compará-los aos olhos da Capitu faria com que o Mr. Ritter caísse duro ao ler essas linhas, então, vou poupar você e ele desse clichê horrível). Mas, sim, vi teus olhos e viajei neles. Voltei para os lugares mais maravilhosos pelas quais já passei.
Senti a brisa do mar das praias mais paradisíacas que já conheci (roubei essa foto do arquivo do Mr. Ritter). O clima quente nas areias finas e claras do Atlântico e as rochas formadas pela violência das ondas do litoral frio e belo da Califórnia no Pacífico. Olhando teus olhos fiquei curioso para entender o que mais se passa por trás deles, o que torna esse teu olhar tão profundo e tão encantador. E, quanto mais nossos olhares se encontravam, mais os seus olhos atraíam os meus e mais vontade eu tinha de fitar eles. É como ver o firework do 4 de julho em Los Angeles. Você sempre vai querer mais. Porque é belo, é magnífico, é grandioso e esplendido.
Segundo, vi seu sorriso. Impossível não se encantar. E tenho certeza que não fui o primeiro nem o único e nem o último. Seu sorriso, combinado com o seu olhar e com a sua boca linda, são mais belos do que todas as palavras que eu possa escrever para tentar defini-los. Seu sorriso é contagiante. Vendo você sorrir, tenho vontade de sorrir também. Meu coração acelera e fico me sentindo um moleque, o personagem de um romance de Mark Twain, que quando via as meninas da escola se aproximando começava a fazer palhaçadas e a plantar bananeira para chamar a atenção delas e fazê-las rir. E digo bobagens com tanta facilidade quando você está diante de mim, sorrindo, porque o seu sorriso simplesmente me inspira e me traz as energias mais positivas possíveis. E você nem sabe, mas você tem vários tipos de sorrisos, e é difícil de escolher qual é o mais belo. Tem a gargalhada, que é quando faço uma piada infame – geralmente relacionada a alguém que conhecemos. Tem o sorriso simpático, que normalmente você faz quando nos encontramos, antes dos cumprimentos. Tem o sorriso nervoso acompanhado do rosto levemente avermelhado, que é quando te faço um elogio.
Tem o riso de boca fechada, que é quando falo algo que não é muito humorístico mas que você concorda por acompanhar meu raciocínio. E tem o riso irônico, que é quando eu te faço qualquer tipo de cobrança, então, você dá uma risadinha e depois solta algo como “engraçadinho”. E, quando isso acontece, sei que na sequência vem algo como chumbo grosso (ainda bem que é chumbo, e não pólvora, aliás, nada do que vem de você me faz sentir mal ou incomodado). E tem o riso escondido por trás de outros sentimentos, como aquele, que está no fundo da sua expressão naquela foto em que você está com a testa franzida e olhar bravo. Eu posso estar cobrindo a guerra da Síria ou passando frio na Patagônia que, sempre que ver essa foto, vou sorrir e um nó de saudades desse breve e bom tempo tomará conta do meu peito.
Além do olhar e do sorriso, há os seus pensamentos. O que vou te dizer agora é um elogio, e não uma crítica: você é incoerente e confusa. E eu me perco nessa incoerência e nessa confusão. Mas eu enxergo isso. E tenho mais vontade de mergulhar nesse mar de incoerências e confusões (mesmo vendo a plaquinha indicando: Perigo, tsunami), pois eu também sou exatamente assim. E os seus pensamentos resultam em conversas fantásticas e inesquecíveis (pois sei que em pouco tempo vão ficar apenas as lembranças). E também refletem-se nos seus textos, escritos para todos os que te encantam, te irritam, te fascinam, te inspiram e te desagradam. Aliás, somos seres humanos, não somos sujeitos lógicos, previsíveis ou que, como você já escreveu, tem manual de uso ou de instrução. E é incrível como as pessoas nos cobram para funcionarmos como se tivéssemos um manual! (viu só, Mr. Ritter?). E é impressionante como todos gostam de nos enquadrar em caixinhas onde há rótulos: você tomou um porre, é O BÊBADO. Você convidou alguém próximo de você para sair, então é O TARADO. Se aceitou o convite, é A PIRINHA. Fumou maconha na frente da praia com os amigos na Califórnia, é O MACONHEIRO. Levou chifre (conceito mais ultrapassado, mas enfim) durante algum relacionamento (mesmo que de uma semana), é O CORNO. Saiu para beber e conversar com amigos que são assumidamente homossexuais, então você é O VEADO ou A SAPATA. Como diria a letra do Cazuza: “te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro...”.
E acho que esses rótulos, e o medo de ser colocada em uma caixinha com um desses nomes fez com que em algum momento você quisesse me deixar dentro da caixinha na qual estou enfiado, quieto em meu canto. Ou não, vai ver eu que estou viajando e isso só faz parte da minha imaginação e da nossa incoerência e confusão. O fato é que não consigo ficar dentro dessa caixinha. Aliás, minha irmã, mãe, pai, ex-namoradas, amigos e amigas sempre me chamam a atenção para isso, e eu sempre digo que estou cagando e andando para essas caixinhas de rótulos, e elas só existem na mente das outras pessoas, não na minha. Provavelmente já te falei isso e possivelmente você não concorda comigo – você e 99% da sociedade. Mas é por isso que sou tão inquieto. E percebo que, no fundo, você também é uma pessoa totalmente inquieta. E por isso as nossas conversas são tão gostosas, tão boas que quando estou contigo eu simplesmente não vejo o tempo passar: 20 minutos, 40, uma hora, duas, quatro...? Não sei... Pode ser no às vezes irritante online, pode ser no cara a cara, os assuntos nunca terminam, bem como as perguntas que você me inspira a fazer... O Mr. Ritter deve estar se questionando: e esse texto de merda, nunca vai terminar? Ok... Provavelmente ninguém leu até aqui... E existe uma possibilidade considerável de que nem você vai chegar ao fim dele... Mas vamos lá...
Não vou entrar aqui em outras questões óbvias, como gosto musical, literário ou, de uma maneira mais ampla, cultural.
Aliás, aprendi a gostar de muitas bandas e músicos que não conhecia través de ti. Esses dias até encontrei um músico irlandês, Hozier, que eu não conhecia. Não sei se você conhece, gosta ou não, mas as músicas dele – que estava passando em um especial em um canal qualquer – fizeram eu me lembrar de você, pois elas tocam no seu ritmo, no ritmo daquelas outras músicas, que cada vez que ouço também me fazem pensar em você. Contudo, apesar dos gostos em comum, logicamente, há as diferenças. Itália x Alemanha. Hat x Mcc (os segundos têm razão). Cerveja x Skol beat. Querer x Não querer. Ônibus x Avião. Então, prefiro discutir os assuntos, mais para te provocar do que por acreditar que você vá mudar de gosto ou de opinião – aliás, a última coisa que gostaria seria mudar algo em você, pois você é perfeita do jeito que é (inclusive pelas imperfeições e incoerências).
Também não vou falar em detalhes do quanto te acho linda, do quanto a sua pele branca combina com o seu cabelo negro, do quanto a sua boca é tão apaixonante quanto o teu jeito, o teu beijo, o teu olhar e o teu sorriso, do quanto é gostoso ficar te olhando e pensando em você ouvindo uma das dezenas de músicas que aprendi a gostar com você... E gosto de te olhar mesmo que você não goste disso. E, se desvio o meu olhar do teu, se olho para o lado quando estamos no mesmo ambiente, mesmo enquanto conversamos, é porque te quero perto, mesmo sabendo que isso é impossível. Foi desviando de seu olhar que me deparei com as suas unhas de Lady Bug, sua corujinha no colar, e outros detalhes que te deixam ainda mais bela.
E, por saber que você não gosta que eu goste de você do jeito que eu gosto, e pela rabugentice do Mr. Ritter, é que resolvi escrever esse último texto. Um texto que vou guardar para sempre, pois, quem sabe, no futuro, viajando pelo mundo, possamos nos reencontrar. Ou, como diria Humberto Gessinger: “um dia desses, num desses encontros casuais... talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação...”. E, então, ao chegar em casa, surpreso por ter te encontrado, vou catar esse texto, vou relê-lo e não vou dormir pensando em você, tentando imaginar como está a sua vida,
quem conquistou teu coração, se seu conquistador não está deixando os seus pés ficarem gelados embaixo das cobertas no inverno, se ele te beija direito, se ele sabe te acariciar como você gosta e merece, se ele consegue te beijar todinha te deixando toda arrepiada de desejo, se você ainda tem os mesmos gostos, se você viajou muito desde a última vez em que nos vimos, se você também pensa em mim de vez em quando... Se você ainda acha que sou o espinho que vai estourar o balão que passa voando, livre, leve e solto diante dos meus olhos. Aquele balão que queria pegar, mas não posso, pois sou um cacto.
Mas, como tem muito tempo até lá, sem ter a perspectiva de te ver e de ouvir a sua voz por muito tempo, enfim, de ter você como minha Dulcineia del Toboso, vou fazer aquilo que mais gosto de fazer: deixar os animais com os vizinhos, vender os meus móveis, minha bicicleta e minha motocicleta, pedir demissão do emprego e cair na estrada. Afinal, como dizia o Mestre dos Magos: para se achar, primeiro é preciso se perder. E, já que não posso me perder em seu coração, vou me perder pelo mundo, que é grande demais para nos deixar encaixotados em pequenas caixas. E, andando pela estrada afora, sem levar os doces para a vovozinha, vou recitando baixinho os versos da poesia do mestre do romantismo, Vinícius de Moraes, afinal, viver algo tão bom não é para amadores, como o Mr. Ritter pensa. Para degustar isso “é preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer ‘baixo’ seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor”.
Hasta la vista, Mr. Ritter! Mandarei um cartão postal das pirâmides do Egito! E você, minha Dulcineia, se quiser me encontrar, já sabe onde procurar! Basta seguir os rastros que deixei pelo caminho. Rastros que só você tem o dom de decodificar, mas isso apenas se você quiser e for impermeável ao diz-que-diz-que que encontrará pelo meio do caminho. Não vou dizer que vou ficar te esperando porque há muitas ondas pra pegar, muito mar pra navegar, muitos ares pra cruzar, muitas multas pelas estradas pra tomar e muita gente pra conhecer e encontrar, enfim, há uma vida para ser vivida ao invés de se ficar parado no tempo e no espaço.


Mas, se você me encontrar enquanto corro por essa órbita, please, say “hello”, pois será um prazer ter a sua companhia nessa infindável viagem sem fim pelos incontáveis cantos do universo. Seja a bordo de um avião, de um elefante africano, de uma nave espacial ou de uma Kombi dos anos 70.
Agora saio de cena deixando um beijo daqueles que não vem da boca para você e um “passar bem” ao Mr. Ritter.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

In the hidden heart of Las Vegas

Participei de um concurso que concorria a uma viagem de dez dias para três países da região balcãs, na Europa. Era o 2017 World Nomads Travel Writing Scholarship in the Balkans. Foram cerca de 8.500 participantes do mundo inteiro e os três vencedores, anunciados hoje, foram: um americano, um australiano e um neo zelandês. Como durante todo o processo os concorrentes podiam ler os textos uns dos outros, eu imaginava que era praticamente impossível vencer, pois havia textos excelentes de todas as partes do mundo. Como o texto era em inglês, e estou com preguiça para traduzir para o português, publico aqui o original, que concorreu ao prêmio. PS: usei o tamanho máximo permitido pelo regulamento, pois a história seria bem maior, se fosse permitido.

On a hot dry night of June 2014, I traded five dollars in paper for five dollars in coins so I could bet on the plastic horses at the Fremont Experience casino in Las Vegas. My future depended on my luck. The money from my scholarship, which I received to study for a year at NYU, was nearly gone and I was going on a cross-country trip from San Diego to New York. The scholarship was granted to me to travel from my home in Brazil to study for a year in the US. My plan was to cross the country from East to West, from New York to California, by bus then turn around and journey back to New York by car.
By the time I got to Vegas I had spent more than I expected to spend. I imagined myself a Brazilian Bukowski. While betting, I drank the beer that was served, for free, to the bettors. I went to the casino at 8PM. When I stumbled out onto the street at 2AM, I was drunk and happy. Somehow I had managed to win over a thousand dollars. My life had been saved.
That night I lived the American dream. I was Kerouac and Hunter Thompson. I was the real Gatsby. Well, I realized I was still poor and far away from home, but I sure felt relieved. The trick to win on the horses is to keep spinning and not stay sitting in the same place. I commented about this to a 50-year-old lady with gigantic breasts. She did not believe me. She loudly murmured: Bullshit.
During this trip I left the sky to visit the bottom of the well, thinking I would have to make my passage from New York on to Brazil because I was out of money. But I completely changed my style of life as a teacher by traveling like Kerouac, immersing myself in the interior culture of the US, a culture I had only known through literature and cinema. I have now seen what the country has, both better and worse: beautiful mansions and beggars on the streets.
In Las Vegas, walking with thousands of tourists, I stopped to talk with a street musician. He had a sign that said, "I do not show up in the movies shot in Vegas."
- Do you live on the street?
- I live under the earth.
- Under the earth?
- Yes, I live in one of the hidden tunnels of the city.
I remembered that once I had read some reportage about it. Even so, I asked him:
- Why?
He laughed and indicated with open arms what was around us.
- Look around you and you will have the answer.
Even with little money, I put a five dollar bill in his pot, to which he smiled and said:
- The next one is for you.
And he played a classic: Imagine, by John Lennon.

sábado, 8 de abril de 2017

Marcas no copo plástico

Mais uma do Fronza Brother:

Marcas de batom na borda de um copo plástico
No peito euforia, abraços, riso fácil
E com desconhecidos, seguia, criando laços
Transpirava alegria era dona dos seus passos

Quando fui servir teu copo plástico branco e vi a marca de batom nele, automaticamente me veio à mente a letra da música do Maneva. Aliás, essa deve ser apenas mais uma das várias músicas ou bandas que conheci através de ti. Gosto de viajar pelo passado, presente, futuro e para outros mundos, outros planetas, outras galáxias ouvindo elas. Lembra aquela vez que estávamos todos na beira da praia – amigos, conhecidos e desconhecidos - no final de tarde, com a turma tocando violão cantando Charlie Borwn, Nenhum de Nós, Raul Seixas, Engenheiros e outras? Até Robocob Gay cantei e dancei depois que o sol deu lugar para a lua e todos conversavam e cantavam e bebiam e viviam e olhavam a quebra incessante das ondas do mar. Era quase madrugada quando metade do pessoal já tinha ido embora e fiquei ali, sentado sozinho na areia, pensando como devia ser a vida dos milhões de peixes que moram entre o nosso litoral e o litoral africano... Fiquei imaginando como deve ser a vida na África, como seria bom viajar contigo para as praias de Angola, do Marrocos, de Serra Leoa, da África do Sul... Na minha mente eu já passeava contigo em cima de um elefante quando você se sentou ao meu lado e sem dizer nada escorou a cabeça no meu ombro, agarrou o meu braço direito, e ficamos ali, sentados, olhando para o mar. Como você já me disse algumas vezes: o silêncio às vezes é bom. E não precisávamos dizer nada um ao outro, pois o mar dizia tudo para nós. Quando você encostou a sua cabeça em mim eu não cheguei sequer a estranhar. Até esqueci de seu medo de que nossos amigos descubram o que já estava rolando com nós a um bom tempo. Dessa vez, ao contrário das outras em que me insinuei na frente dos outros, você não me chamou de maluco e eu não pude rir para dizer “maluco por você”. Assim, dessa vez não rolou aquela carinha de brava, que te deixa tão linda, mas que faz lembrar a carranca sem muita brabeza que a minha mãe fazia quando eu aprontava alguma quando era pequeno... Dessa vez foi diferente. Não fomos a Mônica e o Chandler do Friends que, no início do namoro, tentavam esconder tudo do Ross (brother dela).
Afinal, não estávamos namorando. Não éramos noivos, casados, nem nada. Éramos amigos? Companheiros? Não sei, acho que um pouco de cada coisa. Como chamam isso, não importa, o fato é que aqueles minutos em que você escorou a sua cabeça em meu ombro na frente do mar foram mágicos. Eu fiquei eufórico e calmo ao mesmo tempo. Tudo ocorreu tão naturalmente que ninguém sequer lembrou de nos olhar, pois cada um estava em seu próprio mundo, cantando, dançando, bebendo, falando. Foi então que beijei a sua testa e você me olhou e sorriu. Sem dizer nada, levantou-se, pegou-me pela mão e me conduziu de volta ao grupo, onde cantamos e dançamos a noite inteira.
Ah, baby, você me faz sentir tão bem. Lembrando do seu olhar e do seu sorriso eu canto de madrugada sozinho em casa. E lembrando o nosso primeiro beijo acordo com vontade de apertar a campainha do vizinho para desejar bom dia e de beijar o português da padaria, como na música do Zeca Baleiro. Gosto de citar músicas, pois várias delas parecem terem sido escritas para descrever como você me inspira. Mas, baby, eu adoro você como você é: livre, dona dos próprios passos. Por isso você é tão linda e inspiradora: você é como o peixe do oceano, o pássaro do céu, a leoa da selva africana. E por isso deixamos tudo em off, nem eu nem você queremos os estigmas e os rótulos colocados pelos outros. Queremos algo que é só nosso. Algo que ninguém pode controlar – às vezes, nem nós mesmos.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Gonzariando o que é obrigatório

Seguidamente algum aluno me pergunta: mas afinal, o que é jornalismo gonzo? Essa é uma pergunta foda de se tentar responder, pois há definições feitas pelo próprio Hunter Thompson que não dão conta do recado. A verdade é que o jornalismo gonzo pode ser definido como a união entre a vida e o estilo de vida de Thompson com seus textos literários-jornalísticos. Ele era o que ele escrevia. Acho que consegui resumir em uma frase um dos principais lados da minha tese de doutorado. Mas, por mais que eu fale, fale, fale e fale, só tem um jeito de se descobrir o que é jornalismo gonzo: lendo os textos de Hunter Thompson da fase gonzo. E, assim, eu entro num dilema professoral-acadêmico: eu não quero obrigar ninguém a ler a obra de Thompson. Seria contraditório. O próprio Thompson odiaria essa ideia. Ele era um defensor da liberdade, de cada um definir as suas próprias regras, um questionador das leis, da moral, dos bons costumes, da sociedade, das autoridades, enfim, de tudo que ia contra a liberdade individual de cada um. Então, se eu chegasse e dissesse para meus alunos: “vocês TEM QUE LER Medo e Delírio em Las Vegas para fazer um resumo valendo 10 pontos” eu correria o risco de, ao final da tarefa, o aluno me responder: “professor, fiz o resumo, mas você não entendeu nada que esse cara quis dizer, senão você não teria dado essa tarefa como obrigação”. É complexo.
E é foda. Pois eu gostaria que todos os estudantes de jornalismo lessem ao menos um livro de Hunter Thompson. O jornalismo e o mundo seriam bem melhores se todos os jornalistas já tivessem lido (e entendido) pelo menos a ideia central da obra de Thompson (que vai além do estigma das drogas e da piração). Entretanto, fico imaginando o que teria acontecido se algum professor tivesse me obrigado a ler um livro de Hunter Thompson quando eu estava na graduação. Possivelmente aconteceria uma das alternativas abaixo:

a) Eu não leria, cataria um resumo na internet e alteraria o texto pra passar com 7,0.
b) Pediria para alguém que leu me contar a história para eu fazer um resumo.
c) Não entregaria e ficaria sem nota e odiaria Hunter Thompson e o jornalismo gonzo pelo resto da minha vida.
d) Leria de má vontade, procurando achar todos os defeitos possíveis e imagináveis, pois essa é uma obra obrigatória, e sou contra tudo o que é obrigatório.
e) Não leria e escreveria as frases mais genéricas ditas pelo professor em sala de aula e anotadas no caderno, coisas do tipo “Hunter Thompson criou o jornalismo gonzo e, lendo esta obra, podemos perceber os motivos que a fizeram ser considerada um clássico do jornalismo literário mundial...”.

Então, eu jamais teria realmente lido um livro do Hunter Thompson e, muito menos, teria feito uma tese de doutorado sobre a obra dele.
O que eu tento fazer diante desse quadro – e que geralmente funciona muito bem – é dar apenas uma amostra, sem obrigação. Tipo o vendedor que oferece uma boquinha grátis no mercado: experimenta aí, sem compromisso. E o resultado é o mesmo: alguns gostam e querem mais e outros não (e ainda pensam “que professor retardado, considerar esse maluco um grande jornalista”), e cada um segue com a sua vida (com ou sem Thompson). Sem problemas.
Mas o que eu tenho feito é mostrar um trecho do documentário Life and Word of Dr. Hunter S Thompson e dar duas ou três páginas de alguns dos textos do jornalista que deixam claras as suas características e a sua visão mundo. Seria loucura tentar falar sobre essas características nesse espaço, afinal, quem quiser pode conferir a própria tese em que falo um pouco disso...
Bom, e por que escrevi tudo isso? Vou saber eu... Ontem comecei a escrever um texto que não terminei sobre crises de abstinência e ele se tratava justamente disso: coisas que não consigo ficar muito tempo sem ter ou fazer. E duas dessas coisas são: ler e escrever, não necessariamente nessa ordem. Eu andava meio estressado, meio angustiado, aí me dei conta de que fazia alguns dias que eu não pegava o livro que estou lendo. Li umas dez páginas e me acalmei. É tipo um viciado em crack que fica muito tempo sem o produto químico em seu organismo. E, hoje, senti essa necessidade insana de escrever. Por isso, escrevi sobre Thompson e Gonzo, afinal, breve tentarei explicar mais uma vez para uma turma com 40 alunos que diabos é jornalismo gonzo. E, na próxima crise de angústia e abstinência, caso eu lembre, escreverei sobre as outras coisas das quais não vivo sem. Hasta, imaginário leitor!