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domingo, 20 de maio de 2018

Um poema bukowskiano

Eu havia
Recém publicado
O meu último
Livro

E então um amigo
Apareceu
Pedindo um exemplar
Do livro
De graça

Eu não tenho
Eu disse
Mas e quero
Ele disse
Mas eu não tenho
Eu disse
Mas por favor, eu quero
Ele disse

Então mandei ele tomar
Bem no meio
Do
Cu
E ele nunca mais falou comigo

Perdi mais um leitor
E perdi mais um amigo
Agora
Quase não tenho leitores
E também
Quase não tenho
Amigos

E foi assim
Que tudo
Aconteceu

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Sergio Vilas-Boas: jornalista, pesquisador e escritor por natureza

Como sempre deixei claro nesse espaço desde o primeiro texto, 10 anos atrás, em 2008, esse blog não tem muita lógica e muito menos pé ou cabeça. Assim, sempre misturo textos absurdos, poemas amadores, comentários pessoais, histórias fictícias e/ou autobiográficas etc. E, dessa vez, vou usá-lo para publicar a entrevista que fiz via e-mail com Sergio Vilas-Boas. O troço tudo começou quando a professora Monica Martinez (Uniso-SP) me convidou para escrever um artigo sobre Vilas-Boas para a Revista Observatório. Aceitei o desafio e juntei os livros que eu já tinha dele e encomendei os que faltavam. Depois de meses lendo e me debruçando na vida e obra de Vilas-Boas, algumas perguntas ainda ficavam em aberto. Eis, então, a entrevista (meio amadora, sem muita técnica, para desespero dos acadêmicos eruditos e metodolólogos de plantão). Já o texto na íntegra, apenas depois de publicado na revista. Independentemente de qualquer coisa, peço para que o leitor imaginário leia, pois são respostas que fazem refletirmos sobre a atual situação deste país. (também podem aproveitar o embalo para visitar o site dele - www.sergiovilasboas.com.br ou para ler os textos indicados em alguns links).

1) Em uma entrevista você comentou que no "seu tempo" os pais criavam ordenando, e não dialogando. Você tem algum texto específico em que comenta a sua infância em BH? Como você se define enquanto aluno do período escolar (anos iniciais, ensino fundamental e ensino médio)?

Texto falando disso, não tenho. Mas eu diria assim: eu era um garoto tímido e introspectivo, que aprendia com muita facilidade. Sempre estudei em escolas públicas, e o ensino era de boa qualidade (nos anos 1970). Menciono essas coisas neste texto:
http://www.sergiovilasboas.com.br/2018/04/08/senso-de-privacidade/


2) Em alguns textos você comenta superficialmente o período de graduação. Há algum outro mais específico sobre esse período? Quais eram os seus objetivos quando ingressou na profissão? Você ingressou no curso de Jornalismo com o intuito de ser escritor?


Entrei sem objetivo nenhum além do de ser escritor, embora eu nem soubesse com certeza o que era isso e como se chega “lá”. Veja o que escrevi neste link:
http://www.sergiovilasboas.com.br/2018/04/01/alumbramentos-novos/
"Antes de estudar jornalismo (depois de iniciar e abandonar três cursos - engenharia, economia e sociologia -, fui bancário, topógrafo e projetista de redes de transmissão elétrica.)” “
A partir do final do 3º me ocorreu a ideia de seguir carreira acadêmica, mas muito vagamente.

3) Você organizou o livro "Formação e informação esportiva", no entanto, não encontrei muita coisa sobre esportes escrita por você na internet. Há outras produções de fôlego nessa área? Você já foi repórter esportivo? Para que time você torce? (se for cruzeirense, receba a minha corneta da primeira rodada do Brasileirão em primeira mão pela vitória do meu Grêmio....kkkk).


Eu organizei 4 volumes para aquela coleção. Apenas como coordenador mesmo.
Nunca me interessei por reportagem esportiva, exceto como leitor e como torcedor do Cruzeiro (pois é o Grêmio se deu bem na primeira este ano...).


4) Você foi orientando do professor Edvaldo no mestrado e doutorado. Há algum texto específico que você escreveu sobre ele? Qual a importância de ter trabalhado com ele na pós-graduação?

Nunca escrevi sobre o Edvaldo. A importância do trabalho dele para mim na USP foi ele ter me deixado muito livre para eu fazer quase que exatamente aquilo que eu queria realizar, fazendo apenas interveções de conteúdo (poucas) e de adequação ao protocolo universitário (várias). Eu sou muito informal, diria “anti-cerimonioso”, e a academia (ainda) não é assim. É um lugar onde os recém-chegados precisam mostrar certa prudência.

5) Você trabalha bastante, especialmente na ficção, com personagens tentando encontrar o seu lugar no mundo. Você considera que encontrou o seu? (espiritualmente e geograficamente)

Ainda não encontrei, mas continuo tentando... rs... Costumo me entregar de corpo e alma àquilo que cismo de querer fazer, por alguma razão. Depois que eu domino por completo tudo o que o novo desafio me apresentou, é como se aquilo perdesse a graça, e daí começo a “resmungar”, até chegar o momento de mudar de ares, ou de “voar para outras árvores”. Não sou um homem de ideais fixos (ou ideias fixas), como você deve ter percebido no texto que publiquei no meu site dia 1º de abril (não era o dia da mentira não!... rsss). Gosto mesmo é de aprender. Enquanto estou aprendendo e me sentindo desafiado, dou o melhor de mim.

6) Você tem irmãos? Mais velhos, mais novos, homens, mulheres? Qual a sua relação com eles? E com seus pais?

Tenho um irmão, sete anos mais jovem que eu. Ele se chama Carlos Henrique Vilas Boas e mora em Belo Horizonte com a esposa dele, Raquel, e a minha sobrinha única Gabriela, de 4 anos. Meu pai – Nelson Vilas Boas - faleceu em 2004, aos 65 anos. Minha mãe, Walda, está com 77 anos. Ela também mora em Belo Horizonte, para onde fui quando eu era bebê (na verdade, nasci em Lavras-MG). Minha relação com ambos é boa, fluente, mas não muito próxima. Até os meus 20 anos, mais ou menos, a diferença de idade em relação ao meu irmão pesou muito no nosso relacionamento. Além disso, moro longe deles há 25 anos... Mas a gente se fala toda semana.


7) Se você pudesse medir o nível de autobiografismo dos personagens Hugo e Jaime em porcentagem, quais seriam esses índices?

Hugo: 10%
Jaime: 70%

8) No “Estrangeiros do term N”, pode-se ler a história inteira como realidade (apenas com a troca dos nomes dos personagens) ou há personagens inventados e histórias de personagens totalmente criados? O Angel existiu? E o final dele, é real?

Angel existiu, era (ou é, não sei dizer) catarinense de fato, mas o final da história foi totalmente inventado.
Plínio existiu, era (ou é, não sei dizer) mineiro e a história dele transcorreu sempre paralela à realidade. Jamais tive intenção de contar uma “história real”, tipo Jornalismo Literário ou Jornalismo Narrativo. Na época (início dos anos 1990), eu não conhecia muito bem esse gênero e seus conceitos. Na época, eu só lia ficção e um pouco (bem pouco) de biografia – foi a época em que surgiram biógrafos como Ruy Castro, Fernando Morais e Jorge Caldeira, analisados, aliás, na minha dissertação de mestrado.

9) Qual o autor da literatura que mais te influenciou?

Brasileiro: Sergio Sant’Anna. Estrangeiro: Philip Roth.

10) Qual a obra que você já leu e que pensou: "caraca, esse livro eu queria ter escrito"?

“Cem Anos de Solidão”. Li-o pela 2ª vez quando tinha 22 anos. Olha, esse romance do García Márques me fez pensar que até eu poderia ser escritor... rs... Veja só que presunção.

11) E qual a obra que você sonha em escrever?

No momento (2018), por iniciativa própria, pessoal, autoral, não sonho em escrever mais nada com mais 6 mil caracteres. Como jornalista, me prometo que pelo menos avaliarei os convites, desde que envolvam pagamento em dinheiro. Uma das coisas que estava me irritando profundamente no Brasil nos anos anteriores à minha vinda para a Itália era a cultura do trabalho grátis. Te pedem um trabalho escrito e nem tocam no assunto pagamento, porque já chegamos ao ponto em que “assim é e assim será, você queira ou não”. O mesmo ocorria com palestras: me convidavam para ir, por exemplo, a Belém. Entre esperas, voos, traslados e o evento em si, eu precisava de dois dias da minha vida para poder falar por cerca de uma hora. E nada de cachê. Eu já fiz muito isso, muitas vezes complicando a minha agenda pessoal, mas agora não faço mais.

12) Você já orientou mais de 150 alunos de especialização. Qual a sua avaliação desses novos jornalistas (da geração Hugo)? Você vê alguns deles se destacando no JL?

Infelizmente, não vejo. A maioria dos ex-orientandos meus de Jornalismo Literário que fez (ou está fazendo) “sucesso” atua como professor. Alguns deles como professores daquele mesmo tal Jornalismo Literário que os ensinei duante dez anos. Não é por falta de talento para a escrita não. Conheci alguns bastante talentosos. O problema é que o talento sempre aparecia em estado bruto, e eles/elas não estavam (não estão) dispostos a enfrentar a dureza que é ser autor de narrativas no Brasil. Na minha visão, faltava-lhes o entusiasmo e o descabimento necessários. Faltava-lhes abrir mão da segurança e do conforto material, que, no meu entendimento, bloqueava-os.

13) Pode acrescentar qualquer outra informação ou pensamento que você julgue pertinente. Inclusive, respondo a essa pergunta: você pretende ficar "para sempre" na Itália? Sente saudades do Brasil?

Sobre esta questão você pode confiar também no que escrevi no meu site dia 1/4/2018. Fui bem sincero naquele texto. Completando:

A expressão “para sempre” é uma ideia que paira no cotidiano de todo mundo, acho, e no meu, certamente. Faço o que posso para não permitir que ela se torne um fato obrigatório. Vim para Florença em outubro de 2016. Diria que, no momento (abril – quanto respondo às suas perguntas), quero ficar por “tempo indeterminado”.

Honestamente, não sinto falta do Brasil não. Quando vim para cá, estava infeliz com os meus confortos: morava em um bairro tradicional e elegante (Higienopólis), em um bom apartamento (muito bem localizado e suficientemente grande para mim, Patrícia e nossos gatos); de vez em quando recebia convites para escrever livros pré-pago (patrocinados) por valores às bem razoáveis; e tinha acabado de pedir demissão da Faculdade Cásper Líbero.

Tudo indicava que eu havia atingido um ponto em que ou seria consumido pouco a pouco, dia a dia, pelo sentimento de estagnação; ou que, por outro lado, o meu futuro no curto e médio prazos era nada menos que uma folha em branco, à qual podia preencher como eu quisesse. No momento em que não tinha nem livro para escrever nem aulas para dar me veio à mente a ideia mais óbvia: fazer um pós-doc fora do Brasil, de preferência em Nova York, para onde sempre estive a fim de voltar (desde que morei lá no início dos anos 1990, voltei várias vezes, mas como turista).

Tudo parecia dar certo: 1) escrevi um projeto muito interessante e com uma proposta de pesquisa super bem arquitetada, dando continuidade ao tema Biografismo (agora no nível 3), com o seguinte título: “Philosophy of Biography: Concepts and Practices Between Lives and Arts”; 2) Obtive a aceitação da City University of New York (CUNY); 3) Obtive o “ok” do supervisor que escolhi (o filósofo Nöel Carroll); $) e consegui cumprir os prazos do CNPQ para a solicitação de uma bolsa de 12 meses.

Mas... Nesse meio tempo, o Brasil caiu em desgraça, o impeachment foi aprovado pelo Congresso e começou a espiral rumo ao fundo do poço. Os processos seletivos do CNPQ da época pré e pós, foram todos cancelados e os pesquisadores que já estavam no exterior, realizando as suas pesquisas, ficaram sem receber as parcelas mensais de suas bolsas. Um horror.

Aí fiquei completamente perdido. Eu não tinha Plano B. E o país, por sua vez, cavando buracos cada vez mais no fundo do poço com uma gigantesca broca babando ódio... Entre panelaços e confrontos odiosos entre amigos, entre vizinhos, entre colegas, etc., o país voltou a ser para mim aquela sombria imensidão depressiva dos anos 1980 (tempos do Plínio e do Angel e de hiperinflação), que eu conheci na carne.

Aceitei que não havia nada mais que me segurava no Brasil: nem carreira, nem status quo, nem arte literária, nem qualidade de vida, nem ambição, nada. Até os meus três gatos deixaram de existir: dois deles, ambos bem idosos, haviam morrido de câncer no meio daquelas complicações todas.

Como sou cidadão italiano, por causa da família da minha mãe, resolvi, em conjunto com a minha mulher, a Patrícia, vir para a Itália. Nem sabíamos ao certo para onde na Itália a gente viria (levando a Filó, a gata que restou, e que está com 16 anos). Firenze foi a primeira cidade que nos veio à cabeça. Tínhamos ótimas memórias relacionadas a ela, dos tempos em que tínhamos férias remuneradas e caixa para poder viajar para o exterior. E foi assim. Viemos.

Repetindo: do Brasil não sinto falta, não, mas das pessoas com as quais convivia, sim.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Forza Italia

Já devo ter comentado aqui, em algum momento nessa última década de blog, que tenho uma birra com o futebol italiano. Creio que porque a Itália sempre foi a grande rival europeia da Alemanha e, como meu sobrenome é Ritter e como passei boa parte da infância em Panambi (cidade onde a maioria da população torce mais para os alemães do que para o Brasil) encarnei tal rivalidade desde que me lembro por gente. Na Copa de 90, por exemplo, quando tinha oito anos, lembro-me de vibrar com o título diante dos argentinos. Recordo-me, também, que no meu imaginário a seleção alemã era o equivalente a um Real Madrid em termos de grandeza, enquanto a seleção brasileira equivalia a um modesto Betis. Em 1994, no entanto, eu já tinha caído na real e, morando em Santo Ângelo, torci para o Brasil quase com o mesmo fanatismo com que torço para o Grêmio.
O tempo passou, mas segui antipático ao futebol italiano. Confesso que assisti ao jogo Itália e Suécia, há poucos meses, torcendo para os suecos, na eliminação da azurra para a Copa de 2018. E não canso de repetir que, de todas as copas do mundo que já vi nessa vida, a seleção italiana campeã de 2006 foi disparadamente a pior dentre as que ergueram o caneco: um time medíocre, com jogadores de nome que não jogavam absolutamente nada, apanhando da bola e ganhando na sorte (e nos pênaltis) da fraquíssima França de um Zidane em fim de carreira na final. Porém, quem lê esse texto até aqui não imagina o quanto torci para a Roma no jogo de ontem, contra o Barcelona, e para a Juventus, hoje, contra o Real Madrid, nas partidas pelas quartas-de-final da Champions League. Explico-me.
Primeiro, mais do que anti-Itália, quando falamos de seleção, sou anti Real Madrid e Barcelona quando o papo é clube de futebol. Tudo porque esses são os dois clubes mais ricos do mundo que podem contratar quem eles querem. Aparece um novo Pelé no Santos, eles vão lá e contratam. Um africano desponta num clube mediano da Ucrânia, eles compram. Aparece um novo craque no futebol inglês, eles usurpam o sujeito. Assim é muito fácil! Ter todo o dinheiro do mundo e contratar quem eles querem é covardia! É como jogar o velho elifoot (não sei se é assim que escreve) digitando aqueles comandos ninjas para ter uma fortuna interminável. Assim fica fácil ser o maior campeão da história. Quero ver ganhar no braço, na raça, no amor! E, apesar das diferenças, isso os italianos têm de sobra.
E foi por isso que ontem eu torci muito para a Roma e vibrei por cada gol contra o Barcelona quase como se fossem gols do Grêmio. E, também por isso, hoje vibrei em dobro a cada gol da Juventus e xinguei pra caralho o árbitro ao marcar aquele pênalti duvidoso para o Real Madrid aos 45 do segundo tempo.
A Roma passou, a Juventus ficou. Mas, nessa Champions, estou com os italianos. E, claro, também com os alemães do Bayer e os ingleses do Liverpool. Tiro o chapéu para o Cristiano Ronaldo, disparado o melhor jogador do mundo hoje (e um dos dez mais da história do futebol), mas não tiro o chapéu para o Real Madrid (pois assim que o CR7 envelhecer mais um pouco, eles o dispensam e contratam a nova celebridade que estiver despontando como melhor do mundo). Assim, por ter torcido para dois times italianos por dois dias seguidos, considero que consegui vencer o meu próprio preconceito. Que, aliás, creio que está até terminando, pois ficaria muito feliz se houvesse uma final entre Roma e Bayer e, não estando o Real Madrid em tal disputa, tanto fez tanto faz quem eventualmente levantar o caneco. Forza Roma! Forza Bayer! Força Liverpool! Y abajo Real Madrid! Hasta!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O Genro

* Texto inspirado no personagem Bruno, de Partículas Elementares, de Michel Houellebecq.

O Genro abriu a sua oitava latinha de cerveja quando o telefone tocou. Era a Esposa para dizer que a situação da Sogra havia se agravado. Agora ela apenas abria os olhos. Não falava, não sorria, não chorava. Era uma múmia ambulante. O Genro perguntou se havia algo que pudesse fazer, e a Esposa disse que sim, que ela estava cansada, que a irmã tinha ficado no plantão no serviço dela, e pediu para o Genro passar a noite com a Sogra no hospital.
O Genro foi até o quarto, pegou uma mochila e resolveu levar apenas o necessário: umas cuecas e meias usadas, a camisinha que havia gozado com uma puta horas antes e que estava no fundo da lixeira do banheiro, uma garrafa de whisky e sua escova de dentes. Foi até a cozinha, tomou um copo de leite com Nescau, depois chupou uma laranja e comeu um vidro de ovo em conserva. Pôs tudo no carro e partiu para o hospital. A Esposa disse que voltaria logo cedo no outro dia, ao que ele respondeu para ela não se preocupar, pois a velha estaria bem cuidada nas mãos dele. Entrou no quarto, a velha o encarou com o mesmo olhar desconfiado que o fitava há mais de duas décadas.
- Então, é só nós dois, heim, velha?
Ela não manifestou qualquer reação.
Ele largou a sacola no banheiro e cagou de porta aberta. A cada peido fedorento largado, ele dizia:
- Não se preocupe, velha, é só pra você se manter acordada.
Voltou ao quarto, olhou para a velha, e sorriu:
- E, então, velha? Qual vai ser a programação? É uma pena você não poder falar para dizer o quanto eu não valho nada para a sua filha, que ela não sabe escolher marido, que eu sou um vagabundo sem utilidade nenhuma, né não? Mas agora achei a minha serventia. – o Genro deu uma pausa cerimoniosa, tomou um gole de whisky que acabara de servir, e respondeu – Isso mesmo, velha. Minha utilidade é cuidar da senhora. Sou um ótimo cuidador, sabia?
A velha nem piscava.
- Quer uma água, velha? Acho que vai te fazer bem. Eu tenho algo aqui que vai te ajudar bastante. Esperaí.
O Genro foi ao banheiro com um copo plástico, serviu com água da privada e mexeu dentro do copo a camisinha usada que estava na sacola. Voltou ao quarto:
- Preparado com todo o carinho para a minha sogrinha querida. Tenho certeza que vai te animar um pouco...
Ele se aproximou da velha, abriu-lhe a boca e despejou tudo lá dentro. A velha começou a tossir.
- Delícia, não? Tua filha sempre gostou desse creminho. Pena que está um pouco frio. Aliás, vou te contar um segredo: sabe por que, apesar de todas as tuas bruxarias e cretinices, a tua filha nunca me deixou para trabalhar de escrava da senhora, como você fez com a Cunhada? Por causa disso – e, então, ele abaixou as calças. A velha encarou a piroca do Genro ali, murcha e cumprida. Ele recolheu o instrumento. Você tinha um puta trabalho pra fazer uma tramoia contra mim, ela te ouvia, ficava na dúvida, balançava, mas de noite eu ia lá e CRAW, fazia ela ver estrelas... E essa arma aqui – ele balançou o saco que estava dentro das calças – essa arma aqui você não tem...
Ele se sentou no sofá do acompanhante dos pacientes. Não fazia ideia se a velha entendia alguma coisa. Ele continuava no whisky.
- Quer um pouquinho, velha?
Nada.
- Ah, esqueci, você não bebe. Como pude confiar por algum tempo em uma pessoa que não bebe? Tsc, tsc. Você e o seu velho, não é não? Aliás, ele e o capeta tão de braços abertos, te esperando...
Ele olhou para o teto, mexendo o copo lentamente.
- É engraçado, não é? Vocês deixaram a gente passar fome, não nos ajudaram com um tostão... Fizeram o mesmo que levou a Cunhada de volta para vocês.. mas vocês não imaginavam que eu era tão forte, né não? Fizeram que nem os americanos com Cuba: pensaram que impondo um bloqueio financeiro nos derrubaria... Mesmo depois que eu e sua filha conseguimos ótimos empregos, continuaram avacalhando, sempre tentando tirar uma lasquinha... Lembra do nosso casamento? É, eu lembro bem.
Tomou um longo gole.
- Lembro que faltou comida. Eu tinha contratado um restaurante que fez comida para 200 pessoas. Foram 150 e faltou comida. Curioso, não?
A velha apenas fitava os seus olhos. Um sopro de expressão facial pareceu estar presente naquela face enrugada e murcha.
- É, eu sei. Você e o crápula do seu velho roubaram metade da comida. E achou que eu nunca iria descobrir, né não? Mas, no outro dia, depois da lua de mel, eu passei na sua casa e apenas a empregada estava. Aliás, muito boa a empregada de vocês. O teu velho que o diga, fez bom proveito. Fui pegar uma água na geladeira e vi pratos e pratos do cardápio do nosso casamento lá dentro...
O Genro tomou mais um longo gole.
- Está na hora de escovar os dentes, não acha? Vou lá preparar sua escova.
Não encontrou nenhuma escova no banheiro. Apertou a campainha e, em poucos segundos, uma enfermeira apareceu.
- Mas que merda de hospital é esse?? A minha querida e amada sogra aqui, lutando para sobreviver, para dar mais alegria à nossas vidas, e vocês não providenciam uma porra duma escova de dentes????
A enfermeira saiu assustada e em dois minutos apareceu com uma escova e uma pasta de dentes.
- Passar bem! – O Genro berrou e bateu a porta no nariz da enfermeira.
- É uma falta de respeito! Uma dama idosa, como a senhora, passando por isso.. Mas não se preocupe, querida sogra, estou aqui para cuidar bem de você...
Ele entrou no banheiro e enxaguou as meias fedidas na escova de dentes. Depois, passou-a na bunda e no saco, colocou uma camada fina de pasta, cuspiu, e foi lá, escovar os dentes podres da velha.
- Isso... isso.. Nada mau... vai ficar novinha! Sua filha nem vai te reconhecer amanhã de manhã....Pronto! Um brinco!
Levou a escova de volta para o banheiro.
- Sabe, eu estive pensando... Foi admirável a vida de vocês... Não ajudar em nada as duas filhas, acumular todo esse patrimônio... Mas, como vocês não tem netos, eu vou tomar conta de tudo... Já conversei com a Esposa. Vou administrar tudo. Estou só esperando o óbito para colocar tudo a venda: carro, casa, terreno, apartamento na capital, tudo... Acho que aplicar o dinheiro numa grandiosa bebedeira com meus amigos nuns puteiros por aí. Em uma semana creio que não vai sobrar nada...
Vai ser épico! Uma vida de bens acumulados sendo aproveitada pelo sujeito que cuidou de você no seu leito de morte....Nada mais justo, não?
Ele olhou para ela e julgou ter visto uma lágrima num canto do olho esquerdo. Nada não, pura ilusão. Aquela velha múmia não podia ter sentimentos...
- Tome – e ele deu um gole de whisky para a velha – isso vai te fazer bem...
Ele andou um pouco pelo quarto até parar do lado da velha. Soltou um peido fedorento e disse:
- Já cancelei o teu plano funerário e contratei os serviços da Marcinha. Sabe a Marcinha, né? Isso, aquela velha que foi amante do teu marido durante anos... Aquela mesma com quem você fez um barraco no velório dele... Ela vai fazer o serviço com carinho... resolvemos te cremar... – Ele jurou ver os olhos da velha se arregalando – Não se assuste, vamos levar você para casa... Todos os dias vou te regar com meu mijo quentinho... – E tomou mais um gole de whisky.
Ele olhou a velha e suspirou.
- Velha, velha. Vou sentir falta tua...
Então, ele riu insanamente, e gritou:
- Pegadinha do Malandro! Rá!
Ele olhou para a TV. Ligou. Mudou de canal várias vezes até sentenciar:
- Puta merda, não tem pornô nessa bosta! – Apertou a campainha. Em poucos segundos a enfermeira apareceu.
- Não tem pornô nessa merda???!!!!
- Não, senhor.
- Que diabos!! E como você acha que a puta da minha sogra vai se divertir?? Ela sempre foi viciada em pornô e não pode ver a porra de uma suruba nessa merda de hospital??? – E bateu a porta na cara da enfermeira.
- Não se preocupe, sogrinha, eu trouxe aqui meu notebook – E, então, ele ligou um pornô no computador e assistiu ao lado da sogra, na beirada da cama. Gozou duas vezes assistindo aos videozinhos, preparando água de patente com espermatozoide na esperança de que ela melhorasse. Quando se deu por conta, já estava amanhecendo. Quando a Esposa chegou ele foi beijar a testa da Sogra e sentiu a pele gelada. Ao ver a Esposa, disse:
- Vou ligar pra Marcinha ir ascendendo o fogo que é hoje que o Capeta vai fazer festa...
As cinzas estão na mesa da sala e, todas as manhãs, a primeira urina do Genro é dedicado a homenagear a Sogra.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Meio sol amarelo

Um livrão. Nos dois sentidos: na qualidade e no tamanho. No primeiro quesito, creio que entrou na seleta lista dos 10 melhores que já li (não tenho formada essa lista, mas penso que se a fizesse, “Meio sol amarelo” estaria nela). No segundo, são 500 páginas escritas pela nigeriana (ou melhor, biafrense) Chimamanda Ngozi Adichie. Como fez Erico Verissimo com a história (principalmente das guerras) do Rio Grande do Sul, Chimamanda transformou a guerra de Biafra (1967-1970) num romance épico. Para quem não conhece (como eu não conhecia) esse confronto é uma das maiores tragédias da história da humanidade: mais de um milhão de mortos. Vou resenhar aqui o livro e, por consequência, a história desse conflito.
Primeiro vamos ao contexto histórico, que Chimamanda coloca como pano de fundo, pois o foco são os personagens. Penso que é esclarecedor ter esse mapa, pois eu fui fazendo esse desenho na medida em que lia o livro e, volta e meia, quando pesquisava mais sobre a situação da Nigéria do período e da atualidade na internet. E os personagens problematizam isso tudo.
Bom, comecemos pela independência nigeriana em 1960. A Inglaterra foi o europeu colonizador que, na divisão da África entre os países europeus, ficou com todo o território nigeriano (assim como ficou também com outros países, mas como o livro trata da Nigéria, vou ficar apenas com o caso nigeriano). A divisão, obviamente, foi feita pelos europeus, e os ingleses estavam cagando para quem vivia naquele espaço geográfico. Os ingleses foram que demarcaram as fronteiras da Nigéria com os outros países, sem se importar se havia ou não povos completamente diferentes e rivais lá dentro. Para você entender melhor, a Nigéria é um país majoritariamente muçulmano e a parte cristã fica no sul, onde está Biafra.
Há tribos com suas culturas e suas histórias que foram, antes da independência, massacradas pelos ingleses. Mas, como o livro pega dos anos 1960 em diante, ficarei apenas nesse período. O que resulta de você enfiar no mesmo espaço povos completamente diferentes, principalmente havendo muçulmanos intolerantes e psicóticos no meio? Em conflitos e mortes. Mas, a história não é tão simples assim.
Após a independência da Nigéria, o novo governo, que na verdade era apontado pelo povo como representante dos ingleses, durou até 1966, ou seja, seis anos. Tudo porque, criou-se esse clima anti-governo pela população, tanto do norte, quanto do sul, por se acreditar que o presidente nigeriano era nada mais nada menos do que um defensor dos interesses da Inglaterra, o colonizador e opressor. Esse clima favoreceu a um golpe militar. Nesse golpe, o povo Ibu (de maioria cristã), do sul do país, ficou com a maioria dos cargos de chefia. Assim, de início, todos vibraram com o golpe e as pessoas do sul viviam momentos de prosperidade: tinham dinheiro, havia uma classe média bem parecida com a brasileira, universidades prosperavam. Entretanto, seis meses depois do primeiro golpe houve um segundo: o dos muçulmanos, que também faziam parte do governo, chamados de hauças, contra os ibus. Há ainda outras duas etnias majoritárias no país, mas que foram poupadas pelos hauças. E no que resultou esse segundo golpe? Em massacre. Os hauças começaram a matar indiscriminadamente todos os ibus que viviam no norte. Era a lei do extermínio. Chacinas de famílias inteiras. Soldados ibus, que até então eram colegas dos hauças, também eram mortos. Funcionários do governo, policiais, professores de escolas, universitários, crianças, mulheres, grávidas, todos eram exterminados, forçando o povo ibu a voltar para o sul. No sul, chegavam refugiados e notícias do massacre.
E, óbvio, criou-se um clima propício para o sul proclamar buscar a independência, apartando-se da Nigéria muçulmana. Óbvio que, como tudo isso acontecia na África, o resto do mundo pouco ligou e, quando ligou, era com lentes deturpadas de que o povo do sul era rebelde que queria se separar da Nigéria, um país inventado pelos ingleses. Assim, o sul passou a lutar pela independência de um novo país, que passou a se chamar Biafra e que tinha na bandeira o desenho de meio sol, daí o nome do livro de Chimamanda. Foram três anos de massacre onde a Nigéria teve apoio dos europeus e onde os nigerianos avançaram para o sul, destruindo tudo o que viam pela frente, e impondo um bloqueio internacional ao território de Biafra, sem deixar que lá pousassem aviões da Cruz Vermelha para entregar alimentos e remédios, matando de fome e de doenças milhares de pessoas. Foi através de Biafra que as fotos de crianças africanas com Kwashiorkor (a barriga inchada e o resto do corpo esquelético) se tornaram famosas no mundo inteiro. Óbvio que essa não foi somente uma guerra cultural e religiosa, mas também foi uma guerra econômica e de disputa financeira, pois em Biafra ficava um importante porto da Nigéria, Port Harcourt, além de terras com petróleo. Dá para deduzir que, com Biafra independente da Nigéria, por tabela, a Inglaterra também não conseguiria botar as mãos naquele petróleo com tanta facilidade...
Mas, agora vamos à literatura, que humaniza todas essas informações.
O livro conta com cinco personagens principais: Odenigbo, um professor universitário, que se casa ao longo da história com Olana, também professora. Ugwu, que é o criado de Odenigbo (e que o chama de Patrão), Kainene, irmã gêmea de Olana, que é bem diferente dela tanto fisicamente quanto psicologicamente (enquanto a primeira é uma humanista, a segunda é uma perua da classe média alta nigeriana) e Richard, um jornalista e escritor inglês branco que se apaixona por Kainene e acaba ficando na Nigéria (ou melhor, em Biafra). A curiosidade é que Richard aprende a falar ibu e se torna praticamente um biafrense. Há outros personagens secundários interessantes, obviamente, como o coronel Madu, que faz com que Richard se sinta um Bento de Machado de Assis, em relação a amizade de Kainene com Madu. (a foto, acima, é do flime baseado no livro, que ainda não assisti).
Eu sei que já me alonguei, mas isso se justifica porque o livro é assim: empolgante. Você pega e entra nele, se transporta para a Nigéria, para Biafra, e você simplesmente se apaixona pelos personagens e se emociona com as histórias. No entanto, tentarei ser mais sucinto.
O romance faz algumas poucas alternâncias entre o início dos anos 1960, ou seja, o período pré-guerra, e o final da década, quando a guerra estava ocorrendo. Do início, até o começo da guerra, você se sente como se estivesse lendo um romance sobre famílias da classe média alta brasileira contemporânea: todos os personagens citados viviam bem, tinham uma bela casa, carro, bebiam as melhores bebidas, cozinhavam os melhores pratos. Tudo porque Odenigbo e Olana eram professores universitários. Porém, é curiosa a cena em que Ugwu sai de sua tribo para trabalhar de criado na casa de Odenigbo. A descrição dele vendo pela primeira vez uma geladeira, um aparelho de rádio e televisão é tocante. E, Odenigbo, no início, é um personagem bem engraçado, pois ele não queria um criado, por ter ideias totalmente socialistas e um certo ranço justificável com a Inglaterra e com os brancos. O que, obviamente, complexifica o ingresso de Richard no círculo familiar. Em síntese, o que quero dizer aqui é que esses personagens viviam bem e tranquilamente no sul da Nigéria, viajavam pelo país, tinham parentes e amigos no norte (alguns hauças, inclusive), enfim, a Nigéria é apresentada como um lugar normal e tranquilo para se viver.
Porém, o início da guerra faz com que algo impossível de se acreditar acabasse acontecendo: o massacre, a miséria, a fome, a ruína e a morte de milhões de pessoas. São duas cenas marcantes no romance que exemplificam isso. A primeira é quando Olana estava no norte, visitando um amigo muçulmano, quando começa o extermínio a partir da tomada do governo pelos hauças. Sabendo disso, o amigo de Olana (um hauça) a veste de muçulmana, com a túnica e tudo, e a leva até a fronteira de Biafra. Ela inicialmente dá risada, acha a preocupação dele um exagero do amigo, porém, pelo caminho, ela vê soldados com arma em punho, corpos espalhados pelo chão, grávidas expostas na rua com a barriga aberta e muito mais. Ela volta em um trem lotado para a sua cidade no sul e vê uma mulher levando a cabeça do filho em uma sacola. Outra cena impressionante é quando Richard chega de Londres a Nigéria e se depara com soldados hauças invadindo o aeroporto, matando todos os ibus que encontravam pela frente. E como eles sabiam quem era ibu? Eles pediam para o sujeito falar algo como “Salve Ala” e, pelo sotaque, eles reconheciam os ibus. Assim, logo após conversar com um funcionário do aeroporto, Richard vê o sujeito ser baleado, com os intestinos saltando da barriga aberta pelas balas. Como falei antes, a matança foi indiscriminada: não importava se você fosse funcionário de aeroporto, padre, estudante, mulher, criança, idoso, etc. Bastava ser ibu para ser alvo. Richard, por ser inglês, ainda conseguia circular pelo país com mais liberdade, mas ele acompanha tudo com Kainene, que nesse momento já é praticamente sua esposa. As cidades de Biafra vão sendo derrubadas, uma a uma. A cada derrubada, o povo segue fugindo para a próxima, onde os nigerianos ainda não chegaram. Tudo é narrado pela rádio Biafra que, por sua vez, vende a falsa imagem de que os soldados biafrenses vão colocar os vândalos para correr.
Quem fica para trás ou não quer fugir, porém, acaba sendo morto. Soldados estupram mulheres, matam crianças de forma cruel, destroem o que encontram pela frente. São três anos de terror, pois pessoas, como os personagens Olana, Odenigbo e Kainene, que eram até então da classe média alta nigeriana, passam a ser miseráveis sem renda e sem casa, com apenas a roupa do corpo e que precisam lutar nas filas da rara ajuda que chega da Cruz Vermelha para conseguir remédio, comida ou leite (pois a essa altura eles têm uma filha pequena, que nasceu de uma complexa relação extraconjugal de Odenigbo com a criada da mãe dele, mas que não vou entrar em detalhes aqui). Em síntese, todos ficam miseráveis, desnutridos, verdadeiros trapos humanos. E, crianças até então saudáveis, passam a virar pele e osso com a barriga inchada. Acho que, como já da para perceber, é um romance de tirar o fôlego. No entanto, vale ressaltar que o lado de Biafra da história não é apresentado com nenhuma reverência, pois os solados biafrenses também roubavam, matavam e estupravam mulheres “em nome da causa”. Confiscavam casa, comida, carros, mulheres e tudo o que quisesse em nome da lealdade ao país e à Vossa Excelência. Também recrutavam qualquer homem que fosse caracterizado como “civil ocioso” e, assim, Ugwu acaba sendo incorporado, sem nenhum treinamento, tendo que carregar armas velhas e de pouco poder destrutivo para defender Biafra. Por outro lado, os nigerianos atacavam com aviões cedidos pelos europeus e há uma descrição genial do acompanhamento que Richard faz a dois jornalistas norte-americanos em meio à guerra. Os dois são extremamente preconceituosos e não enxergam os africanos como pessoas. Tanto é que um deles está mais preocupado em apurar a morte de um funcionário italiano da usina de petróleo do que o absurdo que estava acontecendo em todo o território biafrense. “Milhares de biafrenses mortos e esse homem querendo saber se havia novidades sobre a morte de um branco”, reflete Richard.
Enfim, são N pontos e N cenas que poderiam ser usadas aqui para ilustrar o quão bom é o livro e a literatura de Chimamanda (nascida em 1977 e filha de dois sobreviventes da guerra). Porém, encerro apenas dizendo a você, imaginário leitor, para ler esse livro, publicado em português pela Companhia das Letras, pois ele é ótimo, de fácil compreensão e empolgante. E, apesar de Chimamanda não ser jornalista, de certa forma considero que o que ela fez foi uma puta reportagem sobre o que aconteceu na Nigéria-Biafra. E, só para encerrar, o fim da guerra não representou em nada a paz ou a volta da vida como era antes. Os biafrenses foram humilhados e perderam tudo. Richard, por exemplo, ao retornar à casa de Kainene encontra uma senhora que a ocupou, pois ela havia sido abandonada. Já Odenigbo e Olana, além de no caminho serem agredidos e obrigados a carregar lenhas para os soldados nigerianos, encontram a sua casa completamente em ruínas, com fezes humanas por todas as partes (inclusive, a banheira cheia de merda, que àquela altura estavam duras feito pedras). E, obviamente, houve a censura e o controle sobre todos os biafrenses para evitar o surgimento de novos pontos de “ações rebeldes”. Na internet você também encontra material que mostra a independência de Biafra ainda é um sonho oculto de muitos que vivem no sul da Nigéria, mas praticamente impossível de ser alcançado, pois não interessa aos americanos ou europeus tal independência.
No entanto, de minha parte, desejo longa vida aos biafrenses do bem (pois há maus também) e à bandeira que exibe o meio sol amarelo!

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Partículas Elementares

Do alto da minha ignorância sobre literatura francesa e europeia contemporânea, descobri o francês Michel Houellebecq através do livro “Um escritor no fim do mundo”, do Juremir Machado da Silva. Nessa narrativa, Juremir narra a viagem feita acompanhando o escritor francês até a Patagônia argentina, a pedido deste. Nas últimas páginas da minha agenda, todos os anos, eu anoto alguns livros que pretendo ler no futuro e, na minha agenda de 2017 eu tinha escrito, entre outras obras e autores: Michel Houellebecq – Partículas Elementares ou A possibilidade de uma ilha. No final do ano, depois de ler outros romances – geralmente mais curtos, pois tenho que dividir o tempo da leitura com as aulas, os alunos, a família, o Grêmio, os cachorros e a escritura – eu resolvi encarar Seigneur Michel e pedi de Natal para a minha mãe (isso aí, pedi dois livros pra ela) o Partículas Elementares.
Dos três livros que ganhei do Papai Noel, o Partículas Elementares foi o último a ser lido justamente porque parecia ser o mais “pesado”. Na verdade, vendo a capa, e pensando que esse era um livro escrito por um escritor de certa forma acadêmico e indicado por outro escritor acadêmico, tive medo de ser monótono, erudito em excesso ou algo assim. Ledo engano. Depois de ler Partículas Elementares, eu o coloquei naquele rol seleto de “um dos melhores livros que já li”. Ainda mantenho Dom Quixote no topo da lista, e alguns outros antes do Partículas mas, certamente, teria lugar numa lista de os 20 Mais ou algo assim. Mas chega de lero-lero e vamos à obra.
Para começo de conversa, é difícil sistematizar o enredo. Como características gerais, tem aquele humor cínico, direto, sem rodeios e por vezes até bukowskiano de autores que não se preocupam se vão agradar ou não o leitor. Uma mistura nada convencional de Paulo Francis com Heny Miller. Aliás, o livro foi chamado de “demente”, “sem noção”, “preconceituoso” e de outros adjetivos do gênero pelos famosos críticos. Também, se não fosse assim, não seria aclamado pelo professor Juremir. E também, se fosse um livrinho bem comportado de família, dificilmente eu o incluiria na minha lista de melhores livros que já li. Até porque é uma ficção que, obviamente, tem alguns traços autobiográficos (como todas as ficções). No entanto, ficar bravo ou criticar as ideias e as falas dos personagens é tão insano quanto um telespectador xingar o autor de uma novela por ele incluir um personagem psicopata no enredo. Eis a confusão que alguns “especialistas” em crítica literária fizeram. Parto, então, dos dois personagens principais da obra.
Michel Djerzinski é o irmão mais novo de Bruno. Os dois são irmãos por parte de mãe e, conforme a perspectiva de Bruno, ambos são filhos de uma puta. Bruno nasceu do relacionamento da mãe com outro cara open mind dos anos 1950. Quando ela engravida, eles resolvem ter o bebê, mas chegam ao consenso de que nenhum deles quer abrir mão de sua vida e liberdade pelo filho, assim, Bruno é criado pela avó materna, que morre quando ele tem dez anos e, então, vai para um colégio interno onde sofre o que hoje é chamado de bullying de último grau, com xingamentos, perseguições, agressões humilhantes e até abuso sexual.
O pai o visita lá de vem quando, mas não apresenta nenhuma preocupação com o crescimento ou desenvolvimento do garoto. Enquanto isso, dois anos depois de ter Bruno, Jane, a mãe dele, passa a namorar um repórter cinematográfico e desse relacionamento nasce Michel. O casamento já está falido quando, depois de chegar de uma viagem, o pai de Michel chega em casa e encontra várias pessoas peladas e bêbadas dormindo pelos cantos e Michel, ainda bebê, todo cagado chorando. Ele pega o nenê e leva para a sua mãe cuidar, em outra cidade no norte da França. Assim, enquanto Bruno é criado pela avó materna, Michel é criado pela avó paterna. Chegamos, então, a um ponto relativamente autobiográfico do autor, que também foi abandonado pelos pais e foi criado até a metade da vida pela avó materna para, depois, ir morar com a avó paterna. Sou novato em Michel Houellebecq e nunca li uma biografia sobre ele, mas imagino que talvez os dois personagens tenham traços distintos da personalidade do autor, pois eles são, de certa forma, psicologicamente, bem diferentes. Ah, vale lembrar dois aspectos que, à primeira vista, parecem de pouca importância, mas que, com o passar das páginas, passa a ocupar um plano relevante na narrativa: Bruno é formado em Letras, candidato a escritor frustrado e chega a dar aulas em escolas enquanto Michel é cientista especialista em Biologia.
Agora chegamos à perspectiva de mundo dos personagens. Enquanto Michel é um cara que parece viver à parte do mundo, sem se interessar por nada ou sentir nada por ninguém (nem sentimentos bons nem ruins, como amor, ódio, raiva, desejo ou compaixão), Bruno é puro hormônios (explosivo, tem no sexo e no prazer sexual o seu objetivo de vida, o que o coloca em várias cenas como uma espécie de Buwkoski francês). Ambos são, de certa forma, deprimentes. Apesar disso, a narrativa é cheia de humor refinado, satírico e cínico (no sentido dos Cínicos da Grécia Antiga mesmo: de viver a vida nua e crua tal como ela é, sem esconder nada, nem os sentimentos e os prazeres sexuais). Assim, são diversas as pérolas que aparecem ao longo da narrativa. E, apesar de Michel ser um cara desinteressado pela vida, e de Bruno ser quase um psicopata sexual, ambos se metem em relacionamentos – e eis aí a ironia da narrativa.
Como na maioria dos meus livros comprados, esse também ficou todo rabiscado e sublinhado, portanto, vou pegar aqui alguns trechos aleatoriamente para ilustrar o que estou querendo dizer, não só no sentido sexual e de relacionamento, mas também em relação ao viver a vida (quem nem sempre é no sentido de “WOW, vamos curtir a vida, caralho!”.
Por exemplo, na página 21, Michel, o autor (pois o livro é contado em terceira pessoa) apresenta essa reflexão sobre a famosa crise dos 40 (que na verdade pode começar bem antes, principalmente para os homens).
Segundo ele, a entrada nessa idade – que acontece com os dois personagens - é um sinal de que “a longa descida rumo à morte acaba de ser acionada [...]. Além disso, a famosa ‘crise dos 40’ aparece, com frequência, associada a fenômenos sexuais, à busca súbita e frenética do corpo de garotas mais jovens”. Lembrando da biografia de outros escritores, como Hunter Thompson, Nelson Rodrigues, Bukowski, Vinícius de Morais e Henry Miller, concluo que, pela vida que eles tiveram, essa afirmação faz todo o sentido. No entanto, aí é que está a crueza do negócio: ele não faz nenhum julgamento disso, ele apenas apresenta o dado, afinal, qual o mal de um cara, como Hunter Thompson, que com 60 anos começou a namorar Anita Thompson que estava entrando na casa dos 30, se ambos estavam felizes e satisfeitos? Na biografia de Thompson, inclusive, há relatos que dizem que ele tentava se sentir mais jovens namorando garotas bem mais novas. A questão de Michel é: sim, e daí? As garotas mais jovens também se atraíam por ele graças a sua inteligência, fama, conhecimento, experiência, humor, etc... Assim, os dois elementos se completam. Mas não vou me alongar nesse ponto.
Já em outra cena, acontece um fato que exemplifica o caráter tolerância zero de Bruno. Vale lembrar que o livro é de 1998, então, o Brasil estava naquela fase de “oba oba” com europeus e americanos. Conversando com uma personagem, a mulher diz que não gosta de música africana. Mas, para não parecer racista diante do interlocutor, justifica que adora música brasileira. Eis então o que se segue: “Não era preciso mais para irritar Bruno. Começava a encher o saco dessa estúpida mania pró-Brasil. Por que o Brasil? Conforme tudo o que sabia, o Brasil era um país de merda, povoado de brutos fanáticos por futebol e por corridas de automóvel. A violência, a corrupção e a miséria estavam no apogeu. Se havia um país mais detestável, era justamente, e especificamente, o Brasil”.
O mesmo Bruno, mais adiante, na página 163, quando o filho dele estava na pré-adolescência, apresenta a seguinte conclusão: “É difícil imaginar alguém mais babaca, mais agressivo, mais insuportável e mais odioso do que um pré-adolescente, especialmente quando está junto com outros garotos de sua idade. O pré-adolescente é um monstro duplicado em imbecil, de um conformismo quase inacreditável; parece a cristalização súbita, maléfica (e imprevisível, considerando-se a criança) do que há de pior no homem. Como, a partir daí, duvidar que a sexualidade não seja uma força absolutamente má? E como as pessoas suportavam viver sob o mesmo teto que um pré-adolescente?”. Vale lembrar que o personagem viveu os piores momentos da sua vida justamente em um internato quando era um pré-adolescente. Já sobre sua ex-mulher, mãe de seu filho, ele comenta: “Simplesmente, eu desejava todas as mulheres, exceto a minha”.
Sobre as personalidades perturbadas dos dois personagens, há outra reflexão interessante que o autor propõe. Na fala de um dos personagens aparece o seguinte comentário: “Nesse sentido, os serial killers dos anos 90 eram os filhos naturais dos hippies dos anos 60”. E eis aqui um ponto de reflexão: na busca pela liberdade, pela falta de vínculos, etc, muitos dos hippies e jovens dos anos 1960 acabaram, justamente, abrindo mão de “criar” ou de simplesmente dar o mínimo de atenção aos seus filhos, como foi o caso dos dois personagens, que, sem referências, acabaram caindo no mundo de qualquer jeito e, assim, as suas personalidades nada mais são do que o resultado disso tudo.
Nesse sentido, um dos pontos mais marcantes do livro está quando a mãe de Bruno e Michel está em seu leito de morte, justamente em uma comunidade que tenta manter viva a cultura hippie e naturalista nos anos 1980. Os dois filhos são chamados às pressas. A essa altura, Bruno está internado em uma clínica psiquiátrica após ver, pela segunda vez na vida, uma namorada sua terminar com a própria vida, enquanto Michel está focado apenas no seu trabalho como biólogo. Em resumo, os dois comparecem por simples obrigação e estão cagando para a velha. Bruno está no ápice da sua intolerância com o mundo e com a humanidade e, nessas, fala para o irmão: “Não passas de uma puta velha”. O sotaque gaúcho se deve, penso eu, devido à tradução ter sido feita pelo próprio Juremir Machado da Silva. Depois, Bruno lembra que a velha pediu para ser incinerada. Então, ele olha para a deplorável Jane, que não consegue falar, e diz, como se estivesse conversando com um tipo de sogra com língua venenosa quando esta não tem mais capacidade de reagir:
“Colocarei o que sobrar de ti num vaso e, todas as manhãs, mijarei em cima das tuas cinzas”. Sinceramente, fiquei imaginando a cena...
Por fim, chega-se a um ponto altamente filosofal, ao final do romance – mais especificamente no prólogo, que também é ficcional. E eis, novamente, mais um ponto polêmico. Bruno some na clínica psiquiátrica, enquanto que, a partir dos estudos de Michel, outros pesquisadores seguem produzindo algo que, se pararmos para pensar bem, não é totalmente irrealizável. Vou fazer um resumo do resumo: a partir das pesquisas de Michel os cientistas chegam ao ápice da clonagem humana. Assim, com o tempo, elimina-se a reprodução por sexo. Os seres humanos são reproduzidos apenas a partir de produção laboratorial. Isso só é possível quando a moral religiosa é vencida e, de certa forma, eliminada (para o bem da humanidade). A partir disso, o ser humano passa a “reproduzir” apenas aqueles humanos “desejáveis”. Ou seja, na ficção de Houellebecq de 1998, em 2050 a raça humana passa a ser chamada de “antiga raça humana”, pois os humanos que sobraram são apenas os produzidos em laboratório. Assim, cria-se uma cultura e um governo universal, apenas com humanos “bons”, pois não há necessidade de se produzir seres humanos maus (psicóticos, assaltantes, sovinas, corruptos, etc). Obviamente que tal ideia despertou a acusação de pensamento nazista, pois uma raça humana única era a premissa de Hitler com a raça ariana. Já eu, prefiro interpretar tudo o que li como o que de fato é: uma ficção. E, como disse, acusar o autor disso ou daquilo é como acusar o roteirista de um filme, de uma novela ou série por aquilo que acontece nela. Ou seja, o autor de uma ficção sobre serial killer não vai ser necessariamente um serial killer, bem como o roteirista de um filme sobre um estuprador não vai ser obrigatoriamente um estuprador, bem como Nabokov não era comprovadamente um pedófilo, etc. O fato é que há muitos elementos e pontos a serem pensados ao se ler o romance Partículas Elementares que, certamente, além de causar o prazer da leitura certamente faz com que o leitor saia de sua zona de conforto e ponha a sua cachola para funcionar.
C'est ça.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O livro de Praga

Seguindo a série de “resenhas” de livros que estou lendo nas férias, chegou a hora de “O livro de praga – narrativas de amor e arte”, do carioca Sérgio Sant’Anna. Esse livro integra a coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, que conheci no verão passado lendo “Cordilheira”, do Daniel Galera. Passei o ano sem ler nenhum outro livro dessa coleção e, quando fui escolher o meu presente de natal materno, entrei no site da coleção, li os resumos de todos os livros, e acabei achando esse o mais interessante. Não me arrependi nenhum pouco.
Antes de mais nada, eu não conhecia Sérgio Sant’Anna, o que talvez tornou ainda mais prazerosa a leitura. Em breve, explico por quê. A narrativa é breve: são 136 páginas divididas em sete capítulos. Cada capítulo é uma espécie de conto que, no conjunto, formam o romance, pois há uma sequência lógica e episódios de um capítulo vezemquando são retomados em outro, mais à frente. E agora explico porque não conhecer Sérgio Sant’Anna tornou a leitura mais empolgante. Acontece que o primeiro capítulo, intitulado “A pianista”, é absolutamente genial. Sant’Anna, que nasceu em 1941, começa a prosa com linguagem poética. Cada cena, cada descrição torna-se épica com as suas palavras que emitem um misto de delicadeza e erudição. Explorando aspectos da arte de Praga, o personagem, que se chama Antônio Fernandes, narra em primeira pessoa como ele foi escolhido para poder pagar 3 mil euros para assistir ao concerto de uma pianista jovem de raro talento. Mesclando um pouco da arte local e história com a angústia da espera pela audição exclusiva que Fernandes terá, você imagina que vai acontecer exatamente o que está programado: que o personagem se sentará num banquinho e assistirá a uma hora e vinte de espetáculo da pianista. Tudo leva a crer que o personagem se apaixona platonicamente pela artista. Porém, de uma hora para a outra (mas no momento certo) há uma guinada na narrativa. O tom de delicadeza com narrativa poética, ganha ares eróticos surpreendentes. Eis um breve trecho das “lembranças” do personagem: “O que aconteceu a seguir foi espantoso, não exclusivamente pelo comportamento sexual do dueto que formávamos, mas porque, retirando ela as suas mãos do teclado para puxar meu pau de dentro de minha calça com seus dedos longos e habilíssimos, para não dizer suas presas, a música continuou a se fazer ouvir ainda mais ricamente [...]” (p.29). E assim, surpreendendo o leitor, aos poucos o personagem vai entendendo (juntamente com quem segura o livro) que a pianista é, de certa forma, uma prostituta de luxo que atende na torre do museu de Praga.
Ouso dizer que nesse capítulo-conto, Sant’Anna usa com perfeição praticamente todas as técnicas narrativas da ficção e, especialmente, uma que considero talvez a principal: a capacidade de surpreender o leitor. E, justamente por não conhecer Sant’anna que fui tão ferozmente surpreendido. Entenderam agora? Talvez, se eu já o conhecesse não me deixaria levar pela sua narrativa que me conduzia por um caminho e que, de repente, PÁ, vai para outro.
O mesmo acontece no segundo capítulo-conto: “A suicida”. A trama é dada logo de cara: o personagem-narrador salva uma moça que está prestes a se atirar da ponte Carlos. Porém, as infinitas possibilidades da sequência faz com que você fique tentando adivinhar o que vai acontecer e, o que realmente acontece, é uma alternativa crível, mas que você sequer cogitou que fosse acontecer. Aliás, você se sente como um telespectador de filme ou novela, porque você começa a torcer para que o inevitável não aconteça. O terceiro capítulo-conto já não é tão surpreendente, pois ele usa a técnica da narrativa ficcional fantástica e, quando percebi isso, logo imaginei que tudo poderia acontecer (e realmente o inimaginável fantástico acontece). O mesmo vale para o capítulo seguinte, mas que achei mais bem construído (A boneca). O próximo capítulo conto, “O texto tatuado”, tem um enredo mega criativo, pois o personagem se depara com uma moça que tem um texto inédito de Kafka (que é de Praga) tatuado em seu corpo (e que também cobra para as pessoas poderem ler – o que, de certa forma, também torna a moça em uma prostituta de luxo). Não vou contar detalhes do desenrolar dos fatos para não acabar com a surpresa do potencial leitor. Já “A tenente” acaba sendo o pior capítulo-conto do livro, na minha opinião, justamente por ser óbvio demais: o personagem transa com a tenente fardada no seu quarto de hotel. Quer algo mais impossível e ao mesmo tempo clichê do que isso: um homem que é tido como suspeito de alguns crimes sexuais insolúveis transar com uma policial gostosa e fardada?
E você saca que isso vai acontecer assim que lê o título do capítulo, até porque a tenente já havia aparecido na narrativa em capítulos anteriores. Já o último capítulo-conto, “O retorno”, é bem breve, e serve simplesmente para encerrar a obra com chave de ouro.
Somando tudo, multiplicando pelas sensações que tive e dividindo pelo tempo gasto, eu daria uma boa nota para a obra (não me atrevo a quantificar, pois se desse algo como 10, seria injustiça com os clássicos inigualáveis como Dom Quixote e O Tempo e o Vento, mas se desse 7.0 ou 8,0 alguém poderia interpretar erroneamente como uma nota baixa).
Então, troco a nota por uma aprovação com louvor, ou seja, se estiver procurando um livro para ler, não hesite em comprar ou pegar emprestado esse livro, até porque, depois de terminar de ler, fiquei curioso para conhecer Praga, pois o autor mistura magistralmente o enredo com o clima e as atrações da capital da República Tcheca.
E viva las checas!