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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

My my neighbor, Ralph Ellison

Antes de morar em Nova York, entre 2013-2014, eu já tinha lido Trópico de Câncer, de Henry Miller. Porém, na época em que realizei tal leitura, eu nem sonhava em pisar nos Estados Unidos, nem ligava para a origem de Miller. Anos depois, para ser mais precisamente, neste final de 2017, comprei Sexus, do autor norte-americano e me dei conta de que o cara era nova-iorquino da gema (como dizem os cariocas). Na real, ainda faltam 182 das 582 páginas para concluir o livro. No entanto, hoje aconteceu algo que me fez interromper a leitura e escrever esse texto (e não foi o jogo do Grêmio).
Inicialmente, pensei em sentar na frente do computador para escrever sobre as referências que Miller faz a Riverside Drive, a rua em que ele morou com a sua namorada nos anos 1920 ou 30 (sou ruim de matemática para subtrair a idade dele pelo ano em que ele lá morou). Em resumo, eu também morei na mesma rua: mais exatamente, na 725 Riverside Drive, cruzamento com a 150 Street. Marquei até algumas citações, das quais coloco a seguinte, escrita em reflexões feitas ao observar New Jersey, do outro lado do Rio Hudson, local por onde eu também gostava de caminhar e que é palco de várias cenas cinematográficas e literárias: “Olhei para a margem de Jersey do outro lado do rio. A mim parecia desoladora, mais desoladora ainda que o leito empedrado de um rio seco. Nada que tivesse alguma importância para a raça humana jamais aconteceria ali. E nada haveria talvez de acontecer pelos próximos mil anos”. A graça, é que Miller descreve a vida em Riverside Drive, mesma rua em que morei, e fico viajando no tempo, imaginando ele naquelas ruas, andando pela beira do Hudson com a sua namorada. Aliás, Mona, a sua namorada é uma puta história... (uma puta história sobre uma prostituta, literalmente falando, sem degradar a profissão).
A síntese da síntese é a seguinte: Miller era casado com Maude (a mulher que transformou o seu quarto em um necrotério, simbolicamente falando) e tinha uma filha. Ele se apaixona por uma prostituta de Manhattan e larga a mulher para ficar com a dita cuja – e, assim, eles vão morar em Riverside Drive. Namorando a prostituta, ele se torna amante de sua ex-mulher. E, lendo essa porra toda, lembrei que eu tinha fotografado uma placa dedicada a um escritor que, até então, eu não conhecia, mas que sabia que não era Henry Miller. E, então, agora, há poucos minutos atrás, quando vou procurar a foto da tal placa, deparo-me com a imagem da homenagem feita a nada mais nada menos do que Ralph Ellison.
Quase desfaleço diante do computador (isso que hoje à tarde sofri e quase enfartei assistindo ao Grêmio ganhar do Pachuca pelo Mundial de cubes). Explico-me sobre tal sentimento.
Voltei de Nova York na metade de 2014. Lá por meados de 2015, postei no Facebook algo como: “estou procurando dicas de livros para ler nas férias”, ao que meu amigo Luiz Maurício Azevedo indicou “O homem invisível”. De quem? De nada mais nada menos do que Ralph Ellison. Tudo bem, o livro poderia ser um abacaxi, só que não. Eu encomendei o livro e o devorei em poucos dias. Sem exageros, é um dos melhores que já li: uma puta narrativa, dramática, histórica, com um senso de humor refinado e envolvente. Um daqueles livros que dá uma preguiça de ler quando você o pega nas mãos, mas que quando você começa a ler, torce para que nunca termine.
Um daqueles livros em que é impossível o sujeito terminar de ler e continuar sendo a mesma pessoa. Quando finalizei a leitura, fiquei com ele na mente por muito tempo (na verdade, até hoje), pensando sobre tudo: a ida do personagem do sul para o norte, a vida no Harlem, a cena do despejo, a vergonha de não ter dinheiro para pagar o aluguel do quarto, as cartas vergonhosas indicando o sujeito para emprego.. enfim, tudo. É um livro para não ser esquecido e ser relido ao longo da vida. Mas, lendo agora Henry Miller, é que fui nos meus arquivos fotográficos checar quem era o escritor que tinha uma placa na frente do prédio em que eu morava em Nova York e constato que esse autor era simplesmente Ralph Ellison. Eu morava em 725 e ele em 730 Riverside Drive. A placa em homenagem a ele está numa pracinha, localizada na frente dos dois prédios (o que eu e o que ele morava). Só quem ama literatura sabe o que isso significa.
Só quem leu “O homem invisível” tem noção da emoção de descobrir, mesmo que anos depois, o que foi ter sido vizinho espiritual de Ralph Ellison por poucos meses. E, independentemente de você ter morado em Riverside Drive ou não, no Harlem ou não, em Nova York ou não, eu indico do fundo do coração a leitura de “O homem invisível”. Vale a pena ficar uns dias entrando menos na internet, vendo menos TV , lendo esse livro. Tenho certeza que você não será mais o mesmo (a mesma) depois de tal leitura.
Hasta!



PS - Na época em que li "O homem invisível" escrevi sobre ele no blog, vai lá nos arquivos e procura ;)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O desconhecido - o sofrimento antes de decidir a América

Você com certeza já pensou sobre a morte e já ficou com dúvidas sobre o que acontece depois que encerramos nossa passagem pela Terra. Não faço a mínima ideia se é normal, mas penso relativamente bastante sobre isso. Já “estudei” algumas teorias religiosas, como a dos católicos que acreditam no céu e no inferno, ou a dos espíritas, que acreditam que esse é apenas um “plano” e que depois há outros “planos espirituais” para serem vividos. Já levei alguns sustos nesses 36 anos de vida e as perdas que todos que vivem mais tempo acabam acontecendo e nos fazem pensar sobre isso. De onde viemos? Para onde vamos? Sofreremos? Será bom? Ruim? Há os sentimentos terrenos no além? Há prazeres? Bebida? Sexo? Há fogo do inferno, frio de neve? Lágrimas? Desespero? Ou não há nada? Não sei, ão faço ideia. Como todo mundo, acabo escolhendo alguma teoria religiosa mais conveniente para seguir de longe. No meu caso, específico, sou católico por formação e espírita não praticante, com passagens pela igreja Baptista e Evangélica Apostólica Romana.
Poucas vezes tive tanta curiosidade sobre o desconhecido como quando penso na morte. Mas, uma dessas vezes está ocorrendo nessa noite. Agora são exatamente oito horas com cinco minutos da noite do dia 29 de novembro de 2017. Daqui a aproximadamente uma hora e 40 minutos começará o jogo Lanús x Grêmio, na Argentina. É o segundo jogo da final da Libertadores da América. No primeiro jogo, o Grêmio ganhou de 1 a 0. O Grêmio joga por qualquer vitória e qualquer empate. O Lanús precisa vencer por um gol de diferença para levar o jogo para a prorrogação e, talvez, pênaltis. Vitória por dois ou mais gols para o Lanús, dá o título para os argentinos. Eu só tenho pensado nisso desde a semana passada, última quarta-feira, quando acabou o primeiro jogo. Nessa noite, sonhei que não conseguia assistir o jogo, pois estava viajando e a internet falhava. Quando terminou, só visualizei um pôster do Lanús. Presságio? Premonição? Medo? Não sei. No primeiro jogo, sonhei que o time argentino tinha ganho de 1 a 0, e foi o tricolor quem ganhou. Então, encaro isso mais como uma perturbação psicológica. E tenho pensado sobre o desconhecido desse jogo sem ter ideia do que esperar, como quando penso sobre a morte. Tudo pode acontecer. Não faço ideia se o Grêmio vai surpreender e repetir uma atuação como a do Barcelona do Equador, quando goleou por 3 a 0 fora de casa, ou se o Lanús vai ter uma atuação de luxo como a na vitória por 4 a 2 contra o Ríver, no mesmo estádio La Fortaleza. Ou ainda, se árbitro vai foder com tudo para um ou outro time. Também não sei se os argentinos vencerão por um gol e levarão a decisão para a prorrogação, onde qualquer um pode ganhar, ou ainda, pode haver empate e tudo ir para os pênaltis, situação esta em que os Hermanos são francos favoritos. O jogo também pode ficar 0 a 0, o que resultará em uma tortura de 90 minutos. Ou pode ser um jogo cheio de alternativas: Lanús sai ganhando, Grêmio empata e vira, Lanús empata e faz pressão no final... Enfim, já estou sem fôlego. E sem saber o que pensar. Deve ser assim que quem está no corredor da morte se sente antes de ir para a cadeira elétrica para a forca ou guilhotina. O que vai acontecer? Será bom? Será ruim? Se o Grêmio for Tri, será a redenção, o desafogo de quem viu o time ganhar esse título quando tinha 14 anos. Se perder, será a mágoa, a tristeza, a revolta, o sofrimento... O que vai acontecer? O que acontece quando o coração para de bater? O que ocorrerá quando o árbitro apontar o centro do campo, ou quando o último pênalti for batido?
Não sei. Oito e treze. O tempo não passa. É muito sofrimento. É muita angústia e ansiedade. Que Ele esteja convosco. Ele está no meio de nós. Amém.

sábado, 18 de novembro de 2017

Outono

Ontem sonhei
Que estava passeando
Pelo Central Park
Mas acordei suado
Em minha cama
Vazia.
Então tentei dormir de novo
Para que você aparecesse
Ao meu lado
Caminhando de mãos
Dadas
Comigo
Pelas trilhas
E você olhava
Com seus olhos
Verdes
Para as árvores amarelas e vermelhas
Que me faziam lembrar
Como a vida era bela
E cinzenta
Antes de eu
Te conhecer

domingo, 12 de novembro de 2017

Uma aventura sem sair de casa

A festa de 7 anos da minha filha foi uma aventura. Pelo menos para mim. Primeiro, teve toda a pressão psicológica. Ela faz aniversário em novembro mas começa a perguntar se vai demorar muito para a festa desde fevereiro. Isso te coloca na obrigação de organizar uma festa que, no mínimo, não seja um desastre. Quanto mais o tempo passa, aumenta o questionamento: “quanto tempo falta? 3 meses? Isso é muito, pai? Vai demorar? Ah, não... isso é muito!”. Então, chega o dia. No caso, ontem. Levantei relativamente cedo para tirar a Bolinha (a cadelinha dela) que estava acampada na garagem devido ao tempo chuvoso da semana anterior. Aliás, tenho muito a agradecer ao São Pedro por ter colaborado, pois não seria fácil manter 15 crias cheias de energia dentro de casa durante um dia inteiro. Depois de ajeitar a garagem, enquanto a mãe cuidava da comida, meus pais, meu irmão, minha irmã e eu íamos arrastando cadeiras e mesas para seus respectivos lugares. Para ganhar tempo, fui pegar um frango assado com meu pai no mercado para o almoço, pois ninguém teria tempo para cozinhar. Mesmo tendo chegado o dia da festa, as perguntas continuavam?
- Quanto tempo falta, pai?
Eu olhava no relógio e respondia:
- Cinco horas.
- Ah, não! Isso é muito! – e cruzava os braços e fazia beiço.
- E agora, falta muito?
- Duas horas.
- Ah, não! Tudo isso?? É muito!!!
Até que chegou o primeiro convidado. E depois outro. E mais outro e mais outro em ais outro. Quando vi a casa havia sido invadida por crianças de seis e sete anos que corriam rápido demais para que um adulto pudesse acompanhar os seus movimentos. E não ficavam todas juntas. Umas corriam pela sala, outras iam atrás das cadelas, outra apareceu carregando o controle remoto da TV para o pátio, enquanto outro grupo altamente organizado invadia os quartos e os banheiros. Numa dessas, chaveei nosso quarto para não entrarem. Meia hora depois, minha irmã chegou perguntando sobre a chave do quarto, pois eu, sem querer, havia trancado a Laura, irmã mais velha da Larissa, de 16 anos. Nisso, chegam os nossos convidados, adultos, e logo percebo que não vou conseguir ficar sentado para conversar com eles. Lá pelas tantas, a Laura inventa de entrar na piscina. Imediatamente se forma um círculo com as 15 crias ao redor da água batendo com os espaguetes na água tentando acertá-la. Dizer, pedir ou berrar para que se afastassem, pois senão alguém iria cair, era algo inútil. A única alternativa, depois de ver que eles jamais me obedeceriam, foi esperar que o primeiro caísse. Não levou muito para isso acontecer.
Um gurizinho caiu de roupa e tudo para dentro d’água. Detalhe: a piscina inteira é funda. Enquanto eu fotografava, a Laura fazia o resgate e as outras 14 crias que estavam ao redor desataram a rir do pequeno infeliz. Depois, foi duro convencê-lo a usar uma roupa da Larissa. A solução foi emprestar o uniforme, que é unissex. “Mas eu não vou colocar calcinha da Larissa! Nem morto”, dizia ele. “Fica só de calção”, respondi. Enquanto eu abria o porteiro para um pai, a patroa pedia algum favor e a minha irmã vinha avisar que alguma cria fez alguma arte. Nesse meio tempo, chegou um cara para da Corsan para verificar a falta de água que ocorria desde a uma da tarde. Ele examinou tudo e disse que o problema era na casa. Então, veio um senhorzinho ver o que podia fazer e, sinceramente, ele ficou solto no telhado da casa, pois eu não conseguia cuidar do velhinho lá em cima e das crianças aqui embaixo ao mesmo tempo. Sinceramente, fiquei zonzo. E a cerveja que eu bebia me deixava mais confuso.
- Tio, me da um refri?
- Pai da Lari, guarda esse balão pra mim.
- Tio, que horas a Lari vai abrir os presentes?
- Pai da Lari, não da pra abrir os presentes agora?
- Tio, a gente quer ver os presentes da Lari!
Até que dei o braço a torcer e deixei ela abrir os presentes. As crias brigavam entre elas para que a Lari abrisse primeiro o que cada uma tinha dado.
- Abre o meu! O meu! O meu! O meu é melhor! Olha Lari, é aquilo que tu queria!
Falavam todos ao mesmo tempo. Um ou outro passava correndo, fazendo barulho de tiro PUM! PUM! PUM!
Outros seguiam ao redor da piscina. Outros, corriam atrás das cadelas. Uma guriazinha passou carregando a gaiola do hamster e depois voltou sem nada nas mãos. Outras crias pegaram um joguinho de tabuleiro e passaram a jogar no meio da calçada e, pouco depois, abandonaram-no lá mesmo. Enquanto eu juntava, um guri martelava um parafuso numa porta. “NÃOOOOO!”, berrei. Depois, outro passou correndo segurando uma pedra relativamente grande, querendo atirar em alguém. “NÃOOOOOOOO!” gritei de novo, e tomei a pedra da mão dele. Uma guriazinha estava ao redor da piscina, e minha irmã disse:
- Sai dai.
- Eu não.
- Se alguém cair, eu não vou juntar – disse minha irmã.
- Azar o teu, vocês que são os responsáveis – disse a cria.
Depois meu irmão foi mexer com outro gurizinho, dizendo que iria atirar ele na piscina, ao que ele respondeu:
- Não, isso não se faz. Não se pode jogar crianças na piscina.
Quando me dei por conta, estava brincando de bangue-bangue com outros. PA! PA! PA! PUM! TOMA ESSA, eu gritava, enquanto eles retrucavam: ENTÃO SEGURA ESSA BOMBA ATÔMICA!
Aos poucos, os pais começaram a chegar e as crias foram deixando a casa. Eu não achava o controle da TV. Fiquei duas horas procurando até que a Lari achou o troço erguido numa estante. Lembrei que, no meio da confusão, eu o escondi lá. Escondi das crias e de mim mesmo. A noite veio e a Lari queria brincar com todos os brinquedos. Fui dormir depois da meia noite. Exausto. Agora, terei um ano de descanso até a próxima aventura...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Encontro casual

Poucos sabem, mas às vezes eu canto. Canto enquanto estou dirigindo, canto no chuveiro, canto com o som ligado a mil no computador ou na TV, enfim, canto quando tenho vontade. Porém, fazia dias que não cantava. Até ligava o rádio ou colocava um pen drive no som do carro para tentar embalar, mas não ia. Não fluía. Não evoluía. Faltava aquele gás, aquela energia que torna a censura da vontade de cantar insustentável. Aliás, nos últimos dias nem vontade de ouvir música eu tinha. Colocava sons animados, músicas tristes, rock leve, rock pesado, música eletrônica, axé, reggae, música gaúcha, sertanejo, metal, Galinha Pintadinha, em resumo, de tudo um pouco, e nada me animava. Provavelmente porque você parou de me mandar músicas para elevar as energias positivas do meu dia. Ou, quem sabe – e essa é a principal hipótese – porque eu não te via há anos.
Como nessa vida cada trilha percorrida sem destino nos leva há algum lugar, foi justamente enquanto flanava por uma das ruas mais movimentadas dessa metrópole que cruzei com você, dia desses. Foi aquele encontro sem jeito, inesperado, que me pegou de surpresa. Será que chove? Como anda a vida? O que tem feito? Namorando? Achei que ia rolar até um “Pra ser sincero... prazer em vê-la, até mais...” do Humberto Gessinger, entretanto, nunca vou conseguir te enxergar apenas como a amiga da música, como sempre te falei desde que nossos lábios se encontraram pela primeira vez...
E foi nesse dia que, depois de muito tempo, nossos olhos se encontram por poucos segundos e eles falaram tudo o que nossas bocas não haviam dito em anos de separação. O momento foi atrapalhado por aquele meu amigo sem noção que, em meio a milhões de pessoas dessa cidade e milhares de ruas, foi cruzar por nós justamente naquela hora e naquela avenida. E você, meio sem jeito, puxou o cabelo para trás da orelha, sorriu e disse um “até breve” que me deixou sem palavras, pois te ver em breve é o que mais tenho sonhado nessa vida...
Apesar do encontro rápido, desde então tenho voltado a cantar. Você tem uma boa energia, e parece que ela é contagiosa, pois recarrego a minha positividade estando perto de ti. O problema é que fico perto de ti bem menos do que gostaria. A questão é que o combustível das lembranças não tem força suficiente para manter a minha energia como cantor funcionando a pleno vapor por longos períodos de tempo. Portanto, estou aproveitando o momento para cantar sem parar, e uma das minhas músicas preferidas é “Você me ligou naquela tarde vazia, que me valeu o dia”... Bem, não foi uma ligação, mas sim, um encontro casual, mas que igualmente me valeu não só aquele dia, mas todos os dias posteriores até essa noite vazia. Isso certamente vai durar por um tempo, só espero que eu possa reabastecer essa bateria de positividade tão boa antes que a ela descarregue por completo, como acontece com a moça no fim do clipe do “More than you know”... Aliás, mesmo distante geograficamente e temporalmente, eu penso em ti “more than you know and more than you can imagine”. See you soon, baby. I hope and I dream. After all, a poor dreamer is what I am.

domingo, 22 de outubro de 2017

O insaciável desejo do inalcançável

A felicidade plena é inalcançável. Sempre queremos o que não temos. O marido e a esposa perfeita moram ao lado. Não precisa ser o famosíssimo Lacan nem o renomado professor de Comunicação e romancista Felipe Pena para nos darmos conta facilmente desses fatos. Aliás, estou terminando de ler “O marido perfeito mora ao lado”, de Pena. Um bom livro. A minha única crítica é que, apesar do título ser um dos mais criativos que já vi, não tem nada a ver com a história. Ou melhor, tem um pouco a ver. Mas não muito. Entertanto, não é sobre isso que quero falar. É sobre aquilo que temos (ou não temos) e que queremos ter.
Sempre sonhamos com algo que queremos muito: o brinquedo novo, a nota 10 na disciplina tal, o diploma, o emprego perfeito, o alto salário, a namorada/namorado perfeito/a, o carro do ano, a casa na praia, a viagem para Paris, Londres ou Nova York, a Smart TV de última geração, o videogame perfeito, o celular recém lançado... Enfim, você pode dizer que essa é a premissa lacaniana do desejo, mas foda-se Lacan, deixa eu teorizar a porra toda um pouco também... Já li um pouco de Lacan e do meu brother Felipe Pena, mas também tenho direito a ser metido a teórico das coisas sem pé nem cabeça que regem a humanidade...
Então, meu foco aqui é falar sobre aquilo que queremos e não temos (ou temos, mas depois que temos, queremos mais ou outras coisas) nos relacionamentos (de uma noite ou uma vida) e no futebol. Vejam bem, meu bem, assim como adaptando a teoria lacaniana para a contemporaneidade podemos dizer que, assim que nos mudamos para uma casa ou apartamento maior e melhor já começamos a sonhar com um ainda melhor, assim como quando trocamos de carro, depois de um tempo, começamos a almejar um carro mais novo, mais moderno e melhor, também podemos (e geralmente é o que é feito) desejar novamente o que não temos no que diz respeito a relacionamentos e ao esporte (ou que já tivemos e não temos mais). Confuso, não? Também reli essa última frase umas cinco vezes e não consegui pensar em algo melhor. Foda-se, quando estiver são eu releio e, se tiver paciência, posso mudar (o que acho que não será o caso). Então, comecemos pelo futebol. O time do sujeito ganha o estadual. O torcedor almeja agora o nacional. Ganha o nacional. Comemora, mas em pouco temo, sonha com a Libertadores. Depois o mundial. Pode até ganhar, como Grêmio, São Paulo, Inter, Corinthians.. mas, assim que volta a não ganhar, ele esquece a festa que foi feita por ter ganho um dia e quer ser campeão de novo. Ele não se contenta em apenas lembrar como foi bom ter sido O CAMPEÃO dez anos atrás. Ele quer mais. Ele quer pelo menos uma copinha do Brasil ou um brasileiro. Porque sempre queremos mais. Nos relacionamentos é mais ou menos o mesmo.
Lutamos pra conquistar alguém, fazemos mágica, abrimos nosso coração e, não por falta de sinceridade ou de pureza do sentimento, mas quando conquistamos, depois de um tempo, queremos conquistar de novo. E esse de novo ou será outra pessoa ou, então, perdemos a pessoa que conquistamos e, ao perde-la, passamos a deseja-la novamente. Esse é o clássico do sujeito ou sujeita que errou, perdeu o ou a amada e, só então, passa a correr atrás dela/dele. Poderia ser feito um puta artigo relacionando a teoria de Lacan com Californication, que é todo regido a partir do fato de que a sujeita cansa das putarias de Hank Moody e, depois que ele a perde, ele dá a vida para ganha-la de volta. Mas, se ele a ganhasse de volta (não sei se ganha, estou vendo a última temporada) provavelmente ele buscaria outras novamente, pois não conseguimos nos acomodar. Temos que sempre querer mais. Claro, as energias podem ser voltadas para N coisas: de repente alguém que tomou no cu até não poder mais resolve mudar o foco e gastar todas as suas energias a ajudar quem precisa, a fazer trabalho social e voluntário, ou pode concentrar toda a sua ambição no jogo (como torcedor ou apostador). E a vida tem que ser assim. O músico que lança um álbum que estoura pra caralho vai sempre querer que o próximo seja o melhor da história. O jogador que ganha o título de melhor do mundo, vai querer ganhar esse título todos os anos, mas a cada ano vai querer que aquele seja o melhor de todos. O escritor famoso (se é que isso ainda existe) que lança um livro que se torna best-seller e é ovacionado pela crítica vai querer lançar um ainda melhor na sequência. E, numa escala cotidiana, fazemos isso a todo tempo: queremos que o próximo amor seja O AMOR da nossa vida. Que aquela festa seja A FESTA inesquecível. Que aquela viagem seja uma PUTA VIAGEM. Que aquele emprego seja O MELHOR DE TODOS e que nunca mais vamos querer trocá-lo por outro. E assim vai...
E como lidar com tudo isso? Vá saber... Se eu soubesse, postaria a solução pra essa porra toda... Acho que ter consciência de toda essa nossa necessidade é um primeiro passo para algo... Enfim, para algo que eu também não sei o que é, mas que um dia, quem sabe, saberemos... Hasta!

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ninguém nos tira o tri - nem os colorados

Já comentei aqui e em outros lugares que eu já fui um gremista muito fanático. Um dos maiores elogios que ouvia nos tempos de colégio é “você é mais chato do que o Paulo Santana”, quando começava a falar de Grêmio e discutir com os colorados sobre futebol.
Porém, o tempo passa, veio a universidade, eu não tinha tantos colegas fanáticos por futebol, a fase do Grêmio que papava tudo de 1995-1997 passou um pouco, as mulheres, as festas e a bebida começaram a aparecer na minha vida, bem como a literatura, Charles Bukowski, Henry Miller, Jack Kerouac e muitos outros e, consequentemente, o Grêmio, que ocupava praticamente 90% do meu interesse até o final do Ensino Médio, passou a ficar um pouco de lado. Não que eu não assistisse a praticamente todos os jogos, ou que quando morei em Porto Alegre não adotei o Olímpico como minha segunda casa, ou que praticamente não chorei de emoção ao ver o Maxi Lopes fazer o gol da virada de 2 a 1 contra o Inter no Gre-nal número 1000, que assisti das arquibancadas do velho casarão ou que não sai na neve em Nova York para assistir no Smithfield (o bar dos gremistas) ao tricolor tomar 4 a 0 do Coritiba no Couto Pereira... Mas, aquela expectativa, aquela ansiedade, aquela insônia, aquele acordar pensando naquilo e dormir pensando naquilo envolvendo um jogo do Grêmio ficou muito tempo adormecido.
No ano passado, até voltei a ter um pouco dessa ansiedade nos jogos da semifinal e final da Copa do Brasil. Mas, com os resultados dos jogos de ida, fora de casa, contra Cruzeiro e Atlético-MG, praticamente resolvendo a parada, acabei ficando mais relax para os jogos decisivos, na Arena. Portanto, penso que agora, passados 20 anos do título da Copa do Brasil conquistado dramaticamente contra o Flamengo em 1997, no Maracanã, volto a sofrer de ansiedade, nervosismo e insônia por conta de um jogo do Grêmio. Não consigo lembrar se fiquei tão nervoso antes do jogo contra o Náutico, na Batalha dos Aflitos, ou na final contra o Boca, em 2007 (que no caso, também teve um corta-prazer depois da derrota na Bombonera), mas o fato é que, agora, em 2017, para o jogo da próxima quarta contra o Barcelona, estou incrivelmente ansioso.
Na última noite sonhei que estava no Equador. Foi muito real. Estava eu, meia dúzia de alunos e meu pai. Havia dois colorados no grupo (Renan e Ramon). Já os demais, vestiam camisa do Grêmio. A caminho do estádio, tínhamos que passar a pé pelo meio da torcida do Inter (não faço ideia que porra estavam fazendo lá, mas enfim), que cantava freneticamente em meio a bandeirões e muita fumaça de cigarro. Gelei. Tiramos as camisas e escondemos nas calças/bermudas para passar pelo meio. Um dos colorados, o Renan, disse: “calma, que eu sei essas músicas” e começou a cantar. Passamos pelo bolo de colorados e chegamos ao estádio de Guayaqiuil, que estava absolutamente lotado.
Entramos cantando músicas da Geral do Grêmio (o Renan e o Ramon, os dois colorados do grupo, cantavam também) e de lá assistimos ao jogo, que acabou 0 a 0. Na saída do estádio, lembro da angústia de encontrar meu pai e fiquei com medo de que ele ficasse perdido no Equador. Depois que o encontramos, voltando para o Brasil de ônibus, fiquei completamente eufórico diante da possibilidade de voltar para uma final da Libertadores. Faltava apenas um jogo. E então, eu acordei.
Ainda faltam cinco noites para a partida. Espero nessa noite sonhar com a classificação e, depois, com o título. E espero que tudo se torne realidade. Diria que, dessa vez, estamos mais próximo do título da Libertadores desde 1995. Alguns dirão que teve 2007, mas no referido ano, desde o primeiro gol do Boca Juniors, não conseguimos chegar nem um pouco perto da taça. Nesse ano será diferente. O time é melhor. Tem Luanel Messi. Tem Geromito. Tem Cãoneman. Tem Rei Arthur. E tem Reinato Gaúcho. Nesse ano, ninguém nos tira o tri! Espero que, pelo menos, não nos meus sonhos.