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sábado, 24 de junho de 2017

A garota de azul

Era um meio de tarde de um dia de semana qualquer. Era horário de trabalho. As pessoas corriam a pé ou de carro de um lado para o outro, preocupadíssimas com seus compromissos diários intransferíveis: contas para pagar, reuniões cansativas, cobranças para fazer, desculpas para inventar ao chefe ou à esposa chata pelos minutos atrasados. E eu estava ali, sentado de frente para a garota de azul, bebericando minha cerveja. As outras três garotas que estavam com ela, não me interessavam. Na verdade, nem sei como eram, pois meus olhos estavam todos voltados para a garota de azul. Lá dentro do bar, meia dúzia de caras com cara de mau jogavam sinuca. Volta e meia um deles cutucava o outro e apontava para a mesa ocupada por quatro garotas. E uma delas, era a garota de azul. A única que me interessava.
Ela não me olhava. Nem precisava. Eu olhava por nós dois. Ela conversava com as outras e eu não ouvia as palavras, apenas observava a sua pele branca, o cabelo negro e a blusa azul. Eu viajava no som de sua voz que chegava quase inaudível aos meus ouvidos, dançava mentalmente com ela em um salão de festas fitando os seus olhos verdes que, naquele momento, não estavam nem aí pra mim. Da minha mesa eu apenas observava enquanto sonhava acordado. Eram três da tarde de um dia de semana. Eu deveria estar no meu escritório, preocupado como todo mundo, pensando de onde vou tirar dinheiro para fechar o orçamento do mês, apoquentado com as pensões das duas ex-mulheres, mães de meus dois filhos. Eu deveria estar preocupado com a minha avó, internada na UTI há uma semana. Deveria estar de luto pelo Banzé, meu único companheiro desde que me separei da última vez e que foi para o céu dos caninos há duas semanas. Deveria estar respondendo as mensagens das outras garotas, as de vermelho, branco, amarelo e verde, que apareceram na minha vida desde o último divórcio. Mas eu não gosto de vermelho, branco, amarelo e verde. Eu gosto de azul. E aquela garota na mesa em frente à minha estava de azul. E ela fica absolutamente perfeita de azul. Fico imaginando o que ela pensa, o que ela faz, do que ela gosta, o que ela já viveu, qual foi a melhor viagem de sua vida, quais são seus sonhos, se ela conseguiria enxergar que eu posso ser bem mais do que um cara comum sentado numa mesa de bar num dia de semana qualquer no horário do expediente. Penso nisso tudo enquanto a observo. Ela ri. Seu sorriso é lindo. Apaixonante. Uma das garotas fala e fala e fala e ela fica observando a sujeita com testa semi franzida. Como eu gostaria de ver aquele rosto me olhando com aquela expressão. Talvez se eu levantasse e perguntasse qualquer coisa banal, do tipo: “Hey, garota de azul, vamos sair daqui, esquecer essas pessoas, colocar meia dúzia de roupas numa mochila e cair na estrada pela América Latina? Eu até conheço um hostel legal perto de Macho Picho, acho que você iria gostar e...”. Não, ela não tem jeito de ser aventureira. Minhas duas últimas esposas também não eram. Tive que optar: ou viver a vida ou viver para elas. Escolhi viver a vida. Mas, não sei por que, a garota de azul parece me entender. Seus olhos transmitem uma sensação de liberdade, de paz, de ficar bem, de amar e ser amado sem cobranças... Como se fosse possível.... Olhando para ela, penso que tudo é possível... Só posso estar ficando louco...
Acaba a cerveja, peço mais uma. Elas seguem conversando. Bebem Coca Cola. Minhas duas últimas ex também não bebiam bebida alcoolica. Mas a garota de azul me da uma espiada, como se quisesse um gole da minha cerveja. Seu olhar dura 2,2 segundos. É o suficiente para entender: é o tipo de garota que procura muito mais do que um rostinho bonito ou um cara que anda de carro importado e telefone celular, como diria o Chorão... É o tipo de garota que sabe o que quer, que pode não aceitar um copo de cerveja num bar como aquele, mas que topa tomar um bom vinho viajando com um mochilão nas costas na beira da Cordilheira dos Andes. É a garota que eu sempre sonhei, mas nunca encontrei. Aliás, é a garota que eu achei que sequer existisse. Mas ela existe, e está ali, na minha frente, numa mesa de bar num dia de semana qualquer durante o horário de expediente vestindo uma blusa azul.
De repente elas se levantam. Parece que vão embora. Sinto que tenho que fazer alguma coisa, mas nada me ocorre. Estou paralisado pela beleza da garota de azul. Elas vão ao balcão pagar a conta e não me olham. Normal. Por que olhariam para um cara sentado sozinho numa mesa de bar num dia de semana no horário do expediente? Elas pagam a conta e vão embora. Eu fico olhando a garota de azul até que ela some do meu campo de visão. Tento guardar a sua imagem para sempre, mesmo sabendo que, no fundo, em alguns dias eu não terei condições de lembrar como era o seu rosto. No máximo lembrarei da blusa e dos cabelos negros. Um nó invade meu peito, pois sei que terei que voltar para as garotas de amarelo, verde, roxo, lilás, rosa, preto, branco, laranja e bege. Sei que posso ter todas elas, mas eu só quero a garota de azul.
Duas semanas se passam, até que vou pegar o ônibus da minha cidade para a fronteira com a Argentina. Vou começar um mochilão de dois meses por aí, sem rumo. Na minha mente, não observo as blusas multicoloridas das outras garotas, pois penso apenas na garota da blusa azul. O ônibus anda e, após algumas horas, para na rodoviária de uma cidadezinha qualquer. Meu coração quase para quando vejo ela, a garota de azul, entrar no mesmo ônibus. E com apenas uma mochila nas costas. Sorrio ao ver ela passar sem me olhar e concluo: sim, ela é a garota da minha vida. Para a minha sorte, dessa vez também estou vestindo uma blusa azul.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Vida e morte

Na última semana, quando estava indo de Frederico Westphalen, no norte do Rio Grande do Sul, para Pelotas, no sul do estado, tive duas experiências na mesma viagem que me deixaram pensando na vida e na morte. São coisas banais, que vezemquando a gente pensa, mas que quando menos esperamos resolvem aparecer diante dos nossos olhos para mostrar: hey, babaca, não é só teoria não! Isso também é prática!
Primeiro, eu já tinha passado da metade do caminho e estava ouvindo uma música qualquer no rádio, cantando, batucando com as mãos no volante, feliz da vida, pois o sol havia aparecido e a minha vida parecia perfeita. Eu olhava para os lados, olhando a “paisagem” em volta. Aquele caminhão com uma porta preta gigante na minha frente e uma barra de ferro vermelho e branca era só mais um trambolho em cinquenta rodas entre tantos que já estava acostumado a ultrapassar viajando por aí. Eu REALMENTE estava distraído e feliz. E nesse momento de distração que, de uma hora para a outra, a minha vida quase se encerrou. Numa fração de segundos, eu via aquele caminhão absolutamente parado na minha frente, derrapando para o acostamento. Por reflexo, desviei dele, mas, para isso, entrei na contramão. Atravessei a outra pista e derrapei num barranco, quase caindo para baixo, obviamente, pois seria difícil cair pra cima.. Enfim... O susto foi grande. Fiquei quase uma hora parado. O cara do caminhão na minha frente bateu na traseira de outro caminhão. E o motorista do primeiro disse que freou repentinamente para não bater em um carro, que como não foi atingido, seguiu viagem tranquilamente.
Bom, vamos às possibilidades, que seriam normais, se tivessem acontecido. Primeiro, e mais óbvio, seria na hora em que entrei na contramão vir um carro ou um caminhão e bater de frente no meu carro. Difícil imaginar o que aconteceria, mas é bem possível que não estaria aqui, agora, digitando essas linhas. Segundo, eu poderia estar olhando para o lado e ter parado literalmente embaixo daquele caminhão. Também seria difícil escapar. Terceiro, eu poderia ter virado no barranco. Nesse caso, acho que até escaparia. Acabou acontecendo o menos pior: apenas bati de leve na ponta do caminhão, amassando um pouco o carro. Eu, particularmente, saí ileso.
Respirei fundo, tentei assimilar tudo aquilo, e segui viagem. Já havia escurecido, eu recém havia passado por um pedágio (se não me engano, em Canguçu), não tinha nenhum outro carro ou caminhão por perto, e acelerei, pois não via a hora de chegar. Estava a uns 110 ou 120 km/h quando, de repente, vejo sair do matagal um gato. Não deu tempo de nada, só de pensar “não corre, filho da puta. Fica aí, fica aí, fica aí... Putamerda”. Lastimei, mas não pude fazer absolutamente nada. Apenas senti um “blupt” no pneu dianteiro. Fiquei mal. Porra! Há poucos momentos tive muita sorte. Sei lá se foi o destino ou o acaso que me salvou, mas tudo o que sobrou pra mim, faltou praquele pobre bichano.
Ele estava no lugar errado, na hora errada. Foi cruzar a rodovia justamente no momento em que eu passava. Isso poderia ter acontecido comigo, se um caminhão viesse na contramão na hora em que mudei de pista para não bater no outro, que freava repentinamente na minha frente... Por que eu tive essa sorte e o gato não? E se fosse uma gata, que estava procurando comida para seus gatinhos pequenos? E se esse gato tivesse tido um dia super feliz, como o que eu tive? Se ele tivesse deixado a sua gata em casa e, voltando para o seu canto, teve que cruzar a pista justamente na hora em que eu passava? A pobre gata pode estar esperando o amado bichano até agora... Difícil entender...
É complicado processar o que acontece na nossa vida, inclusive o fim dela, a morte. Até agora não assimilei a perda do meu amigo e colega Wesley Grijó, que partiu na sexta-feira da mesma semana dessa viagem. Por que ele, e não outro? Não vou (até porque nem posso) tentar responder a essa pergunta. Mas, futuramente, pretendo escrever um texto sobre ele, que em pouco tempo encantou a todos com quem ele teve um pouco mais de contato, com sua inteligência e humor sutil e, por vezes, cínico-realista. Aprendi muito com ele em pouco tempo. Pena que não teve a mesma sorte que eu tive, pois sorte é a única palavra que justifica o fato de eu estar aqui, escrevendo essas linhas agora.

sábado, 3 de junho de 2017

Uma dose de loucura


Some may never live
But the crazy never die
Alguém talvez nunca viva
Mas o louco nunca morre

Diz o quadro que está
Acima da minha cabeça
Não sei se sou louco o suficiente
Para nunca morrer
Às vezes gostaria de ser só um pouco
Mais louco do que tento ser

Contudo, há pessoas que ainda conseguem
Puxar-me de volta para a terra
Para a realidade
Nua e crua
Triste e fria
Solitária e vazia

Então eu grito:
Não, deixem-me flutuar
Deixem-me acreditar no impossível
Sonhar com o improvável
Desejar o intocável

Deixem-me voar por ai
Sendo mais um louco
A cantar pelos bares e praças
A dançar na chuva agarrado
Às patas dianteiras de um cão de rua
A gritar para dizer que é bom

É bom ser louco
E eterno
Mas não sou louco o suficiente
Para ser tão bom quanto
Um morto imortal

Preciso só de mais uma dose de insanidade
Para me desprender de tudo o que me faz mal
Que me deixaria eternamente terno
E que talvez me faria
Sentir o gozo infinito
Daqueles que não sofrem
Por serem loucos

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Mais que demais

Todos os dias, na mesma hora, quando chegava o final de tarde e eu deixava o escritório, ouvia aquelas músicas que vinham da janela do segundo andar ao fundo de um prédio azul e branco localizado no centro de uma cidade qualquer. A primeira música que ouvi, fui descobrir depois, era La Camisa Negra. “Tengo la camisa negra. Hoy mi amor esta de luto. Hoy tengo en el alma una pena. Y es por culpa de tu embrujo”. Era impossível não prestar atenção naquela música que mesclava um estilo caribenho com bandinha alemã. Com aquele som alto, imaginava que havia algum tipo de festa por lá, um happy hour secreto e badalado ao mesmo tempo. No segundo dia, ouvi “Despacito” pela primeira vez. Semanas depois, essa música viraria hit e tocaria em todas as rádios e canais fechados especializados em música pop. “Uma caribenha”, pensei. Mas, no terceiro dia, Mallu Magalhães mandava o recado: “Você não presta”. E a vontade de sair dançando pela rua desajeitadamente, num desejo reservadamente gaúcho de ser carioca, tomou conta do meu corpo. Comecei a desacelerar o passo toda a vez em que passava na frente daquele prédio, só para curtir as músicas que vinham de lá, daquele fundo. Até fiz o teste de passar por ali em outros horários ou nos finais de semana. Mas, nesses casos, só encontrei o silêncio.
Numa segunda-feira Lord Huron cantava “The Night We Met”. Na terça, “Shape of you”, de Ed Sheeran. Na quarta, deu vontade de entrar no prédio, bater na porta, e tirar a pessoa do outro lado “da mesma” para dançar no meio da sala no embalo de Vance Joy, com Riptide. Na quinta, confesso que cheguei a ficar parado na entrada do corredor que leva para a garagem do prédio, que não tem nenhum portão, e que me permitiu ficar escorado na parede ouvindo Entrelaços, de Scalene.
Fiquei olhando pela janela de onde vinha a música e apenas vi uma sombra, que quase desaparecia com o pôr do sol, mas que revelava cabelos lisos e um corpo feminino solitário dentro do apartamento.
Um dia um cliente chegou perto das seis. Fiquei tenso, não queria perder a música da sexta-feira. Nervosamente, perdi um ótimo negócio, despachando o sujeito para um ex-colega meu, que me contou posteriormente que ganhou uma boa grana com ele. Foda-se, naquele dia tocou Love Someone, de Jason Mraz. Já estava me acostumando a ficar naquele horário na entrada da garagem ouvindo as músicas que saíam da janela lá do fundo. Vezemquando um carro chegava ou saia, mas ninguém dava muita bola para a minha presença. Apenas uma vez uma senhorinha de cabelos brancos pensou que eu estava passando mal e perguntou se eu precisava de ajuda. Eu respondi que não e ela entrou prédio adentro, desconfiada. Na outra semana, cada dia tocava uma música do Holzier: Work Song, Someone New, From Eden... Quando pensei que a moça era muito internacionalizada, ela colocou “Fica”, de Anavitória com Matheus & Kauan. Fazia mais de um mês que eu seguia essa rotina de final de tarde, de segunda à sexta-feira. De vez em quando eu via por alguns segundos aquela sombra dançante, e noutras, sendo levemente mais ousado, tentei me aproximar da janela, para ouvir mais a música e menos o som das gotas de água que despencavam com toda a força no meu guarda-chuva. Um dia o som estava mais baixo, e cheguei a ir até a porta de entrada do prédio para ouvir Long Drive, de Jason Mraz.
Mas o dia que nunca vou esquecer foi aquele em que tocava uma música qualquer, que sequer consigo lembrar, pois foi abafada pelos latidos daquele cachorro. Ele era peludo, me fez lembrar o velho Pingo, o meu cachorro favorito, que ganhei quando tinha cinco anos e morreu 16 anos depois.
Era baixinho, patas curtas, pelos longos, marrom claro com preto e orelhas pontudas. Quando cheguei ao portão ele começou a latir e a correr em direção a porta de entrada, como se quisesse me mostrar algo. Por instinto, resolvi segui-lo. Paramos na frente da porta de entrada do prédio. Ele passou a latir mais forte e a abanar o rabo. “Deve ser de alguém do prédio e ficou para fora”, pensei. Vi que alguém descia as escadas. Só podia ser o dono ou a dona. O cachorrinho colocou as duas patas nas minhas coxas, pedindo carinho. Acariciei a cabeça dele. Quando olhei para a porta, suspendi a respiração por um tempo ao ver aqueles olhos verdes e curiosos me fitando:
- Olá – disse ela.
Demorei para colocar o cérebro à processar novamente.
- Olá – respondi, quase sem fôlego – É seu?
Ela sorriu. E no seu sorriso, no seu olhar, no seu gesto, eu reconheci quem ela era: a moça do apartamento dos fundos de onde vinham todas aquelas músicas. Aliás, naquele momento “Nobody knows” de The Lumieers começava a tocar.
- Não... Não é meu...
Perdi a voz. Não sabia o que falar. Nem precisava, ela falava por nós:
- Faz dias que ele vem aqui. Fica na garagem um tempo, e vai embora.
Fitei o cachorro, que me respondeu com olhar cúmplice. Estava de língua de fora, com cara de feliz, abanando o rabo.
- Desci porque essa foi a primeira vez que ele latiu – confessou, com um leve sorriso no rosto.
Eu estava totalmente hipnotizado: seus olhos verdes, seus cabelos negros, combinando com a pele branca, seu sorriso envolvente, sua voz sedutora e o gosto musical, revelado todos os dias na mesma hora, me deixaram completamente desarmados. Apontei para a janela e arrisquei:
- É você que mora... lá?
- Sim, sou eu. Por quê?
- Nada não. Gosto dessa música.
Ela sorriu. O cachorro latiu. Acariciamos a sua cabeça ao mesmo tempo.
- Bom, se você não é a dona do cachorro, nem eu...
Ela jogou o cabelo para trás da orelha esquerda, fitou meus olhos, e sorriu, antes de dizer:
- Ele fica aqui um tempo e vai embora... Nem esquenta...
- Acho que entendo ele perfeitamente.
- Entende?
O cachorro, percebendo que um dialogo mais extenso começava, sentou-se e ficou ali, esperando. Depois de alguns longos minutos de conversa, despedi-me. O cachorro latiu, também dizendo um “até logo”. Ele me seguiu até em casa e não pude deixar de convidá-lo a entrar. No dia seguinte, saí do escritório mais cedo para pegar o cachorro em casa para me acompanhar, afinal, ele também adorava as músicas dela. E, tão acostumado que estava, escorei-me no muro e fiquei ouvindo, dessa vez, “Mexeu comigo”, de Tiê. Quando ela cantou a última frase “você veio e mexeu comigo” eu olhei para a janela. E ela estava lá, me olhando e sorrindo. Ela também veio e mexeu demais comigo. Mais do que demais.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Sobre literatura, amor e preconceito

Sempre tentei ser um cara sem preconceitos. No sentido mais amplo do termo. E uma das formas de preconceito mais difíceis de serem evitadas é o preconceito cultural. Mas hoje vou falar de literatura. E, por ser uma das áreas culturais em que mergulho mais a fundo, também tenho meus dilemas. Lembro-me de uma vez em que em uma aula do mestrado eu comentei algo relacionado ao Charles Bukowski e um colega meu torceu o nariz e disse: “ai você está apelando”, no sentido de que a literatura dele é uma literatura menor ou de baixa qualidade. Como eu era um novato, acabei ficando na minha. Se fosse hoje o papo seria diferente.
Porém, confesso que tenho alguns preconceitos culturais. Mesmo tentando evita-los. Hoje vou ficar apenas na questão da literatura. Uma vez ganhei um livro de autoajuda em um amigo secreto, do Augusto Cury. Eu tinha o maior preconceito com livros de autoajuda. Mas li. E gostei. Fiquei com a expressão: e não é que funciona? Outra vez li o Quem mexeu no meu queijo, emprestado do meu irmão. Também gostei. Dei para o meu pai de dia dos pais, certa vez, Pai Rico, Pai Pobre. Também gostei. Então, aos poucos, meu preconceito com livros de autoajuda quase que terminou, apesar de que tem alguns que são muito apelativos, ou seja, não é porque eu gostei de alguns é que vou gostar de todos, bem como não é porque gosto de Jack Keorouac que adoro toda a obra dele: tem alguns abacaxis no meio da miscelânea.
Agora sim, chegamos ao ponto: também tinha (e ainda tenho, de certa forma) preconceito com best sellers. Se na capa do livro diz algo como “mais do que 90 milhões de livros vendidos”, o sinal de alerta começa a piscar em meu cérebro. E, nessa semana, acabei de ler um livro que é best seller e que tem exatamente essa frase escrita na capa. Confesso que, se não fosse uma dica de alguém que eu confio muito nos seus gostos culturais, eu nunca teria lido. Mas li e gostei.
Trata-se de Uma Longa Jornada, de Nicholas Sparks. O cara é um autor de romances no sentido clássico do termo, ou seja, histórias de amor. E, confesso, o cara é bom nisso. Ou seja, ele é bom no que está se propondo a fazer. Apesar de serem facilmente identificadas algumas técnicas narrativas e de enredo (aquelas consagradas nos folhetins, no cinema e na telenovela) a história é boa e envolvente. Além disso, tem um “quê” de autoajuda voltado para o campo amoroso. Uma das técnicas utilizadas é a clássica da narrativa de ficção de se colocar o herói numa situação irreversível, fazendo o leitor crer que não vai dar certo, mas então, com uma onda de coincidências e de intervenções do destino, o impossível acontece. E, mesmo você sabendo que o autor está jogando com isso, mesmo já tendo adivinhado por antecedência o que aconteceria, você sente um prazer, e até certo alívio, ao ver que as coisas terminaram bem.
Agora, no entanto, deixamos a forma de lado para falar sobre o que interessa: o conteúdo. Essa é uma história de amor. Aliás, duas, que se relacionam, se cruzam e se encontram. Mas, como diria a pessoa que me indicou o livro, é uma história de amor verdadeiro, não aquele tão comum hoje em dia, de pura brincadeira entre duas pessoas que se relacionam ou se envolvem tendo o sexo, o interesse financeiro, o status e outros elementos mais superficiais como interesse. Em resumo, são histórias que representariam o que hoje é exceção. Ou melhor, que representa um sentimento que muitos poucos realmente acreditam existir: o amor romântico entre duas pessoas. Mas são histórias tão encantadoras que, como eu disse, tornam o livro quase uma autoajuda do amor, porque você termina de ler e fica pensando: caralho, não é tão difícil quanto parece. Claro, a palavra “difícil” na verdade – como acontece com os personagens – está presente na história (que como o nome do livro diz, é uma longa jornada), mas o sentimento, o companheirismo, a mútua compreensão, a parceria, a atração e tudo o mais acabam ficando acima das dificuldades, por pior que elas venham a ser.
Bom, chega de enrolação que agora vou dar uma de estraga prazer para esmiuçar a história (se você pretende ler o livro sem querer saber nada do que acontece, pare por aqui).
O romance conta a história de dois casais: Ira, 91 anos, é viúvo de sua esposa Ruth. A história deles é contada de maneira intercalada com a de Luke e Sophia, de vinte e poucos anos, que estão começando um namoro. As duas histórias apenas se encontram ao final do livro. Ira sofre um acidente e fica preso dentro do carro. Então, ao longo do romance ele dialoga com a esposa falecida, Ruth, que aparece ao seu lado. O casal vai lembrando dos momentos bons, dos difíceis, das emoções, enfim, da vida que viveram juntos desde que se conheceram. Luke e Sophia, por sua vez, se conhecem a partir de uma confusão em um rodeio em que Luke estava montando e Sophia briga com o então namorado, Brian. Luke intervém e, a partir dali, começam a se envolver. Há todo o drama de um relacionamento que se inicia: Brian ainda a persegue e começa a namorar a melhor amiga de Sophia, Luke encontra-se em dificuldades financeiras e têm, juntamente com a mãe, uma dívida gigantesca que resultará na perda da fazenda deles, etc. Em síntese, são duas pessoas diferentes com destinos diferentes, pois enquanto Sophia é de New Jersey (ou seja, é uma criatura totalmente urbana) e estuda Artes, Luke é um peão de rodeio e mora em uma fazenda na Carolina do Norte. Sinceramente, quando li, pensei: “conheço essa história, não tem como duas pessoas totalmente diferentes darem certo”. Até porque, Luke não quer sair da fazenda e Sophia sonha em trabalhar em um grande museu em Nova York ou Denver. Já a história de Ira e Ruth é mais clássica (e mais fácil de encontrar uma parecida entre os idosos que ficaram casados a vida inteira que você conhece): eles são do período pré-Segunda Guerra Mundial, se conheceram, casaram-se e viveram uma vida juntos. Até ai tudo bem. A novidade da história é que eles realmente se amaram até o fim da vida. O romantismo entre o casal ultrapassa a questão temporal e as declarações de amor vão cruzando as décadas, conforme Ira vai dialogando com a esposa morta dentro do veículo acidentado. Por exemplo, ele comenta sobre como era encará-la no início do namoro: “Você era a garota mais bonita que eu já tinha visto. Era como tentar olhar para o sol”. Em outro trecho, ele comenta uma das regras para a vida que o pai dele tinha lhe passado. Eu até marquei no texto, pois essa é uma boa dica para quem tem filho homem: “casar com uma mulher mais inteligente que você”. Hoje considero isso muito importante e vou passar a aconselhar os mais novos que pretendem se casar.
Entretanto, o principal ponto da história entre Luke e Sophia, a meu ver, é que era um negócio que não era para acontecer. Justamente por serem diferentes e terem destinos opostos. E, apesar de serem diferentes, eles eram relativamente parecidos. Complexo não? É que apesar de serem de mundos diferentes, eles tinham uma forma de ver o mundo e personalidades semelhantes. E isso talvez seja o principal. Muitas vezes são duas pessoas do mesmo mundo (agrário, acadêmico, profissional, econômico, etc) mas com visões de vida completamente opostas. E, outras vezes, como foi o caso, eles eram de mundos diferentes, mas com perspectivas semelhantes. Mesmo assim, havia a questão da logística: Sophia se formaria e iria embora. Luke não queria deixar a mãe sozinha na fazenda. E essa falta de perspectiva futura atormentava os dois: eles se amavam, se queriam, gostavam um do outro, mas a logística era toda contra. É nesses momentos que a emoção supera a razão. E, penso eu, isso às vezes funciona e às vezes não. Tudo depende de tudo.
Bom, a essa altura, você, imaginário leitor, deve ter percebido que não estou indo para lugar nenhum. Então, volto para a história para resumir o restante do romance: ao final, Luke e Sophia encontram Ira, que já estava há alguns dias preso no carro, e chamam socorro. Eles têm um encontro rápido com Ira no quarto do hospital, onde ele pede para Sophia ler uma carta que ele escreveu para Ruth. Aliás, ia esquecendo um ponto importante: Ruth também era professora e admiradora de arte. Ao longo da vida, ela e Ira (que não entendia patavinas de arte) compraram várias obras que passaram a valer milhões. Mas eles não ligavam para o valor financeiro das obras. Como eles não tiveram filhos ao longo da vida, Ira deixou um testamento com um critério especial para os compradores. Agora, esse é realmente o finalzinho da história, e o que aconteceu eu não vou contar. Aliás, há várias historinhas paralelas dentro da história ampla, mas que cada uma delas renderia um texto a parte, então, vou parando por aqui.
O único ponto a mais que destacaria é que, apesar do livro pegar o caso de casais tradicionais, ou seja, um homem e uma mulher de 90 anos que passaram a vida juntos e um jovem casal bonito e interessante, fiquei pensando que, sim, o amor é possível (pode me chamar de idiota, imaginário leitor), mas que ele não precisa obrigatoriamente acontecer entre duas pessoas perfeitas.
Nos dois casos, são jovens que começam a namorar e passam a vida juntos (o primeiro casal já passou, e o segundo está iniciando, mas dá a entender que eles também passaram a vida juntos). Infelizmente a vida não é tão lógica assim e penso que pode haver um amor verdadeiro, por exemplo, entre dois idosos que se encontraram já ao fim da vida, ou entre duas pessoas com diferenças de idade, ou entre uma pessoa magra e um obeso, ou entre duas pessoas do mesmo sexo, ou entre duas pessoas de meia idade que já se decepcionaram bastante na vida, ou entre um negro e um branco, ou entre um índio e um ruivo, ou entre um rico e um pobre, ou entre um cachorro e um gato... Enfim, agora sim, concluindo, penso que o amor pode existir, sim, mas que nem sempre ele precisa seguir esse padrão hollywoodiano de dois personagens perfeitos que se amam e ficam juntos para sempre. Também creio que é possível se amar mais de uma vez na vida e que só o tempo pode dizer o prazo de valide de um amor, que a meu ver pode durar uma semana ou uma vida inteira. Como eu disse antes, tudo depende de tudo. Ou seja, algumas coisas não são possíveis, mas nada é impossível. Complexo, não? Então, deixe a complexidade de lado e viva cada amor verdadeiro como se fosse o último, afinal, quem sabe ele não se torne único.


PS: as fotos dos casais são do filme, que ainda não assisti.

sábado, 6 de maio de 2017

Doce fumaça

A fumaça que vejo
Vem de trás das torres
Partem de uma xícara de café
Que chama subitamente
Para mergulhar em olhos acidamente doces
Fazendo o coração viajar longe
Flutuando lepidamente
Até a sacada da moça do sorriso fácil
Das bochechas ruborizadas que tanto encantam
Que fazem sucumbir ao desejo que antes se tentava evitar
Mas que diante da magia da sua companhia
E do calor do beijo macio e áspero
Deixa os lábios e o coração totalmente desarmados
As mãos que se tocam
A lividez das peles que se encostam
As carícias e a dádiva súdita do desejo
Que não pode mais ser calado
Faz com que toda a noite a solidão inevitável
Torne o desejo cada vez mais crescente
Pela companhia da menina de olhos profundos
Deitada apaixonadamente ao lado
Inspirando e levando a suspiros e beijos tétricos
Que fazem um coração apaixonado viajar cada vez mais
Da sacada na noite de lua cheia, embarcando nas nuvens da fumaça da xícara de café
Até o paraíso das palavras ditas pelos olhares
De dois corpos que ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo
Fazendo com que uma noite fria de um mês qualquer
Deixe as marcas com todos os álibis
Que justificam o sentimento mais puro
De se querer cada vez mais
O beijo que não vem da boca
E aquela companhia com uma boa dose de cafeína
Que tem o gosto mais doce do que brigadeiro
Pois tem o sabor inconfundível
Daquele sentimento que você conhece
Mas que temos medo de pronunciar
Aquela afeição que está contigo
No gosto dos seus lábios
E na doce fumaça que me chama
Nas noites frias em que passo na sacada
A olhar as estrelas e a pensar em ti
Minha doce fumaça
Fumaça que confundiu meu corpo
E trocou o pulmão pelo coração.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Have a good trip, Fronza Brother!

Depois de uma séria discussão com Dudu Fronza, o Fronza Brother do grande Ronaldo Fronza Júnior, aceitei (por intervenção do Ronaldo) publicar o texto que se segue:

Escrevi esse texto após uma discussão com o Mr. Ritter, pseudo dono desse blog. Eu mandei um texto meloso e ele me retornou dizendo, de forma educada – quase acadêmica - algo como: “porra, xará, assim não dá mais! Isso aqui tá virando novela das nove, novela mexicana, música sertaneja, o caralho! Mais um texto desses e será o último!”. Parece um membro da família Ochs dando mijada em jornalista do New York Times ou algum descendente de Assis Chateaubriand achando que ainda manda no Correio Braziliense. Confesso que fiquei ofendido com o Mr. Ritter, que disse cagar e andar para o que eu penso ou sinto. Ainda fez uma das coisas que mais odeio, comparou-me ao meu irmão: “Porra, nem parece irmão do Ronaldo! Ele sim, leva jeito para escrever para o blog, mas nunca quer, aquele grandíssimo filho da puta”. Ok. Então, combinei com o Mr. Ritter o seguinte: esse será o meu último texto, a minha última contribuição para esse espaço. (Até parece que ouço a voz do larápio falando “contribuição? Só se for para esse lugar ficar mais às moscas do que já está!”).
Vou escrever esse último texto para falar de coisas boas. Para falar de você. Para falar do quanto eu gosto de você. Do quanto eu gosto de falar com você, de ver você, de pensar em você e de escrever sobre você. Deve ser por isso, aliás, que você ficou de saco cheio - quase tão cheio quanto o do Mr. Ritter. Da última vez em que conversamos falei várias coisas sem sentido, que não valeria a pena comentar ou tentar explicar – do tipo, “vou abandonar o meu gato para ficar com você, afinal você tem alergia a pelos de animais. Mas uma coisa em especial, dentre as várias que você me disse, fez com que eu brigasse com o Mr. Ritter para publicar esse último texto. Foi algo como “eu ainda não sei o que você viu em mim”. Pensando nas coisas que vi em você, eu poderia escrever uma música e mandar para o pessoal do Kings of Leon gravar em inglês e fazer um clipe que seria o maior sucesso musical do século. Poderia escrever um livro de poesias que voltaria a colocar o gênero na lista de best sellers assim como acontecia quando Vinícius de Moraes se inspirava nas suas deusas gaúchas, cariocas e paulistas, em Copacabana, Ipanema e Leblon (nenhuma chegava aos seus pés), nos bons tempos em que palavras e sentimentos eram valorizados. Poderia escrever um romance de ficção em que eu seria o Dom Quixote e você a minha doce e linda Dulcineia del Toboso. Aliás, até poderia dizer que você é a minha Dulcineia, no entanto, a diferença entre você e a musa do Dom Quixote é que você é exatamente como eu te enxergo, enquanto a do Dom Quixote é apenas fruto da imaginação dele... Mas já enrolei demais, e antes que o impaciente Mr. Ritter corte esse texto ou desista de publicá-lo, vou explicar aquilo que você ainda não sabe.
Se não estou enganado, no dia em que conversamos sobre isso eu falei algo como aquela letra do Deixa em off, “eu sei que não era pra gente se envolver, que não era pra gente se encontrar, mas esse amor bandido não posso evitar”. E completei dizendo que no início eu não tive a intenção de me encantar tanto por você, mas foi acontecendo e que eu não entendia o motivo daquilo. Então, você concordou, dizendo a tal frase: “sinceramente, eu também não sei o que você viu em mim”. Agora, quando decidi escrever esse último texto, eu vi tudo claramente. Pois o que vi em você só está em você e em mais ninguém.
Primeiro, vi teus olhos lindos (compará-los aos olhos da Capitu faria com que o Mr. Ritter caísse duro ao ler essas linhas, então, vou poupar você e ele desse clichê horrível). Mas, sim, vi teus olhos e viajei neles. Voltei para os lugares mais maravilhosos pelas quais já passei.
Senti a brisa do mar das praias mais paradisíacas que já conheci (roubei essa foto do arquivo do Mr. Ritter). O clima quente nas areias finas e claras do Atlântico e as rochas formadas pela violência das ondas do litoral frio e belo da Califórnia no Pacífico. Olhando teus olhos fiquei curioso para entender o que mais se passa por trás deles, o que torna esse teu olhar tão profundo e tão encantador. E, quanto mais nossos olhares se encontravam, mais os seus olhos atraíam os meus e mais vontade eu tinha de fitar eles. É como ver o firework do 4 de julho em Los Angeles. Você sempre vai querer mais. Porque é belo, é magnífico, é grandioso e esplendido.
Segundo, vi seu sorriso. Impossível não se encantar. E tenho certeza que não fui o primeiro nem o único e nem o último. Seu sorriso, combinado com o seu olhar e com a sua boca linda, são mais belos do que todas as palavras que eu possa escrever para tentar defini-los. Seu sorriso é contagiante. Vendo você sorrir, tenho vontade de sorrir também. Meu coração acelera e fico me sentindo um moleque, o personagem de um romance de Mark Twain, que quando via as meninas da escola se aproximando começava a fazer palhaçadas e a plantar bananeira para chamar a atenção delas e fazê-las rir. E digo bobagens com tanta facilidade quando você está diante de mim, sorrindo, porque o seu sorriso simplesmente me inspira e me traz as energias mais positivas possíveis. E você nem sabe, mas você tem vários tipos de sorrisos, e é difícil de escolher qual é o mais belo. Tem a gargalhada, que é quando faço uma piada infame – geralmente relacionada a alguém que conhecemos. Tem o sorriso simpático, que normalmente você faz quando nos encontramos, antes dos cumprimentos. Tem o sorriso nervoso acompanhado do rosto levemente avermelhado, que é quando te faço um elogio.
Tem o riso de boca fechada, que é quando falo algo que não é muito humorístico mas que você concorda por acompanhar meu raciocínio. E tem o riso irônico, que é quando eu te faço qualquer tipo de cobrança, então, você dá uma risadinha e depois solta algo como “engraçadinho”. E, quando isso acontece, sei que na sequência vem algo como chumbo grosso (ainda bem que é chumbo, e não pólvora, aliás, nada do que vem de você me faz sentir mal ou incomodado). E tem o riso escondido por trás de outros sentimentos, como aquele, que está no fundo da sua expressão naquela foto em que você está com a testa franzida e olhar bravo. Eu posso estar cobrindo a guerra da Síria ou passando frio na Patagônia que, sempre que ver essa foto, vou sorrir e um nó de saudades desse breve e bom tempo tomará conta do meu peito.
Além do olhar e do sorriso, há os seus pensamentos. O que vou te dizer agora é um elogio, e não uma crítica: você é incoerente e confusa. E eu me perco nessa incoerência e nessa confusão. Mas eu enxergo isso. E tenho mais vontade de mergulhar nesse mar de incoerências e confusões (mesmo vendo a plaquinha indicando: Perigo, tsunami), pois eu também sou exatamente assim. E os seus pensamentos resultam em conversas fantásticas e inesquecíveis (pois sei que em pouco tempo vão ficar apenas as lembranças). E também refletem-se nos seus textos, escritos para todos os que te encantam, te irritam, te fascinam, te inspiram e te desagradam. Aliás, somos seres humanos, não somos sujeitos lógicos, previsíveis ou que, como você já escreveu, tem manual de uso ou de instrução. E é incrível como as pessoas nos cobram para funcionarmos como se tivéssemos um manual! (viu só, Mr. Ritter?). E é impressionante como todos gostam de nos enquadrar em caixinhas onde há rótulos: você tomou um porre, é O BÊBADO. Você convidou alguém próximo de você para sair, então é O TARADO. Se aceitou o convite, é A PIRINHA. Fumou maconha na frente da praia com os amigos na Califórnia, é O MACONHEIRO. Levou chifre (conceito mais ultrapassado, mas enfim) durante algum relacionamento (mesmo que de uma semana), é O CORNO. Saiu para beber e conversar com amigos que são assumidamente homossexuais, então você é O VEADO ou A SAPATA. Como diria a letra do Cazuza: “te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro...”.
E acho que esses rótulos, e o medo de ser colocada em uma caixinha com um desses nomes fez com que em algum momento você quisesse me deixar dentro da caixinha na qual estou enfiado, quieto em meu canto. Ou não, vai ver eu que estou viajando e isso só faz parte da minha imaginação e da nossa incoerência e confusão. O fato é que não consigo ficar dentro dessa caixinha. Aliás, minha irmã, mãe, pai, ex-namoradas, amigos e amigas sempre me chamam a atenção para isso, e eu sempre digo que estou cagando e andando para essas caixinhas de rótulos, e elas só existem na mente das outras pessoas, não na minha. Provavelmente já te falei isso e possivelmente você não concorda comigo – você e 99% da sociedade. Mas é por isso que sou tão inquieto. E percebo que, no fundo, você também é uma pessoa totalmente inquieta. E por isso as nossas conversas são tão gostosas, tão boas que quando estou contigo eu simplesmente não vejo o tempo passar: 20 minutos, 40, uma hora, duas, quatro...? Não sei... Pode ser no às vezes irritante online, pode ser no cara a cara, os assuntos nunca terminam, bem como as perguntas que você me inspira a fazer... O Mr. Ritter deve estar se questionando: e esse texto de merda, nunca vai terminar? Ok... Provavelmente ninguém leu até aqui... E existe uma possibilidade considerável de que nem você vai chegar ao fim dele... Mas vamos lá...
Não vou entrar aqui em outras questões óbvias, como gosto musical, literário ou, de uma maneira mais ampla, cultural.
Aliás, aprendi a gostar de muitas bandas e músicos que não conhecia través de ti. Esses dias até encontrei um músico irlandês, Hozier, que eu não conhecia. Não sei se você conhece, gosta ou não, mas as músicas dele – que estava passando em um especial em um canal qualquer – fizeram eu me lembrar de você, pois elas tocam no seu ritmo, no ritmo daquelas outras músicas, que cada vez que ouço também me fazem pensar em você. Contudo, apesar dos gostos em comum, logicamente, há as diferenças. Itália x Alemanha. Hat x Mcc (os segundos têm razão). Cerveja x Skol beat. Querer x Não querer. Ônibus x Avião. Então, prefiro discutir os assuntos, mais para te provocar do que por acreditar que você vá mudar de gosto ou de opinião – aliás, a última coisa que gostaria seria mudar algo em você, pois você é perfeita do jeito que é (inclusive pelas imperfeições e incoerências).
Também não vou falar em detalhes do quanto te acho linda, do quanto a sua pele branca combina com o seu cabelo negro, do quanto a sua boca é tão apaixonante quanto o teu jeito, o teu beijo, o teu olhar e o teu sorriso, do quanto é gostoso ficar te olhando e pensando em você ouvindo uma das dezenas de músicas que aprendi a gostar com você... E gosto de te olhar mesmo que você não goste disso. E, se desvio o meu olhar do teu, se olho para o lado quando estamos no mesmo ambiente, mesmo enquanto conversamos, é porque te quero perto, mesmo sabendo que isso é impossível. Foi desviando de seu olhar que me deparei com as suas unhas de Lady Bug, sua corujinha no colar, e outros detalhes que te deixam ainda mais bela.
E, por saber que você não gosta que eu goste de você do jeito que eu gosto, e pela rabugentice do Mr. Ritter, é que resolvi escrever esse último texto. Um texto que vou guardar para sempre, pois, quem sabe, no futuro, viajando pelo mundo, possamos nos reencontrar. Ou, como diria Humberto Gessinger: “um dia desses, num desses encontros casuais... talvez a gente se encontre, talvez a gente encontre explicação...”. E, então, ao chegar em casa, surpreso por ter te encontrado, vou catar esse texto, vou relê-lo e não vou dormir pensando em você, tentando imaginar como está a sua vida,
quem conquistou teu coração, se seu conquistador não está deixando os seus pés ficarem gelados embaixo das cobertas no inverno, se ele te beija direito, se ele sabe te acariciar como você gosta e merece, se ele consegue te beijar todinha te deixando toda arrepiada de desejo, se você ainda tem os mesmos gostos, se você viajou muito desde a última vez em que nos vimos, se você também pensa em mim de vez em quando... Se você ainda acha que sou o espinho que vai estourar o balão que passa voando, livre, leve e solto diante dos meus olhos. Aquele balão que queria pegar, mas não posso, pois sou um cacto.
Mas, como tem muito tempo até lá, sem ter a perspectiva de te ver e de ouvir a sua voz por muito tempo, enfim, de ter você como minha Dulcineia del Toboso, vou fazer aquilo que mais gosto de fazer: deixar os animais com os vizinhos, vender os meus móveis, minha bicicleta e minha motocicleta, pedir demissão do emprego e cair na estrada. Afinal, como dizia o Mestre dos Magos: para se achar, primeiro é preciso se perder. E, já que não posso me perder em seu coração, vou me perder pelo mundo, que é grande demais para nos deixar encaixotados em pequenas caixas. E, andando pela estrada afora, sem levar os doces para a vovozinha, vou recitando baixinho os versos da poesia do mestre do romantismo, Vinícius de Moraes, afinal, viver algo tão bom não é para amadores, como o Mr. Ritter pensa. Para degustar isso “é preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer ‘baixo’ seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor”.
Hasta la vista, Mr. Ritter! Mandarei um cartão postal das pirâmides do Egito! E você, minha Dulcineia, se quiser me encontrar, já sabe onde procurar! Basta seguir os rastros que deixei pelo caminho. Rastros que só você tem o dom de decodificar, mas isso apenas se você quiser e for impermeável ao diz-que-diz-que que encontrará pelo meio do caminho. Não vou dizer que vou ficar te esperando porque há muitas ondas pra pegar, muito mar pra navegar, muitos ares pra cruzar, muitas multas pelas estradas pra tomar e muita gente pra conhecer e encontrar, enfim, há uma vida para ser vivida ao invés de se ficar parado no tempo e no espaço.


Mas, se você me encontrar enquanto corro por essa órbita, please, say “hello”, pois será um prazer ter a sua companhia nessa infindável viagem sem fim pelos incontáveis cantos do universo. Seja a bordo de um avião, de um elefante africano, de uma nave espacial ou de uma Kombi dos anos 70.
Agora saio de cena deixando um beijo daqueles que não vem da boca para você e um “passar bem” ao Mr. Ritter.