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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O primeiro autógrafo


Dei o primeiro autógrafo da minha vida. Caraca, que coisa estranha. Mas antes de chegar nele, explico que domingo estive na Feira do Livro de Porto Alegre, quando foi lançado o livro “Os melhores contos para não deixar a vida esfriar”, numa promoção da Nescafé com o Grupo RBS. No total, 25 contos foram selecionados e publicados durante a Feira. Até o próximo domingo, dia 15, todos os dias, das 14h às 16h, são feitas as leituras dos contos vencedores no auditório do Espaço Pasárgada, com a presença de alguns dos autores. Além de domingo, eu deveria ter participado hoje, mas aconteceram alguns problemas estomacais graves que impossibilitaram a minha participação. Ontem foi tudo okey. Eram quatro autores presentes, entre eles, eu. O carinha lia alguns contos e intercalava com entrevistas com um autor por vez. Ao final, houve a sessão de autógrafos.
Vou contar agora como foi o primeiro autógrafo da minha vida. Chamaram-nos para a mesa, que estava preparada para sentarmos e autografarmos os livros, no entanto, quando me levantei da cadeira, um senhor veio com o livro em mãos e me entregou. No entanto, fui pego de surpresa, pois não tinha caneta. Alguém ali por perto tinha, e me alcançou. Putz, como se dá um autógrafo? Assinar só o nome? Escrever um recado? Que recado? Quantas questões, meu pai? E agora? Já começava a suar nervoso, enquanto o senhor aguardava... Foi então que surgiu uma luz:
- Como é o seu nome? – perguntei.
- Eugênio.
Eugênio, Eugênio. Putz, pensei rapidamente, ainda bem que é um nome fácil. Imagina se fosse Cristian. Existem também Christians, com “h”, aí teria que perguntar “com ‘h’ ou sem ‘h’?”. Geralmente as pessoas não gostam que você pergunte como escreve o nome delas, porém, como jornalista, deveria estar acostumado com isso, pois nunca tive vergonha de perguntar como se escreve um nome. Mas, sempre tem um mas, para autógrafos a coisa é diferente. Um leitor não é um entrevistado. É muito mais que isso. Você não quer desagradar aquela pessoa que se dirigiu até você para pegar a sua assinatura, ou melhor, o seu autógrafo. Já estou me sentindo até experiente em autógrafos... tu vês. Enfim, enquanto todas as coisas se passavam pela minha cabeça, escrevi: “Eugênio, boas leituras, um forte abraço, Eduardo Ritter”. Acho que foi mais ou menos isso. E acho que foi isso que escrevi para os outros 25 ou 30 livros que me deram para autografar. Ou teriam sido 15? Ou teriam sido 50? Ou teriam sido cinco? Ou teriam sido 100?? Vá saber. Enfim, foram autógrafos para pessoas que eu não conhecia, o que me deixou um tanto sem jeito.
Antes de encerrar, vou contar rapidamente a história do carinha que estava ao meu lado. Minha irmã era a única criatura conhecida na história toda, e ela aproveitou para pegar o autógrafo dos outros autores que estavam presentes. E não é que o carinha dá em cima da minha irmã via autógrafo? O maluco escreveu mais ou menos assim: “Carol, obrigado pela preferência ‘indireta’, fulano”. Caraca. O indireta foi com aspas mesmo. Não conseguimos decifrar o real significado da frase, mas para mim, o sujeito deu em cima dela. Ainda disse pra ela, depois: “pô, essa é uma cantada inédita. Nunca tinha ouvido falar de dar em cima através de autógrafo... eu heim”. E assim segue a vida...
Enfim, foi uma boa experiência. Nunca imaginei que um dia ia dar um autógrafo. Já pedi vários: pra Fernanda Abreu, pro Ronaldinho Gaúcho, pro Paulo Nunes, pro Luis Fernando Verissimo, até pro Zé Alcino e pro Zé Afonso!! Que cosa. Agora chega de papo furado e vamos ao mini-conto, selecionado para o livro. Esclareço que o tema do concurso era “não deixe a vida esfriar” e havia um limite de, se não me engano, 400 caracteres. Ah, e o título eles que colocaram, pois não havia espaço na inscrição. Então, agora sim, segue o mini-conto:

Romance
Otávio voltou a se sentir vivo naquele entardecer.
Aos 64 anos, sentiu-se como se tivesse 15 quando viu aquela mulher loira, com olhar sedutor e belo sorriso. Decidiu conquista-la.
Dirigiu-se até ela e entregou-lhe uma rosa com um cartão que dizia:
“Sou o homem mais feliz do mundo por ter você do meu lado nos últimos 30 anos”.
E assim, Otávio e a esposa nunca deixaram as suas vidas esfriarem.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Aventuras nas águas paradas do Guaíba

A história que vou narrar aconteceu há uma semana. Convidei meu amigo Cristiano para ir visitar a Feira do Livro de Porto Alegre, dar uma olhada nas bancas, aquela coisa toda, e lá pelas tantas, resolvemos dar uma passada na Feira do Livro Infantil, na beira do Guaíba. Olhamos alguns livros, eu pensando em algo para dar de presente de aniversário para a Laura, já ficando na dúvida entre o Querido Diário Otário e o Castelo das Fadas, quando avistamos um navio, que estava parado, na beira do rio.
Havia uma fila gigante para entrar. Lembrei daquele passeio de barco que fazem, com saída lá do Gasômetro, e logo comentei com meu amigo: “acho que tem que pagar ingresso”. Meu amigo, então, resolveu perguntar para uma senhora que vinha descendo do barco, ou navio, vá saber:
- Tem que pagar pelo passeio ?
- Não – respondeu a senhora.
Bom, seguimos reto para a fila. Ficamos lá, parados, durante aproximadamente meia hora, embaixo de um sol infernal de uns 40 graus. Lá pelas tantas, não resisti e fui pegar uma água mineral gelada. Quando voltei, a fila estava andando. Subimos aquela rampa de acesso ao navio com alguma dificuldade, mas, em pouco tempo, lá estávamos, a bordo, prontos para desbravar os sete mares! Ou melhor, as sete pontas do Guaíba. Olhamos para o mar, quer dizer, rio, descemos uma escada, e olhamos a exposição da Marinha Brasileira com fotos e tudo o mais. Por um momento, olhei algumas pessoas dançando a música que rolava solta dentro do navio, como se aquilo lá fosse Ibiza, ou algo do gênero, cutuquei o meu amigo e disse:
- Veja você. Esse navio, praticamente de guerra, aqui, sendo usado para passeio com uma música tumtitum. Cadê os canhões? As bombas? Os tiros? As aventuras? Agora esses marinheiros estão aí, fardados, trovando loiras e morenas, casadas e solteiras, mães e adolescentes, na beira do Guaíba. O mundo não é mais o mesmo... – disse em tom saudosista...
- Que nada meu! – disse ele – Olha só aquela paisagem! – completou, apontando para duas montanhas que se exibiam ali perto.
E seguimos para uma outra fila, que levava até a cabine do piloto, motorista, sei lá como se chama quem dirige o navio. Após mais meia hora de fila, subimos. Porra, fazia tempo que aquela merda estava parada. Comentei isso com meu amigo, que concordou. Tinha um marinheiro parado por ali, com cara de sonso. Foi então que resolvemos perguntar para o maluco:
- Escuta, Popeye. Que horas sai o navio?
- Como assim.
Olhamos para ele com cara de Garfield.
- Que horas o navio sai daqui?
- Ah, nós saímos de volta para o Rio na terça-feira.
- Como assim, na terça-feira? – perguntei. Agora era ele quem olhava com cara de Garfield, enquanto nós estávamos parados com cara de Oddie.
- Sim, voltamos para o Rio na terça.
- Mas o navio fica, tipo assim, parado? Ele não sai da uma banda no Guaíba não?
O cara riu.
- Não.
Nos olhamos, frustradamente, e descemos de volta à terra firme. Enquanto passávamos pela fila de pessoas que esperavam para entrar no navio, resolvemos fazer um teste para saber se só nós imaginávamos uma aventura no Guaíba.
- Ei! – disse meu amigo para uma velhinha, com cara de ingênua – A senhora sabe que esse navio não sai para passeio, que ele fica aí, parado?
- Sei sim – disse ela.
Tu vês. E voltamos para a feira.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A cura pelo palavrão

Após receber milhões de e-mails, mensagem no orkut, mensagens no celular, telefonemas e tudo o mais, finalmente consegui tempo para escrever aqui no blog, depois de quase uma semana de ausência. Explico-me: naquele mesmo sábado em que postei o último texto comecei a fazer um dos quatro artigos do semestre (um já está feito e enviado, portanto, faltam três) e no domingo passei na Feira do Livro com meu amigo Cristiano. Já na segunda, faxinei o AP, pois na terça receberia a visita do meu amigo Maurício, que estava vindo para o Seminário Internacional de Comunicação da PUCRS, e a minha irmãzinha, que de calma não tem muito, também chegaria, o que quer dizer que minha irmã chegando + apartamento sujo é = a confusão e briga... E como eu sou da paz, preferi passar o feriado lavando privada e roupa suja.
Mas enfim, na segunda de noite ainda peguei uma boa palestra com o Ignácio Loyola Brandão, numa espécie de bate papo com o professor Antonio Hohlfeldt, e de terça até hoje foi seminário manhã, tarde e noite. Ou melhor, muito mais tarde e noite do que manhã, no meu caso. Apesar disso, ainda consegui um tempinho para ir no jogo do Grêmio com o São Paulo no Olímpico na quarta de noite. Enfim, histórias não faltam, mas vou recorrer novamente a minha coluna do JM, e publico aqui, na íntegra, o texto que sairá na edição de sábado, que enviei agora há pouco para o jornal. No entanto, aconteceu tantas coisas além do jogo nesses dias, que prometo selecionar algumas das histórias cômicas que me aconteceram, principalmente a do navio da Marinha, para postar nesse espaço... Bom, chega de papo, que já está tarde, e segue o texto do JM:

A cura pelo palavrão
Eu sou um desbocado em potencial. Na verdade já desconfiava disso, mas confirmei essa hipótese na noite de quarta-feira, no estádio Olímpico, assistindo e xingando o árbitro Jailson Macedo Freitas durante pelo menos uns 80, dos mais de 90 minutos de jogo. Desde o início, a ilustre personagem marcava todos os tipos de faltas para o São Paulo e nada para o Grêmio. Ele só não deu um jeito de anular o gol do Grêmio, porque não havia como. Mas, já no primeiro tempo, eu e todo o estádio descarregávamos a nossa raiva contida do dia-a-dia naquela criatura que errava como poucos erraram na história do futebol brasileiro. Uma terapia, praticamente. A cura pela fala de Nietzsche. No caso, a cura pelo palavrão. O São Paulo empatou e veio o intervalo. O assunto nas arquibancadas era um só: o árbitro. Havia três hipóteses: ou ele tinha sérios problemas de vista, ou era ladrão, ou era são-paulino. Não vou ser hipócrita e inocentar o cara, dizendo que quero acreditar que ele é honesto e blá, blá, blá, até porque o consenso geral foi o de que ele era um *&#@¨$~&¨%¨$#&!
Enfim, a bola rolou para o segundo tempo e a situação só piorou. Após não marcar um pênalti claro para o Grêmio e de seguir marcando faltas inexistentes para o São Paulo, o seu Jailson Macedo Freitas resolveu expulsar três jogadores do tricolor paulista, sendo que o terceiro foi nos acréscimos. Ou seja: que tempo teria o Grêmio para usufruir dessa vantagem numérica, ainda mais se considerarmos que o seu Jailson deixou o Rogério Ceni deitar e rolar na demora para cobrar faltas e tiros de meta?
E, apesar de tudo o que aconteceu, o Paulo Autuori ainda inocentou o árbitro dizendo que não se deve criar uma cultura de reclamação no Olímpico. Ou seja, a solução para isso, para ele, é entrar em campo e jogar bola. Agora, usando essa fórmula, o time terá que correr muito mais em campo do que correria em uma situação onde não houvesse uma influência tão direta e tão visível do árbitro. É como se eu não tivesse que ter corrido do Olímpico até a Ipiranga feito um louco para pegar o T1 a meia-noite. Mas, como a Carris não tem o bom-senso de disponibilizar ônibus até mais tarde em dias de jogos da dupla, eu tenho que seguir reclamando e correndo atrás do prejuízo. Quem lucra com isso? No caso dos ônibus, os taxistas, já que é impossível ir a pé do Olímpico para o Partenon. E no caso do futebol, é o São Paulo, que segue firme rumo ao tetra.
Inter – Se o Grêmio deixou definitivamente da luta por uma vaga no G-4, o Inter, depois de perder em casa para o Botafogo, trocou a briga pelo título para ficar apenas na corrida pelos quatro primeiros lugares, que garantem uma vaga Libertadores. Confesso que depois do último domingo, acredito que teremos boas possibilidades de termos um Gre-Nal na Copa do Brasil ou na Sul-Americana...

sábado, 31 de outubro de 2009

Mais uma curta

Repórter com vestido de oncinha - Tipo assim, todo mundo tem um ídolo, qual é o seu ídolo?
Artista - Eu.
Repórter com vestido de oncinha - Tipo assim, em quem você se inspira, tipo assim, pro teu trabalho, saca?
Artista - Saco. Eu me inspiro na minha própria pessoa, saca?
Repórter com vestido de oncinha- Tipo assim, cara, você é demais. Qual é o par perfeito para você?
Artista - Hmmmm. Difícil essa pergunta... Acho que não existe ninguém do mesmo nível que eu....
Repórter com vestido de oncinha - Pena... Então, não posso ter esperanças?
Artista - Do que, guria?
Repórter com vestido de oncinha - De ser o teu par perfeito....
Artista - Por uma noite, até pode...
Repórter com vestido de oncinha - Hmmm. Bom, então vamos ali resolver a parada....
Não identificável - Hmmmmmm, jonkkkk, chompssss, chupssss, nhoccc, nhocccc, aiiiii, hummmm, ahhhhh, ohhhhhh, uhhhhhhhhhhhhhh, ahhhhhhhhhhh, fsmallahknkabaghhehakdhnsfn asdf wholfengrauerrrrrrrrrrbergggg!!!!!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mini-contos

Saiu a lista das datas das sessões de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre dos autores que tiveram seus contos selecionados para o livro da Nescafé, “Não deixe a vida esfriar”, realizado pela Nestlé em parceria com o grupo RBS. Na verdade estou em duas datas: na segunda-feira do dia 9 de novembro e no sábado do dia 14. Pedi pra trocar o sábado do dia 14, pois não estarei em Porto Alegre, porém, ainda não tenho a resposta (mandei o e-mail há dois minutos). Então, confirmada mesmo, está a minha participação no dia 9 de novembro. Convido a todos os leitorinhos para comparecerem lá, nessa data, apesar do Gérson Alemão, leitor oficial do blog, estar na Itália.
Bom, como eu não achei aqui a cópia do meu conto, que na verdade, como já disse, é um mini-conto de aproximadamente 6 ou 7 linhas, publico aqui outras quatro histórias curtas, inventadas agora, madrugada de sexta-feira.

Quatro mulheres conversando numa mesa de bar. Todas falam ao mesmo tempo:
Mulher 1 – Mas guria, tu viu que o Vicentinho deixou da Martinha e anda com aquela piranha da Vanessa, e tu acredita que eles...
Mulher 2 – Menina do céu, nem te conto... antes de eu vir aqui eu fiquei cinco horas no Marquinhos arrumando meu cabelo, e tu acredita que aquela bicha louca deixou meu cabeço de molho 18 minutos e 59 segundos, ao invés dos 16 minutos e 23 que ele sempre deixa? Olha só – diz ela apontando para o cabelo – meu cabelo está hor-ro-ro-so... todo enrolado... mas a pior foi...
Mulher 3 – Guria, o Vilson me ligou e queria saber onde eu ia hoje, e eu disse que sairia com as gurias, e ele ficou brabo só porque a tia dele ta passeando e ele queria que eu estivesse lá e...
Mulher 4 – Isso não é nada gurias, pior foi a minha tia que disse que estava se masturbando e caiu uma unha lá dentro, e ela teve que...
E o pior: elas se entendem...

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Quatro homens estão numa mesa de bar, bebendo.
Homem 1 – Olhem lá aquela mina – todos olham.
Homem 2 - ............
Homem 3 - ..................
Homem 4 – Que horas é o jogo do Corinthians amanhã?
Eles também se entendem...

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Sujeito está caminhando na beira da praia com o amigo e perde um dos chinelos que estava enrolado na camiseta, que ele segurava embaixo do braço direito. Resolve voltar e vê um grupo de crianças brincando de lançamento de chinelo dentro do mar.
- O guri, esse chinelo é meu. Da pro tio.
Guri nem bola, lança o chinelo para o amiguinho, que lança rapidamente para o terceiro.
- O guri, devolve o chinelo do tio...
Gurizada segue jogando o chinelo.
- O gurizada, o tio precisa ir embora, devolvam o chinelo... Gurizada... por favor gurizada...
Tio sai chorando do mar sem o chinelo, enquanto a gurizada segue o jogo do chinelo...

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Serginho está numa boate e resolve chegar na mina mais espetacular da festa: uma loira bronzeada de vestido de oncinha que vai até a metade das coxas.
- Olá.
- Olá.
- Tudo bem?
- Tudo bem.
- Como é seu nome?
- Alcinda.
- Hmmmm, belo nome.
- Obrigada.
- O que você faz?
- Estudo enfermagem...
- Quero ficar com você – diz o sujeito olhando pra ela.
- Como?
- Quero ficar com você.
- Falasério. Sai pra lá – diz aloira em tom de Sílvio Santos.
- Eu quero.
- Sai pra lá, já disse.
Ele baixa a cabeça, com ar triste. De repente arregala os olhos, ergue as mãos abertas, e grita:
- Pegadinha do Malandro!!!!

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

A dança do amanhã


Uma dança enlouquecida
Um corpo molhado
Malhado
Excitado
Suado pelo calor
Das chamas da cidade
Que pega fogo
Em meio ao frio calórico
Que choca, que racha
Que deslumbra, que encanta
Enfim, uma dança...
Uma dança do ventre
Uma dança no vento
Uma dança que inventa
Inventa uma vida
Inventa um amor
Inventa um sonho
Um sonho que se movimenta
Que se levanta, agita
Que acorda, que grita
Que deixa simplesmente
Sentindo algo muito melhor
Do que o que sentimos ontem.

O Gre-Nal que não aconteceu

No último domingo, disse alguém, que o Inter venceu um Gre-Nal, o que não sei se é verdade. Lembro que saí de casa com o intuito de ver o tal Gre-Nal. Passei correndo na Lara para entregar o gravador que ela havia me emprestado (para entrevistar o Verissimo) e fui reto catar um lugar (longe do Beira-Rio) para ver o tal jogo, no entanto, não achava um puto boteco com espaço para sentar. Absolutamente todos os bares da Cidade Baixa estavam lotados. Peguei a Loureiro da Silva, passei as duas perimetrais, e entrei na Lima e Silva. Pelo movimento que tinha no sentido Lima e Silva – Loureiro da Silva, faltando algo como 15 minutos para começar o jogo, calculei que não houvessem mais lugares. Acabei me instalando num boteco, acho que se chama “Comes”, ou algo assim, para ver a tal partida. Em pé, na calçada, óbvio. Eram dezenas de pessoas, e eu, amontoadas para tentar ver alguma coisa nas duas telas de TV instaladas lá longe. Antes de a partida iniciar, peguei uma latona de cerveja no boteco do lado (tipo lancheria), e fiquei ali, bebericando. O cara que estava no meu lado pediu uma para o garçom, e vi que o preço ali era mais caro do que no boteco do lado. Cutuquei o maluco:
- Bah, aqui do lado é mais barato. Na próxima podemos combinar de pegar duas para tentar um descontinho...
E eis, então, que nasce uma amizade. O cara estava sozinho, e dali a pouco chegou um amigo.
- Ó, esse aqui é o Eduardo, meu brother. Eu ia pega uma ceva aqui, e ele disse que a do lado é mais barata...
Flávio, o nome dele, e algo como Israel, ou Isaias, o nome do amigo. Não me lembro bem. No entanto, logo que o jogo iniciou, disseram que o Inter fez um gol. Os colorados pulavam, festejavam, gritavam. E nós ali, com cara de tacho. O primeiro tempo acabou, e num outro boteco, mais para o lado, não havia jogo nenhum nos aparelhos de TV. Fomos lá tomar umas, e acabamos ficando por ali mesmo. Lá pelas tantas, uma loira e uma morena sentaram-se perto da entrada. Os dois passaram a teorizar:
- A morena, pelo jeito, é garota de programa aposentada. Ainda está conservada... – disse o Ismael, ou Isaias, vá saber.
- É – completou o outro – mas a loira não.
- Não, não – disse o Ismael – a outra é muito feia.
- Muito feia – concordei.
- E a morena – acrescentou o Flávio – deve ter sido tirada da zona por um médico rico.
- É – concordou Ismael – e o marido deve estar viajando para São Paulo e agora estão ali, bebendo chope com o dinheiro dele...
Senti-me numa crônica do David Coimbra. Lá pelas tantas, uma gritaria do lado de fora. Fui espiar, os gremistas davam socos no ar. Gol do Grêmio, disse. Saímos. Que nada, não passava de um pênalti não marcado pelo juiz. E assim acabou o jogo. E assim acabou o domingo. Não vi nada do Gre-Nal. Não vi o Jornal do Almoço, nem o Globo Esporte, tampouco os gols do Fantástico. Ou seja, para mim, não houve Gre-Nal. Afinal, como já prevêem os teóricos da comunicação, a mensagem está na interpretação do receptor, e não na intenção do emissor. Ou seja: não fui atingido pela mensagem. Essa mensagem, para mim, não existe. Ou ainda, em termos mais populares: o que os olhos não vêem, o coração não sente. E, portanto, não houve Gre-Nal. Ponto.