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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Bolsonaro: a transformação do Coiso no Bozo

No dia 21 de março de 1955, no pequeníssimo município de Glicério, no noroeste do estado de São Paulo, uma senhora paria o filho brasileiro do Capeta. Ao nascer, o Coiso não chorou e nem riu. Ele fez PAM PAM, afastando o pequeno polegar e o indicador de suas recém-nascidas garras. O Coiso cresceu no Brasil dos anos 1960. Ensinaram-lhe a seguir os passos de seu antepassado italiano Mussolini: o Exército era o caminho para o futuro. Para tanto, era necessário chegar ao topo da hierarquia. O Coiso pensou: essa é fácil, é só berrar alto, puxar o saco dos superiores, humilhar os que estão abaixo de mim, torturar e matar quem discorda ou questiona a farda, que chego lá. Mas ele não contava com uma pedra no seu caminho, que se chamava povo. O povo, cansado de ver gente sendo presa, humilhada e torturada injustamente e sem ter acesso à informação do que acontecia nos altos escalões do governo militar começou a perceber que alguma coisa estava errada e, então, foram para as ruas pedir o direito de eleger os seus governantes. O processo durou muitos e muitos anos e, com o nascimento da “democracia” no país, após séculos de ditaduras, o Coiso, que nunca aceitou a derrota moral da milicada ficou se remoendo por dentro. Então, ele permaneceu ali, pelo Exército, ganhando a sua graninha até que descobriu uma forma mais fácil de ganhar mais dinheiro: a política. Não hesitou e virou vereador de uma das maiores cidades do Brasil e, então, percebeu que poderia dar pulos mais altos no meio daquele monstro de milhões de cabeças não muito pensantes chamado povo. Elegeu-se deputado.
Durante 27 anos apresentou 170 projetos e só dois foram aprovados.
Não se preocupava muito com isso, afinal, estava recebendo o seu pomposo salário e tendo todas as regalias que um deputado tem, inclusive recebendo auxilio moradia tendo uma casa própria que, segundo ele, era usada para comer gente. Ainda cuspia na cara dos eleitores dizendo em entrevista que “o Congresso Nacional não serve para nada”. Mas, como bom filho do Capeta, continuava lá, ganhando o seu em Brasília. Defendeu que o Brasil fizesse uma guerra civil para matar pelo menos uns 30 mil. E se morressem uns inocentes, isso ia fazer parte da guerra. Afinal, já viu filho do Capeta ligar para a vida humana? Comparou negros a bois, não teve papas na língua para chamar alguns deles de vagabundos, bem como usou o mesmo adjetivo para xingar uma colega de legislativo: vagabunda. Disse que não contrataria mulher, se fosse empresário, porque elas engravidam. Afirmou em programa de TV que o seu sangue é diferente do sangue de um homossexual. Em outro, falou que não corre o risco de ver seus filhos namorarem uma negra porque ele os educou bem. Também disse que ser homossexual é falta de surra dos pais. E, para completar, em uma entrevista - quando já tinha se transformado em Bozo, o candidato - afirmou que o Brasil não tem dívida histórica com os negros e que os portugueses nunca pisaram na África para escraviza-los. Temos, então, o Coiso transformado em Bozo.
O Bozo adaptou-se ao espetáculo. Deu voz a muitos outros, que encontram nas redes sociais uma forma de amplificar os seus discursos fascistas. Alguns são ingênuos e o enxergam como um salvador da pátria. Outros são seus irmãos, igualmente filhos do Capeta (o Capeta não é fácil, ele gosta de sair por aí traçando mãezinhas inocentes). E outros são burros mesmo. Diversos encontram no Bozo um espelho de seu próprio caráter: também são racistas, machistas preconceituosos e criminosos, igual ao coronel Ustra, o mais sanguinário e psicopata militar brasileiro da ditadura militar, que torturou mulheres na frente dos filhos e prendeu crianças de 5 anos dizendo que elas eram comunistas (o grande ídolo do Bozo). E, uma grande parte (talvez a maioria) deles tem problemas cognitivos.
Os estudos de cognição preveem que o sujeito forma mapas mentais para interpretar as mensagens que recebe. Assim, ele precisa ter memorizado algo para decodificar os seus códigos. Um exemplo bem raso: se você perguntar para um morador de Xangai como faz para ir do ponto A ao ponto B na cidade chinesa, ele vai lhe indicar o caminho sem pestanejar. Já você, não vai ter ideia do que fazer sem a ajuda dele. Tudo porque, no cérebro desse morador de Xangai, ele tem os códigos necessários para decodificar tal mensagem. Simples, não? No caso dos eleitores do Bozo, a grande maioria, nunca leu nada sobre a escravidão no Brasil e no mundo, nunca pegou um livro sobre a Segunda Guerra Mundial, nunca leu nenhum romance crítico sobre a sociedade (como 1984, Revolução dos Bichos, O homem invisível, Cem anos de solidão, Nada de novo no front, Cale a boca jornalista, Incidente em Antares e muitos outros). Então, eles não têm a capacidade cognitiva para associar o Bozo com o fascismo, com o nazismo e com todos os regimes autoritaristas e opressores que existiram até hoje, inclusive os de esquerda. Pois assim como o nazismo e o fascismo foram de direita, o comunismo de Castro e a ditadura de Mao Tse Tung são igualmente abomináveis. Inclusive, creio que nem o Bozo tem aparato cognitivo para interpretar isso.
Pois o Coiso, transformado em Bozo, tornou-se o palhaço do espetáculo. As massas estão adorando. Principalmente a classe média-alta masculina, branca e com curso superior que partilha da lei de darwinismo social: as coisas são como são porque tem que ser assim. A lei do mais forte. Quem pode, pode. Quem não pode, se contente com o que tem e não atrapalhe os “cidadãos de bem”. Que de bem não tem nada, pois são representados pelo filho do Capeta. Um posa de machão, mas adora pular a cerca com outros homens. Outro tem filho fora do casamento que não assumiu. Outro bate na esposa e nos filhos. Outra é racista e ensina para o neto piadas contra negros. Outro bebe, enche a cara, cheira cocaína, mas quer um policiamento mais ostensivo (sem saber que é exatamente ele o tipo que vai para o camburão). Outro trabalhou em obras federais e reformou a própria casa “pegando” um pouco de material por dia sem ninguém saber.
Outra nasceu em berço de ouro e defende o estado mínimo, mas sempre foi sustentada pelos pais... e por ai vai...
O Bozo logo achou seus pares. Aliás, apenas caricaturas de artistas lhe apoiam: Alexandre Frota, Felipe Melo, Ronaldinho Gaúcho, Ratinho, apenas figuras públicas que não primam pela sua capacidade intelectual. São filhos da avareza cognitiva: a tendência do ser humano de buscar soluções simples para tudo. E o brasileiro é especialista nisso. Há problema com a violência? Arma-se a população. As mulheres ficam grávidas e não podem trabalhar? Não se contrata mais elas ( elas que voltem para a cozinha). Os negros estão reclamando que seus antepassados foram sequestrados em massa da África para fazer trabalho escravo em outros continentes? Eles que voltem para lá. E assim por diante. Essa é a mentalidade da massa espectadora e seguidora do Bozo, o Coiso ou, simplesmente, o Filho do Capeta.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Para te comer melhor

Devia ser uma noite fria de agosto, como essa de hoje, há quase 15 anos. A aula acabou e eu e meu amigo e então colega de faculdade, Tiago Beck, atravessamos a rua e nos dirigimos à pastelaria/bar do outro lado da rua para tomarmos umas. Como quase sempre, o Aranha estava lá (já escrevi outros textos sobre ele nesse blog). Encontrava-se solitário numa mesa, lendo um livro, bebericando um copo de cerveja. Ao nos ver, puxou as cadeiras para sentarmos com ele. Lembro como se fosse hoje da minha pergunta, pois àquela altura eu já era um devorador de livros e o nosso gosto em comum por Bukowski era um dos fatores que havia nos aproximado.
- Que tá lendo? – perguntei.
- Para te comer melhor.
Rimos. Ele mostrou a capa e lá estava estampado: Para te comer melhor.
- Sobre o que é?
- Sobre tudo – ele respondeu, fazendo um gesto vago com as mãos.
Aquele título ficou na minha mente esses anos todos. Naquele tempo não tinha as facilidades do Google. Se você quisesse consultar no acervo da biblioteca da universidade ou encomendar um livro, você tinha que ir até a biblioteca ou até a livraria. O tempo passou, o Aranha nos deixou pouquíssimo tempo depois, mas o “Para te comer melhor” ficou gravado na minha mente. Sobre que seria essa história? Seria um estilo bukowskiano? Seria um romance pornô? Ou uma narrativa autobiográfica?
Então, de um tempo para cá, eu frequentemente pensava: tenho que checar na internet esse livro, ver quem é o autor, etc. Até que, um dia desses, mais de 10 anos depois da nossa conversa no bar, eu finalmente pesquisei no Google e descobri que o autor é Eduardo Gudiño Kieffer, um escritor argentino que começou a sua carreira na literatura nos anos 1960. E, tempos depois, procurando algo interessante para ler, finalmente eu fui até o site da Estante Virtual e encontrei diversos exemplares em língua portuguesa de edições dos anos 1970 e 1980 para venda. Paguei algo em torno de cinco reais mais o frete (que ficou em torno dos sete reais). Veio uma edição de capa dura, preto e branco, sem ficha catalográfica e sem qualquer indício de que ano foi publicada. Coloquei o livro na minha fila de leituras futuras até que, depois de terminar o “Viajando, viajando”, eu resolvi descobrir, finalmente, do que se tratava o Para te comer melhor.
Pois se trata de um livro sobre tudo, como bem tinha me avisado o Aranha naquela noite fria de agosto. É um puta livro sobre Buenos Aires e a Argentina dos anos 1960, com a contracultura, os ideais hippies, a perseguição ao comunismo e tudo o mais, sobre a vida, sobre romances fugazes e vidas intensas e breves (como foi a do Aranha). Enfim, é um livro foda e de fôlego. Trata-se de um romance fragmentado com uma linguagem altamente poética e literária. Se você é um apaixonado por literatura-cabeça, leia. Já se você é um leitor de best-seller, não force muito seu cérebro, pois vários de seus neurônios explodirão. É um daqueles livros que você precisa superar as 20 ou 30 páginas para começar a associar os personagens e a linkar as histórias, mas depois que você faz isso, a leitura fica muito prazerosa (a exemplo do que acontece com vários livros de García Márquez e Shakespeare, por exemplo).
Vou dar um resumão do enredo, apesar de que o enredo, na verdade, fica em segundo plano na narrativa. O que mais conta, nesse livro, são as ideias e a linguagem. Enfim, concluo hoje que é uma obra com a cara do Aranha: cheia de energia, de vida, de frases longas lançadas emocionalmente no papel, como que cuspidas por um poeta bêbado em uma noite inspirada no bar que a gente estava naquela noite fria de agosto.
Mas vamos ao resumão: a história conta com quatro personagens principais, todos eles jovens, na casa dos 19 anos, cheios de vida, de sonhos, de planos, de curiosidades, de rebeldia, etc. Sebastian é o personagem principal, dentre os principais. Ele tem um caso com Ana, mas é um caso não explícito, uma espécie de namoro não assumido. Sebastian tem dois amigos imaginários: Merdalhim e Merdalhão. Merdalhim é tipo o anjinho e Merdalhão o capetinha – como os que aparecem nos desenhos animados de Tom e Jerry. Além disso, ele tem uma namorada imaginária: Cecília (pelo menos eu entendi que é imaginária...) – que seria a musa dos sonhos dele e, justamente por isso, só existe em seus sonhos.
Já Robbie é amigo de Sebastian: judeu e de esquerda, tem uma cena bizarra com Dona Amparito (a gorda dona do apartamento onde mora o personagem principal) em que fica ilustrado o preconceito bolsonariano que se tinha na época contra judeus e contra qualquer um que apresentasse alguma tendência a ter ideias de esquerda (como no Brasil daquele tempo e de hoje, todos eram facilmente rotulados de comunista e, consequentemente, perseguidos). Por fim, a última personagem principal é Flor de Irupé – uma moça ingênua que saiu do interior com um canário numa gaiola para tentar se tornar uma cantora famosa em Buenos Aires. Aliás, a capital argentina é o palco onde tudo acontece. Para quem gosta de Buenos Aires, esse é um romance imperdível, pois são frequentemente mencionados praças, lugares públicos, ruas, bares, bairros, além de personagens históricos, como Perón e Evita.
Ana acaba “adotando” Flor de Irupé, mas Robbie a “rouba” para viver com ela. Então, a história passa a ter dois casais totalmente diferentes: Robbie e Flor de Irupé totalmente apaixonados resolvem encarar a vida juntos, enquanto Ana ama Sebastian que continua com ela, mas sem muita vontade. De pano de fundo, há todo o contexto histórico e cultural argentino do período; a mãe dondoca de Sebastian que tenta lhe arranjar uma namorada patricinha; a família de Robbie que odeia Flor de Irupé (dentre outras coisas, por ser indígena) e também quer que ele se case com uma judia de linha; Gardel, o canário de Flor de Irupé; o Cabeleira, um sujeito que vai apresentando a sua história brevemente ao longo do romance e que vai se ligar com os demais personagens apenas no final da narrativa; Romeo Tavares, um sujeito jovem que foge do presídio e que é acolhido por Sebastián, demostrando as diferenças entre um sujeito rebelde de família rica e um cara pobre que frequenta casas de detenção desde a infância, e por aí vai... Ou, como disse o Aranha, é um livro sobre tudo. Sobre a vida, sobre a morte, sobre o amor, sobre amizade, sobre vingança, sobre sentimentos, enfim, sobre everything.
E, como disse antes, é um livro que é a cara do Aranha, pois trata de pessoas de alma poética, inquietas, curiosas, rebeldes, apaixonadas e em uma cidade cheia de personalidade. Pessoas que tem o mesmo estilo daquele sujeito que estava sentado numa mesa de bar numa noite fria de agosto e que, mesmo morando em um país que, culturalmente falando, não olha para nada além de suas fronteiras e do hemisfério norte, consegue encontrar uma pérola literária como essa. Uma peça que, talvez, um dia ainda sirva para te comer melhor.

terça-feira, 31 de julho de 2018

Um guri todo cagado

Você já foi pego por ter feito alguma merda na infância/adolescência? Já levou uma dura dos teus pais ou professores por ter feito uma cagada daquelas e, na ânsia de se safar, os seus pensamentos foram a mil e você não conseguiu inventar nada convincente que lhe livrasse a cara? Comigo isso já aconteceu algumas vezes. Numa delas, eu e um colega, quando estávamos na quarta série, pegamos um giz e riscamos as paredes da escola. Não sei como, as freiras nos pegaram. E fiquei assim: um guri todo cagado com medo que contassem para os nossos pais. E foi assim que eu senti o Bolsonaro ontem, no Roda Viva: um guri todo cagado.
A impressão que fiquei é que ele deve ter recebido todas as orientações possíveis e imagináveis de seus assessores: não agrida, mantenha a calma, tente não falar nada muito polêmico que vá te tirar votos de determinados grupos ou regiões, etc. E o resultado disso foi um Bolsonaro boçal, tentando esboçar tranquilidade por trás de um sorriso nervoso. O típico sorriso nervoso de um guri que estava todo cagado. Sozinho, sem ninguém para concordar com as suas opiniões absurdas, Bolsonaro foi facilmente à lona. Ficou claro que a única proposta dele é: matar vagabundo. Só. E nem explicar como ele vai fazer isso, ele consegue. Em resumo, a campanha de Bolsonaro é: matar vagabundo armando a população (sem considerar que os bandidos também fazem parte da população). Simples assim. Mesmo quando os questionamentos são sobre esse tema, ele não consegue responder. E se for sobre outros, então, ele se mostra mais burro que um jegue e mais ingênuo que um guri de quarta série. E, diante das perguntas e da recuperação de várias frases absurdas dita por esse guri cagalhão de mais de 60 anos, ele não conseguiu sair das cordas. Economia? Não sabe nada e não esconde isso. Não tem plano B para o caso de seu hipotético ministro da economia falecer, ficar doente ou brigar com ele. Saúde? Não entende bulhufas. Trabalha há quase três décadas na Câmara Federal e quer bancar o fiscalizador do executivo sem saber nada sobre nada – apenas falando frases feitas, lugares comuns e clichês, dignas de um verdadeiro analfabeto.
Ficou claro, para mim, duas coisas. Em qualquer debate, tanto o Bolsonaro quanto qualquer um de seus eleitores será surrado intelectualmente por qualquer um dos outros candidatos. Ele deveria pleitear um cargo de secretário de segurança de alguma cidade conservadora de interior, no máximo, pois ele só não gagueja e não se caga todo para falar quando o tema é segurança (apesar de nem disso ele entender, pois se para ele ofender um negro não é racismo, então ele deveria ler a lei e estudar um pouco de História). Isso tudo sem contar na hipocrisia: se diz o caçador de corruptos e aceitou propina da Friboi, ficou puto quando lhe questionaram sobre os privilégios dos deputados (dizendo que não tem condições de pagar passagens aéreas – coitadinho!), mama nas tetas da política há 28 anos e, durante todo esse tempo (a maior parte dele fazendo parte dos partidos mais corruptos do país), teve apenas DOIS projetos aprovados, e ambos sem muita utilidade. Sem uma equipe para editar seus vídeos, sem recortar e fazer montagens apresentando Bolsonaro como o super homem, enfim, ele tendo que se virar sozinho em um espaço sem edição, ficou claro quem realmente é esse sujeito racista, homofóbico, misógino, machista, corrupto e preconceituoso – enfim, um crápula analfabeto.
Agora, o que mais me surpreende, não é um animal desses se candidatar à presidência. Já tivemos outros na história. O que me surpreende são os 15% que vão votar nele. Apesar de que, com os 8 segundos de horário gratuito, tenho certeza que esse número vai despencar, pois ele vai tomar pau de todos os lados (enche a boca para falar na quadrilha do PT e diz que fuzilaria FHC, por exemplo). Fazendo declarações preconceituosas contra nordestinos, negros, mulheres e homossexuais, ele perde pelo menos uns 70% dos votos dos brasileiros. E esse é o segundo ponto: ele vai ficar com os 15% ou menos de acéfalos que caem na ladainha dele e não conseguem enxergar que, por trás do discurso, há a hipocrisia: ele é o anti-parresiasta, o sujeito que se vale da retórica para ganhar votos dos menos afortunados intelectualmente. Enfim, sujeitos tão burros quanto o próprio Bolsonaro. Tenho conhecidos que vão votar nele, mas, me desculpem, por mais que não tenha nada contra vocês sob a perspectiva pessoal, o voto no Bolsonaro é a declaração da burrice intelectual e política de qualquer cidadão brasileiro.
Hasta.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Viajando e viajando

Terminei de ler hoje o livro “Viajando e viajando”, do médico e escritor gaúcho (e iraiense) Sérgio Stangler, publicado nesse ano, pela editora Metamorfose. Um livraço. Em todos os sentidos. Lembro que quando entrevistei, em 2014, Anita Thompson, viúva de Hunter Thompson, em Owl Farm, em Woody Creek, Colorado, ela disse algo como: “sabe por que os livros de Thompson fazem sucesso no mundo todo? Porque quando você os lê, você se sente capaz, com poder (no sentido de força), você se sente vivo”. Ousaria dizer que o livro de Stangler causa exatamente essa sensação: lendo, você também se sente capaz de tudo. Aliás, enquanto você lê as 60 narrativas de viagem, você fica com vontade de fazer duas coisas: escrever e viajar. Confesso que o sentimento que tive ao terminar de ler o livro foi mais ou menos o mesmo de quando finalizei a leitura de On the road, de Kerouac, há cerca de dez anos: pegar a estrada (ou avião) e sair sem rumo por aí, mundo afora.
Há várias coisas que gostaria de escrever sobre “Viajando e viajando”, por isso, para esse texto não virar uma miscelânea de ideias desconexas, vou tentar organizar tudo em tópicos, como geralmente é feito no mundo acadêmico em bancas de TCCs, dissertações e teses. Sempre digo que há estratégias adotadas pela maioria dos professores: começa-se com elogios para, depois, com sutileza, serem fitas as críticas. Porém, sinceramente, com o olhar de leitor xarope que sou, procurei defeitos nos textos de Stangler, mas não os encontrei. Ousaria dizer, inclusive, que foi um dos melhores livros que já li. E sabem por quê? Porque é uma leitura prazerosa. E esse é o primeiro ponto. E o primeiro ponto se mescla com o segundo, que é o acaso. Explico-me.
Eu descobri esse livro totalmente por acaso (e o acaso é um dos principais pontos explorados por Sérgio nas narrativas). Como professor de Jornalismo, assino os dois jornais de Frederico Westphalen e, num deles (não vou arriscar cometer injustiças de tentar citar nomes, pois sinceramente não lembro se foi no Folha do Noroeste ou no Alto Uruguai) vi que haveria o lançamento de um livro de crônicas de viagem no Vitrola, uma loja-choperia estilosa e cult aqui da cidade. Como tenho um projeto de pesquisa sobre jornalismo literário de viagem em formato livro, obviamente me interessei. No entanto, no meu projeto, pesquisamos apenas livros de viagem escritos por jornalistas. Assim, quando depois do lançamento, fui até a loja para ver qual era a do livro, fiquei na dúvida entre compra-lo e não compra-lo ao constatar que o autor era um médico (como diria Sambarilov: porque compra-lo, porque não compra-lo, porque compra-lo, porque não compra-lo: comprei-o-ô!). A dúvida surgiu porque teoricamente eu não poderia usá-lo em meu projeto de pesquisa por não ter sido escrito por um jornalista (isso na ideia inicial, pois agora já decidi que vou usá-lo de qualquer forma). Porém, haviam dois pontos contra: um, a grana. Até achei barato (R$40), mas como estou justamente economizando para viajar final do ano, tenho pensado bem antes de gastar qualquer pila. O outro (e esse mais forte) é que eu tenho uma fila de livros na fila para lê-los, ou seja, teoricamente esse livro passaria para o fim da fila e, assim, eu somente iria pegá-lo daqui a mais ou menos um ano.
Mas, como nem tudo na vida é lógico e racional, e muitas vezes o sentimental e emocional nos fazem tomar decisões importantes (decidir qual o próximo livro que vou ler é extremamente importante para mim), não só comprei-o como também furei toda a fila, deixando para trás o último livro do Pedro Juan Gutiérrez (Fabian e o caos) e Plexus, do Henry Miller (já li o Sexus, agora tenho que ler o Plexus e, um dia, o Nexus). Volto, pois, ao primeiro ponto: o prazer. O livro tem 275 páginas. Ok, tem algumas em branco nas mudanças de capítulo, mas é um livro grande. Pois entre a leitura da primeira página e da última se passaram quatro dias. Isso porque é uma leitura prazerosa, que te deixa com gosto de quero mais. E agora, chego aos outros pontos. E aí, foda-se a organização, vou colocando tudo aqui conforme vou lembrando.... (aliás, achei ótima a lista top-5 de cidades que conta com seis nomes com a explicação “mas a lista é minha e faço como eu quiser!”, de Stengler, pois é a minha cara esse tipo de argumentação...). Fuck!, esse parágrafo está gigante. Mas foda-se também. Não vou mudar de assunto, então fica tudo no mesmo parágrafo... Os professores de planejamento gráfico, profissionais da área e editores que se explodam também. Carajo. Bom, já esqueci o que iria escrever... Pois é, é sobre isso mesmo: enquanto você lê o texto, é como se você ouvisse o Sérgio Stangler falando (ok, nunca o vi pessoalmente e não faço ideia de como seja a voz dele, mas eu inventei uma: meio rouca, meio pausada, com sotaque metade do interior do Rio Grande do Sul, metade portoalegrês, mais ou menos como a do meu tio-primo Marcos, que é de Ijuí, mas morou anos em Porto Alegre – aliás, fisicamente o Sérgio também se parece um pouco com o tio-primo Marcos). Então, eu li o livro dialogando mentalmente com o Sérgio, tudo porque, para cada história que ele contava, eu lembrava de alguma que vivi nas minhas poucas viagens. Sim, se você pensa que já viajou bastante, vai se sentir um zé ninguém da mochila comparado ao Sérgio que, esse sim, conhece praticamente o mundo todo.
E agora chego a outros pontos. Porra, vou pontuá-los numericamente:
1) A impressão que eu tive/tenho é que cada texto/vigem de Sérgio renderia tranquilamente um livro. Assim, ele teria 60 livros ao invés de 60 textos.
2) Não gosto de chamar os textos de Sérgio de crônicas, apesar que, sim, teoricamente podem ser chamados de crônicas. Mas achei os textos mais literários, como se fossem trechos de romances bukowskianos (mesmo sem putarias), do que a crônica no sentido jornalismo-literatura.
3) Talvez a única crítica que eu teria a fazer ao livro – e mesmo assim, não é bem uma crítica, mas uma impressão pessoal – é que não entendi bem se os textos estão em ordem cronológica ou não (deve haver trechos que mostram claramente que sim ou que não, e provavelmente se o Sérgio ler isso, vai dizer: “porra, que burro, se no texto X eu comento que foi em 2012 e no outro que foi em 2014, e no ouro em 2013, como esse idiota não percebeu?”. Mas essa não é a questão. A questão é que, se não é em ordem cronológica, eu passaria os textos sobre Iraí e Capão da Canoa para mais adiante, pois editorialmente, o livro parece ser pensado numa ordem crescente: das histórias menos impressionantes para as mais – sim, a parte final do livro é extremamente do caralho. Porém, todavia, contudo, lembro até hoje de uma palestra do cineasta Jorge Furtado em que ele comentou que sempre começa com histórias fodaças para não perder o telespectador, e que a literatura geralmente também usa essa estratégia (aliás, ela começou bem antes do que o cinema). Ou seja, se o leitor não se impressionar no início, há grandes chances de ele abandonar a leitura/filme. Eu gostei dos primeiros cinco textos (do (Pré) julgamento e (auto) condescendência) até o Os iraienses são impressionantes), mas as outras histórias são absurdamente boas demais e, penso eu, que talvez uma delas colocadas antes deixaria claro para o leitor que ainda não conhece o texto de Sérgio para mostrar: olha, é disso que estou falando. Só uma impressão pessoal de leitor chato.
4) Caralho, há muitas histórias impressionantes de lugares impressionantes e de pessoas impressionantes. Não quero ser spoiler, portanto, não vou contar nenhuma, apenas vou citar algumas temáticas: dificuldades em conseguir visto para a Etiópia, viagem com pneu furado no meio da selva africana, barata frita em saquinho no Oriente (não lembro em qual país e a primeira vez que li enxerguei “batata frita”, mas ao ver que o autor insistia em dizer que aquilo era estranho, fui reler e aí li corretamente BARATA FRITA), golpes aplicados em turistas (genial e muito verdade!), caos no trânsito de várias cidades malucas, como Bangcoc, cemitério com esqueletos a céu aberto no Caribe, dificuldades fodaças para se achar em Moscou e em outros lugares onde quase ninguém fala inglês (e onde a mímica se faz necessária), as belezas inacreditáveis da Islândia, enfim, como eu disse, cada texto renderia um livro.
5) Há trechos muito cômicos e muitos geniais. Várias vezes você para de ler o livro para olhar para o além e se perguntar: “caralho, é verdade. É tão simples, mas nunca tinha pensado nisso”. E noutros, você gargalha em voz alta (que é um dos maiores prazeres proporcionados pela literatura e por um bom livro). Também há muita filosofia, como no último capítulo “Envelheceu”. E, nesse ponto, você fica discutindo mentalmente com o autor e isso quer dizer que ele atingiu o objetivo de fazer o leitor pensar muito.
6) Bom, como não sou muito coerente, vou dar uma de pequeno spoiler e colocar aqui um pequeno trecho que achei genial. Trata-se de uma ilha no Panamá (Kuna Yata) que tem banheiros acima do mar, sem encanamento – e isso fez a minha imaginação voar longe. O autor descreve: “Então, tudo que se fazia nele caía direto na água do mar, que a correnteza levava. E alguém de longe poderia acompanhar não o sujeito, pois o banheiro tinha paredes e teto, mas os excrementos caindo no mar! Nunca vi nada parecido com isso na vida!” (p. 238). E eu nunca tinha ouvido falar de nada parecido com isso na vida! Mas, fiquei imaginando as pessoas entrando no banheiro, e eu observando os cocôs caindo na água transparente do mar caribenho e seguindo o seu rumo com os olhos, oceano afora. Depois, a criatura saindo e todo mundo olhando para ela, espantados com o tamanho dos troços....
7) Em alguns momentos você até pode ter um preconceito com o autor, pensando coisas como: “caralho, ele é médico, tem grana... assim fica fácil...”, afinal, meu sonho foi ter uma vida como essa, viajar e viajar sem se preocupar muito com grana. Mas a questão é: além do Sérgio comentar sobre essa questão medicina-grana-viagem, da para perceber claramente que ele tem um espírito de viajante. Inclusive, ele confessa satisfação pela profissão justamente por ela permitir a ele realizar tantos sonhos, como o de ficar meses viajando e explorar a África quase que de cabo a rabo, passando por países que mal ouvimos falar (como a Tanzânia, por exemplo). E, fica claro também, que as suas viagens são sem luxo, ou seja, ele gasta o mínimo possível e vive o máximo. Por isso disse que vários trechos fizeram com que me recordasse de algumas pequenas loucuras que já fiz na vida em razão de viagens, como quando pedi demissão do jornal em que trabalhava para poder ir ao show do Rolling Stone, em Copacabana, que foi em fevereiro de 2006, e de lá eu segui para Guarapari, no Espírito Santo, onde passei o carnaval. A questão foi que viajei praticamente sem grana, ficando na casa de amigos e almoçando torrada com suco para poder beber cerveja. Aliás, lembro da primeira vez que fui ao Rio, no carnaval de 2005. Fiquei duas semanas na casa de um amigo em Bonsucesso, na boca do Morro do Adeus (lembro dos tiroteios) e li no jornal da época que os turistas gastavam em média R$1.500 reais por dia no carnaval carioca e eu estava fazendo aquela viagem toda (incluindo as passagens e vários porres homéricos) com um valor menor do que aquele (claro, descontem aí 13 anos de diferença na economia do país). Também, lendo sobre uma viagem de 12 horas de trem na China, cheia de desconfortos, recordei-me de quando voltei de Fortaleza para Pelotas de ônibus (pernoitando uma noite em Salvador) devido ao meu pânico de avião (hoje tomo Rivotril para aguentar o tranco).
8) Enfim, escrevi demais. Haveria mais e mais pontos que me fizeram refletir, lembrar e sonhar em viajar, mas como conheço a preguiça do leitor e desse que vos escreve, paro por aqui. Quem sabe outro dia eu pegue alguns pontos destacados pelo Sérgio para discorrer sobre eles...


Por fim, finalizo agradecendo ao Sérgio (foto www.editorametamorfose.com.br/viajando) por publicar histórias tão espetaculares e por colocar tudo de maneira tão divertida e humanística nas páginas de “Viajando e viajando”. E, porra, tenho mó inveja boa do cara, pois enquanto ele já visitou várias vezes os cinco continentes, eu vou sair pela primeira vez das Américas (se tudo der certo) numa viagenzinha para a Europa no final do ano – e já estou feliz pra caralho com isso. E, obviamente, aguardo a publicação dos próximos livros – pois não consigo ler histórias longas em Facebook ou blogs, como esse.
Hasta!

PS: escrevi esse texto ouvindo a banda argentina Babasonicos, sugerida pelo Sérgio numa lista de tops ao final do livro.

domingo, 15 de julho de 2018

Devaneios copanianos

A Copa do Mundo 2018 acabou há poucos minutos. Às vezes acho que escrever esses textos não faz sentido, mas como quando eu quero saber se algum time ou seleção realmente foi bom eu vou procurar nos jornais e revistas da época o que escreviam sobre essas equipes ou pergunto para os mais velhos que viram esses times jogar (especialmente meu pai), optei por escrevê-lo, finalizando a série Mundial da Rússia nesse espaço. Ou seja, escrevo para esclarecer algumas coisas para o caso de alguém, por acaso ou acidente, daqui há décadas ou séculos, estiver pesquisando sobre o futebol das duas primeiras décadas do século XXI e cair nessa página. Além do mais, mesmo com as novas gerações podendo ver vídeos e assistir aos jogos antigos na íntegra, falam tanta merda sobre o passado na imprensa esportiva contemporânea, que penso que o testemunho do momento e das fontes que viveram cada período ainda é o mais confiável.
Há várias coisas a se considerar sobre o título francês e a Copa de 2018. Portanto, vou por partes.
Primeiro, sobre a final. O árbitro foi decisivo. E ficou provado que, mesmo com o árbitro de vídeo, o homem do apito pode bagunçar com uma final de Copa do Mundo. A Croácia dominava o jogo, quando ele marcou uma falta inexistente próximo à área. Da cobrança, a França abriu o placar. A Croácia correu muito atrás para empatar o jogo. Então, com 1 a 1 no placar, numa cobrança de escanteio o árbitro cedeu à choradeira dos franceses e foi ver o lance no vídeo. Um lance rapidíssimo. E aí, concordo com o comentarista da Sportv: o lance foi muito rápido e a bola bateu no braço do jogador croata por acidente. Vendo o lance em câmera lenta, fica fácil julgar. Pênalti duvidoso, marcado com a ajuda do vídeo. Foi demais para o já cansado time croata, que seguiu dominando até levar o 3 a1. Depois disso, a maionese desandou e prevaleceu a eficiência do bom time francês. Além disso, no final do primeiro tempo, quando a Croácia ainda tinha possibilidades de lutar por algo, o árbitro deu apenas 3 minutos de acréscimo, sendo esse somente o tempo de paralisação para ele ver o lance do pênalti no vídeo, ou seja, não descontou nenhum segundo da cera que os franceses já começavam a fazer.
Segundo, eu diria que a Bélgica não ter levado esse mundial foi praticamente tão injusto quanto o Brasil ter voltado para casa sem a taça em 1982. Foi disparado o futebol mais bonito, mais ofensivo, com uma equipe com mais destaques individuais e alternativas. E, então, chego ao antijogo francês. Na semifinal, a Bélgica jogava melhor e a França abriu o placar no início do segundo tempo numa cobrança de escanteio. A Bélgica teria 40 minutos para buscar o empate. Mas não teve jogo. Os franceses se jogavam no chão (ao melhor estilo Neymar), ninguém se apresentava para cobrar falta ou lateral e, assim, foram matando o jogo e, claro, contaram com a complacência da arbitragem que deu 6 minutos de acréscimo, sendo que não houve jogo nesses 6 minutos, pois os franceses foram comendo segundo por segundo se atirando, simulando, demorando para cobrar qualquer tipo de bola parada. Ou seja, é impossível qualquer time superar essa “malandragem” que vive o seu auge nesse início de século XXI, pois hoje em dia qualquer jogo de qualquer campeonato conta com isso: o time faz 1 a 0 e não deixa mais ter jogo e os árbitros não dão os acréscimos que seriam justos ou necessários – e tampouco punem os malandros com cartão. Se a França tivesse deixado a bola rolar e, mesmo que vencesse na retranca, eu consideraria, sim, justa a classificação. Mas com o antijogo, fica impossível simpatizar com um time desses. Para mim, a melhor seleção da Copa foi, sem sombras de dúvidas, a Bélgica.
Terceiro, apesar dos pesares, a França fez campanha de campeão: seis vitórias (todas no tempo normal) e apenas um empate, na última rodada da fase de grupos num jogo de compadre contra a Dinamarca (pois o empate era bom para os dois). Aliás, é a cara dessa França jogar pelo resultado, custe o que custar e foda-se o resto. Não deu show e fez seus dois grandes jogos contra sul-americanos: 4 a 3 na Argentina e 2 a 0 no Uruguai. Portanto, mesmo sem ter jogado o melhor futebol e ter abusado do antijogo, é campeão digno de tal título, diferentemente da Croácia, que venceu todas na fase de grupos, mas chegou à final com duas vitórias nos pênaltis contra seleções bem fraquinhas: Dinamarca e Rússia.
Quarto, a França ingressa no grupo dos gigantes do futebol mundial, deixando para trás os também campeões mundiais Espanha, Uruguai e Inglaterra, além da três vezes vice, Holanda. Agora, o grupo de gigantes conta com Brasil, Alemanha, Itália, Argentina e França.
Quinto, reformulei a minha lista de melhores campeões mundiais que vi jogar. O ranking, agora conta com o Brasil de 2002 em primeiro, a Alemanha de 2014 em segundo, Espanha de 2010 em terceiro, Brasil de 1994 em quarto, França de 1998 em quinto, Alemanha de 1990 em sexto, França de 2018 em sétimo e Itália de 2006 em oitavo. Nesses anos todos, duas vezes o melhor não foi o campeão: em 2006 a França de Zidane era muito melhor do que a Itália (e fez uma copa bem melhor) e, nesse ano, a Bélgica foi melhor do que a França, apesar de ter perdido no confronto direto, numa final antecipada, conforme os motivos apontados anteriormente.
E a América do Sul? Brasil e Argentina precisam colocar as suas revelações em campo ao invés de seguir convocando apenas jogadores que atuam na Europa. Se os dois continuaram assim, daqui para frente a Copa do Mundo vai seguir a lógica do Mundial de Clubes: só levantaremos o caneco esporadicamente, uma vez a cada 10 copas, e olha lá. Afinal, numa competição em que todos se conhecem e jogam nos mesmos times europeus, ter um elemento surpresa pode ser o diferencial. Falta ousadia para um futebol que sempre se orgulhou por ser ousado, mas que anda mais burocrático que o mais chato dos campeões europeus...

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Num deu!

Estamos fora da Copa. Como me sinto? Normal. Estava pensando, rememorando todas as Copas que vi, e me dei conta de uma coisa: sem dúvidas, essa foi a Copa em que menos torci para o Brasil. Na verdade, torci, mas torci como aquele torcedor de time de futebol que diz que torce para o time X porque "tem que” torcer para alguém. Não posso dizer, por exemplo, que fiquei nervoso em algum momento do jogo de hoje contra a Bélgica. O coração só acelerou um pouquinho mais quando o Coutinho bateu livre, raspando a trave, já no final. Ali, sim, lamentei de verdade, pois era uma chance claríssima que, se tivesse entrado, levaria o jogo para a prorrogação. E, com o ritmo que o Brasil estava, penso que o 3 a 2 viria na meia hora extra. Porém, vou novamente rememorar brevemente as outras Copas.
Em 1990 eu era uma criança e achava que a seleção do meu país era a Alemanha, pois morava em uma cidade com fortíssima colonização alemã: Panambi. Quem já morou lá, sabe do que estou falando: aula de alemão na escola, sem aula em dia de jogos da Alemanha da Copa, musiquinha natalina em alemão no Natal, etc. Mas, mesmo assim, lembro de eu e meu irmão lamentando a derrota para a Argentina. Em 1994, nem vou comentar, pois eu era um fanaticozinho pelo Brasil. Em 1998, apesar de não gostar do Zagalo e de achar que a França foi o melhor time desde a primeira rodada, na hora em que a bola rolou, eu estava lá, torcendo para o Brasil. Em 2002, torci de boas, até porque aquele time era uma máquina (possivelmente a melhor seleção que já vi até hoje). Em 2006, vibrei com as vitórias sofridas e lastimei a eliminação para a França, mas não muito. Contra a Holanda, eu assisti o jogo num bar em Porto Alegre e, no clima de torcida brasileira, fiquei frustrado. Nos 7 a 1, eu estava com a camisa do Brasil num cassino em Las Vegas, obviamente, torcendo para o Brasil. Em todas essas copas, até rolou um nervosismo antes do jogo. E, dessa vez, até cheguei a me empolgar mais cedo, coma eliminação do Uruguai para a França. Eu dizia para mim mesmo: “agora esses europeus vão nos pagar! Tiraram Argentina, Uruguai e Colômbia! Vamos vingar toda a América do Sul!”.
Mas, antes que eu me aquecesse para ficar nervoso, o jogo ficou 2 a 0. E, então, o único momento de torcedor de verdade foi no chute do Coutinho, como já disse.
De maneira geral, cito aqui a minha postagem no Facebook que resume o meu pensamento sobre a participação do Brasil na Copa da Rússia: “A real é a seguinte: individualmente, a geração 2014-2018 é a pior da história do futebol brasileiro. É impossível comparar qualquer um desses jogadores com Ronaldo, Romário, Ronaldinho Pilantra, Rivaldo, Edílson, Edmundo, Neto, Júnior, Juan, Branco, Leonardo, Jorginho, Paulo Nunes, Bebeto, Denner, Kaká, Cafu, Flávio Conceição, Viola, Roberto Carlos, Evair, Dunga, Mauro Silva, César Sampaio, Mauro Galvão, Djalminha, etc. Sem contar os goleiros: Taffarel, Dida, Rogério Ceni, Marcos, Ronaldão, Gilmar, Zetti... Foi-se o tempo em que dava para montar três timaços com jogadores brasileiros. Agora são jogadores comuns tentando compensar na tática (não a toa, as estrelas das últimas copas foram os treinadores Felipão e Tite). O motivo das vacas magras de craques no futebol brasileiro? Sei lá... Só sei que foi (e está) assim....”. E isso que nem citei os mais antigos: fiquei só nos que vi jogar.
Por um lado, analisando agora, friamente, até há lados positivos nessa eliminação, em relação à história do futebol. Às vezes vejo alunos (ou crianças mesmo) super empolgados com Coutinho e Neymar e pensando que Cristiano Ronaldo é melhor que Pelé e Messi que Maradona. Aliás, vão nessa onda embalados pelo oba oba duma imprensa que nem sempre estuda história do futebol. Os fracassos desses mitos midiáticos mostram que não é bem assim para ser tri campeão de Copa do Mundo como jogador, como fez Pelé (e sendo protagonista nas três), e nem marcar gol em todos os jogos de uma Copa, como fez Ronaldo. Temos muito o que evoluir até chegar ao ponto em que estávamos, ou seja, no topo do mundo.



Apenas por curiosidade, eis a minha lista de predileção para a sequência da Copa, sendo que amanhã serão definidos os outros dois semifinalistas:
1) Bélgica (ok, nos eliminaram, mas seria justo e legal ver essa geração espetacular da Bélgica ser campeã)
2) Croácia (sempre simpatizei com o time de tolha de mesa de jantar, desde os tempos de Suker)
3) Suécia (eu tinha uma camisa da Suécia no Ensino Médio...)
4) Rússia (seria cômico)
5) Inglaterra (sempre forma times fortes, mas nunca chega. Seria uma forma de fazer justiça).
6) França (seria justo, mas acho o time meio sem graça).

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Aprendendo a sofrer

O Brasil aprendeu a sofrer. Pelo menos no futebol. Essa é a frase do momento no futebolês: saber sofrer. Os jogadores da seleção vencem e vão aos microfones dizer: “sabemos sofrer no momento em que eles atacaram”. O técnico vai lá, e fala o mesmo. O comentarista (no caso, ouvi Muricy Ramalho falando isso no Sportv) diz: “o time soube sofrer no momento certo”. Diante de tudo isso, e das últimas vitórias convincentes dos últimos jogos, incluindo a de hoje por 2 a 0 contra o México, concluo que, no futebol, o Brasil aprendeu a sofrer. Lambeu todas as feridas do 7 a 1, colocou um treinador de verdade no comando no lugar de um técnico fake (Tite no lugar de Dunga) e, desde então, nunca mais perdeu em jogos oficiais. Tite ensinou os jogadores a sofrer.
E assim foi o jogo de hoje. Os mexicanos iniciaram tentando fazer uma pressão. Todos sofreram, calados. Tentaram se organizar, mas não estava dando certo. A partida corria com o 0 a 0 e o Brasil errava a saída de bola. O México retomava a pelota e partia pra cima. A torcida mexicana, empolgada, gritava “olé” desde os 5 minutos de jogo. Os jogadores e o treinador sofreram o quanto foi necessário para, então, retomar o controle do jogo lá pelo final do primeiro tempo. E, desde então, o México não teve a mínima chance. Um típico 2 a 0 ao natural aplicado pelo melhor time. Placar que poderia ter sido maior se houvesse um pouco mais de tempo. No segundo tempo, o México não ameaçou o gol de Alisson. Um 2 a 0 justo, categórico, com a autoridade e o selo de qualidade do melhor time.
Com a força do único país que pode ser seis vezes campeão do mundo. E agora?
Agora vem a Bélgica. De time com o melhor futebol da copa, para a seleção que sofreu diabos para eliminar o fraco time japonês por 3 a 2, de virada. No jogo do final da tarde, ficou comprovada a força aérea do time belga: bola na área geralmente é sinônimo de perigo. Diziam o mesmo da Sérvia, e o Brasil fez 2 a 0, sem problemas. Já comentei aqui que a seleção de Tite não jogou nada nos dois primeiros jogos. Sofreu na hora certa e, mesmo assim, empatou uma e venceu outra. Agora, deixou o sofrimento para trás e venceu dois times mais compactos e fortes (Sérvia e México) jogando muito mais do que seus adversários. Passou o sofrimento para o outro time. Contra a Bélgica, a expectativa é que as dificuldades aumentem e, passando do time de Lukaku, o sofrimento será ainda maior contra uma das duas seleções que ganharam títulos mundiais em cima do Brasil: Uruguai ou França. Qual toca é a pior para enfrentar? Na minha opinião, a França, hoje, é o grande adversário brasileiro na briga pelo título. Ousaria dizer que, no caso de um Brasil x França na semifinal, o classificado será o campeão (apesar da minha torcida pelo Uruguai no confronto contra os franceses). E, passando para a final, são diversas as possibilidades: Inglaterra, Colômbia, Rússia, Croácia, Suíça ou Suécia.
Minha impressão inicial é que as quartas de final e a semifinal serão mais difíceis do que uma eventual final. Apesar de que, numa Copa maluca como essa, em que a Rússia eliminou a Espanha e a Coréia do Sul a Alemanha, é difícil apontar favoritos em jogo algum. Essa, aliás, está sendo uma copa de quem sabe sofrer. Argentina, Alemanha e Espanha não souberam sofrer durante os 90 minutos e acabaram sofrendo eliminações categóricas e doloridas. E sobre sofrimento, dor e lágrimas são poucos os que superam o Brasil e os brasileiros.