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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O anjo pornográfico

Acabei de ler ontem “O anjo pornográfico”, a biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro. Esse livro fazia tempo que eu queria ler e, como caiu em minhas mãos meio que por acaso, acabou furando a fila dos outros que estão na estante. Mas vamos ao que interessa...
O livro, como a maioria das obras literárias, tem pontos fortes e fracos (são poucos os que só têm pontos fortes, e os que só têm pontos fracos, não passo da décima página – como os de Paulo Coelho). O principal ponto fraco, na avaliação de um leitor que tem mais interesse em literatura e em histórias malucas, como eu, está nas extensas descrições feitas sobre o teatro (o que não chega a ser um demérito, pois trata-se de uma biografia sobre um dramaturgo...). Claro que tem muitas interessantíssimas, mas em alguns trechos você lê duas ou três páginas sem entender muita coisa porque você simplesmente não tem noção de quem são algumas das pessoas citadas. E se você está lendo mais ou menos apressadamente, você não para toda a hora para pesquisar no Mr. Google quem é aquela meia dúzia de gente. Mas isso não compromete o todo da obra, apenas não a coloca no mesmo nível de Chatô, o rei do Brasil, de Fernando Morais.
Já os pontos fortes são vários. Gostei muito da recuperação que Ruy fez da vida de Mário Rodrigues, pai de Nelson, e de seu irmão Mário Filho (o que empresta seu nome ao Maracanã). Essas histórias enriqueceram muitíssimo a obra e, como Ruy destaca ao final, esses dois personagens dariam outras duas putas biografias. Outro ponto forte é a linguagem, que foge da idiotice da objetividade, tão criticada por Nelson. Ou seja, é algo mais próximo da literatura do que do jornalismo.
Mas o principal da biografia, obviamente, é a vida do biografado. Nelson Rodrigues, pelo que deu para perceber, era um cara que só se preocupava com o teatro, a literatura (incluindo aí seus subgêneros) e um pouco com o jornalismo (profissionalmente falando, pois suas maiores paixões eram a própria família e as mulheres). Ou seja, foi um sujeito que, diferentemente de Chatô, não ligava muito para quem estava no poder, para brigas de esquerda e direita (apesar de ter apoiado o regime militar por ser declaradamente anticomunista – lembrando que ele teve um filho preso e torturado pela ditadura, que praticamente matou Nelson dos nervos durante anos), enfim, ele tinha suas posições políticas, mas suas obras não tinham essa preocupação. A obra dele, como é de conhecimento mais do que público, preocupava-se mais com a tragédia, a comicidade e o sexualismo do dia-a-dia.
Para ser sincero, até hoje só li dois livros do Nelson: À sombra das chuteiras imortais, uma coletânea de crônicas escritas por ele sobre futebol e publicadas em jornais da época, e Mentira, que fui descobrir no livro do Ruy que é um romance publicado a partir de um folhetim que Nelson escreveu. Agora, estou curioso para ler o resto, principalmente Vestido de Noiva, Beijo no Asfalto e A falecida. Ah, e óbvio, A vida como ela é, que já vi um pouco na TV.
Assim como na obra de Fernando de Morais sobre Chatô, em “O anjo pornográfico” também há toda uma recuperação histórica, pelo simples fato de que Nelson convivia com figuras como Getúlio Vargas, ministros, prefeitos, etc. Principalmente quando teve obras censuradas. Já sobre as curiosidades, há uma lista infindável delas. Uma que mais chamou a atenção foi a revelação de que Nelson Rodrigues precisava usar óculos, mas se negava a isso e, dessa forma, ele praticamente não via o que acontecia em campo nos jogos de futebol. Apesar disso, seus textos, que eu li em À sombra das chuteiras imortais, são impressionantes.
Mas a principal surpresa que tive ao terminar a obra foi o estilo de vida que Nelson levou. Sempre foi um sujeito pacato, nada boêmio, que não bebia absolutamente nada de álcool e super família, daqueles que às 22h está de pijama pronto para dormir com a patroa. O único “desvio” do autor, que era conhecido como “tarado”, “depravado”, e por aí a fora, eram as amantes que ele acumulou ao longo da vida. E mesmo assim, o primeiro registro de uma amante só ocorre quando ele já tinha seus 36 anos. Outro ponto que chama muito a atenção são as mortes trágicas na família de Nelson, além das suas doenças (principalmente a tuberculose, que quase o mata mais de uma vez) e a sua infância, onde ele presenciou várias histórias de traição e assassinato, que tanto aparecem na sua obra.
Assim como no Chatô, não tenho muito o quê escrever, pois o vagal leitor deve ler a obra completa, que é muito boa. Como está escrito na contracapa do livro, a história de Nelson às vezes emociona, às vezes deprime e às vezes diverte. Enfim, é um bom livro para quem gosta de emoções diversificadas, de futebol, de cinema, de teatro e, principalmente, de tragicomédias de todos os tipos. Boa leitura a todos!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

1.178 páginas

Desde janeiro de 2008, quando postei o primeiro texto nesse blog, até o presente momento, eu escrevi para o vagabundo leitor exatas 1.178 páginas em arquivo de Word, tamanho 12, espaçamento 1,5, justificado, distribuídas em 686 posts (contando com esses). Descobri isso agora, passando os textos do blog para um arquivo de Word, pois tenho a idiota mania de postar os textos sem salvar. Então me ocorreu: e seu um dia O Rebate fechar as portas e tudo o que está online for perdido? E se o Google vai a falência e todos os sites ligados a ele sumirem do mapa??? Ãhm???? Pois é, pensando nisso, pacientemente, fui pegando os textos mês a mês e jogando-os para o Word, onde ele será salvo e enviado para meu próprio email.
Ah, e uma curiosidade: o mês em que menos postei foi sempre o de fevereiro... Não sei se é porque nesse período o calor no RS é infernal, ou porque em outros anos eu viajei, ou porque geralmente esse mês tem menos dias... Enfim, também não interessa. E também não interessa quantas páginas já escrevi e em quantos posts. Só quis fazer um pouco de auto-propaganda para meus dois instáveis leitores.
Hasta!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Originalidade

Hoje virou clichê as pessoas falarem que a sociedade pós-moderna é liberal, que já não se tem mais a mesma noção de bons costumes e moral como se tinha antigamente, que hoje se pode falar de tudo e sobre tudo de qualquer jeito, tanto na Internet, quanto nos meios de comunicação mais tradicionais como rádio, TV e jornal e blá, blá, blá, blá. Balela. Primeiro, essa história de moral e bons costumes sempre foi uma farsa. Há milhares de histórias nelson rodriguianas acontecendo por aí todos os dais, desde que o mundo é mundo: homem tem filho fora do casamento, mulher engravida de outro e diz que é do marido, namorado mata namorada por ciúmes, namorada engravida para prender namorado, senhor de idade se envolve com garotinha, senhora de idade se envolve com garotinho, histórias de incesto (a bíblia está cheia delas), lesbianismo, homem com homem, mulher com mulher, prostituição, pamsexualismo, enfim, tudo isso sempre existiu desde que o mundo é mundo.
Entretanto, também virou clichê falarem que “hoje isso aparece, antes era escondido”. Balela também. Hoje, se o Nelson Rodrigues ou o Nabokov fossem vivos publicassem seus textos em qualquer jornal de grande circulação no Brasil traria a mesma polêmica que décadas atrás. Hoje os jornais (e por conseqüência o resto) são bem comportados. Não se vê um texto polêmico em jornal nenhum em todo o território nacional. Um colunista de política de um grande jornal escreve uma palavra dúbia sobre alguém, e se julga um polemista. Na TV, um Maurício Saraiva fala “esse time do Grêmio tem limitações, mas pode vir a vencer, e o Inter tem um bom time, mas tem que se cuidar”, e todos acham que isso é polêmica! Batata! Por que não fala logo: “esse time do Grêmio é uma m... e esse Inter é enganação pura”? Na política, ocorre o mesmo. Lasier Martins aparece com sua cara de pastel na frente da câmara, levanta questões de nível de jardim de infância, e a família abestalhada gaúcha fica olhando para TV, murmurando, “esse cara é um gênio!”, ou, senão concordam: “é verdade”. Por que tanto medo de tomar partido? Por que tanta prudência? Um David Coimbra escreve uma crônica em que se tem uma jovem sedenta por sexo e todos ficam de boca-aberta: “óóóóóó, que ousadia!”. Jovens e velhos, escandalizam-se ingenuamente. Ah, falasério!
Cada vez que pego autores clássicos, como o próprio Nelson Rodrigues, ou senão Nabokov, Bukowski, Henry Muller, Hunter Thompson, etc, vejo que a nossa geração é a mais conservadora e infantil que já passou pela Terra.
O que está faltando é originalidade, e a Internet e as redes sociais não substituem isso. O que falta é filosofia na ousadia, como faziam esses autores. Falta conteúdo. Hoje, de fato, colocar um monte de crianças e adolescentes dançando seminus na TV nos domingos de tarde, ou colocar famílias de classe baixa fazendo barraco em rede nacional, isso sim, é um disparate contra a inteligência do telespectador. Isso sim é vulgaridade. Isso sim, deveria ser proibido, por mais anti-censura que eu venha a ser.
O que está faltando é inteligência. E uma boa dose de ousadia.
Um bom resto de semana a todos.

* Texto possivelmente publicado em A Tribuna Regional

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Rumo ao topo!


Hoje, às quatro da tarde, pelo horário de Los Angeles, o Lakers tenta se isolar na liderança da Divisão do Pacífico pela NBA quando enfrenta o Philadelphia Sixers. O meu time do coração está dividindo o primeiro lugar do grupo com o seu arquirrival, o Los Angeles Chippers, ambos com 14 vitórias. Mas, estou tranqüilo, pois meu time já conquistou a NBA 16 vezes, só sendo superado pelo Boston Celtics. Entretanto, como o time de Boston, depois de ganhar a temporada 85/86, só voltou a ser campeão em 2007/2008, creio logo nós alcançaremos os 17 títulos que eles detém (baseados no passado). Isso quer dizer que uma vitória hoje contra o Sixers é fundamental a essa empreitada: a liderança da Divisão do Pacífico e a hegemonia do basquete americano.
Pois é, amigos, basquete é isso: é emoção, muitos pontos e cestas sensacionais por jogos, muita rivalidade, jogos a cada dois dias, muito show da torcida, gostosas dançando na beira da quadra, etc. Não é como o futebol onde os jogos são semanais e onde o placar de 0 a 0 é comum. Por isso sempre gostei mais de basquete. Por isso sou LA Lakers!!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A mulher da parada

Cada vez que ele a via, tinha uma ereção. E era sempre no mesmo horário: às 13h15, enquanto esperava o ônibus para ir ao trabalho. Estava lá, parado, suando, tentando achar um centímetro de sombra naquela parada macabra, quando ela surgia na esquina, rebolando em um vestido até a canela ou em uma calça comprida. Talvez fosse isso que o excitasse, nunca tinha visto suas coxas. E, assim que ela caminhava vagarosamente em sua direção, a ereção começava. No início, tentava disfarçar. Colocava sua pasta em frente ao pênis ereto, tentando esconder dos outros o volume em suas calças. Depois, relaxou: deixou que o pênis se avolumasse sem se preocupar se o casal que estava ao seu lado se importava ou não. Fodam-se: a única coisa que ele queria foder, era ela. Mas no sentido carnal, não no metafórico.
Entretanto, infelizmente, o ônibus que ela pegava ia para o lado contrário ao do seu. Chegou a perder o horário só para ficar esperando chegar a condução dela, para ficar se masturbando mentalmente olhando aquelas ancas flácidas e volumosas na sua frente. E, quando aquela masturbação sem toques ultrapassava os cinco minutos, chegava a quase gozar. Acreditava que se apenas tocasse seu pênis na bunda dela, jorraria todo o leite que era produzido velozmente todas as tardes feito um jato americano. Por mais que desse cinco com a mulher à noite e mais duas de manhã com a amante (sim, ele já tinha uma amante) e que se masturbasse, o pênis nunca deixava de se erguer ao ver a mulher da parada. Aliás, era uma situação inusitada, pois sua mulher era jovem e gostosa, e a amante tinha sido, recentemente, coelhinha da Playboy argentina. Além disso, ele poderia estar gripado, com frio, com calor, com febre, não importava, o pênis falava mais alto do qualquer outra voz interior que pudesse ter. Era só detectar aquele vestido comprido florido ou aquela calça em pleno sol de 40 graus que o membro subia, automaticamente.
Certa vez ele elaborou um plano. Era 13h15 e a parada estava lotada. Nos últimos dias ele observara que o ônibus da sua musa seguia sempre lotado. Pensou em subir atrás dela e, se ela ficasse de pé, encostaria o pênis em seu rabo e gozaria ali mesmo. Passou pela mente, rapidamente, a possibilidade dela gritar, fazer um escândalo. Então, o motorista pararia o ônibus e chamaria a policia. Ele seria preso e xingado em todos os canais de TV que o chamariam de “tarado”, “vagabundo”, “crápula”, “inútil” em rede nacional, enquanto o repórter diria para a câmara: “mostra a cara desse maníaco”. E, jogado em meio a dezenas de crápulas, seria estuprado sem dó nem piedade. Ou, pior, os passageiros poderiam se revoltar e lhe linchar, enchendo o asfalto quente de sangue, que logo evaporaria para o inferno. Mas, foda-se, valeria a pena. Só assim ele descobriria o significado da vida. Seria feliz por um momento. Planejou tudo mentalmente, cada passo, cada movimento, dele e dela, prevendo todos os imprevistos possíveis.
Quando o ônibus chegou, sentiu um puta frio na barriga e seu coração quase saiu pela boca. Sentia a veia do pescoço pulsando, aos olhos de todos. Esperou até que a musa entrasse e, então, posicionou-se estrategicamente atrás dela. De início, seu pênis estava a poucos centímetros do rabo desejado. Mesmo sem se mexer, parecia que o dito cujo ia saltar para fora da calça, só para molhar aquelas carnes de leite morno. O coração batia cada vez mais rápido e ele suava cada vez mais. Até que ele sentiu que aquele era o momento: ou aproveitava, ou, quem sabe, nunca mais teria outra oportunidade igual aquela. Era como um pênalti em final de Copa do Mundo. Era pegar ou largar. A glória ou anonimato. O êxtase ou a tragédia. Ou os quatro juntos. Quando se concentrava para empurrar seu pênis dois centímetros para frente, tentando encostá-lo no rabo desejado, o ônibus freou bruscamente. Seu pênis duro foi atolado dentro daquelas nádegas quentinhas e macias, e, como se tivessem aberto uma mangueira de bombeiro, leite quente foi jorrado do pênis para a cueca, da cueca para a calça, da calça para o vestido até as canelas da mulher, e daí, para o próprio rabo. Tudo em frações de segundo. Quando tudo se restabeleceu, ele estava sôfrego, quase caindo desmaiado. Então, ele viu a porta se abrir ao seu lado, e saltou para fora: era a chance que tinha de se salvar. Desceu correndo, sem rumo, e só respirou aliviado quando viu que o ônibus dobrou na avenida mais próxima, sumindo de sua vista.
No dia seguinte, no mesmo horário, foi com o coração na mão para a parada. Quando achava que dessa vez ela não apareceria, viu-a dobrando a esquina. Achando que iria enfartar aos 27 anos, ele a viu andando, pé ante pé, bengalada pós bengalada, em sua direção. Ela parou na sua frente, roçou os cabelos brancos em seu nariz, e empinou o seu rabo sexagenário na direção de seu pênis, que já estava quase explodindo. E, nesse dia, ele teve a sua apoteose sexual.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Improviso, carnaval e Roth

O carnaval está aí. Falta pouco. E sabem como começou o famoso desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro? Pois a concorrência carnavalesca mais famosa do mundo nasceu de puro improviso. O jornalista Mário Filho (aquele mesmo que empresta seu nome ao Maracanã), no início da década de 1930, após perder o irmão e o pai (Roberto e Mario Rodrigues, respectivamente), precisando de grana, teve a brilhante idéia de fundar um jornal sobre esportes – pura novidade na época. Eis o detalhe: o campeonato carioca daquele ano estava terminando quando saiu o primeiro número do tal jornal. O que fazer em um jornal recém-criado quando todos estão de férias? Mário Filho, que era irmão do então desconhecido Nelson Rodrigues, sem ter o que colocar nas páginas de esporte do jornal resolveu improvisar: criou uma comissão julgadora para avaliar os desfiles das escolas de samba daquele ano. Comissão esta, formada pelos periodistas de seu jornal. O resultado: um tremendo sucesso, que perdura até hoje.
Eis no que o Grêmio está apostando: no improviso. Ao contrário do que recomenda o histórico de todos os times de sucesso, o Grêmio nunca mantém uma base mínima de time de um ano para o outro. A cada início de temporada contrata novo treinador, nova dupla de ataque, novo meio de campo, e só mantém o furo do time: a zaga. O resultado disso foi visto no jogo contra o São Luiz, na quinta-feira, no Olímpico: cada jogador que recebe a bola não sabe o que fazer com ela. Ao ter contato com a redonda ele olha para o lado e, só então, decide o que fazer. O improviso, que tudo tem a ver com o Carnaval, poucas vezes dá certo no futebol. E é por isso que não creio que 2012 será um ano melhor para os gremistas do que foi 2011, 2010, 2009, etc.
RECEITA – Já o Inter faz o contrário: mantém uma boa base há pelo menos uns seis anos. O resultado: um time entrosado que, com uma boa dose de categoria e genialidade de D’Alessandro, é quase imbatível em território sul-americano. Na verdade essa não é nenhuma receita nova. O próprio Barcelona mantém uma base há um bom tempo, e soma a essa boa base a genialidade de Messi, e é por isso que tem o melhor time do mundo. Entrosamento e anti-improvisação são as palavras de ordem no futebol pós-moderno. Juntar um monte de jogadores que nunca se viram na vida e largá-los em campo para jogar achando que a genialidade individual vai resolver tudo quase nunca deu certo. As duas últimas seleções que fizeram vexame nas copas de 2006 e 2010 são a prova disso. Já os bem-sucedidos Inter, Barcelona, LU do Chile e Lajeadense (que manteve a base vice-campeã da Copinha) são a receita do sucesso. Improviso, só nas peladas dos “com camisa” contra os “sem camisa”.
VOLTA DE ROTH – É por isso que, já em janeiro, profetizo: o Grêmio, durante 2012, terá a passagem de Celso Roth pelo Olímpico. Ele é o único capaz de evitar que o improviso tricolor vire tragédia.

Um bom final de semana a todos. Ah, e ia esquecendo: um bom Gre-Nal a todos. Se é que isso é possível...
*Texto publicado no J Missões deste sábado.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Cale a boca, jornalista!

Quem tem alguma dúvida de que o regime militar que comandou o Brasil entre 1964 e 1984 foi um regime com princípios nazistas e fascistas está CONVOCADO a ler “Cale a boca, jornalista”, livro do escritor e jornalista Fernando Jorge. Aliás, eu “conheci” Fernando Jorge através de suas colunas na Revista Imprensa e já gostava de seus textos. Agora passo a ser um de seus grandes admiradores, pois a história do Brasil lhe deve muito pelo levantamento feito sobre o absurdo regime. O livro também traz histórias de outras ditaduras, como a de Getúlio, ou ainda, do período de transição da independência, etc, mas o que mais chama a atenção é o período em que a milicada tornou o Brasil uma terra de malucos raivosos que escolhiam sem muitas justificativas pessoas para torturar a matar. Se um milico olhasse para a sua cara e te achasse com cara de subversivo, ou se ele pensasse que você conhecesse um subversivo, você poderia ser preso, ficando dias e dias sendo torturado até 18 horas e, se tivesse sorte, você morreria para não precisar mais sentir tanta dor. É essa a impressão que deixam os relatos que estão no livro. Aliás, a caçada aos “subversivos” era uma legítima caça as bruxas, pois o conceito de subversivo era completamente subjetivo. Você poderia ser preso como subversivo, por exemplo, se estivesse andando pela rua com um livro na mão de algum autor de esquerda. Pior ainda se fosse algum livro de Marx, que hoje é praticamente uma bíblia nas universidades.
E o pior é que eu, ingenuamente, achava que no período que antecedeu as Diretas Já, lá por 1980, não aconteciam mais tantos absurdos. Ledo engano, pois os assassinatos e torturas seguiram até o último minuto do governo Figueiredo. Aliás, eu como brasileiro me sinto no direito de emitir a seguinte definição sobre esse traste: ele foi um grandíssimo dum filho de uma puta.
Eis um resumo do que aconteceu, colocado em um trecho sintetizador da página 162:
“Ali, ‘em defesa do movimento de 1964’, era praticada a arte de flagelar o corpo humano. Elementos do Exército, desferindo murros, arrancaram dentes do jornalista Milton Coelho da Graça. Os testículos de um agitador camponês, cujo apelido era Índio, foram amassados com tenazes. Dos canais auditivos do cidadão Gildo Rios saía o pus, em conseqüência da ruptura dos seus tímpanos, dos golpes que recebera nas orelhas. E o próprio coronel Hélio Ibiapina viu o suplício infligido ao professor Assis Lemos, da Paraíba: enfiaram, no ânus deste homem, um papel molhado em álcool e depois o ascenderam, puseram-lhe fogo... Churrasquinho, eis o nome dessa tortura, uma variante do clister elétrico”.
Os relatos são absurdos. Eis, na sequência, a partir da página 163, o seguinte relato de uma das perseguições impostas pelos militares:
“[...] Havia fundamento nesse terror do jornalista, pois o coronel Darcy Villocq Viana espancara selvagemente o líder comunista Gregório Bezerra. Este foi acolhido, no quartel do Batalhão Motomecanizado, com golpes de cano de ferro na cabeça, pontapés e coronhadas por todo o corpo, sobretudo no estômago, no abdômen e nos testículos. Após a recepção, Gregório ficou estendido no cimento de um xadrez, mas Villocq continuou a surrá-lo, exibindo baba pelos cantos da boca e vomitando ‘termos pornográficos que nem as mulheres mais decaídas do baixo meretrício seriam capazes de pronunciar’. Depois a fera quis introduzir a barra de ferro no ânus da vítima, porém não conseguiu [...].
Colocaram o líder comunista de bruços e embora ele estivesse encharcado de sangue, com os dentes todos partidos, VIllocq pisou na sua nuca, enquanto os demais algozes sapateavam naquele pobre corpo moído. Terminado este trabalho, ergueram o homem e o obrigaram a pisar numa poça de ácido. Logo, em poucos segundos, o ácido deixou a sola dos pés em carne viva. Imaginemos os urros lancinantes de Gregório Bezerra, como isto deve ter sido atroz. [...].
O coronel, após se deter em frente do edifício do CPOR, concitou os alunos, os oficiais e os soldados a lincharem o rebelde. Ninguém atendeu, o que aumentou a sua fúria. Mais adiante, num cruzamento, Villocq impediu o fluxo do trânsito e voltou a bater em Gregório, enquanto alçava a voz:
- Linchem este bandido! É um monstro! É um incendiário! Queria fazer a revolução comunista, a serviço de Moscou! Queria entregar o Brasil à Rússia soviética! Tinha um plano para incendiar o bairro da Casa Forte e matar todas as crianças queimadas! Matemos este Bandido! Venham, batam, até ele morrer. Vinguemos os crimes que ele cometeu, agora está amarrado, não pode reagir!
Tudo inútil, ninguém aceitou o convite. A espumar de ódio, cada vez mais raivoso, VIllocq pulava e surrava o prisioneiro, querendo que o povo apreciasse aquela sordidez. Chocadas, as pessoas viravam o rosto [...]”.
E segue a história. Mais adiante, o coronel leva Gregório para a sua casa, mas a própria esposa pede, chorando, para que ele pare com aquela loucura psicótica.
O pior é que histórias como essas, no regime de 1964, não foram exceção: foram regra. E muitos foram torturados e até mortos sem sequer serem o que os milicos chamavam de “subversivo”. Tem gente que, para causar mal para um desafeto, denunciava-o como “subversivo”, e o pobre diabo ia para a cadeia ser torturado por dias a fio, ouvindo perguntas sem ter idéia de quais eram as respostas.
E para aqueles que pensam que Vladimir Herzog (foto) foi o único jornalista morto sob tortura nesse período, enganam-se. Fernando Jorge identificou pelo menos outros 19 jornalistas que foram mortos pelos militares sob tortura, todos identificados, inclusive com as fotos deles mortos com os rostos desfigurados. Isso em um período de 20 anos (e fora os que não foram identificados pelo jornalista, que se restringe, principalmente ao eixo Rio-São Paulo). Só com os números de Fernando Jorge, é um jornalista morto e torturado por ano. Fora os “não-jornalistas” e mais aqueles que desapareceram e nunca mais foram vistos. Todos caçados, presos, torturados e mortos.
Teve ainda o caso de uma cidadezinha, contado no livro, onde foram presas pessoas comuns, sendo colocadas em caminhões sem comida, sem poder dormir, e levando porrada dias a fio. Mortas de sede e fome, quando os milicos lavavam os caminhões com substâncias químicas, essas pessoas brigavam para beber aquela água podre, misturada às fezes. Teve ainda um depoimento que aponta que um sujeito falou para o outro e disse: “fulano, me avise quando for urinar, porque não agüento mais de sede”. Isso não é tão cruel quanto foi o nazismo?
Agora, depois de ler esse livro (que tem muitos outros casos de psicose aguda), fico me perguntando, por que os livros das escolas, e a cultura brasileira em geral, apresenta o nazismo e o fascismo como algo completamente diabólico e o período de 20 anos de regime militar não recebe o mesmo tratamento?????? Porra, as maluquices e o sadismo eram simplesmente idênticos!!! Os dois eram malucos. Os dois queriam eliminar o diferente através da morte (e quanto mais cruel, melhor). Ou seja, eu passei pelo colégio sem conhecer essa maluquice que aconteceu em nossa história, mas terminei o segundo grau sabendo muito bem a maluquice que foi o nazismo e o fascismo!!!
E, para os mais novos (como eu) que não eram nascidos na época ou eram muito pequenos, e para os mais velhos que têm memória curta, aí vai uma entrevista que foi publicada na época no Jornal Nacional, e que está contada no livro, envolvendo o sanguinário e psicopata general Nilton Cruz. Vejam como alguns milicos de merda se achavam Jesus Cristo em terra brasuca:

http://www.youtube.com/watch?v=IWuggz3aWhw

O pior é que esse retardado mental facínora, pelo visto (ele deu entrevista a um dossiê sobre a ditadura da Globo News – que também está no youtube) parece que está vivo. E o pior: solto!!!! Esse é o nosso Brasil!!!!!! Pior que ao ouvir ele falando na Globonews todo velhinho, quem não conhece suas histórias, até pode se iludir, e pensar que ele é bonzinho. Mas a verdade é outra e diversa, como diria meu primo Alemão: generalécos também envelhecem. E aqueles que ele mandou para o além, estão o esperando na porta de lá!
Sem nada mais a declarar. Fim.