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quarta-feira, 22 de março de 2017

I found her

Já estou quase doando esse espaço para o meu xará Dudu Fronza. Mas, como isso não é possível, segue mais um texto desse miserável:

“Well, I found a girl, beautiful and sweet” (bem, eu encontrei uma garota linda e doce).

Essa é uma das frases ditas na música que tocava enquanto eu dirigia por uma dessas estradelas da vida, enquanto eu nem prestava atenção na música porque estava muito concentrado em você. Mas, como você é atenta e esperta, informou-me mais tarde que essa música estava tocando no som do meu carro enquanto íamos de um canto a outro dessa metrópole, como quem cruza o país sem destino certo, ao estilo Jack Kerouac. Bem, eu realmente encontrei uma garota linda e doce, eu pensava, enquanto dirigia e falava sobre qualquer assunto banal, sem nem imaginar que era exatamente isso que a música que tocava estava dizendo. E, percebi que você também não prestava muita atenção ao que eu dizia, talvez por estar dentro da música que saía das caixas de som do carro:

“Baby, I'm dancing in the dark
With you between my arms
Barefoot on the grass
Listening to our favorite song
When you said you looked a mess
I whispered underneath my breath
But you heard it, darling
You look perfect tonight”

You look perfect tonight. Você está perfeita tanto de noite, quanto de dia. Mas na única vez em que eu te elogiei, você fugiu. Eu duvidei que você realmente ficasse sem jeito diante de elogios. “Uma mulher tão linda quanto ela, deve estar acostumada”, pensei. Mas que nada. Fugiu do elogio ou fugiu de mim. Fiquei em dúvida. Só pode ser de mim. Com esse sobrenome: Fronza. Que merda, não fui eu quem escolhi! Desanimei. Então, você veio e me disse que é incrivelmente bom conversar comigo e, eu pensei: se você soubesse como eu acho incrivelmente bom conversar contigo, te ver, fitar teus olhos, pensar em você, sonhar com você, gostar de você... Mas, você não sabe. Ou, eu gostaria que não soubesse, porque assim, não sabendo, talvez você não fuja de mim. E o que eu mais quero é você perto. Bem perto. Como nos 0,5 segundos em que eu tive você em meus braços antes de você fugir... Foram os 0,5 segundos mais demorados e proveitosos da minha vida. Gostaria de paralisar aquele momento apenas para ficar sentindo o calor do seu corpo, colado no meu, com o seu rosto e os seus lábios bem próximos dos meus... Mas, você ergueu a guarda novamente, afinal, você é forte e guerreira. Já eu, como o Muhammad Ali, acabei baixando a guarda e indo para as cordas, onde fico te esperando para o combate da conquista. Como na luta de Ali contra Foreman – a maior luta da história do boxe -, deixo você bater e bater e bater, com a guarda bem erguida, até cansar. Quando cansa, eu te abraço – como Ali e Foreman se abraçaram no ringue. Então, a luta some do palco e entra a dança. E nós dançamos no escuro. Aos poucos vou baixando a sua guarda, vagarosamente, sem que você perceba... E, num gramado, ouvindo a nossa música preferida, como na letra de Perfect, eu seguro as suas duas mãos. Aproximo os meus lábios dos seus. Fito os seus olhos e, então, finalmente, eu tenho certeza de que encontrei a garota mais linda e doce que eu poderia encontrar e desejar. Você quer fugir novamente. Não está preparada. Eu te seguro e digo: “nem eu, mas quem está?”. Você ri e, então, finalmente nos beijamos....
Eu acordo. Mais um sonho. Mais um dos vários que me fazem acreditar que a felicidade é algo possível nessa vida. Afinal, só tenho encontrado felicidade e paixão desde que nossos olhares se cruzaram pela primeira vez. Não quero que você saiba o que sinto por você para te ter perto, sempre. A não ser que você sinta o mesmo por mim, mas, nesse caso, manda um sinal de fumaça? Ficarei sentado na sacada do meu apartamento toda a noite, olhando para trás das torres da igreja, esperando uma fumaça que não indique incêndio, mas sim, o mesmo sentimento que eu sinto por você. Pode ser uma fumacinha simples, saída de uma xícara de café. Afinal, estou precisando de uma dose. Uma dose de cafeína.

sábado, 18 de março de 2017

Diálogos impagáveis

Tudo começou quando estava procurando o Canal do Boi para incomodar a pequena Lary. Eu fazia isso com a minha ermã Carolina e com meu ermão Fábio quando morávamos todos juntos: eu ligava a TV no Canal do Boi para irritá-los. Coisa de irmão. 100 reais dou-lhe uma! 100 reais dou-lhe duas!!! É um belo reprodutor, vamos lá, vamos lá, 100 reais... 150... 150... Então, procurando o Canal do Boi na Sky passei pela TV Senado onde estava passando um documentário sobre Erico Verissimo. Parei ali. A Lary, obviamente, reclamou. Expliquei que eu havia escrito um livro sobre aquele tio, ao que ela duvidou.
- É sério, nenê. Tem uma caixa cheia com meus livros ali no escritório do pai.
- Quando eu aprender a ler vou ler esse teu livro chato....
Meu desprestígio intelectual continua. Primeiro, em outubro, ela não acreditou que eu iria subir no palco da Feira do Livro e, agora, cinco meses depois, ela chama o meu livro de chato. Não desisti.
- Tá bom, então quando você souber ler, vou escrever um livro de historinha pra você.
- Mentira.
- Por que não acredita?
- Porque você não sabe escrever livro...
Mas que guria desconfiada... O documentário segue. Digo que ela tem um livro do Erico Verissimo. Ela lembra. Comprei num shopping em Porto Alegre: A Volta dos Três Porquinhos. Ela vai ao quarto e volta com ele debaixo do braço para eu contar. O livro é longo. Erico se empolgava para escrever suas histórias, mesmo para os pequenos. Contei alguns pedaços, mas ela queria tudo. Enquanto contava que a Vaca Fria havia perdido o sono e que os três porquinhos mosqueteiros mais o Gato Pingado tentavam ajuda-la a encontrar, apareceu o professor Antônio Hohlfeldt na tela.
- Olha nenê, o professor do pai.
- Mentira.
- Por que não acredita?
- Porque é muito velho.
Olhei o professor Hohlfeldt falando na tela, ainda com cabelos pretos. Imagina se ela o visse agora, grisalho... Depois apareceu o Luis Fernando Verissimo.
- O pai já entrevistou esse cara também.
- Mentira.
- Mas que côsa! Só sabe dizer "mentira"? Tenho até uma foto com ele...
- Então me mostra...
- Agora não, vamos ver o filme...
Ela insiste para eu seguir contando a história da volta dos três porquinhos. Entre um capítulo e outro dou uma espiada no documentário. Então, aparece um trem.
- Sabia que o vô e a vó se conheceram num trem?
Ela primeiro se mata rindo e depois duvida, só pra variar. A conversa toda dura até metade do documentário, quando ela começa a coçar os olhinhos miúdos e dizer que está com sono. Acaba desistindo de duvidar de mim e de ver o documentário sobre esse tio maluco que escreveu um livro que se chama O Urso com Música na Barriga (que prometi comprar para ela em breve) e vai dormir, vendo um desenho na televisão. Dou um beijo na testa dela, desejo boa noite, e volto para o documentário, satisfeito por curtir esses diálogos impagáveis com a minha pequena.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Fim

Fuçando na mini biblioteca da minha ermã, encontrei o livro Fim, da Fernanda Torres. Sempre fui fã dela enquanto atriz e, como estava procurando algo mais light para ler nos horários de folga, surrupiei temporariamente esse romance que mistura comicidade, tragédia e reflexões filosóficas sobre a vida. Acabei de ler há pouco. Para ser sincero, há exatamente dois minutos e 46 segundos. Confesso que foi uma grata surpresa a obra de Nanda (sou íntimo dela, ok?). Pela temática, achei que pudesse ser uma narrativa forçada, com humor previsível, etc, só que não foi. O foco principal da história é a vida de cinco amigos, já mortos: Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro. Os cinco narram, em primeira pessoa, alguns dos principais momentos vividos enquanto habitavam esse planeta (principalmente no que se refere a romance e à relação entre eles). Cada capítulo leva o nome do personagem em questão. Alguns secundários aparecem com textos escritos em terceira pessoa. E a autora se vale de um jogo temporal interessante (uau, que acadêmico!). Que merda, tenho pavor quando começo a escrever aqui como se estivesse escrevendo um artigo... Um, dois, três, resentado...!
O fato é que me senti inspirado para escrever justamente para tentar escolher com qual dos cinco me identifiquei mais. Portanto, listo e apresento brevemente abaixo os cinco personagens para, ao final, tentar escolher qual eu seria, caso tivesse que escolher uma das cinco vidas para representar a minha (ou para viver). Coisa de criança, sei, mas o que é a vida senão um monte de brincadeira de criança? (algumas de mal gosto, admito).

Álvaro (1929-2014): É o último a morrer do quinteto. Uma palavra define ele: brocha. Não apenas na cama, mas na vida. É o que dá a pincelada mais geral dos outros, inclusive, conforme Fernanda explica em uma entrevista, porque foi do conto sobre Álvaro que nasceram os demais e o livro como um todo. Entra na monotonia do casamento até que a sua mulher, Irene, termina por traí-lo com um instrutor de academia. Mesmo se sentindo indiferente a ela, opta por se separar. Age com frieza e não tem ânimo para começar a tudo novamente. Sinteticamente, acaba brochando na vida.
Sílvio (1933-2009): É o porra louca da turma. O Stifler do quinteto. O cara que bebe, cheira, fuma, faz bagunça, quer comer todo mundo – por pouco não quer comer os amigos. Acha os outros quatro uns babacas acomodados em suas vidinhas domésticas. Também se casa, mas quando a mulher descobre uma de suas amantes, pensa que foi uma dádiva de Deus, pois assim passa a se dedicar apenas às orgias. Trabalha num banco, de onde não espera nada e não quer promoção, amizade, porra nenhuma, apenas quer tirar o salário para curtir a vida. Acaba pegando uma ex-namorada hippie e gaúcha do Ribeiro e, juntamente com outra gaúcha, forma um relacionamento tríplex. Mente para os amigos que se mudou para o Rio Grande do Sul, mas na verdade se transferiu para Niterói, aonde vive uma vida desregrada e cheia de libertinagem (como diriam os adolescentes contemporâneos, uau, que forte!). Morre completamente bêbado e chapado em um carnaval carioca.
Ribeiro (1993-2013): é um chato ao quadrado. Todo certinho, acaba se apaixonando por Raquel, a hippie que depois fica com o Sílvio. Mesmo tendo namorado pouco tempo com ela, a vida dele acaba ali. Fica simplesmente obcecado pela ex e a dúvida sobre se ela estava dando para o Sílvio ou não o corrói por dentro. Depois que separam, descobre o viagra e só quer pegar virgens. Obviamente, acaba morrendo do coração.
Neto (1929-1992): se o Ribeiro é um chato ao quadrado, o Neto é um chato ao cubo. Todo metódico, é feliz com a sua vida doméstica ao lado de Célia, que casou virgem com ele. Dorme cedo, de pijamas, e acorda cedo. Célia, é lógico, odeia os outros quatro. Totalmente fiel, não gosta de festas e bebedeiras. Mesmo com o casamento entrando em crise – pois a Célia também é uma chata de galoche – ele entra em depressão profunda quando a parceira morre. Acaba com a própria vida em 1992.
Ciro (1940-1990): É o primeiro a morrer, com 50 anos. É o ídolo dos outros. Garanhão, bom papo, come quem quiser. Assim, ele se casa com Ruth, que é a deusa dos olhos de todo mundo. Os dois formam o casal perfeito. Porém, nem a beleza e o encanto dos dois superam a monotonia do casamento. Ruth sofre com as primeiras traições até que se deprime e o larga de mão. Ele arranja uma amante e, aos poucos, vai levando as suas coisas para outro apartamento, até que, quando vê, está morando lá. Oficializa o divórcio e dispensa a amante quando percebe que a vida doméstica a dois está tendo início de novo. Fica solteiro, comendo de geral (como diria a letra de um funk carioca), faz algumas loucuras com o Sílvio mas, sua vida acaba com um câncer fulminante em meio a tudo isso. A definição que a Nanda usa, na boca do personagem, para definir a doença é cruel e real: “é uma roleta russa. Puxei o gatilho e tinha a bala”. No seu leito de morte, ainda come uma enfermeira gostosa mas frustrada com a própria vida e com o seu noivado.

Bom, de maneira muito resumida, esses são os cinco personagens do livro. Nas minhas palavras ficou parecendo bem clichê e sem graça, mas a Fernanda Torres transforma essa trama em um texto atrativo e com algumas reviravoltas e surpresas (induz o leitor a pensar que vai acontecer X e acontece Y). O único defeito que eu apontaria é o uso excessivo de personagens – alguns sem importância – que acabam fazendo com que a gente se confunda entre o que aconteceu com quem. Bom, então voltemos à pergunta: com qual dos cinco eu mais pareço? Caralho, o Álvaro, o Neto e o Ribeiro são muito chatos. Até posso ser chato, mas não como eles. Na verdade, suas vidas são monótonas demais. São mortos vivos. Até o Ribeiro, que fica solteiro, joga tudo fora pela sua chatice (e destaco aqui o realismo com muito humor e ironia de Torres, pois conheço muita gente com personalidade parecida com os cinco). Sobram, então, o Sílvio e o Ciro. Acho que não sou tão porra louca quanto o Sílvio. Penso que só faria as coisas que ele fez se eu realmente perdesse tudo e não tivesse mais pelo que lutar. E o Ciro, bom, eu não tenho nada a ver com o Ciro, pois ele é aquele cara que as mulheres dão em cima, de tão bonito e bonachão.
Portanto, por eliminação, entre os cinco, diria que o que mais parece comigo é o Sílvio. Mas com a ressalva que, se eu tivesse que escolher uma dessas cinco vidas para ser a minha, eu – e toda a torcida do Flamengo – escolheria a do Ciro. E se você se confundiu com os nomes - Ciro, Neto, Álvaro, Ribeiro e Sílvio - não se preocupe, pois eu até agora, mesmo depois de ter lido o livro, ainda confundo. E, provavelmente a Nanda também. Mas nada que tire o prazer de ler esse mix de comédia com drama. Até fiquei curioso para ler o segundo livro dela, uma coletânea de crônicas publicadas na imprensa brasileira. Enfim, chegamos finalmente ao fim do meu comentário sobre Fim.

terça-feira, 7 de março de 2017

Não explicando o inexplicável

Mais uma vez escrito por Fronza Irmão.

Hey baby, tenho pensado em ti – e te parafraseando - mais do que gostaria e do que deveria, mas conclui que, infelizmente, eu não tenho a fórmula para te conquistar. Nenhum de nós veio com manual e, aliás, mesmo que viesse, eu o rasgaria e improvisaria tudo ao meu jeito, ao nosso jeito, pois não sou dos mais metódicos e sou bem menos pragmático do que gostaria de ser. Se fosse pensar em linha reta e racionalmente eu simplesmente te esqueceria, ignoraria sua presença, transferiria o que sinto por você para qualquer outro rostinho bonito que nos cerca todos os dias. Mas como fazer isso se cada vez que te vejo te acho mais linda e tenho mais e mais vontade de ficar fitando os seus olhos, de ficar falando bobagens só pra ver você sorrir e de dar um daqueles raros beijos que não vem da boca? Um dia comprei um manual do amor e resolvi coloca-lo em prática.
Fiz um check list com uma ex-namorada. A cada passo conquistado marcava um X na lista: “flores”, “jantar fora”, “dizer que a ama”, “trocar de posição na cama”, etc. Eu fazia tudo o que o manual mandava e nada dava certo e quanto mais eu seguia o manual, menos parecia que ela gostava de mim. Até que um dia tomei um porre, rasguei o manual, dei o check list pro cachorro comer enrolado em um resto de bife e nadei pelado na piscina a noite inteira (ok, não sou como aquele sobre a qual conversamos, nunca narrei esse episódio em público, a não ser aqui, agora, nesse espaço). No outro dia acordei com uma puta ressaca e ela me ligou. Parei de fazer as coisas do manual e começamos a nos dar bem, até que, um bom tempo depois, percebemos que éramos completamente diferentes um do outro: foi bom enquanto durou, bola pra frente. Depois dela vieram outras, mas com quase todas eu primeiro ficava e depois tentava me apaixonar, às vezes com êxito, às vezes sem. Nem preciso dizer que todos esses relacionamentos – de semanas ou anos – deram certo apenas enquanto duraram, obviamente. E, nos poucos em que me apaixonei antes de acontecer o restante, o negócio todo foi muito bom, afinal, não há por que mentir. Por que acabou? Sei lá, se até a nossa vida acaba sem termos explicação, vou eu saber por que diabos um relacionamento acaba... Será prazo de validade? Serão erros inesperados? Será a tentativa de nos fecharmos em jaulas e querer que o outro fique enjaulado com a gente sem contato com o mundo exterior? Será a falta de parceria? Não sei. Só sei que nunca gostei de ficar enjaulado. Nunca gostei de ficar preso. O mundo é muito grande para um leão ficar enjaulado em um zoológico para deleite dos humanos, então por que nós, humanos, insistimos em enjaular animais em zoológicos e pessoas em relacionamentos claustrofóbicos? Também não sei. Deve ter algum manual de relacionamento com respostas para todas essas perguntas no Mr. Google... Eles são tão eficientes quanto a tentativa de usar uma moto para cruzar o oceano. Não mudei de parágrafo. Os manuais de português mandariam fazer isso. Minha professora de redação da escola ficaria louca e descontaria nota. Meu professor da universidade diria que não é assim e mandaria fazer de novo. Meus orientadores diriam que fica “mais bonito e agradaria a banca colocar um parágrafo aqui...”. Meu editor daria um “enter” no meio dessas palavras porque o leitor moderno não gosta de parágrafos longos. Foda-se. Se o editor do Kerouac fez isso com ele nos anos 1950, imagina o que não fariam comigo no século XXI. Desgraçados. Mas e o amor? Faz pelo menos dois milênios que a humanidade tenta descobrir o que é. Alguns querem UM amor eterno (romanticamente falando) e outros VÁRIOS. Eu, sinceramente (mil desculpas por isso, mas é a resposta mais sincera que posso dar) não faço ideia se quero um, vários e, sequer sei se já tive algum ou mais de um, se terei ou nunca terei. Por isso, não sei nem o que é que sinto por você. Posso descrever esse sentimento minuciosamente: quando te vejo meu coração acelera, meus olhos se arregalam, um friozinho toma conta da minha barriga, a boca fica levemente seca, então, respiro fundo e tento agir como se nada estivesse acontecendo e, aos poucos, vou me soltando com o seu sorriso, que faz com que eu queira falar mais e saber mais sobre você e, quando me flagro olhando para os seus lábios eu penso em como seria bom experimentá-los para saber que gosto tem...
Será de uva? De framboesa? De chocolate? De maracujá? De paixão? De morango? Não sei e só vou saber se algum dia experimentá-los... Mas, independentemente do sabor que eles tenham eu já adianto: a minha vontade de te beijar é proporcionalmente igual a incerteza que eu tenho em relação a tudo. E em relação a como chamar tudo isso. Alguns chamam de loucura, outros de desejo, outros de paixão, outros de insanidade e os mais céticos de burrice. Alguém até poderia dizer que é amor (algum cantor sertanejo brega), mas eu não sei tão claramente o que é amor para falar qualquer coisa afirmativa sobre isso – deixo isso para os músicos dos botecos. Portanto, como sei que você não precisa de amor (no sentido utópico do termo), sinto-me mais aliviado, pois o que tenho a te oferecer é isso: uma avalanche de sentimentos que só vai fazer você se sentir mais confusa do que já está. E, se balançarmos como um boxeador nocauteado, abraçamo-nos para, juntos, não cair. Pelo menos até o primeiro porre que tomarmos juntos, afinal, somos parceiros até pra isso, não somos?

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

História sem fim - by Fronza Irmão

O Ronaldo Fronza fez tanta propaganda do meu blog, que agora o irmão dele, também chamado Eduardo, mas apelidado de Dudu (e que tem um Schimidt no sobrenome por parte de pai), me enviou esse texto, acreditando na virtual audiência desse que vos escreve. Então, atendendo ao pedido dele, mesmo sem concordar que há qualquer tipo de audiência aqui, além de um ou outro leitor imaginário, vou atender ao pedido dos irmãos, afinal, não adianta discutir com eles. Portanto, posto o texto e o que tiver de ser, será.

Comprei o furgão. Ok, não é um furgão igual ao dos americanos, é um furgão bem a brasileira: usado, barulhento, sem ar condicionado, uma das janelas está emperrada, mas tem espaço para tudo o que preciso, principalmente para você. E, nesse furgão velho, vamos colocar em prática aquele sonho de viajar juntos até o fim do mundo. De lá, vendemos o furgão e pegamos um avião até o Japão para meditarmos juntos, espantarmos todos os nossos males e recarregarmos as energias para seguir em frente. Então, vendemos os seus desenhos por lá (digo para os japas que você é uma famosíssima artista brasileira vencedora de prêmios ao redor do mundo), eu lavo uns pratos em algum restaurante de bichos do mar crus e nojentos e viajamos para a Indonésia, para a Malásia, Vietnã, China, Coréia e Madagascar. Vamos conhecer aquilo que não conhecemos nem pela televisão, aquilo que nem imaginamos que exista sobre a face da terra.
De lá, pegamos um avião para os nórdicos Suécia, Noruega e Finlândia, onde posso esquentar os teus pés gelados nas gélidas noites europeias, deitados juntos em frente à lareira. Após vendermos mais quadros e lavarmos mais pratos partimos para o Novo Mundo. Antes, se quiser, te levo para a Itália, que você tanto gosta – mesmo sem eu gostar muito – e já podemos dar um pulinho na Alemanha, só para te irritar e fortalecer na gente a rivalidade entre os dois países que estão estampados em nossos sobrenomes. Depois, no interior dos Estados Unidos eu te levo para dançarmos aquela música country que você tanto gosta e que tanto me faz sonhar com os teus olhos e os teus lábios colados nos meus toda a vez que eu as escuto. Por lá, eu conheço alguns atalhos, e continuamos vendendo teus quadros e eu sigo lavando pratos e compramos um novo furgão, esse sim totalmente americano, para partimos para a conquista do Oeste. Totalmente On the road, convidamos nossos novos amigos, que fomos conhecendo ao longo de toda a viagem, inclusive o maluco do Jack, o Dean (que eu sei que já está de olho em ti) e a Rachel (que você não vai com a cara e que não tem coragem para admitir que morre de ciúmes). Mas, ok, prometemos que não iríamos entrar naquela onda convencional de transformar algo bom em uma prisão que sufoca até que não aguentamos mais e queremos partir, certo? Assim, seguimos todos, tocando violão na frente da fogueira, rindo, chorando, animando, brigando, se arrependendo, bebendo, cantando, filosofando, sonhando... Até que chegamos na costa Oeste, fugidos dos soldados de Donald Trump, com documentos falsos, sem pagar nenhuma das dez multas que levamos pelo caminho. Lá, encontramos os irmãos Lacerda, meus amigos das antigas, e os desgraçados já começam a te cantar e eu já brigo com eles e assim resolvemos partir do sul para o norte, onde em San Francisco eu te levo para admirar Golden State Bridge.
Chegamos lá, e agora? Agora só o Daniel Galera poderá terminar essa história.
Mas foi isso tudo que eu sonhei noite dessas, depois de ouvir uma das músicas que você me mandou e que me fazem pensar em ti cada vez mais. Não sou coerente, já fui casado cinco vezes, e todas elas me abandonaram por não entenderem a minha infindável vontade de partir, de conhecer o mundo, de me apaixonar por lugares distantes, mesmo amando aqueles que estão tão pertos. Meus cinco filhos não vejo há um bom tempo, inclusive o Dudu Júnior, que é o mais apegado a mim, por isso hoje acordei disposto a pegar todas as economias, mais o dinheiro da pensão dos cinco filhos, comprar o furgão e partir. Topa?

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O verdadeiro fim de Anita

Terminei de ler ontem o livro Cordilheira, do meu amigo – mesmo sem me conhecer e sequer saber que existo – Daniel Galera. Digo que é meu amigo, pois li dois de seus livros (o outro é Mãos de cavalo), o que é suficiente para tornar o leitor brother do autor (pelo menos na cabeça do primeiro). Bom, como ele é meu amigo, vou ferrar com ele e contar a história do livro, inclusive o final.
De forma bem resumida, é o seguinte: a narrativa é em primeira pessoa sob a perspectiva da personagem Anita. Ela escreve um livro que rapidamente se torna best seller. No entanto, ela abandona a ideia de ser escritora e não quer mais saber do tal livro. A mãe dela faleceu no parto e o pai morre quando ela já é adulta. Anita mora junto com o namorado, Danilo, no entanto ela tem como objetivo de vida ter um filho, enquanto ele não quer nem falar sobre o assunto. Cansada dessa vida, que ainda tem relações com as amigas que gostam de dar palpites sobre as suas atitudes e a chamam de maluca por causa da obsessão pela gravidez, ela aceita o convite para lançar a edição em espanhol de seu livro em Buenos Aires. Anita vê nessa viagem a possibilidade de largar tudo e realizar o sonho de ser mãe sem ninguém para se intrometer. O plano é ir lá ficar um tempo, engravidar de alguém e voltar. Então, ela abandona Danilo e vai para Buenos Aires, onde um sujeito, inicialmente chamado Holden, passa a segui-la. Sintetizando, eles começam a namorar e ela vai morar com ele. Anita descobre que Holden e seus amigos tem uma espécie de seita literária, onde cada um tenta viver a vida de maneira radicalmente igual aos personagens criados nos livros escritos por eles mesmos. E Holden, na verdade, é o nome do personagem. O verdadeiro nome do sujeito é Diego. E qual é a história do livro de Anita e de Diego? No final do livro de Anita, Magnólia, a personagem, empurra o namorado da beira de um penhasco, enquanto que no final do livro de Diego, Holden é sacrificado pelo grupo de amigos de uma seita literária sendo lançado de um precipício. Dessa forma, Diego encontrou no livro de Anita uma forma perfeita de colocar em prática o final de seu personagem: ele seria sacrificado com Magnólia (ou Anita) empurrando-lhe do alto de uma cordilheira na Patagônia argentina. Pronto. Até aí a leitura do livro do meu amigo Galera às vezes é cansativa, mas a partir desse ponto ele conseguiu dar um ritmo interessante e teve o mérito de induzir o leitor a pensar uma coisa, surpreendendo-o com decisões que não ficaram forçadas.
Vou ser mais claro. Anita fica grávida de Holden. Antes de voltar ao Brasil, ela acaba cedendo à pressão dele e dos amigos para subir a cordilheira. Ela o faz, sem contar que está grávida, e decidida a não empurrá-lo do penhasco. No entanto, quando chegam ao local do sacrifício, ela começa a sangrar, sofrendo um aborto espontâneo. Vendo que ela não o empurraria, Holden opta por se atirar lá de cima. Anita perde o filho e volta para São Paulo, para a casa de Danilo que, mesmo tendo casinhos com outras nos meses em que ela o abandonou, ainda a ama. Na última cena da narrativa, ele a convida para subir ao terraço do prédio. Eu imaginei que ela o empurraria para baixo ou que um deles se suicidaria, mas não. Ele a convida a subir para declarar que ainda a ama, mesmo sabendo da história do argentino, da gravidez, do aborto, etc. Aliás, tudo isso só fazia com que ele a amasse ainda mais. Porém, a resposta dela, que são as últimas linhas do romance, é a seguinte: “Tarde demais, Danilo. A gente teve um problema de sincronia. Ainda não era bem isso que ele precisava ouvir. Fingiu que não tinha entendido bem, pediu outras explicações. Só a deixaria em paz quando dissesse nos termos mais simples, sem rodeios nem palavras indígenas, que não o amava mais”. Fim.
Bom, como se pode ver, esse é um final sem um grand finale. O que considero um mérito, pois, anteriormente, eu pensava que Anita empurraria Holden e voltaria grávida para São Paulo para ter e criar o seu filho sozinha. Esse seria o grand finale imaginado – e até desejado – pelo leitor. Mas seria clichê. Seria novela das oito de mal gosto. Então, resolvi dar um grand finale – meio mequetrefe, admito – para a história. O que aconteceu com Anita após a cena do terraço? Sem a permissão ou a concordância de Galera, eu conto para vocês (de forma bem resumida, pois sei da vagabundice e preguiça do leitor contemporâneo).

Depois daquela cena, Anita morou com Danilo por mais uma semana. Ele, obviamente, tentou convencê-la de todas as formas que ainda a amava, mas quanto mais ele se humilhava, mais ela o odiava. Uma noite ela até cedeu e eles treparam, mas no dia seguinte ele a viu chorar e perguntou o que houve. A resposta foi nua e crua: “eu tenho nojo de você!”. Na semana seguinte, então, ela se mudou para a casa da amiga Julie, que seguiu pentelhando e dizendo para Anita o que ela tinha que fazer. Foi duro aguentar, mas ela seguiu o conselho da amiga: começou a escrever um segundo livro e a estudar Letras na USP. Como precisava de dinheiro, escreveu rápido o livro e em um ano conseguia respirar um pouco. Fez amizades na USP e, secretamente, seguia com o plano de ter um filho. Teve que baixar o nível de exigência para encontrar um que aceitasse a ideia. Maurício foi o escolhido, por critérios socioeconômicos. Começou a namorar ele e logo estavam morando juntos. Ela engravidou e o nenê, uma menina chamada Luciele, nasceu no mesmo ano de sua formatura. Fez mestrado e, quando terminou, aproveitou para acabar com Maurício também. Entrou no doutorado e durante quatro anos viveu da bolsa e da pensão do pai de Luciele. Descobriu que a criança não a satisfazia completamente. Namorou vários caras, até que um maluco que se apaixonou por ela em uma festa ofereceu dinheiro por uma noite de sexo selvagem. Ela hesitou, mas como estava precisando e o valor era altíssimo, aceitou. Acabou achando que essa era uma boa forma de complementar a renda e colocou anúncio de acompanhante de luxo em um site famoso. Cobrou caro e fazia um programa por semana, assim, tinha renda fixa: bolsa + pensão + programa.
Deixou de namorar vários caras para seguir independente. Então, concluiu o doutorado. Fez concurso para o cargo de professor efetivo em uma universidade federal e arriscou alto: quando entregou a prova escrita, ao cumprimentar o presidente da banca (um senhor famoso no mundo acadêmico das letras e casado há 30 anos com uma escritora famosa, de pele enrugada e seios murchos) deixou um bilhete pequeno em suas mãos, dizendo: “se quiser uma noite de loucuras hoje, me liga”, e abaixo colocou o seu número de telefone. Ela voltou para o seu lugar, cruzou as pernas deixando as coxas à mostra em seu mini vestido preto, e seguiu agindo como se nada tivesse acontecido. Ele ligou e ela o enlouqueceu. Anita foi aprovada em primeiro lugar e demorou a conseguir se livrar do presidente da banca, que agora era colega de trabalho. Só conseguiu quando começou a namorar com Antônio, outro servidor da mesma universidade. O relacionamento só teve início, aliás, para ela ter uma desculpa para tirar o velho acadêmico de seu pé. “Não posso, estou firme com o Antônio”. Dois meses depois, entretanto, deu um fim ao namoro e alegou ao outro que estava com depressão. O tempo passou, o presidente da banca de seu concurso morreu e quando se deu conta, já tinha entrado para a etapa final: 50, 60, 70... Viu a filha crescer mas agora sonhava em ser avó. Um dia Luciele disse que iria passar um tempo em Buenos Aires. Semanas depois, ela ligou contando que estava apaixonada por um cara chamado Holden. Anita ficou deprimida e em semanas definhou. Estava com 45 kg, em uma cadeira de rodas, quando teve um ataque cardíaco fulminante enquanto ouvia a apresentação do TCC de um aluno que defendia que a obra de Paulo Coelho poderia ser considerada um clássico da literatura do século XXI.

FIM

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Aquele beijo

Depois daquela viagem para Roma, meu amigo Ronaldo Fronza Júnior escreveu o seguinte texto, que compartilho aqui:

Lembra-se daquele beijo? Aquele mesmo, em que meus lábios trêmulos encostaram-se nos seus, e eu lhe alcancei a minha mão suada para subirmos até as nuvens e esquecermos todos os problemas que nos rodeiam diariamente? Lembra como apertei o seu corpo contra o meu, como o calor carnal espantou aquele friozinho na barriga que insistia em não passar? Lembra de nossas línguas enroscadas, formando nós impossíveis de serem desfeitos? E de nossos olhos fechados que viam muitas coisas através de flashes de tudo o que aconteceu até aquele momento e de tudo o que estava por vir? Sei que você lembra, garota, mesmo dizendo que não. Sei que toda a vez que me flagro pensando em você, você também está pensando em mim. Sei que toda a vez que você diz “eu te amo” para alguém, é para mim que você gostaria de dizer essas palavras. Sei que você continua me odiando e me amando ao mesmo tempo por eu ser um prepotente incorrigível e sei que você quer me ver perto e longe simultaneamente por te amar como ninguém te amou, mesmo sem te ter. Afinal, baby, você sabe que meus sentimentos são sinceros. E você sabe que me conquistou desde aquela primeira vez em que sentamos frente a frente, em meio a um monte de amigos, na mesa de um bar. Você sabe que mexeu comigo e teima em admitir que eu mexi com você. No entanto, baby, eu desvendei os mistérios de seu coração naquele dia, aquele de nosso primeiro e único beijo.
Você tem medo de se machucar, e quem não tem? Você quer amar e ser livre, quer se entregar por inteira sem se prender, e quem não quer? Não tenho a fórmula da felicidade, baby, afinal, ando meio infeliz. Não consigo sorrir sem lembrar daquele beijo, e sei que você também chora de noite por não esquecer a pequena amostra do paraíso que eu lhe dei. Só encontramos a nossa Babilônia juntos, seria impossível eu encontrá-la com outra pessoa. Já conheci vários lugares beijando várias damas diferentes – e algumas nem damas eram – mas nenhum lugar é comparável à nossa Babilônia. Você sempre me pergunta se “aquele texto foi escrito para alguém em especial” e dessa vez, antes que você pergunte, eu te digo: sim, foi escrito pra ti, a detentora daquele beijo, do beijo que nunca vou esquecer e que sempre vai me deixar querendo mais.
Não lembro da última vez em que me senti assim. Na verdade, eu já tinha esquecido como era ficar piegas e sentimentaloide. Tinha jurado diante do Todo Poderoso e de testemunhas bêbadas em um bar na Venâncio Aires em Porto Alegre que nunca mais me apaixonaria por ninguém. Que beijo seria apenas beijo, sexo seria apenas sexo, troca de olhares seria apenas troca de olhares. E, então, chega você, e me mostra que um beijo pode ser muito mais do que um beijo. Que olhares podem ir muito além do cruzamento de olhares. E que, talvez, o sexo se torne amor. Piegas, não? Eu sei. Odeio-me por ficar assim, mas a culpa é toda sua. Se não fosse aquele beijo, eu não estaria assim. Provavelmente pegaria um romance qualquer para ler, assistiria a um filme ou a uma série na Net Flix ou veria o VT de um jogo da semana passada no canal de esportes. Mas, você e o seu beijo apareceram. E eu já nem sei dizer se ele ocorreu mesmo ou se foi apenas um sonho.