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segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Reflexões da quarentena (Covid-19, 2020)


Escrevo esse texto para as futuras gerações. Para aqueles que nasceram há pouco, que ainda são bebês, e aqueles que nascerão nos próximos anos e que vão estudar e tentar entender o que foi a pandemia causada pelo vírus da Covid-19, especialmente no Brasil. Hoje, 7 de setembro de 2020, completamos aproximadamente meio ano de quarentena (em cidades como Pelotas-RS o isolamento social começou no início de março). No meu caso, as atividades na universidade passaram a ser todas remotas, ou seja, são seis meses sem sair de casa para trabalhar e seis meses sem pisar no campus. O mesmo acontece com a minha filha, que está no quarto ano. Ela teve aula apenas no início de março e, desde e então, as atividades estão sendo realizadas exclusivamente à distância. Posso contar nos dedos quantas vezes ela saiu de casa nesses seis meses e, acredite, essa contagem não ocupa os dez dedos de minhas mãos.

E como foram esses seis meses?, me pergunta o sujeito imaginário do futuro. No início, apesar do pânico e do medo de pegar a doença, parecia uma novidade. Foi estranho ficar em casa praticamente o dia todo e, cada vez que saia na rua, havia uma preocupação contínua em desviar de quem estivesse sem máscara. No primeiro mês ainda arrisquei fazer caminhadas e corridas no caminhodromo perto do apartamento onde morávamos, mas logo desisti, pois quase ninguém usava máscara. Chegamos a pegar fila para entrar no supermercado, pois haviam limitado o número de pessoas que poderiam ficar lá dentro ao mesmo tempo. No início (dois ou três primeiros meses) o cuidado foi bem maior por parte das pessoas e dos estabelecimentos. Em um supermercado maior, a cada cliente que passava pelo caixa toda a estrutura era higienizada. Assim, o primeiro mês foi de muito cuidado: evitar contato com quem quer que seja e também ficar atento a qualquer sintoma – eu, por exemplo, sempre tive excesso de tosse seca em situações de mudança brusca de temperatura. No início aproveitei para maratonar os filmes que haviam ganho o último Oscar e também para assistir a filmes que há muito eu queria ver, como O Poderoso Chefão, conforme comentei aqui no blog em postagens da época. Eu conversava seguidamente via áudios de whattsapp com amigos e comprei dois jogos de vídeo game novos: Red Dead Redemption 2 e Fifa 2020. O Red Deade eu terminei semana passada o modo história. E no Fifa 20, modesta parte, estou craque. Também li bastante, mas não vou lembrar de cabeça todos os livros – para isso, basta consultar as minhas postagens no blog, pois geralmente eu faço resenhas dos livros que leio nesse eespaço.

Enfim, os primeiros dois ou três meses foram bem estranhos. Lá por maio tivemos que tomar uma decisão difícil: mudar de apartamento. O apartamento em que morávamos era muito pequeno e havia um problema crônico de falta de água. Ou seja, às vezes a água acabava no sábado de noite e tínhamos que esperar até a segunda para ligar para a imobiliária para ir um encanador resolver o problema de ar nos canos (que impedia que a água chegasse até o nosso andar, o último do prédio). Cansados dessa situação, resolvemos nos mudar. Teve a etapa de olhar apartamentos e, depois, em julho, a mudança, que já é cansativa em condições normais, mas que nessa situação de pandemia foi triplamente estressante, principalmente porque tivemos a infelicidade de contratar uma empresa amadora de mudança em que os funcionários teimavam em usar a máscara no queixo.

Além de tudo isso, tem a questão das crenças universais e brasileiras. A pandemia serviu para eu confirmar a conclusão de que o Brasil é, definitivamente, um caso perdido. Que Bolsonaro fosse um incompetente idiota seguido por zumbis acéfalos eu já sabia, mas nunca imaginei que mesmo com demissões de super ministros (que até então eram idolatrados pelos bolsonaristas, como Mandetta, da saúde, e Moro, da Justiça) e que milhares e milhares de mortes de brasileiros que seguiram a orientação presidencial de não fazer distanciamento social e não usar a máscara praticamente não afetaria em nada o que o cidadão médio do Brasil pensa sobre o seu presidente. Em resumo, apesar das lambanças políticas, da crise econômica, da ausência de auxilio governamental para a população e para os empresários em meio a uma pandemia, das mais de 120 mil mortes até o momento, das frases absurdas ditas por ele ao longo de toda essa crise, enfim, da sua inação e da sua boçalidade e crueldade com declarações dignas de Adolf Hitler, os brasileiros não mudaram de opinião. Quem odiava ele, segue odiando, quem era neutro, segue neutro, criticando ele mas afirmando que, contra o PT, votaria nele de novo, e quem apoia ele, segue o amando incondicionalmente com uma dose de prazer sexual nessa adoração. Eu diria, inclusive, que, se seis meses após o início da pandemia, com o Brasil quebrado, recordes de desemprego e inflação, 120 mil mortes, enfim, com o Brasil aos frangalhos, se fosse ano de eleição presidencial, os brasileiros escolheriam novamente o seu pior presidente de todos os tempos para seguir no cargo. Enfim, é desanimador.

E, nesse macro cenário, é que estamos encarando o fim do sexto mês de confinamento e ingresso no sétimo. Eu não aguento mais ficar em casa e sofro ao ver minha filha sem poder ir para a escola e sem brincar pessoalmente com os amigos e colegas. Ontem, por exemplo, acabei levando ela no parque da cidade para encontrar com um amigo/colega dela pela primeira vez, ambos usando máscara. Sofro com isso e muito mais, mas sei que sofreria infinitamente mais se eu ou ela ou qualquer um que eu amo morresse de Covid-19 por falta de cuidados básicos, como os 120 mil que já morreram. A pandemia vai passar, o lançamento da vacina se aproxima (previsão para início de 2021), ou seja, ainda teremos mais uns quatro ou cinco meses de confinamento. Claro que o cansaço chegou: aquele medo de antes não se sente mais e as filas nos mercados e a higienização obsessiva dos estabelecimentos ficou para trás, o que de certa forma, justifica o aumento de casos.

Durante esse meio ano, eu já fiz de tudo: maratonei filmes e séries, li muitos livros, tomei café pacaraí, gravei minhas aulas, corrigi trabalhos, participei de reuniões e bancas remotas, fiz esteira e musculação numa mini academia improvisada no terraço, passeei muito com a Bolinha (nossa cadela), brinquei com os gatos, dormi pra caralho, me estressei com a síndica do novo prédio, bebi bastante, dei risada, brinquei com a Larissa, fiz e desfiz a mudança de apartamento, pensei muito na vida, programei mentalmente o futuro e viagens, etc, etc, etc, e, assim como a maioria, não vejo a hora de tudo isso passar e poder sair tranquilamente na rua. Até porque, mesmo os que não levam a pandemia a sério, e é uma parcela gigante da população, mesmo que queiram, não tem muito o que fazer: bares e boates não abrem (ou abrem com limitações), estádios de futebol não recebem público e a polícia dispersa qualquer aglomeração em locais públicos. Então, eu, como todos, espero o fim disso tudo para poder voltar a fazer coisas simples, como levar a minha filha na escola, ir para a universidade e ver de perto a cara dos meus alunos, ir num boteco e tomar umas dando risadas, ir ao estádio de futebol e ver o Grêmio ou o Xavante em campo enquanto xingo o juiz, etc, etc, etc.

No fim das contas, se algum jovem do futuro me entrevistasse, eu encerraria dizendo que foi tudo uma merda maior do que poderia se imaginar. No início falavam que seria de 7 a 10 mil mortes no Brasil. Passamos das 120 mil, de todos os tipos de pessoas, ricos, pobres, famosos, anônimos, jovens, adultos e idosos, homens e mulheres, com ou sem doenças crônicas. Sem contar as internações em UTIs e pessoas que perderam pessoas próximas (pais, filhos, parentes, amigos, etc). A pandemia tornou o presidente e seus seguidores ainda mais estúpidos e radicais. Além das notícias tristes da pandemia, a gente tem que lidar com notícias diárias de escândalos de corrupção e de perseguição a jornalistas por parte do presidente e de seu clero (filhos, familiares, integrantes do governo, amigos e seguidores apaixonados). E, como disse, o pior: nas ruas, nos contatos com pessoas “do povo” a gente vê que a popularidade dele segue intacta: bolsonaristas pobres obedecem a ordem de não ver TV e de não se informar pela imprensa, pois ele conseguiu convencê-los de que jornalistas são do mal e que o mundo conspira contra ele, que é um representante de Deus. É a mesma logística dos muçulmanos fanáticos do Oriente Médio. E esses milhares de brasileiros lunáticos obedecem cegamente ao seu mulá, que no nosso caso, é uma mula mesmo seguida por um bando de jegues. Tudo isso, como disse, faz com que a situação toda flerte com o insustentável sob o ponto de vista de equilíbrio mental, espiritual e psicológico. Mas, temos que seguir em frente e, ainda bem que há fontes de inspiração intelectual e cultural para beber nesses dias de tempestade humanitária.

Se algum dia eu lembrar, responderei ao entrevistador do futuro quais são essas fontes de inspiração humanitárias. Caso contrário, basta ler as resenhas que faço nesse espaço. Um bom final de quarentena a todos, se é que isso é possível...

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

David Copperfild – Parte 3 - Contém spoiler

 

Novamente, desgraçado e enxerido leitor, abandone esse texto. Como já disse nos anteriores, é apenas para consulta pessoal futura para lembrar sobre a história/enredo dessa obra prima escrita por Dickens no século XIX. Bom, terminada a leitura, quando minha massa cinzenta já tiver deletado todas as impressões que agora sinto acerca dessa narrativa, vale lembrar inicialmente que se trata de uma obra prima com uma linguagem muito tranquila e que pode ser lida da mesma forma que pode ser assistida uma novela ou uma série. Repetindo: são várias tramas que se desenrolam paralelamente, com muito drama, amor, casos mal resolvidos, intrigas e trajetórias de variados personagens que se cruzam. A narrativa é em primeira pessoa, na voz de David Copperfield, mas isso não impede que se tenham narrativas secundárias, como acontecem nas telenovelas.

Mas vamos às lembranças para o futuro e spoilers para o enxerido leitor que ainda não abandonou esse texto. Comecemos pelo protagonista. David Copperfield se casa primeiro com Dora, após a morte do pai dela. As três tias da pequena mimada autorizam o namoro à moda antiga, depois o noivado e depois o casamento. Dora é super frágil, tanto física quanto emocionalmente. Qualquer “não” dito por Copperfield faz com que ela caia em prantos e grite “então por que você casou comigo, se me odeia tanto?”. Enfim, Copperfield acaba sempre fazendo as vontades dela, que pede para que ele a chame de “filhesposa”, numa referência a uma mistura de filha com esposa. A tia de Copperfield também mima ela e se torna uma senhora rígida mas de coração muito bondoso. Porém, para ficar apenas na história do protagonista nesse momento, Dora fica doente e morre (claro que isso implica num puta drama que consome páginas e páginas). Copperfield viaja pela Europa, fica três anos longe (a maior parte do tempo na Suíça) e quando volta se dá conta de que ama Agnes. Aí começa um longo trecho em que ele alimenta um amor platônico pela amiga de infância mas não tem coragem de declarar. A tia dele faz a intermediação até que numa cena marcante ele declara o seu amor enquanto Agnes complementa dizendo que sempre o amou e que Dora havia autorizado o relacionamento antes de morrer (de certa forma, percebe-se em vários trechos do livro um moralismo típico da época, tipo, o viúvo só pode casar de novo se ele imaginar que a morta autorize). No fim do livro eles estão casados há dez anos e com três filhos. Copperfield se torna um famoso escritor com muita grana. Em síntese, após vários dramas e perdas, o protagonista tem um final feliz.

Agora vamos aos outros personagens. Bueno, com Dora e Agnes – em síntese - o destino é o relatado acima. Tradles, o amigo dele, continua fiel até o fim e também se casa, tem filhos e atinge sucesso profissional. A tia de Copperfield também o acompanha até o fim e quando a narrativa termina ela está com mais de 80 anos, firme e forte ao lado de Peggotty, a babá do protagonista, com quem ela havia tido problemas lá no início da história. O irmão de Peggotty, que é chamado pelo mesmo sobrenome, acaba encontrando Emily – a filha adotiva que havia fugido com o amante – e ambos emigram para a Austrália. Lá eles são felizes até o fim da narrativa. Junto com eles, partem a família do senhor Micawber, depois que esse entrega todas as falcatruas de Uriah Heep (o grande vilão do romance). Não tenho como transcrever todo o enredo, que tem mais de mil páginas, mas é uma cena digna do maior drama hollywoodiano a cena em que a máscara de Uriah cai. Em síntese, ele era um golpista profissional que se passava por coitado para conquistar a confiança dos outros e depois aprontava para eles. No caso do pai de Agnes, o sr. Wickfield, sua principal vítima, ele se aproveitou da idade dele para fazer com que se metesse em negócios obscuros. Se passando por bonzinho, ele ajudou o sujeito a sair dessa (mas sempre se endividando mais), mas sempre chantageando para não contar para ninguém. E assim ele fez com muitos outros, como por exemplo, coma tia de Copperfield. Ao final, ele é preso e todos aqueles que foram enganados têm seus bens e finanças restituídos.

E Ham, o noivo abandonado de Emily? Ele fica trabalhando duro no porto até que vem uma tempestade e, curiosamente, ele e Steerthorth acabam morrendo em barcos diferentes no mesmo dia. O ex-amigo de Coppefield abandonou Emily quando eles estavam morando na Suíça e volta a aparecer na cena em que morre. Enfim, há outros personagens secundários no meio, como a mãe e a babá de Steerthorth, mas não vou me ater a eles, senão esse texto ficará deveras longo. Já o Sr. e a Srta. Murdstone (irmãos responsáveis pela morte da mãe de Copperfield) conseguem dar o golpe do baú em outra pobre moça que também está definhando devido às torturas psicológicas impostas pela dupla. São os únicos vilões que se dão relativamente bem no fim do romance. Claro que fica subentendido que, mesmo conseguindo dar golpes, eles são podres de coração e alma e isso por si só já é uma punição. Há vários outros elementos que nos fazem pensar acerca de fatos e acontecimentos contemporâneos, mas isso fica para outro momento, pois certamente por um bom tempo, enquanto estiver com a narrativa fresca na memória estarei fazendo essas relações. Uma delas é o discurso de Uriah Heep, inclusive quando ele está na cadeia, de se passar por bonzinho sempre tentando colocar a culpa nas vítimas, tentando tirar proveito delas até a última possibilidade. Algo facilmente percebido no discurso político ao longo dos séculos. A questão é que, isso não é nem do tempo de Dickens, nem do nosso, é algo já abordado nas obras dos filósofos gregos sobre discurso de séculos antes de Cristo. Ou seja, pessoas sem escrúpulos como os atuais fanáticos por partidos e políticos sempre existiram e, infelizmente, sempre existirão.

Bueno, com isso finalizo essa síntese pessoal que, provavelmente, nunca mais irei consultar e também não será lida por ninguém. Isso me leva a concluir que, in fact, esse texto nunca existiu.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

David Copperfield - Parte 2


A partir da página 400 da obra, comecei a perceber mais claramente as técnicas literárias de Dickens. Ele vai pipocando aqui e ali perguntas, pistas e jogos com encontros e reencontros de Copperfield com os outros personagens. Vez ou outra ele apresenta um conflito, deixa ele quieto por várias páginas, para retomar mais para frente. Seguindo a leitura, você sente algumas questões mal resolvidas e levanta algumas suspeitas. Enfim, por isso concluí que David Copperfield é, para a literatura, como uma série é hoje para o audiovisual. Ainda não assisti ao filme baseado na obra de Dickens, no entanto, lendo, eu visualizo o troço todo mundo mais como uma série do que como um filme. Principalmente porque eu li praticamente de 40 a 50 páginas por dia, o que está me permitindo concluir a obra em aproximadamente 30 dias. Foi mais ou menos como se eu estivesse assistindo a uma série. Isso é totalmente justificável se considerarmos que David Copperfield inicialmente foi escrito como romance-folhetim, publicado em capítulos na imprensa da época.

Uma das questões que Dickens levanta e deixa para retomar bem mais à frente é a suspeita de um caso entre a esposa do diretor da segunda escola onde ele estudou, o sr. Strong, e o primo dela, sr. Madson, que é mandado por um período para fora do país. A suspeita fica nas entrelinhas e inicialmente você fica com medo de confirmar. No entanto, uma das principais intrigas dessa metade da narrativa é o caso que o grande amigo dele Steerforth, até então idolatrado por ele, tem com a pequena Emily no momento em que ela está noiva de Ham. Antes disso, Agnes, a filha do dono da casa que hospeda ele enquanto está na segunda escola, adverte que Steerforth não é o que parece ser e que ele usa o seu charme para conseguir o que quer. Bom, desnecessário dizer que esses textos sobre a obra contém spoillers... Enfim, adverti que não era para você ler, desgraçado leitor. São várias pistas que Dickens vai deixando e que você ao mesmo tempo em que vai colhendo vai tendo a curiosidade desperta por essas pistas. Em resumo, o Sr. Peggotty cai em desgraça ao saber que a pequena Emily abandonou o noivo para fugir com Steerforth. E tudo isso acontece enquanto Copperfield está apaixonado pela filha de seu patrão, Dora. Nesse ponto há um reencontro surpreendente: a irmã do Sr. Murdstone está trabalhando como conselheira da pretendente do protagonista. Você se sente angustiado acompanhando esse reencontro de Copperfield com aquela que talvez tenha sido sua maior carrasca. Você pensa: pronto, agora o grande amor da vida dele foi pelo ralo. No entanto, quando ele tem a oportunidade de conversar com a amada, ela lhe revela que detesta a srta. Murdstone. Então, a essa altura da narrativa você tem algumas perguntas plantadas em seu cérebro para querer descobrir as respostas.

Primeiro, o que o sr. Peggotty vai fazer para achar Steerforth. E de que lado Copperfield vai ficar? Será que ele se revoltará contra o seu melhor amigo e grande ídolo? E Agnes? Ele vai contar a ela o ocorrido?

Segundo, a mulher do diretor Strong realmente tem um caso com o primo? E, considerando a época em que se passa a história, início do século XIX, o que vai acontecer se o romance for descoberto?

Terceiro, Copperfield vai conseguir conquistar o seu amor platônico? Os outros dois que ele tivera até então não deram certo. O primeiro foi a pequena Emily, que noivou com Ham mas fugiu com Steerforth. O segundo foi uma mulher mais velha da escola para garotas que noivou com um personagem terciário. E agora? Será que a Srta. Murdstone vai conseguir atrapalhar tudo? E o seu chefe, aceitaria tal relacionamento?

Uma quarta pergunta surge, de um caso não comentado aqui.  O sr. Micawber, que alugou o quarto para ele em Londres e que volta a aparecer na narrativa, está novamente endividado. Agora ele hospeda Tradles, um antigo colega de Copperfield da primeira escola. No entanto, Copperfield descobre que Micawber está dando um calote em Tradles. E agora? O que ele vai fazer diante do impasse entre dois grandes amigos? E outra: um outro personagem secundário, um ruivo chamado Uriah Heep, está chantageando o pai de Agnes. Com isso, ele foi admitido como sócio da empresa dele. E pior: o próximo passo vai ser casar com Agnes, que nem imagina tal ambição de Heep. Como Agnes faz tudo pelo pai, Copperfield está angustiado pois ele sabe que ela aceitaria tal desgraça para salvar a figura paterna. No entanto, até então, o motivo da chantagem ainda é um mistério. E tudo isso que nem mencionei que o sr. Burkis faleceu, deixando Peggotty viúva...

Enfim, são vários e vários pontos de interrogações em várias histórias paralelas plantados pelo autor, ao melhor estilo série e novelas (na verdade essa é uma técnica da literatura adaptada pelos roteiristas de séries e novelas audiovisuais..).

Até a página 800, algumas dessas perguntas são respondidas e outras são estendidas para as últimas páginas. Até então, o sr. Peggotty não encontra Steerforth nem a sobrinha, mas encontra pistas e recebe uma carta da pequena Emily com dinheiro em anexo. Agora, ele quer encontrar Steeforth para devolver o dinheiro e levar a sobrinha de volta, considerando ela uma santa que foi persuadida pelo amigo de Copperfield. Apesar de ficar do lado do sr. Peggotty, Copperfield ainda sente compaixão por Steerforth. Já a mulher do diretor Strong realmente tem um caso mal resolvido com o primo. No entanto, Heep, que a essa altura já está apresentado como o grande vilão do romance (substituindo o sr. Murdstone nesse papel) já contou a ele sobre seus chifres e segue vivendo de chantagens sobre os outros personagens. A mais ambiciosa é casar com Agnes. A terceira pergunta é totalmente respondida. Sim, Copperfield conquista Dora, seu amor platônico. No entanto, o pai dela (seu chefe) é contrário ao caso – ele descobre o romance entre os dois através da srta. Murdstone, que trabalha como conselheira de Dora. Para a sorte de Copperfield, o velho fica tão estressado que bate as botas – o que é uma ironia, pois com a morte dele, a srta. Murdstone também perde o emprego. A essa altura o Sr. Murdstone encontrou outra garota nova para dar o golpe do baú. Com a morte do chefe, a guarda de Dora vai para duas tias distantes que aceitam o relacionamento de Copperfield com a sobrinha desde que observada uma série de condições, que vão desde a presença delas nos encontros até o limite no número de dias na semana em que eles podem se ver. No entanto, fica evidente que Dora é uma garota mimada, que não tem noção da realidade, super temperamental e que gosta de absolutamente tudo o seu jeito. Fica a dúvida se esse relacionamento vai seguir em frente ou se vai resultar num casamento com um evidente desentendimento no futuro (pois Copperfield tem que trabalhar para viver, fato que Dora não aceita).

Já o Sr. Micawber entrega um papel para Tradler assumindo a dívida e isso, para ele basta. Porém, ele também se envolve com o vilão Heep e fica a dúvida de qual tramoia o ruivo malvado está aprontando para ter Micawber na palma da mão, como a essa altura ele já tem o dr. Strong e o pai de Agnes. Ele tentou dobrar Copperfield, mas levou um bofetão na cara. Já o motivo da chantagem sobre o pai de Agnes, ainda não é revelado. Para além de tudo isso, a essa altura, a tia e Copperfield perdeu tudo e foi morar com ele juntamente com o sr Dick. Também há um mistério no ar sobre uma misteriosa figura que teria poder sobre ela (e que eu suspeito ser Uriah Heep). Fica a surpresa para os próximos capítulos.

sábado, 25 de julho de 2020

David Copperfild – Parte 1


Se tem alguma coisa que vou lembrar dessa quarentena provocada pelo Covid-19, vai ser a leitura do livro “David Copperfield”, do escritor inglês Charles Dickens. Cheguei a essa obra por indicação do meu amigo e escritor Sérgio Stangler. Como sou fã de seus textos e confio plenamente em seu gosto literário, não pude deixar de correr atrás daquele que Stangler revelou ser seu livro preferido, the number one entre todos. Sei que cada um tem seus motivos pessoais para fazer essa escolha e David Copperfield sem dúvida nenhuma entrou na minha lista dos 5 mais, no entanto, ainda creio que “Dom Quixote”, de Cervantes, nunca vai perder o posto de número 1 da minha lista. Como mencionei, cada um com seus motivos.
Mas vamos à obra. A resenha que faço aqui, como as tantas outras que já postei no blog, serve apenas para consulta particular do próprio autor e, portanto, não deve ser lida por ninguém. Quem se atrever a não parar aqui e seguir adiante vai perder o nariz nos próximos dois anos.
A narrativa pode ser dividida em várias partes. Como a obra completa tem cerca de 1.200 páginas na edição da Penguin da Companhia das Letras, dividi em três partes dando conta de 400 páginas cada. No entanto, considero as primeiras 200 páginas um caso a parte, pois realmente marca um ciclo na vida do personagem: do nascimento até os 10 anos de idade, ou seja, a infância, parte da vida mais importante de uma pessoa, no meu humilde entendimento.
Para contar a vida de Copperfield, Dickens utiliza a primeira pessoa. Ou seja, é um livro de memórias do personagem fictício. O curioso é que ele publicou essa obra quando tinha exatamente a mesma idade que tenho ao escrever essas linhas: 38 anos. Não posso negar que sinto uma inveja boa do autor inglês, pois nunca seria capaz de escrever tamanha obra prima, nem com 38, nem com 58, nem com 78, nem com 108 anos. Mas, vamos lá. O resumo da infância de Copperfield é o seguinte:
Copperfield já nasce sem pai, pois ele morre ainda durante o período de gravidez da senhora Copperfield. Na noite do nascimento aparece uma tia rabugenta do pai de David, chamada Betsey. Ela é completamente maluca e mal humorada e diz que vai cuidar da nenê que vai nascer assim como se fosse sua própria filha. No entanto, ela é surpreendida pelo médico que faz o parto:
“- E ela. Como está ela? – minha tia perguntou, ríspida.
O Dr. Chillip inclinou um pouco mais a cabeça para o lado e olhou minha tia como um afável passarinho.
- A bebê – disse minha tia – Como ela está?
- Minha senhora – retomou o dr. Chillip -, achei que soubesse. É um menino” (p.29).
Então, tia Betsey vai embora para nunca mais voltar àquela casa. Não vou transcrever a obra completa aqui, então, vou dar um geralzão na sequência.
Copperfield nasce e vive seus primeiros anos com a mãe e a babá, Peggotty. Os três estão felizes da vida até que a mãe de Copperfield começa a ser cortejada por um homem chamado sr. Murdstone. David, então, é enviado para passar 15 dias na casa do Sr. Peggotty, irmão da babá, onde lá ele conhece outros personagens secundários, sendo que alguns são mencionados mais para frente. Bueno, quando David volta para casa, encontra tudo diferente, o sr. Murdstone sentado no sofá e a mãe dele agindo completamente diferente. Adivinhem? Eles casaram e agora o sr. Murdstone é o padrasto de David. A relação entre David, o sr. Murdstone e a irmã dele, chamada Jane (ah, conheço Janes tão bruacas quanto ela) é um dos pontos altos e dramáticos de toda a história. Confesso que devorei essa parte do livro com angústia, curiosidade pelo que vinha em frente e torcendo muito pelo protagonista. Tudo porque as atitudes do Sr. Murdstone e de sua irmã são facilmente identificáveis em pessoas que conheço; e a própria história de Copperfield, de certa forma, assemelha-se com a história da infância de meu pai, tios e tias, que também perderam a figura paterna muito cedo e foram “criados” por um padrasto tirano que a essa hora deve estar ardendo nos fogos do inferno ou penando pelo purgatório do além.
A relação que se estabeleceu foi a seguinte: o sr. Murdstone censurava qualquer demonstração de afeto que a mãe de Copperfield pudesse ter com o filho. Ele e Jane tomaram as rédeas da casa, decidindo sobre tudo e exigindo gratidão por parte da mãe de Copperfield por eles terem entrado na sua vida para organizar tudo. Conheço gente assim: chegam, tentam bagunçar tudo, querem mandar nas tuas coisas e ainda cobram gratidão (em síntese, o perfil do típico bolsonarista contemporâneo). No meu caso, consegui dar um chute na bunda de um casal que parecia o Sr. E a Sra. Murdstone pois eles tentaram fazer exatamente o mesmo, honrando a péssima fama caricatural de sogros e sogras. Só pensam em dinheiro e odeiam crianças. Filhos da puta. Mas, feito esse parêntese, totalmente pessoal, em determinada altura da narrativa o sr. Murdstone, irritado por Copperfield não conseguir resolver problemas matemáticos, resolve leva-lo para o quarto para dar um corretivo nele. Durante a surra, a criança morde a mão do padrasto. Como punição, ele é enviado para um colégio interno onde um tirano tão ruim quanto o Sr. Murdstone comanda tudo batendo e humilhando os alunos. Além disso, o guri faz o trajeto da cidade onde mora até a cidade onde fica a escola praticamente sem dinheiro e com a recomendação para que todos tomem cuidado, pois o moleque teria a triste e estranha mania violenta de morder as pessoas... Chegando na escola (no período de férias, como mais uma parte do castigo) é colocada uma placa escrito “cuidado, ele morde”, em suas costas.
Começando as aulas, o pequeno Copperfield faz algumas amizades, sendo que a que mais se destaca é com Steerforth, mais velho e líder entre os alunos. Aliás, o único estudante respeitado pelo diretor devido à condição financeira de sua família. Durante a estadia no internato, Coppefield faz uma viagem para casa, onde fica 30 dias sendo humilhado e perseguido pelo sr. Murdstone e a irmã, com mãe acompanhando tudo aflita mas sem fazer nada, bem como Peggotty – que é uma personagem importante na história, mas que não vou me aprofundar aqui para não me estender além da conta. Copperfield volta para a escola e, no dia de seu aniversário, é chamado pelo diretor. Ele imagina que vai receber uma cesta cheia de presentes enviados por Peggotty, no entanto, lhe é comunicada a morte de sua mãe e do bebê recém nascido, seu meio irmão. Ele é enviado de volta para casa, porém, está completamente sozinho no mundo: sem pai nem mãe. Para piorar, Peggotty é demitida e se casa com o sr. Burkis, o simpático cocheiro que lhe trouxe de volta para casa.
Durante esse período, Copperfield descreve que o sr. Murdstone e a irmã simplesmente não ligam para ele. Ou seja, não o maltratam, mas também não o ajudam. Ele fica zanzando pela cidade ou pela casa, sem nada para fazer, pois a dupla decide não lhe enviar de volta para a escola (para não gastar, algo tão típico desse tipo de gente...). Quando completa 10 anos, o padrasto decide enviar Copperfield para Londres para trabalhar na fábrica da sua empresa que produz vinho. Assim, como se fosse um adulto, ele passa a morar em um quartinho em uma pensão e a trabalhar desde cedo da manhã até as oito horas da noite. Copperfield conhece algumas pessoas e faz amizade com a família dona da casa onde o quarto é alugado, mas tendo que trabalhar como operário de fábrica para ganhar dinheiro apenas para comer umas migalhas, a situação fica insustentável e ele resolve fugir para procurar a tia Betsey. A jornada de Londres até a cidade da tia é absolutamente angustiante e triste.
Logo na saída ele é roubado e fica apenas com a roupa do corpo e algumas moedas. Após seis dias caminhando e dormindo ao relento (penhorando seu colete e outras peças de roupa para ter o que comer) ele chega à cidade. Após novo sofrimento para encontrar a casa da tia Betsey, finalmente ele chega lá, para surpresa dela. Com a mesma postura firme com que é descrita no início do livro, ela ouve toda a história do sobrinho e, após alguns dias, resolve escrever para o padrasto, que decide ir até a cidade para levar o garoto de volta e lhe dar novo corretivo para deixar de ser um garoto ruim e ingrato. Eis um detalhe interessantíssimo: a sra. Betsey é uma feminista ferrenha (apesar de não ser descrita com essa palavra). Era tão feminista, que ao ver que o bebê que havia nascido anos atrás não era uma menina, decidiu renega-lo, pois ela considerava os meninos e os homens o grande mal da humanidade. Sendo assim, há cena absolutamente genial e inesquecível em que há o confronto entre a sra. Betsey, o sr. Murdstone e a irmã Jane, que não vou descrever aqui pois deve ser lido obrigatoriamente na íntegra. Confesso que vibrei como se fosse um gol do Grêmio contra o Inter no final, quando a sra. Betsey expulsa o sr. Murdstone e fica com o garoto. Ah, outro personagem intrigante é o Sr. Dick, descrito como um sujeito com problema mental, também adotado no passado pela sra. Betsey. Ele é muito empático e divertido, sempre agindo como uma criança de 10 anos.
Aí começa uma nova vida para Copperfield, que é enviado para outra escola. Há um salto grande, entre as páginas 200 e 400, pois quando a gente menos espera Copperfield já está com 17 anos. Também há vários personagens secundários que aparecem e reaparecem ao longo da narrativa, mas que não tenho como descrever a todos. Os principais, no entanto, passam a ser a tia Bertsey, o diretor da escola, Sr. Strong, a esposa dele, o primo da esposa dele, que não me recordo o nome, a Peggotty, o irmão dela (sr. Peggotty), a pequena Emily (adotada pelo sr. Peggotty e que é o primeiro amor platônico de Copperfield) e o amigo Steerforth. Deve ter outros, mas são desses que me recordo agora.
Ao concluir os estudos, a tia Bertsey envia Coppefield para uma viagem de 30 dias para a casa da babá Peggotyy, no entanto, no caminho ele encontra Steerforth. Depois de ficar uma semana na casa dele (como mencionado, ele vinha de família rica) o amigo resolve lhe acompanhar no resto da viagem. Assim, depois de anos, ele reencontra a babá Peggotty e seu marido cocheiro, o sr. Peggotty e sua família, inclusive a pequena Emily, que agora está noiva de Ham, outro rapaz órfão adotado pelo sr. Peggotty lá no início do livro. Confuso, não? Claro, tudo parece bastante claro se você está lendo a obra de Dickens.
Essa última parte da narrativa é mais alegre e demonstra a formação de Copperfield enquanto pessoa.
É interessante porque nos faz lembrar as nossas raízes, nossos amigos de escola, os primeiros amores platônicos, os parentes e familiares que há anos não vimos e os que já partiram. É uma obra escrita para ser um clássico, com linguagem de fácil compreensão, mas com uma estética literária impressionante. E, o principal, faz com que você leia páginas e páginas e não sem se cansar, muito pelo contrário, a cada dezenas e centenas de páginas você fica curioso para saber o que está por vir na sequência. E, lendo esse livro, adquiri um novo hábito para leitura: tenho ouvido música clássica e, às vezes, tomado um vinho ou uma cerveja enquanto “ouço” Copperfield contar a sua história. Em síntese, encontrei um novo prazer na vida: ler um puta livro ouvindo música clássica e misturando tudo em meu cérebro com um pouco de álcool para dissolver e curtir esse prazer.
E era isso que tinha para falar sobre as primeiras 400 páginas de David Copperfield. Se você chegou até aqui, tome cuidado com seu nariz!

segunda-feira, 27 de abril de 2020

Sobre Sérgio e 1917


Assisti hoje ao filme Sérgio, na Netflix. Vou contar exatamente como foi a minha história com esse filme. Há cerca de uma semana apareceu na capa da Netflix a sugestão. Vi que o ator principal parecia o Wagner Moura. Sou fã do Wagner Moura. Cliquei e vi que era ele mesmo mas o filme era em inglês. Dei uma espiada, vi tiro e bomba, e pensei: uau, o Wagner Moura conseguiu um papel num filme besteirol americano de tiro, porrada e bomba! Good for him! Mas não vou assistir. Aliás, que nome mais sem criatividade: Sérgio! E deixei quieto.
A semana passou e dois ou três amigos no Facebook postaram comentários favoráveis sobre o filme, mas sem dizer sobre o que se tratava. Então, fui pesquisar. Ao descobrir que se tratava da vida do Sérgio Vieira de Mello imediatamente me veio na memória o ano de 2003, quando eu estava iniciando meu trabalho como jornalista na Rádio Jornal da Manhã. Eu fazia rádio escuta da rádio Gaúcha e lembro que transcrevia as notícias sobre a guerra do Iraque, bem como acompanhei, através do Notícia na Hora Certa e do Correspondente Ipiranga, a morte do diplomata brasileiro da ONU. Decidi que eu PRECISAVA ver esse vídeo.
No entanto, no sábado passado, resolvi ver primeiro outro filme que fazia um tempinho que eu queria assistir: 1917. Resumo: achei um puta filme, mas não o suficiente para levar o Oscar 2020. Gostei mais do Coringa, Parasita e até mesmo do História de um casamento. Como comentei com um amigo, é um bom filme, mas para alguém que se aproxima da quarta década de vida em que já viu uma porrada de filmes de guerra, esse não é o melhor do gênero. Ainda prefiro Até o último homem, Resgate do soldado Ryan e outros. Mas isso não quer dizer que não seja um baita filme... Como eu ouvi muita gente dizer que era O MELHOR entre os indicados, fui com uma puta expectativa e talvez isso justifique uma pontada de decepção.
Confesso ainda que, como assisto a muitos filmes produzidos com a fórmula Disney/Hollywood com a Larissa, reconheci a técnica de colocar um ritmo alucinante com infinitas cenas em que o protagonista parece que vai morrer e no último minuto escapa... Quando você saca a técnica e percebe que isso vai seguir durante todo o filme, sem grandes acontecimentos paralelos, desanima um pouco... Vi isso em Frozen II, Dois Irmãos, Rei Leão, etc. Muitas cenas inverossímeis em um curtíssimo espaço de tempo. Pois é, foi isso que aconteceu comigo no 1917... E, como já li bons livros sobre a primeira guerra, dentre os quais o épico “Nada de novo no front”, esperava um pouco mais da película...
Passado o sábado, hoje assisti ao Sérgio. E, mesmo tendo expectativas, sentencio que – na minha humilde opinião – foi melhor do que o esperado. Que homem! E que mulher a Carolina! Absolutamente sensacional e emocionante. O cara foi um dos brasileiros mais fodas de que já se teve notícias nos últimos anos e permaneceu anonimo ao grande público durante todos esses anos. Eu mesmo sabia apenas que era um diplomata brasileiro da ONU morto em um atentado na guerra do Iraque. Ponto. Essa era a minha lembrança. Era isso que o meu cérebro trazia quando ouvia o nome “Sérgio Vieira de Mello”. Agora não. Agora sei que o cara foi foda. E pesquisando vídeos e mais histórias sobre eles, constatei que o Wagner Moura fez um puta trabalho, pois o cara era exatamente aquilo que ele conseguiu captar e retratar no filme (quem conheceu ele, corrija-me se estiver errado).
E quando vi a atriz absolutamente linda que interpretou a Carolina, pensei: que exagero! Porra, quem se deu bem foi o Wagner Moura! Mas fui pesquisar sobre ela na internet e vi que não foi nenhum exagero: a Carolina da vida real também é lindíssima. Que casal! E a energia positiva deles torna a história ainda mias dramática e triste... Que contraste!
Enfim, sugiro os dois filmes. Eu gostei mais do Sérgio, apesar de não ser indicado ao Oscar... Penso que se o 1917 acabou sendo um filme praticamente obrigatório para a humanidade do mundo ocidental, Sérgio é um filme simplesmente OBRIGATÓRIO para todo o brasileiro. Mas esqueça que disse isso, pois a palavra “obrigatório” geralmente espanta as pessoas – e com razão. Portanto, releiam todo o texto novamente, cortando esse último parágrafo! Belê?
Hasta!

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Pátria educadora


Eu achei que não teria coragem para escrever esse texto. Ou melhor, não teria estômago. Mas, respirei fundo, e aqui estou. Depois de ponderar comigo mesmo, decidi escrever apenas para eventualmente voltar a consultar futuramente, quando a bizarrice da trilogia “Pátria educadora” se apagar da minha massa cinzenta e aparecer algum “entendido” no assunto querendo debater o tema. Para quem não sabe, é uma produção “independente” do Brasil Paralelo. O título da "obra", claro, é uma ironia ao lema do segundo mandato do governo Dilma (bom mesmo é Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, né não? Bem mais fácil de botar tudo no rabo do Nosso Senhor). São dois filmes de aproximadamente 50 minutos que culminam no “documentário” (ficcional?) de uma hora e meia.
Bom, para comentar uma série de filmes rasa e maldosa terei que ser raso e, talvez, um pouco maldoso. Também tentarei ser o mais breve possível – diferentemente do que fiz quando comentei outra produção do Brasil Paralelo, “Sobre armas e livros”. Lá vamos nós again.
O primeiro episódio tenta dar conta de milhares de anos que resultaram na formação do atual sistema educacional do mundo ocidental. Resumindo tudo, eles tentam apresentar uma ideia de que a esquerda dominou o troço todo e que as experiências mais radicais dos comunistas foram fracassos absolutos. Durante os três episódios é mencionada a “revolução cultural” de Mao Tse Tung e tenta se colar a imagem do ditador chinês às principais lideranças da esquerda brasileira contemporânea. O que eles não contam, obviamente, foi que Mao Tse Tung chegou ao poder derrubando um império sangrento que nadava em ouro enquanto a população literalmente morria de fome como mosca, aos milhões. Obviamente que o resto da história todo mundo sabe: como toda a “revolução”, depois que se toma o poder, os “revolucionários” não querem deixar o poder e se tornam uma nova ditadura, tão abominável quanto a anterior. É sempre assim, com direita e esquerda. Mas, estou desviando do assunto. Em síntese, se critica a Revolução Francesa, Maio de 1968, a China, Cuba e tudo o que possa ter qualquer relação com a esquerda. Ponto. E, lógico, lançam datas e datas, nomes e nomes, que já renderam livros e filmes aos milhares mundo afora, mas eles vão lá e tentam resumir tudo em um chavão clichê de 10 segundos para fazer o “cidadão comum” (que eles vão chamar de analfabeto funcional, ao final da trilogia) conseguir entender tudo. Ah, mas o ponto chave do primeiro episódio é mostrar que o comunismo e o fascismo são praticamente a mesma coisa, deixando tudo na mesma panela da esquerda. Olavo de Carvalho, obviamente, é uma das fontes.
No segundo episódio o alvo é Paulo Freire. Tenta-se de todas as formas se costurar a seguinte relação: Paulo Freire é fã de Mo Tse Tung e é amigo e fã de Lula e filiado ao PT. Logo, o PT é um braço da ditadura de Mao Tse Tung em que Paulo Freire é o mentor intelectual que lança ideias doutrinárias aos professores que, por sua vez, vão doutrinar os alunos (desde crianças até os universitários).  E, claro, são pegos fragmentos da realidade (de obras e falas) para criar uma imagem de um Freire monstruoso. Não vou aprofundar esse ponto, mas é possível pegar fragmentos da bíblia, por exemplo, e construir uma imagem completamente equivocada de Deus ou Jesus Cristo: um Jesus egoísta, maldoso e vingativo, por exemplo. Isso se chama edição. Com uma boa edição é possível mentir falando meias verdades (para mais informações, leia o meu segundo livro: Jornalisom Gonzo: mentiras sinceras e outras verdades). Ponto.
No terceiro episódio, o “documentário” (ficcional) é apresentado como uma grande denúncia do sistema educacional brasileiro. Lógico que eles pegam todos os podres da educação brasileira, dando ênfase aos 14 anos do governo PT, colocando todos os problemas de séculos de formação do sistema educacional na conta do Lula e da Dilma. Não se questiona, por exemplo, o enfraquecimento da educação nos anos 1990, que foi o que eu estudei e, na comparação com o que a minha filha está estudando, era mil vezes mais fraco. Ou seja, ainda estamos péssimos, mas evoluímos.
As bizarrices maiores, no entanto, ficam por conta do Olavo de Carvalho, que largou pérolas como “educação obrigatória é antidemocracia”. Na prática, o que ele defende é que se uma família quiser não colocar uma criança de 10, 12 ou 14 anos na escola para coloca-la trabalhar, ela poderia fazer isso sem problema algum. É compreensível, tendo em vista que ele praticamente criou a filha dele como um animal em um curral, sem educação e nem suprimentos básicos (procurem entrevistas que ela deu sobre o pai fanfarrão por aí na internet). Outra pérola é quando ele diz que não se tem uma obra relevante publicada por autores brasileiros em 50 anos. Lastimável. Mostra que o imbecil não conhece e não tem estudo sobre literatura brasileira. Tem outras besteiras que agora não lembro de cabeça, mas são todas do mesmo nível.
Também se pegam dados e mais dados que são apresentados parcialmente e que mostram apenas a parte que interessa aos locutores. E, obviamente, não apresenta em nenhum momento qualquer contraponto, o que torna, obviamente, um filme propagandístico da extrema direita. Por fim, quando detonam as universidades federais, aparecem dois advogados dizendo que há perseguição contra professores de direita. A perseguição, na verdade, é descrita como qualquer outra perseguição de qualquer cunho. Eu já vi um professor perseguir uma professora e os dois eram de esquerda. Então, fiquei me questionando: por que não ouviram nenhum professor de direita que se disse perseguido??? Nada. Pura superficialidade. Aliás, essa é a principal característica da trilogia. Uma trilogia intelectualmente preguiçosa e maldosa. Não se aprofunda em nenhum tema e não se ouve o outro lado. Em síntese, tenta se pegar todos os problemas da educação brasileira da história do país e coloca-la na conta do PT e do Paulo Freire. Eles são os demônios! E são comunistas, praticamente uns Mao Tse Tung brasileiros!
Bom, já escrevi demais. Haveria inúmeros pontos para serem detonados aqui, mas vou ser superficial, como eles foram. Para fechar, lanço a questão que me surgiu enquanto eu via o último episódio: e a solução para todos os problemas que foram apresentados se chama Bolsonaro e Weintraub??? Sério isso??? Querem convencer as pessoas de que Haddad, Lula, Dilma, Paulo Freire, etc, é pior do que isso (Bolsonaro e Weintraub)???? Aí, realmente, não é possível levar a sério um material desses. Certamente essa série de filmes, se fosse concorrer a algum prêmio, seria em uma hipotética categoria tragi-comédia-ficcional.
Ah, e maior cara de pau dos produtores foi apresentar um texto definindo o analfabetismo funcional (que cola perfeitamente na massa que elegeu o Bolsonaro se informando por memes, e não por livros ou canais sérios de informação) com imagens de protestos com bandeiras de entidades de esquerda. Seria cômico se não fosse trágico, pois já visualizo milhares de analfabetos funcionais que praticamente nunca leram uma obra clássica (que eles defenderam com unhas e dentes no final – para dar uma impressão de seriedade e intelectualismo) assistindo às três peças cômicas do Brasil Paralelo se posicionando e falando como se fossem especialistas no assunto... Haja estômago!

sábado, 11 de abril de 2020

Escritor de boteco


Estou lendo o segundo volume da trilogia autobiográfica de Henry Miller. Há uns dois anos li Sexus, hoje estou no Plexus e, talvez um dia, leia o Nexus, pois cada um desses volumes tem cerca de 700 páginas. No Sexus ele aborda mais questões de relacionamento, casamento, amantes, etc. No Nexus, pelo menos até a página 200, ele está focando na insanidade que era na década de 1920 (e sempre foi e continua sendo) querer “ganhar a vida” como escritor. Ou seja, ele luta para viver de literatura, sem se entregar a outros afazeres. Lendo sobre esse dilema do velho Henry – que, aliás, já estudei mais a fundo nas minhas pesquisas sobre Erico Verissimo e Hunter Thompson e outros jornalistas-escritores de diversos tempos – fiquei me questionando: posso me considerar um escritor? Tendo dois livros (acadêmicos) publicados e escrevendo frequentemente para jornais, sites e revistas, cheguei à conclusão de que sou um escritor de boteco. Explico-me.
Assim como há milhões de músicos de boteco espalhados pelo mundo, eu sou um escritor de boteco, que tem um público super restrito. Aliás, um público formado majoritariamente por parentes e amigos (minha mãe, meu primo Marcos e meu amigo Sérgio Stangler – que, aliás, me leem – ou dizem que leem - pela minha insistência em mandar os links dos meus textos).
Da mesma forma que os músicos, eu amo a arte (no caso, a literatura), produzo a arte, mas não consigo viver da arte. Logo, tenho minha profissão remunerada que não inclui produzir literatura (antes, jornalista; agora, professor). E se num boteco, depois da décima cerveja, você me perguntar: “mas se pudesse, você gostaria de viver exclusivamente de literatura?”. Eu certamente tomaria o próximo copo de cerveja em um gole e responderia: “É claro!”. Não me interpretem mal, eu adoro ser professor (amo do fundo do coração todos os meus alunos e ex-alunos) e, confesso, gostava demais (DEMAIS MESMO!) de trabalhar em redação. No entanto, se eu pudesse ter todo o tempo do mundo para criar romances e escrever o que quisesse e, principalmente, viajando livremente pelo mundo sem prazo para voltar para capturar histórias que me inspirasse, eu escolheria viver disso. No entanto, profissionalmente, a literatura é para mim, aos 38 anos de idade, o mesmo que é para o músico que trabalha num escritório durante o dia de segunda a sexta e na noite de sexta e sábado sobe ao palco muito mais por diversão e prazer pessoal do que para ganhar qualquer trocado.
Aliás, as semelhanças entre o músico e o escritor de boteco não param por aí. A luta pelo reconhecimento também é semelhante. O músico pode até se tornar semi-profissional gravando em estúdio, lançando um ou outro álbum, mas ele acaba não conseguindo largar a sua profissão rentável para viver da arte. E isso não quer dizer que ele seja menos bom do que os profissionais (conheço muitos músicos de boteco que tem muito mais talento do que vários sucessos nacionais). O mesmo acontece com o escritor.
Tive relativa facilidade para encontrar editoras para publicar meus dois livros acadêmicos, justamente porque sou pesquisador e professor da área – e tenho muito orgulho deles. Porém, há alguns meses conclui meu primeiro romance – um legítimo romance de boteco, uma espécie de tributo a Bukowski, Thompson, Henry Miller e Pedro Juan Gutierrez. No entanto, ao entrar em contato com duas grandes editoras brasileiras, elas sequer toparam olhar o material. Mas não desisto. Confio no meu taco. Sei que o que escrevi é muito melhor do que a maioria dos livros sem cor de figurões que publicam por causa do nome e sobrenome. Não vou parar de escrever por isso. Vou continuar sendo um escritor de boteco para a sorte, ou desespero, da minha mãe, do Marcos e do Sérgio (que, aliás, é o único para quem enviei os originais do meu primoroso romance). Enquanto houver leitores e botecos, seguirei escrevendo e sonhando.