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Terça-feira, 26 de Agosto de 2008

Os terroristas do Ovo Assassino


Vejam só como a vida é ingrata e irônica. Ou os trastes que aparecem ao longo dela são ingratos e irônicos. Descobri há pouco que dois de meus melhores amigos e ex-colegas da faculdade elaboraram um plano mirabolante e diabólico para tentar me matar! Mas vou começar a história pelo princípio (óbevêo).
Há alguns dias, semanas ou meses, não me lembro bem, recebi a feliz notícia de que seria convidado para duas formaturas da turma de Comunicação Social da Unijuí. Os convites foram enviados por dois dos meus últimos colegas que ainda não se formaram: a Lara e o Arion.
Para falar a verdade, não que eles me enviaram o convite. Primeiro eu pedi, depois eu xinguei, e por fim, ameacei de ir lá, tomar um porre e quebrar tudo caso não me convidassem. Meio contrariados, ambos me responderam: "tá, vai lá então". Eu, como um bom seguidor político da Lara (apesar dela ser uma tratante) fiquei indignado, revoltado, irado! "Que porra é essa? Quero um convite por escrito!". Pois não é que os ingratos me mandaram o convite por e-mail e, o Arion ainda mandou pelo Orkut! Um desrespeito para com a minha pessoa, depois de tantos tragos tomados, tantos copos quebrados e tantos fiascos feitos em parceria com eles. Eu briguei de novo, exigi meus direitos de cidadão, mas não teve jeito, estou convidado apenas internéticamente.
Mas, depois dessa história toda, também descobri que, como diria o Jardel, ambos os dois querem me matar. E comecei a desconfiar que ELES estão elaborando esse miraculoso plano diabólico desde agosto de 2006, quando saí da faculdade. Eis o relato feito a partir de uma conversa dos dois, que me foi repassada por fonte segura:
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Local: porão da casa do Arion. Ambos estão fumando. O Arion, como é muito vadio, está sentado na cadeira, enquanto a Lara caminha de um lado para o outro, com os olhos fitos no chão e um lenço vermelho no pescoço. De dedo em riste, ela exclama:
- Como vamos matá-lo?
O Arion olha para ela e responde com a voz trêmula, quase inaudível (a Lara braba intimida as pessoas, principalmente se você insistir em falar como é feita a carne moída):
- E-eu, er.. e-eu já-já-já-jááááááá (tendo tiques nervosos) já-já-já... er.. já disse que n-n-nã-n-nãooooo-ão-ão se-i-i-i-i-iiiiiiiiii.
A Lara dá um tapa na cara dele e berra!
- Cala-te! Não fale enquanto eu estou pensando!
- M-mas você quem perguntou?
- Pois não era para responder, companheiro Arion! Você tem que entender que a nossa quadrilha, digo, o nosso grupo revolucionário tem hierarquias! E eu estou acima de você nesse processo!
- E quem está abaixo de mim? - pergutna o Ariton, se recompondo da paulada.
- De você?... bem... de você...está o... está o... está o Fred (cachorro do Arion)
- Hmmm. Fred! Dê uma idéia de como podemos matar o Eduardo Ritter?
O cachorro nem se coça.
- Ele é um cachorro, o animal! - responde Lara, em tom ditatorial - E cachorros não falam - continua com ar professoral, ajeitando o lenço vermelho.
- Pois quem disse que não? - disse o Fred - E só uma correção: meu nome não é Fred. É Frederico!
Lara e Arion se olham espantados. Até que a Lara prossegue.
- Pois qual é a sua idéia, companheiro Frederico?
- Bem, se não me engano, certa vez ouvi vocês falarem que esse cara aí, o Eduardo, ou Dudu como chamam, tem um ponto fraco. Que ele teria alergia a alguma coisa...
Nesse momento, os olhos da Lara e do Arion brilham, até que eles exclamam ao mesmo tempo:
- A ovo!
- Claro, é isso! - diz o Arion - Eu tenho um plano! - nesse momento começa a cair um temporal lá fora, algum cientista britânico maluco descobre um remédio milagroso para a cura do HIV, o presidente Lula pela primeira vez em quase 8 anos de governo dá um discurso de meia hora sem cometer nenhum erro de portugês, o Inter vence um jogo fora de casa pelo Brasileirão e o Brasil ganha a sua 11ª medalha de ouro nos jogos de Pequim.
A Lara, palitando os dentes com um facão, diz:
- Pois desembucha, índio velho.
- Vamos ambos nós dois convidar o traste para nossas respectivas formaturas. E então? E então, ele vai lá, bem feliz da vida, achando que vai enxer o bucho, e colocamos ovo na comida dele!
- É. Uma boa idéia - contribui para o cólóquio o cão Frederico - mas se ele sempre come só arroz, salada, carne... como vocês vão colocar ovo nisso daí?
- É. O companheiro Frederico tem razão - completa Lara - Temos que pensar em algo melhor ainda!
- Eu sei! Tenho uma idéia brilhante! - retruca Arion, socando a palma da mão, e nesse momento o mundo para de girar e é o sol que passa a andar em torno da Terra - Fizemos ambos nós dois um coquetel, e falamos para ele que alguns doces e salgados não têm ovo. Porém, esses doces e salgados terão muito, muitos, muuuuuuuitos ovos! E assim assina-mo-lo-ô!
E para comemorar a idéia brilhante do Arion, a quadrilha de Lara Nasi passa a noite comendo omelete e tomando clara de ovo cru com cachaça batidos no liquificador!
- Um brinde a vitória! - é a última palavra ouvido pelo meu informante.
****
E eis que, depois disso tudo, as minhas suspeitas se confirmaram. O traste do Arion me disse que ambas as festas não terão janta de jantar, mas sim coquetéis, ora pois! Tu vês. Pessoas que beberam da minha cerveja, que riram das minhas bobagens, que me xingaram de "dudu vagabundo" na minha formatura, que voltaram de carro de Santo Ângelo para Ijuí de carona com meus pais (pobre inocentes, mal sabiam que se tratavam de Judas do século XXI), que conheceram o Jimbo! Essas mesmas pessoas agora arquitetaram um plano friamente psicótico para me colocar terra abaixo! Mas eles não vão conseguir! Mal sabem eles que eu estou elborando o plano B! E com o plano B, eles não me pegam! Ah não! E além de não me matarem, ainda vou beber toda a cerveja da festa dos dois! Aguardem-me!

(ah, meu informante conseguiu uma foto do referido encontro da quadrilha de Lara Nasi. Na imagem, os dois larápios comemoram o plano genial do mentecapto Arion).

Quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

Sonho doido!

Manjam o tal do Livro dos Sonhos? Não? Nem eu. Eu manjo só o livro O Significado dos Sonhos. É do meu pai, está aqui na minha frente enquanto o gerador de mim está brigando para que eu o devolva para que ele guarde na gaveta. Além disso, ele não para de perguntar: “quem é que está olhando TV?”. Pois ora, vejam vocês. Eu é que não sou. Mas enfim, estava olhando o tal do livro da editora Nova Cultural, e na contracapa diz o seguinte: “de A a Z, mais de 2000 sonhos decifrados. Não perca mais tempo tentando adivinhar o que ‘aquele’ sonho significa. Com O Significado dos Sonhos você saberá exatamente o que seu subconsciente queria dizer enquanto você dormia!”
Que cosa. Só que eu não achei nesse livro o que quer dizer o meu último sonho. Estava comentando ele com meu irmão, que apenas disse “isso é sonho de criança de 8 anos”. Pois é, sonhei com o Kiko, o professor Girafales e a Dona Florinda. Só que o Kiko, em alguns momentos era o meu irmão, e a Dona Florinda, certas horas era a minha mãe. A historinha era mais ou menos a seguinte:
O Kiko chegava a toda hora com uma bicicleta nova, e a Dona Florinda brigava com ele:
- Pare de comprar bicicletas novas!
E o professor Girafales só olhava. Até que a Dona Florinda disse com sua voz de taquara rachada: “vou viajar. Se comportem vocês dois”. Lógico que a Dona Florinda não briga com o professor Girafales na vida real, mas no meu sonho ela estava xarope até com ele. E se foi viajar a Dona Florinda. Provavelmente para a Flórida com vestido florido. Ta bom, eu sei que esse comentário foi estúpido, mas não consegui evitá-lo... acho que estou ouvindo muito o Cafezinho da Pop Rock. Mas na seqüência do meu sonho, depois que a Dona Florinda partiu, o professor Girafales passou a chegar a toda hora de moto. E o Kiko dizia: “não compre tantas motos, senão a mamãe vai brigar contigo”. E o mestre Lingüiça só retrucava: “fique quieto, menino, sua mãe está viajando e não vai ficar sabendo”. Tu vês. Depois eu acordei e pensei: “que sonho sem fundamento”. Pior que faz tempo que não assisto ao Chaves. Mais de mês!
Então resolvi consultar o livro dos sonhos do meu pai, mas não encontrei nada referente nem ao Kiko, nem a Dona Florinda, nem ao professor Girafales.
Ah, mas vejam vocês! Achei aqui o que significa sonhar com bicicleta: terá de tomar uma decisão. Tu vês. Mas eu tomo decisões o tempo todo! Tomar café ou Nescau? Peidar ou arrotar? Tomar suco ou refrigerante? Cachaça ou cerveja? Assistir ao DVD do Nenhum de Nós ou do U2? Ler Bukowski ou Jack Keroac? Mandar um mala tomar no cu ou a merda? Sentar ou deitar? Escrever ou ler? Colocar a camiseta azul ou a azul? Ouvir tango ou assistir as tragédias? Decisões! Yeah bybe, decisões! Já tomei várias hoje...
Agora, vamos procurar moto... moto... moto... achei! Na página 46: bom, tem mais de um significado. Andar em uma motocicleta, que era o que o professor Girafales estava fazendo, significa: amores agradáveis. Mas para mim ou para o professor Girafales? A outra, que é comprar uma motocicleta, que o teacher também fez, quer dizer: insegurança. Minha ou do mestre lingüiça? Tu vês pela terceira vez. Olha só, tem outras coisas estranhas nesse livro, tipo, multa. Quem é que vai sonhar que está levando uma multa? Tem até multar alguém. Porra, é o cúmulo, sonhar que está multando alguém... Bem que eu queria ter esse sonho. Xampu. Olhem só, usar champu: problemas que se resolvem. E tomar xampu? Não diz... que cosa. Deveriam prever tomar xampu... Tem até jabuticaba! Quem vai sonhar com uma jabuticaba??? Cada cosa que não inventam...

Sábado, 9 de Agosto de 2008

Faltam só 18!


Apesar do Zico e do Pelé, e outros chatos de plantão, quererem contestar a oficialidade dos meus números, no último peladão que joguei estava realmente inspirado e fui às redes cinco vezes. Vou até me dar ao trabalho de descrever cada um dos golaços. Como de costume, gastei todo o meu futebol nos primeiros 20 minutos de jogo, e no restante da uma hora e 15 que jogamos me dediquei mais a fazer faltas e torcer pelos meus colegas de dentro do campo sintético do Tapetão. Fiz os primeiros quatro gols do jogo. No primeiro, recebi uma bola no fundo, dominei ela e bati rápido, antes que chegasse a marcação. No segundo, arranquei em velocidade, deixei o marcador na saudade, e coloquei na saída do goleiro, ao melhor estilo Romário. No terceiro, alguém cobrou o escanteio e subi nas alturas de cabeça, lembrando os bons tempos de Jardel, e dei um testaço de cabeça, em direção ao chão, e a bola estufou as redes do goleiro... quem era mesmo o goleiro? Acho que era o Jorge... Sim, era o Jorge. Pobre Jorge. Nada pôde fazer. No quarto ganhei a dividida no meio e bati de bico mesmo, a bola foi zuuuuuuuuuummmmmmmmmm e entrou no cantinho de novo. No quinto... putz, como foi mesmo o quinto? Ah sim... Lembrei. Tem um carinha, que não lembro o nome, que é magrinho, baixinho e muito rápido. Ele corre muito. Pois é, o ligeirinho foi indo para o fundo, e como diria o Paulo Nunes, ele foi indo, indo, indo, até que iu e cruzou para o meio da área, e eu só tive o trabalho de encostar para o fundo das redes do.... enfim, do adversário. Cinco gols em um jogo, e agora somo 982 gols na minha carreira futebolística. Daqui a pouco vou jogar novamente, e espero marcar mais uns três ou quatro. Ontem, quando ia saindo do jornal, um cara da radia me abordou:
- E aí, Eduardo, qual a expectativa para o jogo de amanhã?
- A expectativa é boa, e esperamos sair com a vitória.
- Contagem regressiva para o gol mil?
- É isso aí. A expectativa é boa para que o gol mil saia o quanto antes.
- E o adversário?
- Ah, a expectativa é boa, respeitamos o adversários mas sabemos que temos condições.
- Você está 100%, nenhuma lesão, nenhum trago, nada que possa atrapalhar?
- Sim, claro, a expectativa é sempre boa e esperamos que nada a atrapalhe.
Para confirmar todas as expectativas dos milhares de torcedores do... do... enfim, do meu time, lá vou eu, rumo às redes.

Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

Cachorros tristes



Existem cachorros
De rua
Que me visitam
De vez
em quando
Eles ficam me olhando
com a cabeça
torta
e olhar de burrinho

Eu lhes digo:
Vão embora
Seus cachorros tristes
Deixem-me viver
Na minha alegria
Não quero saber
dos seus
Problemas
E nem quem eram
Os seus
Antigos donos

Vão ser felizes
Pobres animais
E então
Como eles não vão
Eu lhes ofereço
Uma dose
De cachaça

E os caninos
Passam a uivar
Na madrugada
De felicidade
De alegria
De amor
De paixão

Tudo isso até
Passar pela sua frente
Mais uma
Cadela
No
Cio

Domingo, 3 de Agosto de 2008

Não tem problema

Minha cabeça ainda dói
De ressaca
Dos porres homéricos
Que já tomei
Em minha perra
vida

Ela ainda está chacoalhando
Da mesma forma
Que foi chacoalhada
Depois que eu engoli
Meio copo
de tequila
E depois veio
O sal
e o limão

Acabou a cerveja
Não tem problema
Fizemos caipirinha
E jogamos
Poker

Jogamos poker e bebemos
E está no fim a caipira
Não tem problema
Colocamos tequila na caipira
E mais um limão
Já que o Velho
Barreiro acabou
E eu joguei
A garrafa vazia
No lixo

Sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

O dia em que a Folha me procurou...


Cara, esses dias recebi uma ligação que pensei que iria mudar a minha vida. Estava eu, lendo o “Amor é um cão dos diabos”, do Charles Bukowski, quando de repente tocou o telefone: Triiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmmmm! Trimmmmmmmmmmmmmm! Depois de gritar umas cinco vezes: “alguém atende aí, pô!” e ver que realmente ninguém iria mexer o traseiro para atender o maldito telefone, eu me dirigi em direção ao aparelho resmungando um putaquepariusóoquemefaltavamesmo... e atendi a porra do telefone. Como estava de mau humor, resolvi tirar onda mesmo:
- Alouuuuuuuuuuuuuuuuuu.
- Alô. Boa noite. O senhor (com sotaque carioca) Eduardo (também com sotaque carioca, o que quer dizer H no lugar do R) se encontra?
- Quem quer falar com ele? – perguntei já impaciente.
- É da Folha de São Paulo.
Beiiiiiiiiiiiiii. Descobriram-me! Finalmente! Eu sabia que um dia isso iria acontecer! Alguém deve ter lido o meu blog lá na redação da Folha, e deve ter dito: “ei, dêem uma olhada nisso aqui”. Até vejo a cara de um daqueles jornalistas gordos, de óculos, careca e com olheiras, diante da tela do computador do seu colega, jovem repórter recém formado pela ECA. O velho lobo deixa o charuto cair para o canto da boca, coloca os óculos na ponta do nariz e exclama:
- Caracoles! Contratem esse cara imediatamente!
E então, aquela hora da noite o telefone da minha casa havia tocado, porque eles deram um jeito de descobri-lo com seus super-poderes de imprensa do centro do país (podem crer que eles pensam que têm mesmo) e ali estava aquela graciosa secretária com voz de arroz doce falando comigo ao telefone.
- Hmmmmm. Er... Eu sou o Eduardo.
- Boa noite senhor Eduardo. Aqui é a Marli da Folha de São Paulo, a gente pegou o seu contato no nosso cadastro de jornalistas, e queremos lhe passar as nossas promoções de assinaturas, e blá blá blá blá blá blááááááááá!!!!!!!!!
E eu fique ali, em pé, murmurando: aham, aham, arraaaam! Até que ela fez a pergunta crucial:
- Mas qual o motivo de o Sr. não querer a nossa assinatura, senhor Eduardo?
- Porque eu não tenho dinheiro.
- Mas por isso a gente pode parcelar em...
- E eu leio a Folha de graça na PUC – interrompi.
- Ah, então está bem senhor Eduardo.
Não resisti e tive que falar:
- Quando atendi, achei que era para me contratarem.
Pela primeira vez na vida ouvi aquela voz de robô das vendedoras dando risada.
- Quem sabe um dia, senhor Eduardo. Tenha uma boa noite.
- Obrigado, my bybe, pra você também.

Quarta-feira, 30 de Julho de 2008

Futebol e amor

Estava lendo outro dia as crônicas do David Coimbra no site do Clicrbs, e me deparei com o texto “Sexo, sexo, apenas sexo!”, onde ele defende a idéia de que as mulheres não gostam que seus namorados, noivos e maridos saiam para jogar bola (principalmente de noite). Analisando as revistas femininas do consultório da dentista, ele descobriu a verdade: as mulheres só pensam em sexo! De início também achei uma graça ingênua na teoria Davidiana, mas acabei lendo todo o texto e, de fato, concordo plenamente com ele.
E, coincidentemente, eu jogo futebol todas as terças das 22h às 23h. Minha noiva já cogitou ir junto: “um dia ainda vou te ver”, me diz ela. “Pode ir, meu amorzinho”, respondo eu. Talvez por isso ela nunca foi. Olha só o que conta o David de um amigo seu:
“A mulher de um amigo meu chegava a ir junto. Era constrangedor. Ele se esfalfando na zaga, esbaforido, marcando os atacantes, e ela roncando no Fusca. Por que fazia aquilo? Por que não ia dormir no recôndito do lar, sobre a maciez do colchão de espuma? Só descobri quando vi as revistas”. E depois disso ele desenvolve a sua teoria, resumida no primeiro parágrafo, mas que vale a pena conferir no texto completo, no blog do David, no site do clic.
Por outra coincidência, nessa mesma semana em que li o texto, um amigo nosso apareceu lá no nosso peladão com a namorada. Só que ela não ficou dormindo no Fusca, como a namorada do amigo do David. Não senhor. Foi pior do que isso. Ela ficou sentada, sozinha, assistindo ao jogo. O resultado de tudo isso? O meu amigo não jogou absolutamente NADA. Não que ele jogue grande coisa, mas enfim, a bola realmente o mordia. Então, lembrei do livro Antropológica do Espelho, de Muniz Sodré. Pois é, aconteceu com esse meu amigo exatamente o que o Sodré citou que acontece com um arqueiro que disputa um prêmio. Pode parecer viagem, mas veja essa citação de Sodré, comentada pela minha pessoa:
“Quando um arqueiro atira sem alvo nem mira, está com toda a sua habilidade” – ou seja, meu amigo quando joga sozinho, com os amigos, sem ninguém vendo ele, sem ninguém esperando nada dele além de um passe simples de lado, ele está no seu ápice. Ele acerta lançamentos milimétricos e chutes fora do alcance do goleiro. Enfim, ele é um Pelé. Segue: “Quando atira para ganhar uma fivela de metal, já fica nervoso” – quer dizer, se alguém já cobra dele um passe errado, se alguém fica gritando “toca! Toca!” enquanto ele avança sobre a defesa, ele já perde aquela habilidade natural. Ele passa a pensar duas vezes antes de colocar o pé na bola, o que resulta em um toque ou chute com menos confiança. “Se atira por um prêmio em ouro, fica cego ou vê dois alvos – está louco!” – essa é a situação de quando a namorada dele foi assisti-lo. Ele simplesmente ficou fora da casinha. Ele vinha com a bola, e jogava a bola na direção da linha de fundo e corria, corria, corria e corria, pensando que era o The Flash, o Euller filho do Vento, mas a bola corria mais que ele, e ele chegava na linha de fundo sem fôlego, e sorria um sorriso neurótico. Depois, ele roubava a bola do marcador, se emocionava, e eu sozinho do lado dele berrando “toca a bola! Toca a bola pô!” e ele nada de tocar a bola. Ele queria passar pelo meio dos adversários, queria fazer o gol que Pelé não fez, mas acabava perdendo a bola, e eu, que não sou de perder a paciência, acabava berrando “toca a bola cavalo!”. Mas ele não ouvia nada. Como disse o Sodré: estava louco. Ele só queria fazer um golaço, um gol de placa para ficar gravado para sempre na memória da namorada. Quem sabe para ela pensar que o fato de ele não ser um jogador profissional milionário, que deixa a dupla grenal para jogar em um país qualquer do Oriente não passa de uma ironia do destino, um azar da vida, uma injustiça do capitalismo e do famoso sistema de “você só entra aqui por Q.I.”. Sim, ele tinha capacidade e precisava provar isso a ela. Precisava marcar um lindo gol em homenagem a sua amada. Precisava matar o outro gladiador e dar a sua cabeça em uma bandeja para a princesa da sua vida. Ele precisava! E tentava, e tentava, e tentava, e eu e os outros já estávamos ficando loucos como ele, porque ele não tocava aquela maldita daquela bola, e tentava driblar, e nos contra-ataques nós levávamos gols atrás de gol, mas para ele não importava que o nosso time estava perdendo, só importava ela. E o pior é que ela piorava mais a situação e a cada erro do nosso amigo ela dizia “ah não Fulano! Eu não deixava! Beiiiiii!”. De início eu me solidarizei com ele, e tentava tocar a bola para dar a chance dele mostrar para ela que era de fato um craque vítima do destino azarento. Mas com o tempo desisti, e acabei resmungando “assim não dá, pô!”.
A loucura do nosso amigo chegou a tal ponto, que numa dividida normal dentro da área, ele pegou a bola com a mão e colocou na marca do pênalti. Todos ficaram atônitos olhando, o pobre do zagueiro do outro time, que por sinal é policial militar, ficou embasbacado, e ainda arriscou a perguntar: “o que foi?”. Ele não respondeu. Sua loucura não deixava ele responder. Ele só fitava o pobre do goleiro, como um psicopata olha para a sua vítima antes de estripá-lo. O goleiro o fitou de volta, com os olhos arregalados, como se perguntasse “o que esse louco vai fazer comigo?”, e ele correu em direção a bola e bateu forte, no canto direito, e dessa vez, a bola entrou. Ele comemorou o gol como uma criança. Foi uma cena comovente. Ninguém teve coragem de dizer ao nosso amigo que não foi pênalti. Deixamos ele ser feliz. E naqueles breves segundos, ele foi um jogador de futebol muito feliz. Foi sim.
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Ah, e por sinal, eu fiz quatro gols nesse jogo. Com isso, contando todos os jogos que já disputei na minha vida, estou com 977 gols. Ou seja, faltam somente 23 para chegar ao gol mil! Tenho todos eles anotados em vários bloquinhos, inclusive os goleiros que sofreram os referidos gols, que podem servir de prova para esse feito histórico. Meu objetivo é chegar ao gol mil até o final do ano. Aguardem.