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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Americanah


O livro Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que acabei de ler hoje, tem méritos espetaculares e defeitos incomodativos. Na verdade, são dois temas que aparecem no romance – que se passa entre Nigéria, Estados Unidos e Inglaterra – e a minha crítica (uma positiva e outra negativa) está relacionada diretamente a esses dois temas.
Inicialmente tentarei dar uma pincelada geral sobre o enredo. A narrativa é em terceira pessoa, mas gira principalmente em torno da protagonista Ifemelu. Ela é nigeriana e leva uma vida comum de classe média no país africano, filha de uma mãe ultra religiosa e cheia de crendices e de um pai que tem um bom emprego até ser demitido por se recusar a chamar a sua chefe de “mamãe” depois de dez anos de casa. Vivendo no regime militar, que imperou após a guerra de Biafra nas décadas de 1980 e 1990, as universidades e a educação passam a ser sucateadas (algo familiar para você, nobre leitorinho tupiniquim?). Ainda no ensino médio, Ifemelu forma o seu grupo de amigos e, dentre eles, está Obinze. Ao conhecê-lo, é amor à primeira vista. Eles namoram e começam a fazer faculdade na Nigéria, porém, as greves sem fim com atrasos de salários para professores (a mãe de Obinze é professora universitária) fazem com que muitos jovens tentassem desesperadamente deixar o país africano, tendo como principal destino os Estados Unidos e a Inglaterra. O sonho de Obinze é morar nos Estados Unidos, no entanto, ele não consegue o visto após sucessivas tentativas e é obrigado a permanecer em solo nigeriano. Já uma tia de Ifemelu, chamada de Tia Uju, é uma dondoca que faz o que, segundo Chimamanda, é quase uma regra entre as mulheres na Nigéria: a busca por um homem que possa, primeiro, sustentar a mulher e, segundo, dar status a ela (seja a mulher oficial ou amantes).
Assim, tia Uju se torna amante de um importante general do governo. Ganha uma casa, carro e uma barriga, pois dessa relação nasce Dike. O general morre em um acidente aéreo (aparentemente criminoso) e a mulher oficial ameaça tia Uju, que se vê obrigada a deixar o país com o filho por questões de segurança. Ela vai para os Estados Unidos e lá se estabelece para recomeçar a vida. Diante das intermináveis greves na Nigéria, em um telefonema, tia Uju faz a seguinte proposta para Ifemelu: ir estudar nos Estados Unidos e ajudar tia Uju a cuidar de Dike, pois ela gasta muito com uma babá, morando no Brooklyn, em Nova York. Assim, Ifemelu – que fazia medicina na Nigéria – concorre a uma vaga em uma universidade americana, sem muita esperança de ser aprovada, mas acaba ingressando no curso de Comunicação em uma universidade na Filadélfia. Obinze, que a essa altura já namora seriamente com Ifemelu, dá todo o incentivo para que ela vá, pois ele planeja ir para os Estados Unidos fazer pós-graduação depois de formado: assim, eles poderiam viver felizes para sempre no sonho americano.
O conto de fadas de repente vira drama. E nesse ponto creio que é importante dizer que o romance é semi-autobiográfico: a personagem Ifemelu segue praticamente os mesmos passos que Chimamanda deu no trajeto Nigéria-Estados Unidos. Ao chegar aos Estados Unidos, primeiro Ifemelu se depara com uma tia Uju estressada, trabalhando em três empregos para conseguir se sustentar e tentando revalidar o diploma de médica. Segundo, ela percebe que em um país predominantemente branco a raça é algo ultra valorizado, em uma escala em que os negros estão na parte mais baixa da pirâmide social. Bom, não vou dar o spoiler sobre essa questão, pois para mim é a cereja do bolo. Então, seguindo com o enredo, Ifemelu chega a Nova York, onde fica um tempo morando com tia Uju até as aulas iniciarem na Filadélfia. Chegando lá, ela não consegue emprego de jeito nenhum. Qualquer pessoa que viveu fora do país vai se identificar muito com as impressões e comentários dela.
Ifemelu entra em depressão quando sucumbe a um anúncio para “massagem relaxante” publicada por um professor de tênis. Sem dinheiro para pagar a universidade e o aluguel, ela acaba fazendo o serviço por 100 dólares. Em seguida, ela é contratada como babá por uma família branca e rica de um bairro nobre e rompe completamente com Obinze, não respondendo mais as suas mensagens e e-mails, envergonhada pelo que fez com o professor de tênis. A vida segue, Ifemelu namora primeiro um branco descrito como ricaço e bonitão da família que a contratou como babá e depois namorou seriamente um professor universitário negro-americano e ativista. Enquanto isso, Obinze fica deprimido na Nigéria, sem saber o que aconteceu com sua amada, mas segue a vida: tenta a sorte ilegalmente na Inglaterra, de onde é deportado, acaba ingressando no mercado imobiliário puxando o saco de um manda-chuvas local, torna-se super rico e se casa com uma negra linda com o perfil descrito antes: religiosa, tradicional e que acha que a função da mulher no mundo é achar um homem bem sucedido para lhe sustentar enquanto ela “dá conta da casa”. O tempo passa e, 13 anos depois de partir para os Estados Unidos, Ifemelu resolve voltar para a Nigéria. A essa altura ela mora junto com o professor universitário, publica um blog super famoso que aborda questões raciais nos Estados Unidos, tem o green card e ganha um bom dinheiro com isso. Ao voltar para a Nigéria, depois de terminar com o namorado americano, ela se depara com um país completamente diferente daquele que ela lembrava e um Obinze casado e com uma filha. A partir daí tudo se torna um dramalhão digno das piores novelas mexicanas. Ponto.
Agora, chego aos pontos positivos e negativos. O grande, grandíssimo ponto positivo é toda a reflexão que Chimamanda apresenta com Ifemelu sobre a questão racial e de imigração nos Estados Unidos. Há vários textos postados no blog que ela reproduz e que, creio eu, são os mesmos que a própria Chimamanda escreveu na vida real. Isso pega o período da eleição do Obama, então, tem um puta contexto histórico, pois é engraçado e triste ao mesmo tempo ver os personagens pensando que os racistas tinham sumido e não eram mais uma ameaça sabendo que em seguida o Trump se elegeu e os nazi-fascistas saíram do armário nos Estados Unidos e no mundo todo. Creio que vale a pena ler o livro – apesar da crítica que vem em seguida – por essa questão e pelo desenvolvimento dos personagens secundários, pois a história de tia Uju, Dike e de outros amigos de Ifemelu seguem se desenvolvendo ao longo das mais de 500 páginas do livro. Outro ponto interessante é que, assim como quando ela chega aos Estados Unidos ela percebe que a raça é uma questão importante para definir a posição social das pessoas, com um racismo visível, ao retornar para a Nigéria ela percebe que ninguém liga para a cor da pele dela.
E, mesmo na África, o branco fica em uma posição social superior no imaginário popular, pois quando Obinze começa a investir em imóveis um sujeito mais experiente dá a dica: arranje um amigo branco para lhe acompanhar, pois dá mais credibilidade. Lendo relatos como esses eu percebi que a humanidade ainda está há anos luz de chegar próximo de um desenvolvimento humano minimamente aceitável.
E o ponto negativo, que para mim seria facilmente resolvido com uma edição, é o romance mega e ultra clichê e, principalmente, o seu final piegas. Chimamanda fez mestrado em escrita criativa em Baltimore e acho que ela quis colocar em prática uma técnica narrativa que, na minha humilde opinião, é batida pra caralho, mas que ainda dá certo com as massas: o romance dramalhão com final feliz. Talvez por isso o livro dela virou best-seller, mas particularmente, esse excesso de romantismo me irritou um pouco. Se tirasse toda a questão da reflexão social e racial e ficasse apenas no caso de Ifemelu com Obinze o livro seria um fracasso total. Além disso, há outros pontos um tanto incomodativos na narrativa de Chimamanda, pois ela avalia todos os outros personagens, apontando defeitos morais, porém, ela descreve um Obinze completamente perfeito.
E, outra crítica, é que quase todos os ciclos frequentados por ela, na universidade americana e na Nigéria, são formados por pessoas descritas como lindas e ricas, sejam brancos, negros ou de qualquer outra etnia. Fiquei imaginando um mundo sem pessoas feias, gordas ou com “defeitos físicos”, nem pessoas pobres e miseráveis. Ela faz algumas referências, mas todas feitas completamente do lado de fora, de quem observa ao longe, por exemplo, feirantes apanhando da polícia em Lagos. E, como sei que Chimamanda é feminista ferrenha, também chamou a atenção o fato como ela tenta justificar o romance perfeito de Ifemelu e Obinze quando ela volta para a Nigéria. Obinze está casado e tem uma filha, porém, enquanto Chimamanda descreve outros casos extraconjugais como a tradicional caricatura da mulher piranha burra e do homem safado e sem vergonha, os dois personagens são endeusados com seus pensamentos e sentimentos puros, ou seja, todo o resto do mundo é podre e não presta, menos os dois bonitinhos que tem um amor de conto de fadas perfeito! Ifemelu corre atrás de Obinze, mas não é apresentada como uma piranha que vai tentar roubar o homem da outra mulher que tem uma filha, e Obinze se encontra todos os dias com Ifemelu, mas não é desenhado como o cachorro sem vergonha, porém, outros personagens em situações parecidas são criticados severamente pela autora. E, o final (se você não quer o spoiler, pare de ler aqui) é extremamente irritante, pois ele deixa a esposa e a filha para ser feliz para sempre com a amante (fiquei pensando ao terminar: bah, que feminista, heim?!).
Olhem só essa cena, em que Obinze está viajando: “Na última viagem de Obinze para lá, um homem assim, que ele mal conhecia, havia olhado por um tempo para duas jovens na outra ponta do balcão e lhe perguntou casualmente: ‘você tem uma camisinha sobrando?’ Obinze se afastara, chocado”. Ah, vá! Pobre Obinze! Super ingênuo... Chocado com isso, mas traindo a mulher às escondidas... Até fiquei com pena dele, pobrezinho, tão puro num mundo tão sem vergonha... Resumindo, ela tentou simplificar uma situação extremamente complexa e impossível de ser resolvida com a mágica literária, que são as paixões extraconjugais. Para esse tema, fico muito mais com Philip Roth e Henry Miller. Ficou uma sensação de: se os outros fizerem isso, os outros não prestam, mas se for eu, ah! eu sou especial, intelectual e romântico, escolhido por Deus e pela natureza, então, comigo é diferente... O meu amor com o/a outra é diferente. Porra, cada caso é um caso!
Enfim, achei esse e alguns outros pontos bem hipócritas – por exemplo, a série de julgamentos que ela faz dos negros americanos e dos próprios africanos que deixaram o país, criticando, por exemplo, os que adotam o sotaque americano, como se isso fosse um defeito ou um desvio de caráter. Ah, e quando ela critica excessivamente praticamente todos os outros personagens por terem mudado com o tempo. Achei isso extremamente bizarro, pois as pessoas mudam, gracias ao bom senhor!
Enfim, teria mais umas dezenas de páginas para falar sobre a obra, pois ela traz inúmeros pontos para diferentes e extensos debates, tanto sobre questões raciais quanto sobre relacionamentos amorosos, amizade, família... enfim, debates sobre a vida. Mas, esqueçam essas críticas, pois como disse em outro post estou ficando velho, chato e ranzinza. Leiam o livro – que é fundamental para pensar questões raciais em um mundo predominantemente branco e racista – e tirem as suas próprias conclusões. Para finalizar, apenas a lembrança do Meio Sol Amarelo que, na minha humilde opinião, é o melhor livro de Chimamanda. Leiam ambos. Hasta!

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A nenê e o mar


Fui hoje de tarde para Capão da Canoa com a minha nenê, Lary. É chocante as mudanças que ocorreram nela do ano passado, quando ela tinha oito anos recém completos, para agora, que ela está com nove. Porém, uma coisa continua a mesma: a conturbada relação dela com o mar.
Desde bem pequenininha, a minha nenê mantém uma relação de amor e ódio com o mar, com as ondas, com a água salgada e com os seres que vivem lá. Lembro dela com um aninho na praia do Cassino, em Rio Grande: eu tentava levar ela para a água e ela abria o berreiro. Queria ficar apenas fazendo castelinhos com o vovô Nabuco na areia. Porém, de repente, ela aceitava ir até a beiradinha para fazer buracos na areia, esperando as ondas mais fracas chegarem para enchê-los. Um ano depois, em Miami, ela não se intimidou com a praia americana e fez a festa sem muita resistência. De volta à nossa infame pátria, Lary foi crescendo, meus pais se mudaram para Xangri-lá (praia colada em Capão) e nos últimos anos, quando a gente vem passar praticamente as férias inteiras na casa deles, há um ritual que se repente. Nos primeiros dias, a Lary não quer saber nem de molhar os pés na água. Vai lá, olha os bichinhos que se enterram e que servem de iscas para os pescadores, e murmura um “que nojo!”, cheio de caras e caretas. Ano passado ela tinha arranjado uma amiguinha da idade dela. Pensei: “agora a amiguinha nova vai convencê-la a entrar no mar”. O pai da guria disse: “Fulana, convida a Larissa para entrarem na água”. E lá foram as duas, rumo ao oceano. Vi que elas pararam na frente do mar e começaram a conversar. A Lary gesticulava, mexia os braços, palestrava. A guria ouvia tudo, com a testa franzida, atentamente. Em poucos minutos as duas voltaram: a Larissa convenceu a guria de que os bichos eram nojentos e agora a amiguinha também não queria saber da água, para desespero do pai dela.
A cada verão, passados os primeiros dias, ela resolve entrar no mar comigo. Lá vamos nós e, rapidamente ela está pulando ondas. Em seguida mergulha e a partir de então brincamos, rimos, até que eu canso e digo: “vamos sair?”. Que nada. Não quer sair de jeito nenhum. E não quer que eu saia também. O curioso é que o mar, que é ao mesmo tempo herói e vilão, castiga: creio que nos últimos três ou quatro anos, pelo menos uma vez por ano, uma água viva raspou nela. E então é aquela choradeira e a promessa de que nunca mais vai colocar os pés nas águas salgadas do litoral gaúcho. Dessa vez a água viva atacou ontem. Mesmo assim, hoje, depois de passar pelo ritual do nojo dos bichinhos e dos peixinhos que estavam dando o ar da graça para os veranistas, ela esqueceu da água viva e logo estava brincando e pulando sem parar. Volta e meia ela se empolgava e dizia “o mar é legal!”. Porém, se vinha uma onda mais forte, ela se virava para o horizonte azul e berrava: “eu te odeio, mar!!!”. Aproveitei para curtir a minha nenê, pois o tempo passa rápido demais. Duas coisas me fizeram ver como ela está crescendo rápido e como estou ficando velho.
Primeiro, a pracinha. Até o ano passado ela brincava na pracinha do centro de Capão. Agora, quando chegamos lá, eu perguntei: “vai querer brincar na pracinha?”, ao que ela respondeu de bate-pronto: “nem pensar!”. Olhei para as crianças e, realmente, nenhuma era do tamanho dela. Fiquei desolado. Foi-se o tempo de levar a Lary brincar na pracinha... A segunda é que, também até o ano passado, na beira do mar, eu dizia: “olha lá umas crianças, quer brincar com elas?”, e ela respondia “sim, mas tu pede”, e então eu tinha que chegar lá e perguntar se a Lary poderia se juntar ao grupo que se banhava na beira da praia.
Agora ela passou dessa fase de sair brincando com crianças desconhecidas. Eu perguntei isso hoje, ao que ela respondeu: “eu não, nem conheço elas!”. Não me dei por vencido e disse que eu pediria, ao que ela me fitou com olhar de Garfield e respondeu: “vão pensar que tu é maluco!”. Óxi! Que soco no estômago. Ela está crescendo muito rápido! Nove anos! Ano que vem já vai estar com dez!!! Vocês sabem o que é isso? Acho que já comecei a crise dos quarenta com dois anos de antecipação... Poderia a infância dos nossos filhos passar em câmera lenta? Please?

domingo, 29 de dezembro de 2019

O teatro de Sabbath


Para mim, férias é sinônimo de leituras. Ok, leio o ano inteiro, mas nas férias consigo pegar romances mais densos, enquanto que durante o ano me dedico a textos mais curtos, pois às vezes fico três ou quatro dias sem ler devido a outros compromissos, se é que isso pode interessar a alguém... Assim, para servir de futura consulta sobre os livros que leio, compartilho aqui, com o leitor imaginário, as minhas impressões de algumas das obras, imediatamente após a conclusão da leitura, que é quando o enredo todo ainda está fresquinho na mente.
Terminei hoje “O teatro de Sabbath”, de Philip Roth. Como fiz com outras obras, vou escrever no estilo “banca de TCC, dissertação, tese”: primeiro vou apresentar os pontos positivos, descrevendo a porra toda, depois os negativos. Até estava pensando, ao concluir a leitura, que nota eu daria para a obra? Pensei em um 7,0: aprovado, sem louvor. Mas, na comparação com obras nota 10,0 ou nota 9,0, um 7,0 ficou exagerado. Portanto, fechei em 6,0. Mas não me levem a mal, acontece que quanto mais velho, mais rígido ficamos. É um bom livro, acreditem.
A narrativa gira em torno do personagem principal, Mickey Sabbath. Há um excessivo jogo temporal, ou seja, o tempo presente é Sabbath com 64 anos, em 1994. Porém, ele toda a hora volta para as etapas anteriores da vida, com lembranças e cenas narradas para terceiros. Além disso, Roth muda a toda hora a perspectiva da narração: um parágrafo está em terceira pessoa, do nada vira a fala de Sabbath e logo mais adiante passa a ser de outro personagem – tudo sem aviso prévio.  O melhor da obra, sem dúvidas, é o estilo niilista de Sabbath, meio Bukowski, meio Nietzsche. E, claro, a história toda gira em torno de sexo. Na verdade, o personagem é um obcecado por sexo: quase tudo gira em torno do coito. “Drenka, sua imunda e maravilhosa boceta! Case comigo! Case comigo!”. Também são boas as reflexões sobre a insanidade do matrimônio, o esfriamento do erotismo entre os casais, a busca por algo caliente fora, etc. “Uma esposa pirando feito uma sirene. A segunda esposa maluca. Será que existia outro tipo de esposa?”. Sabbath, aliás, é um artista completamente decadente: um titereiro aposentado. Chegamos, então, às histórias que compõem a narrativa.
Ok, alguns podem chamar de “estilo” literário, mas eu estou ficando ranzinza: quero as coisas organizadas e fáceis de serem entendidas. Pra que complicar? Ok, já estou antecipando vários pontos negativos, portanto, vou tratar de falar logo o que presta no livro.
Primeiro, o tempo presente. No tempo presente Sabbath está em um casamento falido e fodido com Roseanna e segue um romance de 13 anos com a amante, Drenka, também casada. Em síntese, Rose é uma ex-alcoólatra que está em fase de recuperação, frequentando os Alcoólicos Anônimos há quatro anos. Ela simplesmente não liga para as saídas do marido que passa se encontrando com Drenka, que por sua vez trabalha na pousada do marido, tudo em uma cidade próxima a Nova York, onde Sabbath passou a sua infância/juventude. Essa parte da narrativa segue até Drenka anunciar que está com câncer para, logo em seguida, morrer. Sabbath, então, entra em colapso e, a partir daí, são contadas as histórias de vários personagens, dentre eles as de Roseanna e de Drenka.
Rose, por exemplo, teve uma infância problemática sendo abandonada pela mãe e morando com o pai, que mantinha um relacionamento abusivo com a filha. Em outro trecho, Roth retrata o período em que Rose é internada e inicia o tratamento nos A.A. Na verdade, ela surtou porque Sabbath, que estava dando oficinas de fantoches na universidade local, começa um caso com uma aluna e as gravações das conversas deles se torna pública (isso num tempo pré-internet) quando a garota “esquece” o gravador com todas as ligações telefônicas no banheiro da universidade. Rose, então, surta e se interna. Essa cena toda, no entanto, é uma das melhores do livro. Ao sair do hospital, ela para de beber e adota outro estilo e vida. A única coisa que permanece a mesma é a indiferença dela em relação ao marido, que segue saindo para se encontrar com Drenka a qualquer hora do dia ou da noite.
O casamento de Sabbath com Rose, aliás, é o segundo. O primeiro é com Nikki, uma jovem que se apaixona no tempo em que ele ficava se apresentando na frente da Universidade de Columbia, em Nova York, quando ambos eram jovens e tinham cerca de 20 anos. Eles se casam e, nesse período Rose vira amante de Sabbath.
O troço vai indo até que um dia Nikki, uma bela jovem meio maluca, simplesmente desaparece. Sabbath nunca mais tem notícias dela. E, para esquecer, ele se casa com a então amante Rose e o novo casal vai para uma cidadezinha nos arredores de Nova York. Sintetizando a porra toda, tem a história de Sabbath com Drenka (é contada a história dela, do marido e do filho), tem todo o rolo com Nikki (que fica meio surtada após a morte da mãe, até desaparecer de vez) e tem o casamento com Rose (que Sabbath descobre que ela é meio “surtada”, não por culpa dele – que é um traste filho da puta – mas sim por conta do passado dela com o próprio pai). E, no meio disso, tem o próprio passado de Sabbath, que levava uma vida simples e alegre até o seu irmão mais velho ir para a Segunda Guerra, onde morreu em combate, quando Sabbath tinha 13 anos. Os trechos que falam sobre a morte do irmão de Sabbath, porém, são magistrais, pois quem já viu de perto uma família ser destruída pela morte de alguém jovem sabe do que ele está falando: os pais de Sabbath simplesmente desistem da vida, entram em depressão, e ele se torna marinheiro por um tempo para fugir daquilo tudo – inutilmente, pois os fantasmas de seu passado o perseguem até o fim da vida.
Bom, já me alonguei e já dei uma pincelada do enredo, mesmo havendo outros mil detalhes e histórias paralelas que não mencionei aqui, como o fato de Drenka ser ninfomaníaca, incentivada por Sabbath, que ficava morrendo de tesão ao ouvir as histórias que ela contava.
Penso eu que, pelo que escrevi aqui, temos uma puta história: vários personagens, que se entrecruzam, cheio de drama, suspense, humor, sexo, filosofia, reflexões sobre o cotidiano comuns a uma porrada de gente. Porém, Roth (que escreveu Marca Humana, da qual gostei bem mais) abusou das digressões longas e desnecessárias. O livro tem 535 páginas (edição da Companhia de Bolso), mas poderia ter tranquilamente umas 300 ou até mesmo 250. Há um excesso de cenas longas em que não acontece porra nenhuma, sem nenhuma reflexão mais importante e sem uma ação que mude os acontecimentos dos personagens. Vou citar apenas uma, que quase me matou de tédio: o período em que Nikki quer ficar ao lado da mãe morta, adiando ao máximo o seu enterro. São longos parágrafos em que Sabbath quase morre de tédio e em que Roth quase mata o leitor com o mesmo veneno. Outro exemplo: quando Sabbath surta andando por Nova York. São dois ou três longos parágrafos com palavras aleatórias para mostrar que ele surtou. Ok, pode parecer um belo recurso literário, mas porra, com todos os livros que eu pretendo ler até o fim da vida, não quero ficar 10 minutos lendo palavras sem nenhum sentido.
Um parágrafo curto bastava para o leitor entender que ele estava surtado...
Enfim, Roth já morreu, a obra está feita e ficou do jeito que está. Sigo gostando do estilo dele, porém, esse é um livro que eu recomendaria para um público bem específico, que se identificaria com o personagem: homens de meia idade ou mais que têm ou já tiveram um (ou mais) relacionamento fodido e que, de certa forma, já desistiu de tentar encontrar um sentido na vida.
Por tudo isso que ponderei, acho que 6,0 é uma boa nota para o teatro de Sabbath. É uma opinião bem pessoal, pois não faço aqui uma pesquisa com apontamentos de técnicas narrativas e o caralho a quatro. Isso você acha de sobra nessa zona chamada internet. spolier, mas esse não é o ponto principal do final do livro. Isso mostra, a meu ver, uma fantasia dos próprios autores que acharam que estavam sendo super originais ao criar essas cenas, quando na verdade – lendo pela segunda vez esse tipo de episódio em livros com o mesmo estilo – estavam sendo bem clichês e, de certa forma, patéticos: quer algo mais comum e previsível do que um fetiche de um homem ver duas mulheres fazendo sexo? Ou será um machismo enrustido: os personagens tinham várias amantes, mas as mulheres só podem ter amantes mulheres? Por que Henry Muller e Philip Roth não botaram as mulheres dos personagens dando de quatro na cama do casal? Por que colocar elas com outras mulheres? Elas não podem curtir também um sexo bem pegado fora do casamento com alguém do sexo oposto? Digressões, digressões...
Poderia-se, por exemplo, relacionar a ideia do titereiro com a da manipulação que Sabbath acaba fazendo dos outros personagens, especialmente as mulheres - mas não só elas. Ah, e uma das cenas finais é muito semelhante ao que acontece em Sexus, do Henry Muller. Não sei se pode ser chamado de plágio, mas talvez caracterize uma obsessão de velhos escritores homens com a temática: tanto no Sexus, quanto no livro sobre Sabbath, depois dos personagens foderem com tudo e voltarem para casa, eles pegam as suas esposas com uma amante mulher na cama. Ok, é um pequeno
É, acho que estou definitivamente virando um ranzinza. Talvez um dia eu chegue ao nível da rabugentice e da cretinice de Sabbath. Mas, até lá, tenho muito o que curtir da vida e muitos outros livros para ler. Em breve, posto mais, para o meu querido leitor imaginário.
Hasta!

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Tudo pelo Grêmio


         
Rodolfo Alfredo e Ronaldo Fronza eram amigos de infância. E gremistas. Fanáticos. Na tarde anterior ao jogo Flamengo x Grêmio pela semifinal da Libertadores, Rodolfo ligou para Ronaldo:
- Alô Ronaldo!
- Fala meu brother!
- Seguinte: precisamos conversar.
- O quê houve? Cara, hoje tem o jogo... – tentou argumentar Ronaldo.
- Então. O Grêmio corre perigo.... – murmurou Rodolfo, com voz trêmula.
- Tu já tá bêbado?
- Não, cacete! Olha, vai lá no bar do Zé agora mesmo que te explico.
- Ok, ok. Em 15 minutos estou lá.
            Chegando ao bar, Ronaldo se deparou com olheiras escuras no rosto do amigo, garrafa de litrão já pela metade e uma carteira de cigarros recém aberta.
            - O que aconteceu, maluco? Olhei todos os sites antes de vir e não achei nada sobre o Grêmio correr perigo...
            - Senta aí – apontou Rodolfo – Tenho que te contar uma coisa... E não sei o que fazer...
            Ronaldo sentou, serviu um copo de cerveja, e ouviu.
            - Lembra da vitória contra o Athlético na Copa do Brasil 2016? Início da trajetória do Renato?
            - Claro, lembro... O que tem?
            - Então, naquele dia, mais ou menos umas três horas antes do jogo, eu estava deitado na cama e a Joana veio vestida de camisola azul, toda dengosa para o meu lado...
            - E daí, cara, ela é tua mulher.... Às vezes elas fazem isso...
            - Escuta, rapaz! É muito importante!
            Ronaldo olhava para o amigo, sem entender nada. Achava que ele tinha pirado de vez. Ou que tinha comido bolo de maconha escondido da mulher, como da vez que ele encucou que queria entrar no mar de madrugada numa noite de inverno...
            - Naquele dia fizemos um sexo legal... – falou Rodolfo, meio constrangido, pois nunca falara sobre intimidades envolvendo a esposa com ninguém...
            Os dois beberam o resto do copo de cerveja e serviram novamente, até a borda.
            - Lembra como ganhamos? – perguntou Rodolfo.
            - Ô! E como! A ressureição de Grohe!
            Brindaram.
            - Pois é. Curiosamente, algumas horas antes do jogo contra o Palmeiras, a cena se repetiu: ela vestiu a mesma camisola azul e veio ronronando na beira da cama... Lembra o que aconteceu?
            - Porra! Como esquecer do gol salvador do Cebolinha no final!? Quase enfartei!
            - Então, quando chegou o jogo contra o Cruzeiro, eu pedi para ela vestir a mesma camisola, no mesmo horário, e trepamos novamente. E o mesmo contra o Atlético-MG na final...
        
    Ronaldo começava a ficar nervoso.... Não é que aquela estava sendo mesmo uma fórmula de sucesso? Acabaram a cerveja e pediram mais uma para o garçom. Silêncio reflexivo até o sujeito voltar e servir os copos até a borda. Tomam um longo gole antes de Rodolfo prosseguir.
            - Lembra a classificação contra o Godoy Cruz? Depois Botafogo? Depois Barcelona? E a final????
            - Claro que lembro, homem!!!!
            - Então, diabos!!! Em todas elas nós transamos! E em todas a Joana estava com a camisola azul!!!! E em todas foi antes do segundo jogo!!!!
            - Caralho. Mas e na eliminação da Copa do Brasil para o Cruzeiro?
            - Aí que está!!! Nessa vez, como a Joana viajaria no segundo jogo, transamos antes do primeiro. O Grêmio venceu, achei que estava tudo certo, mas aí veio a derrota no tempo normal e a eliminação nos pênaltis. Ou seja, só funciona se for antes do segundo jogo!!!
            - Cacetada! Mas e ano passado? Contra o Flamengo na Copa do Brasil e contra o River na Libertadores???
            - Contra o Flamengo ela estava menstruada... E disse que era bobagem, que era loucura da minha cabeça... Deu no que deu...
            - E o River?
            - Foi pior. Tínhamos brigado porque eu tinha chamado a mãe dela de vaca.
            - Mas a mãe dela é uma vaca....
            - Eu sei, porra! Mas essa não é a questão. A questão é que, mesmo eu implorando, ela não quis saber. Achei que o efeito seria quebrado até o Bressan meter a mão na bola e o VAR validar o gol de mão dos argentinos...
            - E o Real Madrid?
            - Tu não Lembra? Nós viemos aqui para o bar do Zé de manhã! Eu estava tão nervoso que nem lembrei... Só depois que o Cristiano Ronaldo fez o gol, mas aí já era tarde...
            - Caralho! Então foi tudo culpa tua e da Joana!
            - Agora não importa. Antes da final do Gauchão desse ano, trepamos e ela com a camisola azul. O mesmo rolou nessa Libertadores contra o Libertad e o Palmeiras... Já contra o Athlético-PR eu não resisti às preliminares... acho que foi isso...
            - Porra, e por que tu está aqui e não está na cama com ela agora, caralho??!!
            - Ela foi viajar...
            - Viajar!!???
            Rodolfo suspirou, desolado e culpado.
            - Sim, viajar...
            - Pra onde????
            - Pra Manaus. Congresso de odontologia.
            Ronaldo olhou para o relógio, suando...
            - Puta que pariu, Rodolfo! Que vacilão!!! Você acabou de eliminar o Grêmio!!!
            - Calma... calma...
            - Calma é o caralho!!! Como você deixou ela viajar num dia como hoje, em que o Grêmio precisa de vocês????
            - Ela me persuadiu... Disse que é bobagem... Sugeriu até para eu pegar a camisola azul e bater uma punheta nela... Vai que dá...
            - Não! Não! Mil vezes não!!!! Você vai ter que fazer alguma coisa pelo Grêmio, Rodolfo!
            - O quê? Não tem nem como eu pegar um avião para Manaus agora e chegar a tempo...
            - Vai ter que comer alguém.... E ela vai ter que usar a camisola azul...
            Rodolfo arregalou os olhos. Nunca havia traído a mulher em 10 anos de casamento. Ronaldo sentiu a hesitação do amigo.
            - É pelo Grêmio!
            Inseguro, Rodolfo murmurou:
            - E-e será que vai funcionar?
            - Só nos resta tentar!!!
            - E como eu vou arranjar alguém para comer a essa hora????
            - Puta. Zona. Qualquer coisa!
            - Eu nunca paguei e nunca vou pagar para comer alguém! Tenho minha honra! – gritou Rodolfo, dando um tapa na mesa, chamando a atenção dos que estavam por perto.
            Ronaldo suspirou.
            - Caralho, você que se colocou nessa situação! É isso ou o Grêmio está eliminado – decretou Ronaldo.
            - Mas aí vão saber que é falcatrua... – ponderou Rodolfo, pensativo.
            - Quem vai saber?
            - Sei lá! Deus, Jesus, o Capeta, Alá... Quem está fazendo essa brincadeira comigo e com o Grêmio, caralho! Não temos como enganar eles pagando uma puta...
            Os dois pareciam derrotados, até que Rodolfo tomou um longo gole da terceira cerveja de litro que recém havia pousado sobre a mesa, e perguntou:
            - E a Márcia?
            Ronaldo arregalou os olhos. Um frio passou por todo o seu corpo, cruzando pela espinha dorsal, fazendo a volta pela barriga até descer nos bagos.
            - A Márcia?
            - Sim, a Márcia...
            Ronaldo tomou o copo cheio em um gole e ficou encarando o amigo.
            - É a nossa única chance... – murmurou Rodolfo.
            Ronaldo ligou para a mulher e disse que ele Rodolfo estavam indo para casa para resolver uma questão de vida ou morte.
            Meia hora depois, o trio estava reunido na sala. Ronaldo dizia para a própria mulher que era por uma boa causa: afinal, ele lhe devia uma traição da vez em que ficou com a prima da Márcia no início do namoro. Ela perdoou, mas nunca esqueceu. Essa era a chance de todo mundo ficar quites e o Grêmio sair classificado.
            - Eu não tenho coragem de fazer isso com a Joana!! – gritou, finalmente, Márcia, amiga e confidente da mulher de Rodolfo.
            Os dois amigos se olharam. Ronaldo sugeriu:
            - Caro, você sabe o que tem que fazer...
            Rodolfo suspirou, pegou o telefone e ligou para Joana. Depois de meia hora de resenha, chegaram a um consenso: ele poderia emprestar a camisola azul para a Márcia e trepar com ela se ele permitisse que ela, Joana, ficasse com o palestrante galã que estava dando em cima dela lá em Manaus desde o início do evento. Negócio fechado. Tudo pelo Grêmio.
         
   Assim, Rodolfo foi em casa e buscou a camisola azul. Ronaldo ia ficar uma hora no bar do Zé enquanto eles davam a última cartada na tentativa de salvar o Grêmio. Aquela seria uma noite inesquecível para todos. Mesmo se salvassem o Grêmio, será que eles se salvariam? Essa foi a pergunta que Márcia fez assim que viu Rodolfo entrando no quarto com uma cueca azul, preta e branca. Ele olhou para o teto, encarou-a, e respondeu calmamente:
            - Claro que nos salvamos. Dando ou não dando certo com você, vou ter que fazer esse ritual com a Joana toda a vez em que tiver um jogo de mata-mata do Grêmio, até o fim de nossos dias. Ou então, nunca mais seremos campeões. Ele se aproximou dela, tirou a cueca, e fizeram o que tinha que ser feito.

FIM

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A triste sina de uma presidenta


*Essa é uma história totalmente ficcional. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 
** Não recomendável para menores de 18 anos.

Ela era horrível, feia e burra. Tinha cabelos esbranquiçados que tentava esconder pintando-os de preto. O bafo evocava cheiro de esgoto e merda de gato. Ria de todo mundo, tirava onda, dizia que queria a morte das inimigas. “Tomara que a vaca da Dolores morra de câncer!”. “Tomara que a bruxa da Lurdes perca o neto!”. “Tu viu o vestido roxo ridículo da Felícia ontem de noite?”. Uma legítima megera, horrível, cafona, desprezível e velha que gostava de rir dos outros sem se olhar no espelho. Antes de chegar ao topo, ninguém a suportava e, por isso, às vezes ela passava por crises psicológicas que a marcaram profundamente e que reapareceram mais tarde, quando todos, por puro interesse, puxavam-lhe (literalmente) o saco. Mesmo sendo uma nigromante mentecapta, estava no terceiro casamento. Em todos os casos, os homens que a levaram para o altar não tinham colhões para negar a uma proposta de vida boa com o trabalho que ela mantinha como política da terra do nunca. Colhões, aliás, que ela tinha de sobra. Gostava de humilhar os seus maridos em público, bem como os três enteados que ela teve, pois devido a sua condição genética não podia engravidar. A relação com os três era sádica: xingava, zombava deles, reforçava os apelidos que eles recebiam na escola, dizia para eles não chorarem pois pareciam mais mariquinhas que ela mesma, dava tapa no ouvido. Por outro lado, ela dava de tudo para eles. E o que sobrava ia para a enteada caçula, que ficava escondida em casa, sendo criada para servir a algum marido macho e viril que a usaria apenas para procriar – como um touro faz com uma vaca. Assim, todos eles cresceram com sérios problemas psicológicos: ora eram inseguros e cagalhões, ora eram legítimos playboys que sabiam que tinham a madrasta perua e psicótica para lhes defender. Graças as suas relações políticas, quando os três patetas cresceram, conseguiram ótimos empregos (um até trabalhou fritando hambúrguer na terra do Tio Sam). Isso enchia as inimigas de inveja. “Quero só ver a cara da Lurdinha quando ela souber que o Nenê tá nos States! Rá-rá! Não perco por nada essa cena, menina!”. Tinha dupla personalidade: às vezes seu lado masculino aflorava, falava grosso, enxia o peito, franzia a testa e espalhava o medo em quem estivesse por perto – inclusive no marido. Outras vezes, era uma mocinha delicada, que empinava o rabo enrugado como uma gata no cio pra conseguir o que queria. E noutras, descia das tamancas: tinha chiliques e desmunhecava para ofender as inimiga. Os dois primeiros maridos não aguentaram e partiram. Já o terceiro... Aguenta tudo: a piada dos amigos, a oposição da família, a loucura sádica dos filhos. Ela não fez nenhuma força de esconder da imprensa e dos amigos o caso que teve com um americano: um famoso e rico empresário. Primeiro, foram flagrados jantando em um restaurante chique em Rio de Setembro, onde cumpria mandato. Depois, inventou uma viagem para os Estados Unidos onde foram vistos entrando em um motel. Mesmo com fotos e vídeos, ela negava tudo. E dava porrada no marido pra ele dizer que aquela não era ela. Porém, o empresário americano, igualmente sádico, filmou alguns de seus encontros eróticos e postou tudo no Xvídeos, Xmaster e outros Xs. Em um, é possível vê-la com seus cabelos esbranquiçados e mal pintados curtos, suas orelhas pontudas e bunda enrugada de costas para a câmera enquanto faz um belo de um boquete no americano. O gringo, grisalho, gordo e escandaloso, geme e grita “oooh, baby!!! Yesss baby!! Yessssss”. Então, ele para tudo, pega o celular, e filma ela se lambuzando com todo o seu grosso leite de potro cobridor de fêmea envelhecida. Fica com a cara toda esbranquiçada, de boca aberta, dizendo “I love you, big bastard!”. Em outro, o empresário gordo está sentado na beira da cama, ela vem rebolando a sua bunda grande, branca e enrugada enquanto toca um funk evangélico, até sentar em seu membro duro. Então, ela rebola e rebola e rebola até que ambos têm um gozo longo, prolongado e nojento. Parecem dois porcos grunhindo. Apesar dos vídeos, ela nega, o empresário não fala com a imprensa e o marido diz que foi montagem. Coisa da oposição, sabe como é? Né? É. Ela foi eleita recentemente ao cargo mais importante do país, uma ilha chamada Bozolândia, localizada a alguns quilômetros da costa chilena, Pacífico adentro. Nesses últimos dias ela anda meio adoentada: resolveu finalmente fazer a cirurgia para troca de sexo. Foi uma forma de punir o marido, que gostava do troca-troca. Um dia, ela surtou e, segundo os vizinhos, gritou para todo mundo ouvir: “Agora você não vai mais ter minha piroquinha, tá bem, meu bem!? Agora você só vai poder me comer!!!! Rárárárá!!!!”. Um deles gravou tudo com o celular. O argumento que foi tudo montagem, novamente colou para o eleitorado da presidenta. Parece que deu problema na hora da cirurgia e o troço infeccionou. O médico da boca torta olhava para o lado e espirrou e saltou um de seus dentes amarelados dentro do buraco. Ele não viu e deixou o dente lá dentro, que causou uma infecção bacteriana aguda. O último boletim do médico da boca torta diz que ela está em coma. Pobre Bolsonara. Ela era uma péssima pessoa, mais feia que o diabo e mais burra que uma topeira acéfala, mas mesmo assim, vai causar dor na sua legião de seguidores que a escolheram para representar todos os seus sentimentos sujos e obscuros reprimidos. Eu, como conheço muitas dessas pessoas, sinto pena, pois ficarão órfãs e dificilmente vai aparecer algo tão bizarro e desprezível na história da humanidade para ocupar o seu lugar.


Ilustração de  Butcher Billy

sábado, 24 de agosto de 2019

O gato sem bolas


Eu acabo de ler
Um poema do velho Buk
Sobre um gato
Que lambia
As próprias bolas

Quando termino a leitura
Levanto a cabeça
E vejo o meu gato
Que lambe o lugar
Onde as suas bolas
Deveriam estar
Mas que infelizmente
Alguém
As arrancou
Dali.



sábado, 17 de agosto de 2019

Hasta la vista, Burgos!



Além da visita aos tios Ella e Xema e ao primo Alex, a visita a Burgos também foi ótima porque me permitiu conhecer a uma cidade do interior da Espanha que foge um pouco daqueles roteiros turísticos tradicionais feitos por brasileiros na Europa (Paris, Roma, Madrid, Paris, Londres, etc). E, para você conhecer melhor qualquer país, é importante conhecer o seu interior. Esse foi um dos motivos que fez com que eu reservasse alguns meses dos 12 que tive nos Estados Unidos para passar por cidades que estão fora da rota turística americana, como Holcomb, no Kansas, e Louisville, no Kentucky. É nessas cidades que você conhece, de fato, o povo de determinado país. Assim como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador são apenas um pedaço do Brasil bem menor do que a soma das cidades de interior e Porto Alegre não representa em quase nada o Rio Grande do Sul (quem quer conhecer o estado politicamente mais atrasado do Brasil nesse primeiro terço de século, tem que ir para Santo Ângelo, Bagé, Uruguaiana, Passo Fundo, Frederico Westphalen, Lajeado, Pelotas, Rio Grande, Seberi, Catuípe, Santa Rosa, Cruz Alta, Caxias, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa, Vacaria, Santo Cristo, Alecrim, etc). Foi o que meu amigo gremista Henrique disse certa vez no Smithfield, em Nova York, vendo um jogo do Grêmio: “Cara, se tu só conhece Nova York, tu não conhece os Estados Unidos”. E, penso eu, que a Espanha, também, vai além de Madrid e Barcelona. I mean, o povo espanhol, assim como de todos os países, é representado ao mundo pelas grandes cidades e capitais, mas a sua essência, o seu coração, a sua alma, está no interior.
Enfim, chega de enrolação, se você não entendeu o que estou querendo dizer ou não concorda, vamos trocar uma ideia qualquer hora... Pois teria muito mais a falar sobre isso. O fato é que foi graças a essa passagem por Burgos, no norte da Espanha, uma cidade de 176 mil habitantes (em termos de população, menor do que Passo Fundo) que conhece um pouco melhor o país. Essa é um lugar que une tudo de bom que uma cidade pode ter: infraestrutura, história milenar, movimento, vida noturna agitada, gastronomia própria, cultura forte, áreas verdes, etc. É uma cidade europeia, por supuesto, então, é claro que é meio ridículo você querer comparar uma cidade brasileira com uma europeia ou americana apenas pela questão da população.
Um dos lugares mais impressionantes de Burgos – e da Espanha, penso eu – é a sua belíssima catedral. Não vou contar aqui a história dela, pois para isso tem toda a web, mas realmente quando você a vê, impressiona. A tia Ella falou algo que faz todo o sentido: “Ela não perde em nada para Notre-Dame, porém, os franceses souberam vender melhor a igreja do velho corcunda para o mundo”. Eu acrescentaria que, o fato de estar em Paris e de ter sido palco de um dos clássicos da literatura universal, também ajuda. Ambas são grandiosas e contam com uma puta história, mas, sob o ponto de vista arquitetônico, realmente a de Burgos é até mais imponente que Notre-Dame (impressão pessoal). Dentro da catedral (ou ao lado, não lembro bem) o presépio em miniatura (um dos maiores da Europa) impressiona religiosos, ou não. Eu ando me questionando ultimamente sobre as minhas próprias crenças religiosas que já nem sei mais dizer no que acredito ou não (mas isso é tema para outro post). Também visitamos os mosteiros de Burgos, seculares, e que te fazem viajar no tempo, além do centro histórico, parques, etc.
Parte interna da catedral
 Presépio

Mosteiros de Burgos

Enfim, encerro essa narrativa sobre a nossa passagem por Burgos deixando a dica: se você vai passar pela Espanha, cogite visitar a cidade de Cid, da catedral maravilhosa e de clima agradável e acolhedor (espiritualmente falando). E, lógico, só tenho a agradecer aos tios Ella e Xema pela oportunidade, pois Burgos só entrou na nossa rota de mochilão europeu graças a eles. Hasta la próxima!