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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Dudu has a cold

De uns tempos pra cá, toda a vez que algo me delimita fisicamente fico pensando: carajo, o que somos nós? O que significa estarmos dentro desse monte de carne com ossos frágeis que de uma hora pra outra simplesmente estraga e para de funcionar? Já li alguns livros espíritas, de Alan Kardec e Chico Xavier, por exemplo, mas esse não é o ponto que quero tocar – apesar de estar diretamente ligado à teoria espírita, que prevê justamente isso: você precisa cuidar do seu corpo, pois sem seu corpo você não faz nada. Também esse é o princípio do cuidar de si da Grécia Antiga: você precisa, primeiro, cuidar de si para depois cuidar dos outros. Eu sei, eu sei.. já li muito sobre isso (e algumas dessas coisas foram parar em minha tese de doutorado). E concordo plenamente, pois no momento, por exemplo, estou gripado. Uma daquelas gripes fortes. Tipo a que derrubou Frank Sinatra, impedindo que Gay Talese o entrevistasse e obrigando o jornalista a conversar com as pessoas próximas ao músico para escrever a clássica reportagem literária “Frank Sintra has a cold”. E esse é o ponto aqui: o poder da gripe.
Depois de uma semana no Intercom em Curitiba, de 10 horas dirigindo de ida mais 11 horas dirigindo na volta (com problemas mecânicos) eu simplesmente desabei. Definitivamente, a idade começa a chegar (para os novos, isso parece perfeitamente crível, e para os mais velhos é puro exagero). Desabei de cansaço somado a uma gripe federal. E, todos os planos que tinha para os primeiros dias da semana, foram por água abaixo. Simplesmente não consigo pensar. Não muito mais do que está saindo agora dos meus dedos para o teclado e para a tela do computador. Queria adiantar a preparação de algumas aulas, mas nem pensar. Os alunos me convidaram para o futebol, tive que dispensar. Academia? Sem chances. No máximo, assisti alguns episódios de Californication na Netflix (anotação mental: escrever sobre essa série qualquer hora) e a leitura lenta de algumas poucas páginas de “Crônicas do golpe”, do Felipe Pena, que comprei lá no Intercom. Fora isso, apenas sono, cansaço, dor no corpo, dor de garganta, tosse incessante, nariz entupido e o caralho a quatro.
Até recebi uma boa notícia: a inclusão de um capítulo escrito por mim e pelo Felipe Pena (UFF) em uma coletânea internacional de jornalismo gonzo. Eu sinceramente tinha desistido da ideia, depois de várias solicitações de alteração por parte dos editores. Então, abro o email e vejo que eles aceitam publicar, apenas fazendo algumas correções do inglês e a colocação nas normas de uma entidade, defensora das normas e dos bons costumes textuais, americana. Sem condições de pensar em fazer isso (e imaginando qual seria a resposta se eu solicitasse ao Pena: “um livro gonzo não pode ter tantas regras”), acabo por pedir esse pequeno gigantesco favor ao meu amigo Ron Whitehead, de Lousiville (KY, US) amigo de Thompson, enquanto ele foi vivo. Obviamente, aproveitei para deixar ele a vontade para acrescentar o que quisesse. Fiz isso certo de que não obteria resposta, ou que ela viria negativamente, mas para a minha surpresa, ele topou. Quem tem amigos, tem tudo. Assim, teremos Felipe Pena, Ron e eu, um capítulo de um livro internacional sobre jornalismo gonzo publicado em breve (assim espero).
Mas voltando ao ponto, ou melhor, à gripe, cada vez que algo mais forte compromete a minha saúde, fico pensando: caralho, o que somos nós? Às vezes me acho muito esperto, inteligente, forte, perspicaz e o caralho. Porém, de repente, vem uma gripe e PÁ, te derruba e reduz você a nada. Nadica de nada. Você não consegue pensar, não consegue se empolgar, não consegue acordar direito, não consegue ir na farmácia comprar remédio para a gripe sem se sentir um sujeito de 90 anos, não consegue prestar atenção no que falam, não consegue ter paciência, não consegue.. não consegue.. não consegue!! Agora entendo Frank Sinatra. Eu sempre o culpei. Assisti Gay Talese falando na NYU e achava que o músico negou a entrevista por estrelismo, por arrogância. Mas se a gripe dele foi como a minha, eu o entendo perfeitamente. Você não quer fazer absolutamente nada quando está assim. Faz as obrigações mínimas e escreve um texto inútil como esse, num dos raros alívios provocados pelos remédios, mas isso é o máximo que você consegue fazer. Você gostaria de ir à academia, gostaria de estar inspirado e empolgado para convidá-la para sair e conversar como você fazia num passado não tão distante, você queria jogar bola, você planejava escrever mais alguns capítulos daquele livro que você talvez nunca publique porque contém cenas inenarráveis, você sonhava em preencher 15 páginas em branco com ideias acadêmicas brilhantes e geniais (ao menos para você) para serem publicadas um ano depois em uma revista acadêmica, enfim, você tinha mil planos para um ou dois dias e... de repente... eles se vão. Capuft! Já era. A gripe veio e a sua inspiração, força, capacidade de raciocínio lógico, de paciência, de esperança, enfim, tudo foi pro brejo e você só espera terminar a digestão da janta para poder deitar sem sofrer com a esofagite... Caralho, que merda.
O fôlego se foi. A digestão está quase feita. Foda-se. É isso.

PS: esse texto teve a trilha sonora de Three Original Hit Recordings (youtube), de Sinatra, e muitas tosses.

2 Comentários:

  • Boa noite ex professor. Digo ex porque do jeito que tu fala parece que a gripe vai te mata. Não creio nessa gripe te derrubando. Faz assim: "perpara" um charope de limão com casca e tudo, canha e mel aí. E toma em doses generosas. A gripe eu não sei se termina mas pelo menos tu vai achar graça de estar gripado. Te garanto!
    PS Quero um exemplar do livro gonzo onde constará teu texto. Grande abraço. Marcio

    Por Blogger Márcio, às 12 de setembro de 2017 19:06  

  • Somos 2 gripados, com as mesmas sensações. Te consola comigo. Uma semana de repouso, dormindo sentada para poder respirar. Mas vai passar, como dizia minha mãe, tua madrinha. Como sempre, texto excelente. E não vou comentar sobre o livro do golpe; já li um sobre isto, e tu conheces minhas idéias. Com golpe, sem golpe, nós, o povo, vamos tomando na cabeça, seja quem for o idiota que esteja na cadeira de presidente da nossa triste república. Abraço.

    Por Blogger Lorení D. Corte, às 17 de setembro de 2017 15:35  

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