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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O quarto de Giovanni

 


Terminei de ler ontem O quarto de Giovanni, de James Baldwin. Bom, antes de mais nada, este texto nada mais é do que um resumo para eu consultar no futuro, quando não lembrar mais de nada do que terminei de ler ontem — ou seja, contém spoiler pra caralho. Dito isto, tenho algumas considerações sobre o que é escrito por aí sobre esse livro para, depois, falar mais especificamente dele.

Tanto na orelha quanto na contracapa, assim como no site da Companhia das Letras, o livro passa a visão de que se trata de um romance “gay”. Do jeito que encontrei as sínteses por aí, imaginei que fosse uma espécie de Pedro Juan Gutiérrez versão homossexual, com descrições de relações sexuais, putarias etc. Não tem nada disso. E sequer considero que seja um “clássico da literatura gay”, como costuma ser dito. O enredo até poderia nos levar a crer nisso: a história principal envolve David, o protagonista-narrador, Hella, sua noiva, e Giovanni, com quem David se envolve. Os dois primeiros são americanos; o terceiro, italiano. O romance inteiro se passa na França, em grande parte em Paris.

Mas, na verdade, trata-se de um romance com personagens complexos, que não foca especificamente na questão da sexualidade, como me fizeram crer. Não há nenhuma descrição explícita de cenas de sexo. Quando há algo do tipo, o narrador menciona um beijo e corta por aí, dando a entender que os personagens treparam. E é isso. Os dilemas de relacionamento descritos não são exclusivos de relações “gays”, como fazem parecer as resenhas da editora e da internet. São dilemas comuns a qualquer relacionamento. Mas vamos à história.

Assim como Baldwin, David tem problemas com sua família, que está nos Estados Unidos. A mãe faleceu cedo, e o relacionamento com o pai e a madrasta é conturbado. Inclusive, um dos motivos para partir para a Europa é ficar longe do pai e buscar liberdade, naquela fase boa da vida que vai mais ou menos dos 25 aos 30 anos. Pelo que dá para entender, ele conhece Hella já estando na Europa e fica noivo dela. Em determinado momento, ela parte da França para a Espanha para pensar no pedido de casamento feito por David, que logo no início já admite que havia tido uma relação sexual com um jovem nos tempos de escola.

Hella fica muito tempo na Espanha — tipo, meses — e David está quebrado, sem grana. Então, ele procura Jacques, um velho homossexual que conhecera anteriormente, para pedir apoio financeiro. Jacques é peculiar: adora ajudar, mas também gosta de ser cruel. Assim, ele dá uma força a Giovanni que, mesmo não gostando do velho, acaba tendo que sair com ele (no sentido de dar voltas, não de fazer sexo, seu obsceno leitor). E, numa dessas andanças, David conhece Giovanni, que trabalha em um bar alternativo dos anos 1950 (época em que se passa a história), cujo proprietário é Guillaume, outro velho homossexual.

O livro não é longo, então há cenas de um único dia ou noite que se estendem bastante, enquanto outras são narradas bem por cima. Uma das cenas longas é justamente essa noite em que David conhece Giovanni e, depois, os dois saem com Jacques e Guillaume quando o bar fecha, indo tomar café da manhã em outro lugar. Até ali, tanto para Jacques quanto para Guillaume, David era apenas um heterossexual dando voltas enquanto a noiva viajava, mas todos percebem que surge um clima entre ele e Giovanni.

Vale mencionar também que, desde o princípio, o narrador já conta que, ao final, Giovanni cometeu um crime e é condenado à guilhotina (sim, fui descobrir que a pena de morte por decapitação vigorou na França até o início dos anos 1980!). Mas o motivo não é revelado de imediato. Baldwin faz aquele jogo temporal clássico, alternando passado, presente e futuro. Mas, para não me alongar, sigamos.

David continua quebrado, o pai reluta em mandar dinheiro porque quer forçá-lo a voltar aos Estados Unidos e, sem grana para pagar o aluguel do hotel onde mora, ele acaba indo viver no quarto de Giovanni — um quartinho pequeno, acanhado, sujo e bagunçado. Como era de se esperar pelo título, o quarto é um elemento marcante da história. Assim, David passa a viver como um casal com Giovanni, que trabalha no bar, enquanto ele fica no quarto, imerso em suas confusões mentais.

Certa tarde, David, sem nada para fazer, sai e encontra uma conhecida. Eles conversam e acabam indo para o apartamento dela para trepar. Quando volta, encontra Giovanni completamente alterado, em crise de ciúmes. Depois de se acalmar, Giovanni conta que foi demitido porque não quis trepar com Guillaume, que ainda armou uma cena na frente dos clientes, acusando-o de ter roubado o bar. Começa, então, um novo drama: Giovanni fica transtornado, com crises de ciúmes constantes, e David passa a querer sair dali de qualquer jeito, até porque Hella está voltando.

Giovanni é dramático e faz aquelas cenas do tipo “eu vou morrer se você me abandonar, promete que fica comigo pra sempre?”. Mas Hella chega, e David vai encontrá-la e, literalmente, abandona Giovanni. Depois há um encontro bizarro entre Jacques, Giovanni, David e Hella, e mais um momento dramático quando David volta ao quarto para pegar suas coisas. Enfim, David acaba ficando com Hella, enquanto Giovanni, sem ter onde cair morto, cede à situação e passa a ficar com Jacques por interesse, além de se juntar a grupos que antes ele e David criticavam por serem muito esparafatosos.

Já falei demais, então vou resumir o final: Giovanni vai pedir emprego novamente a Guillaume que, pelo que entendi, depois de transar com ele, diz que não vai contratá-lo. Giovanni surta e mata Guillaume. Enquanto isso, David segue com Hella. Mas, enquanto aguardam a execução de Giovanni, David convence Hella a se mudarem para uma casinha no interior da França. Lá, ele entra em crise e, sem saber se Giovanni já foi executado ou não, e cada vez menos envolvido com Hella, David some por três dias, indo para um bar e se envolvendo com um marinheiro. No terceiro dia, Hella o encontra nesse bar com o tal marinheiro, rola aquela cena de “meu Deus, você descobriu”, e ela responde algo como “eu meio que já sabia”. Aí vem o drama final: Giovanni é executado, Hella, dramática, volta para os Estados Unidos, e David fica sozinho no interior da França (provavelmente volta para casa depois). Fim.

Ok, pode-se dizer que é um livro da chamada literatura gay, mas eu o li como um romance sobre relacionamentos complexos, cheios de dramas, brigas, ciúmes etc., como em qualquer relação. Várias cenas de conflito, tanto entre David e Hella quanto entre David e Giovanni, eu já vi, vivi, ouvi de outros ou testemunhei mundo afora. O que quero dizer é que separar esse enredo como “gay”, como se fosse algo feito apenas para consumo do público “gay”, é uma tremenda bobagem. Como já disse, trata-se de um romance sobre relações humanas complexas. Aliás, é irritante essa tentativa de classificação do tipo: ele é gay porque se relacionou com outro homem, logo não gosta de mulher. No mundo do bicho-homem, em geral, todo mundo gosta de todo mundo, mas insistem nessas categorias para selecionar, excluir e hierarquizar pessoas, relacionamentos e a própria sociedade.

Agora sim: fim.