Middlemarch – Parte 6 – A viúva e a esposa
Não
pesquisei sobre isso na web, então não sei se esse é um daqueles casais
“clássicos” e “queridinhos” da literatura. Ainda assim, acho que este é o casal
mais irritante e hipócrita de todos. Primeiro porque Will se coloca como
coitado para conquistar Dorothea, que, como temia Casaubon, cai como uma
patinha nas armadilhas sentimentais dele. Ele segue se fazendo de vítima, e ela
segue sendo a idiota que acredita nas coitadices do nigromante, enquanto todos
os outros personagens sacam que ele não vale nada. Mas, pelo que estou
percebendo, a própria autora cada vez mais o coloca como uma espécie de “herói
honrado” - em breve vocês vão entender por quê.
Mas
eu - EU! - não esqueci que ele conquista Dorothea à base de manipulação e
mentira. Além disso, quando eles conversam cara a cara, ele sente raiva a
qualquer resposta negativa dela, o que me faz imaginar que ele seria um
daqueles maridos opressores que, em pouco tempo, estaria descendo o braço nela -
com o apoio da sociedade oitocentista. Mas deixemos o casalzinho mequetrefe de
lado por um momento para falar do capítulo.
Bom,
na verdade, este é um dos capítulos mais “lentos”, com muitas cenas secundárias
e descrições longuíssimas, e pouco avanço efetivo da história. O que dá para
dizer, primeiro, é que Will Ladislaw segue enfiado na casa de Lydgate e, em
dado momento, dá a entender que a Sra. Lydgate está gostando dele, mesmo ele
sendo apaixonado por Dorothea. Há também um encontro breve entre o casalzinho
mequetrefe, mas eles ficam naquela punheta de sempre: “ai, todo mundo me pinta
como vilão porque teu marido colocou aquele adendo no testamento, mas eu sou
honrado e não vou casar contigo por isso…”, “ai, eu acredito em você, mas você
é tão vítima, pois o mundo é mau, está errado, e você é o bem supremo da
humanidade”. Como diriam os adolescentes de hoje: não tenho saco pra isso. Ou,
como diria Bukowski: tirem a roupa logo e vão foder num quarto ao invés de
foder com a paciência do leitor.
Depois,
o protagonismo da maior parte do capítulo gira em torno da crise financeira de
Lydgate. Rosy perde o bebê ao se encantar com um primo do marido e sair a
cavalgar com ele, mesmo contra as orientações médicas. Em seguida, Lydgate é
obrigado a confessar para ela que estão falidos e precisam penhorar alguma
parte da mobília, o que mostra que a lógica da sociedade do consumo desenfreado
- consumir por consumir para manter um padrão de ostentação - é bem mais antiga
do que a era das redes sociais. Diante da notícia, Rosy, que é uma dondoca,
ameaça sair de casa para voltar a morar com os pais, mas acaba voltando atrás -
ainda assim, fica um climão entre os dois, até porque, como comentei antes, há
esse indício dela estar afim do galã, pegador casadas, Will Ladislaw.
Ah,
e Fred, para poder se casar com Mary, tem a brilhante ideia de trabalhar como
peão com o pai dela, Caleb, escapando assim da carreira na igreja. Contudo, a
mãe de Mary solta umas indiretas, deixando claro que, se não fosse por ele,
Mary se casaria com o Sr. Farebrother, que agora tem dinheiro. Fred se ofende,
rola uma cena de ciúmes e tal, mas acabam se acertando, com ele trabalhando
para Caleb e alimentando o sonho de casar com Mary.
Mais
para o final, há a cena do leilão em que, resumidamente, o Sr. Raffles volta a
chantagear Bulstrode e faz insinuações para Ladislaw. Bulstrode, então, acaba
contando a verdade para Will - e ei-la aqui: há uns 30 anos atrás, antes de
aparecer em Middlemarch, Bulstrode namorou a mãe de Ladislaw, e todos eles
estavam metidos em tretas. Pelo que entendi, compravam produtos roubados a
preço baixo e revendiam por valores altos. Para escapar disso, a mãe de
Ladislaw acabou abandonando a família. A avó dele, uma viúva rica, morreu e,
como ninguém sabia onde ela estava, Bulstrode ficou com a herança. Na verdade,
só o Sr. Raffles sabia que ela (a mãe de Ladislaw) ainda estava viva, morando
com seu filho pequeno, razão pela qual Bulstrode pagou para ele ir embora para
a América. Em outras palavras: metade da fortuna herdada por Bulstrode seria,
por direito, da mãe de Will; como ela morreu, esse direito passaria a ele.
Will, contudo, orgulhoso - e agora dá para entender por que eu disse antes que
a narradora o coloca na condição de herói honrado -, recusa o dinheiro
oferecido por Bulstrode, alegando que ele tem origem na receptação de produtos
roubados (ai, que honrado esse fanfarrão!).
Ou
seja, aqui ele poderia ter recebido o dinheiro e ficado com Dorothea, mas a
narradora o coloca, como eu disse, na posição de super-honesto, mesmo depois de
ele ter mentido e manipulado Dorothea para conquistá-la enquanto ela era casada.
E ela, por sua vez, se apaixonou furtivamente pelo Sr. Casaubon, casou com ele contra
a vontade de todos, para ceder ao primeiro galanteador barato que aparecesse.
Como diriam as senhorinhas de Middlemarch: lamentável. Resumindo, portanto, o
Sr. Raffles permanece nas redondezas e segue com Bulstrode nas mãos, enquanto o
banqueiro se sente aliviado por saber que Ladislaw não vai espalhar a fofoca
pela comunidade.
Na
cena final, há mais um encontro entre Will e Dorothea antes de ele partir do
povoado - e, a essa altura, já chegou aos ouvidos da viúva a fofoca de que ele
anda enfiado na casa de Lydgate conversando com Rosy dia e noite. Mas,
novamente, eles recaem na mesma punheta emocional de sempre: “ai, como tu é
bom, honrado e incompreendido; e “ai, eu não vou ficar contigo por dinheiro,
mesmo gostando de ti” e blá-blá-blá. Provavelmente acabarão juntos, levando uma
vida infeliz para sempre.
Assim,
neste ponto da narrativa, temos os três casais protagonistas nas seguintes
situações: Will e Dorothea presos nessa punheta sentimental eterna; Lydgate e
Rosy em crise por causa do endividamento dele e da dondoquice dela; e Fred
trabalhando com Caleb na tentativa de finalmente se casar com Mary.


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