Middlemarch – Parte 5 – A Letra Morta
O
capítulo - que já dá um spoiler no título - começa devagar, mas depois dá uma (boa)
melhorada. Primeiro, Dorothea vai atrás de Lydgate para saber a real situação
do marido. A essa altura, Rosy já está casada com o médico e, chegando lá, ela
encontra acidentalmente Ladislaw; mas, como Lydgate não está em casa, ela segue
para o hospital. Após deixar a casa, Ladislaw faz elogios rasgados para
Dorothea, fazendo com que Rosy desconfie que ele gosta dela. A frieza de
Dorothea também faz com que ele se dê conta da proibição que Casaubon havia
feito contra ele.
A
partir da conversa entre Dorothea e Lydgate, ela se compromete a ajudar o
hospital com doações anuais, após o médico contar sobre o boicote que vem
sofrendo dos figurões de Middlemarch. Então, começa um trecho longo que
basicamente foca no contraste entre as ideias inovadoras na medicina trazidas
por Lydgate e a sociedade conservadora local, como, por exemplo, quando contam
que o médico chegou a solicitar à família de uma senhora falecida permissão
para usar o cadáver dela para estudos (um escândalo!). Daí, parte-se para o conflito
entre reformistas e conservadores, tendo como base o caso do médico, inclusive
pelo fato de Lydgate ter ressalvas para receitar remédios. Também fica clara a
amizade de Ladislaw com Lydgate e, por extensão, com Rosy. Além disso, é
revelado que Rosamond esperava um bebê, e o médico andava estressado pelas
dívidas adquiridas para que eles se casassem.
O
negócio esquenta novamente quando Will Ladislaw tem a ideia de aparecer à missa
nas vizinhanças de Casaubon, pensando que era um homem livre e poderia ir onde
quisesse, mas com a clara intenção de ver Dorothea e provocar Casaubon. Depois
da cena dramática em que os personagens se cruzam rapidamente, Casaubon pede
que Dorothea diga se pode prometer algo que ele lhe pedisse sobre o seu
pós-morte. Enquanto ela pensa que ele irá falar algo sobre trabalho, ele está
preocupado com as intenções de Will de ocupar o seu lugar. Há um drama geral, e
ela fica de responder no dia seguinte.
Após
quase não dormir, exausta, ela vai encontrar o marido, que diz que vai até
certo local e que é para ela aparecer depois de um tempo. Cansada, ela vai
decidida a dizer que topa fazer o que ele pedir, mas, ao chegar lá, ele está de
cabeça baixa. Aí surge uma das melhores frases que eu já li para descrever que
uma pessoa havia morrido: “Porém, o silêncio nos ouvidos de seu marido nunca
mais seria interrompido” (p. 499).
E
aí o negócio esquenta de novo, pois Casaubon é enterrado, mas Sir James Chettam
(marido de Celia, que a essa altura já tem um filho) tenta convencer o Sr.
Brooke a despachar Ladislaw, pois eles haviam encontrado, junto com o
testamento, um adendo - que inicialmente não é revelado, mas que antecipo aqui -
segundo o qual, se Dorothea se casasse especificamente com Will, ela perderia o
direito à herança da propriedade. Mais à frente, ainda no capítulo, isso terá
reflexos: a família de Dorothea fica puta com o defunto (pois isso abre brecha
para fofocas de que ela tinha um caso com Will enquanto era casada) e também
faz com que Will se sinta ofendido, pois, se ele casasse com Dorothea, além dos
fuxicos, passaria por um homem pobre que quer casar com mulher rica por
interesse. Claro que tudo isso não ocorre assim, tão rapidamente, e ocupa
páginas e páginas que eu resumi aqui nessas mal traçadas linhas.
Por
outro lado, Dorothea precisa indicar alguém para a igreja do povoado para
ocupar o lugar do finado marido e, seguindo o conselho de Lydgate, ela indica
Farebrother (o mesmo que havia sido deixado de lado para ser o pároco
remunerado do hospital). Assim, ele fica feliz, pois finalmente vai ter uma boa
renda e vai poder deixar o jogo de lado.
Aqui
antecipo outra história, que no livro aparece mais para frente: Fred volta à
cena, pedindo para Farebrother ajudá-lo na questão de se casar com Mary. O
impasse é o seguinte: ele se forma - acho que em teologia - mas não quer seguir
na igreja. Contudo, como o pai insiste que ele dê um jeito na vida, ele revela
ao pároco que, se Mary concordar em se casar com ele, mesmo se ele virar
pároco, ele encararia a profissão. Acontece que, antes disso, a família de
Farebrother estava insistindo para que, com sua nova condição, ele pedisse a
mão de Mary. Enfim, Farebrother vai lá e expõe a situação de Fred para Mary,
que, em outras palavras, diz que só casa com ele se ele não seguir carreira na
igreja. Farebrother ainda dá uma tenteada para saber se ela se casaria com
outra pessoa além de Fred, mas ela diz que não, sem jeito, até desconfiando das
intenções do religioso. A cena encerra assim: Mary dá esperanças para Fred,
desde que ele dê um jeito na vida primeiro, mas sem trabalhar na igreja.
Aí
chega a questão política do Sr. Brooke. Ele faz um discurso cômico (mencionado
no prefácio do livro), em que é vaiado e ridicularizado - tudo gira em torno da
p. 520. Falando com seus vícios de linguagem, ele se perde e termina com o
público vaiando e atirando ovos nele. Como resultado, ele desiste de se
candidatar a uma vaga no Parlamento e, ao mesmo tempo, desiste do jornal O Pioneiro
e de Ladislaw enquanto seu mentor intelectual - inclusive insiste para que Will
vá embora. Mas, sacando os motivos do Sr. Brooke e dos demais, Will acaba tendo
ainda mais vontade de ficar, mesmo sem o emprego de jornalista. Ele está
desesperançoso quanto a Dorothea, mas, em uma breve reflexão, tem a ideia de
“pedir” um prazo de uns cinco anos para dar um jeito na vida e, se ela topar,
ele ficaria. Assim, ele é deixado de lado aqui na narrativa.
Refletindo,
minha impressão é a seguinte: Dorothea e Will têm em torno de 20 anos, são
jovens e desmiolados. Dorothea inicialmente é apresentada como uma figura
feminina diferente, com gostos distintos das demais moças, algo com um que de
revolucionário, etc., mas logo se revela uma figura muito caricata da
adolescente rebelde que só se mete em furada quando o assunto é romance. Ela
primeiro se apaixona e se casa com um homem bem mais velho e, então,
rapidamente se dá conta da merda que fez. Fica viúva e vai caindo como um
patinho (exatamente como Casaubon temia) nos papos de Will, que também é um
rebelde que só sabe agir pela emoção. Caso fiquem juntos, na minha imaginação,
levariam igualmente um resto de vida infeliz, pois tomam decisões movidas pela
emoção e, mais adiante, isso tende a se transformar em frustrações profundas...
E,
agora sim, aparece um novo enigma na narrativa. O padrasto de Rigg (o filho
bastardo do velho Peter) reaparece. Acontece que Rigg vendeu a propriedade do
velho para o Sr. Bulstrode - o que causou revolta na família do finado Peter
Featherstone. Mas isso pouco importa. Ele vendeu porque o sonho dele é trabalhar
com câmbio, vendendo ouro. E aí reaparece o Sr. Raffles - mais uma vez bonachão
e provocador. Dá a entender que a mãe de Rigg faleceu e que agora o Sr. Raffles
está viúvo. Fica claro que ele sabe algo do passado do manda-chuva de
Middlemarch, o Sr. Bulstrode.
Pela
conversa dos dois, é revelado que o banqueiro, no passado, pagou para o Sr.
Raffles ir embora para a América. Eles não se viam havia cerca de 20 anos. Raffles
revela, por cima, que Bulstrode deu um golpe do baú numa velha viúva e tinha
uma enteada perdida por aí. Parece que a família dele não sabe disso (a esposa
e as filhas, por exemplo). E Ladislaw tem algum parentesco com Bulstrode
(talvez seja o pai dele — isso fica no ar no final do capítulo). Em resumo, ele
chantageia Bulstrode, mas o velho banqueiro oscila entre aceitar e não,
acabando por oferecer um pagamento trimestral para que Raffles fique longe. Ele
dá risada da proposta e pede apenas 200 libras para sumir por um tempo, ao que
o banqueiro aceita, já exausto.
Acontece
que o Sr. Raffles não sabe que Ladislaw está nas redondezas; então,
provavelmente algo nesse sentido vai acontecer mais à frente. Enfim, a cena
final do encontro entre os dois é muito boa, pois vai despertando várias
curiosidades e sentimentos em quem lê: afinal, Bulstrode até então era apontado
como o ricaço intocável que dava as cartas em Middlemarch e, de repente, está
nas mãos de um charlatão beberrão que adora provocar. Inclusive, para cada
frase de arrogância de Bulstrode, o Sr. Raffles solta uma nova tirada, o que
chega a fazer o leitor ter simpatia pelo mentecapto.


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