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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Midllemarch – Parte 8 (final) – Ocaso e aurora

 


Ah, Dorothea. Dorothea, Dorothea… como és burrinha e estúpida, doce Dorothea. Comparada à gloriosa, imagética e luminosa Dulcineia del Toboso, do astuto Dom Quixote, você não passa de uma ameixa seca, sem gosto. Para você me entender, leitor contemporâneo: Dorothea, que pode ser apontada como a protagonista de Middlemarch, é aquela moça sonhadora, de bom coração, que adora defender os fracos e oprimidos, mas que, apesar de tudo, tem nas boas intenções uma mistura de ingenuidade e hipocrisia. Descrevendo a parte final, você vai entender melhor meus argumentos.

Bom, a parte final começa repercutindo o escândalo envolvendo Lydgate e Bulstrode na morte do Sr. Raffles. Não vou me alongar nos pormenores: acho que, sendo direto sobre o que aconteceu, dá para entender bem a situação. E, sabendo do desfecho, não há por que ficar enrolando - quem quiser os detalhes, que leia o livro inteiro, ora pois.

Para ajudar Lydgate, Dorothea tem a ideia de suprir as mil libras emprestadas por Bulstrode. Assim, ela preenche um cheque para levar ao médico, com o objetivo de quitar a dívida com o banqueiro e permitir que Lydgate encerre qualquer relação com ele. Lydgate, porém, está deprimido por causa da esposa e conversa com Dorothea, que se oferece para falar com Rosy, tentando fazê-la enxergar o quanto é amada pelo marido. O problema é que Rosy está de quatro por Ladislaw, o galã vigarista que engana todo mundo - menos a mim e, no fim das contas, Casaubon.

Mesmo tendo partido, Ladislaw fica arranjando subterfúgios para voltar a Middlemarch toda a hora, sempre com a esperança de reencontrar Dorothea, que, por sua vez, também vive inventando desculpinhas para arrastar o rabo para o amado. Acontece que Ladislaw aparece na cidade e, enquanto está a sós com Rosy, Dorothea chega com a carta contendo o cheque para Lydgate pagar Bulstrode. Ela flagra os dois na sala, deixa o cheque sobre a mesa e vai embora.

Ladislaw e Rosy ficam parados, sem reação. A essa altura, Rosy já enxerga Dorothea como rival - e, vale lembrar, ela judia do pobre Lydgate sempre que pode, enquanto o trouxa segue se arrastando para conseguir o mínimo de atenção da esposa (deprimente!). Diante da situação, Ladislaw fica com raiva - ele sempre fica com raiva por qualquer coisa - e grita com Rosy, como se ela tivesse alguma culpa pelo encontro inusitado. Afinal, foi ele quem apareceu ali (E A CASA ERA DA ROSY, CACETE!), e foi Dorothea quem chegou de surpresa. Mesmo assim, Ladislaw perde o controle e humilha Rosy, que é outra trouxa apaixonada por ele. Com isso, Ladislaw e Dorothea ficam arrasados: ela achando que ele tem algo com Rosy; ele imaginando o mesmo e colocando a culpa na moça, que, na real, não tinha culpa de nada.

No dia seguinte - depois de chorar até adormecer no chão gelado de casa -, Dorothea resolve ir conversar com Rosy para cumprir sua missão de defender Lydgate no escândalo. Aí rola o encontro dramático das duas sirigaitas, mas fica claro que, enquanto coloca Lydgate num pedestal, a real intenção da hipócrita Dorothea é afastar a rival do seu amado Ladislaw. E dá certo: Rosy acaba confessando que também ama o pilantra, mas afirma que Ladislaw está terrivelmente apaixonado por Dorothea.

Enfim, Ladislaw vai atrás de Dorothea e, após páginas e páginas daquela punheta de “ai, eu te amo, mas não posso ficar contigo”, eles finalmente se beijam, e ela decide abrir mão das propriedades de Casaubon para viver na pobreza com o amado (puta que pariu!). Há ainda um monte de pieguice envolvendo o casalzinho mequetrefe - o que só comprova que Casaubon estava certo ao desconfiar da lascívia da esposa e do sobrinho ingrato.

Vou aos finalmentes, contando o destino de cada um dos três casais que protagonizam o romance. Mas, antes, vale contar que Bulstrode é relativamente perdoado pela esposa e, pelo que entendi, os dois passam a viver em outro povoado. O que fica em aberto é a administração do hospital: Bulstrode sai de cena, Lydgate vai para Londres e Dorothea empobrece, de modo que não sobra ninguém para sustentar o tal hospital.

Enfim, vamos aos casais. Fred e Mary são os que se dão melhor. Para convencer Caleb a aceitar a administração da fazenda e, assim, ajudar Fred, Bulstrode passa o terreno para o nome da esposa. Caleb aceita voltar a administrar as terras, que acabam sendo repassadas a Fred, que, com o tempo, consegue comprar a propriedade - aquela mesma que ele sonhava herdar no início da história. Ele e Mary têm quatro filhos homens. Não ficam ricos, mas vivem felizes para sempre.

Lydgate e Rosy vão para Londres, onde ele se torna um médico respeitável, embora tenha de suportar o fardo da personalidade problemática da esposa, que constantemente o diminui moralmente com seu temperamento mimado. Apesar disso, permanecem juntos até a morte dele, aos 50 anos. Depois disso, Rosy se casa com outro médico, descrito como velho e rico. Se não me engano, do casamento com Lydgate ela também ficou prenha de quatro rebentos.

E chegamos ao casalzinho mequetrefe. Sobre eles, o livro não entra em detalhes sobre a vida a portas fechadas, então conto primeiro o que a autora revela e depois completo com a minha imaginação. No texto, Dorothea e Ladislaw também vão para Londres, têm filhos, ele se torna político famoso no Parlamento inglês e ela vira dona de casa. Há menções pontuais - como a raiva inicial de Sir James, que mais tarde aceita receber a visita da cunhada em Middlemarch, mesmo sem gostar dela e do marido -, mas, no geral, é isso.

Agora, minha imaginação: Ladislaw se torna um político fanfarrão, cheio de amantes, que grita e humilha a esposa, às vezes descendo o braço nela. Vale lembrar que, na noite em que ele vai atrás de Dorothea, antes do primeiro beijo, a narradora descreve diversas explosões de raiva dele, do nada. Vejam algumas falas de Ladislaw:

“— É tão fatal quanto um assassinato, ou qualquer outro horror que separa as pessoas — ele explodiu de novo. — É mais que intolerável… ter a nossa vida mutilada por questões tão triviais…”

Aqui, ele chama de trivial o direito de Casaubon de se prevenir daquilo que havia sacado desde o início: que o urubu Ladislaw só esperava sua morte para ficar com o patrimônio e com a esposa. Francamente, sr. Ladislaw…

Quando Dorothea tenta consolar dizendo que a vida deles não precisava ser “mutilada”, ele responde, furioso:

“— Sim, tem de ser — disse Will, raivoso. — É cruel de sua parte falar assim, como se houvesse algum consolo” (p. 821).

Ou seja, ele chama Dorothea de cruel simplesmente porque ela tenta consolá-lo. Todos os sinais estão ali: um sujeito opressor, ciumento, emocionalmente instável, que, depois de casado, provavelmente descarregaria suas frustrações na esposa, inclusive descendo o braço nela, enquanto mantém um harém de amantes.

E, assim, encerro este resumo. Apesar dos pesares, é um livro bom e divertido - quase 900 páginas bem escritas, com ótimos enredos e personagens que dão vida a um povoado imaginário chamado Middlemarch.

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