Midllemarch – Parte 8 (final) – Ocaso e aurora
Ah, Dorothea. Dorothea,
Dorothea… como és burrinha e estúpida, doce Dorothea. Comparada à gloriosa,
imagética e luminosa Dulcineia del Toboso, do astuto Dom Quixote, você não
passa de uma ameixa seca, sem gosto. Para você me entender, leitor contemporâneo:
Dorothea, que pode ser apontada como a protagonista de Middlemarch, é aquela moça sonhadora, de bom coração, que
adora defender os fracos e oprimidos, mas que, apesar de tudo, tem nas boas
intenções uma mistura de ingenuidade e hipocrisia. Descrevendo a parte final,
você vai entender melhor meus argumentos.
Bom, a parte final começa
repercutindo o escândalo envolvendo Lydgate e Bulstrode na morte do Sr.
Raffles. Não vou me alongar nos pormenores: acho que, sendo direto sobre o que
aconteceu, dá para entender bem a situação. E, sabendo do desfecho, não há por
que ficar enrolando - quem quiser os detalhes, que leia o livro inteiro, ora
pois.
Para
ajudar Lydgate, Dorothea tem a ideia de suprir as mil libras emprestadas por
Bulstrode. Assim, ela preenche um cheque para levar ao médico, com o objetivo
de quitar a dívida com o banqueiro e permitir que Lydgate encerre qualquer
relação com ele. Lydgate, porém, está deprimido por causa da esposa e conversa
com Dorothea, que se oferece para falar com Rosy, tentando fazê-la enxergar o
quanto é amada pelo marido. O problema é que Rosy está de quatro por Ladislaw,
o galã vigarista que engana todo mundo - menos a mim e, no fim das contas,
Casaubon.
Mesmo
tendo partido, Ladislaw fica arranjando subterfúgios para voltar a Middlemarch
toda a hora, sempre com a esperança de reencontrar Dorothea, que, por sua vez,
também vive inventando desculpinhas para arrastar o rabo para o amado. Acontece
que Ladislaw aparece na cidade e, enquanto está a sós com Rosy, Dorothea chega
com a carta contendo o cheque para Lydgate pagar Bulstrode. Ela flagra os dois
na sala, deixa o cheque sobre a mesa e vai embora.
Ladislaw
e Rosy ficam parados, sem reação. A essa altura, Rosy já enxerga Dorothea como
rival - e, vale lembrar, ela judia do pobre Lydgate sempre que pode, enquanto o
trouxa segue se arrastando para conseguir o mínimo de atenção da esposa (deprimente!).
Diante da situação, Ladislaw fica com raiva - ele sempre fica com raiva por
qualquer coisa - e grita com Rosy, como se ela tivesse alguma culpa pelo
encontro inusitado. Afinal, foi ele quem apareceu ali (E A CASA ERA DA ROSY,
CACETE!), e foi Dorothea quem chegou de surpresa. Mesmo assim, Ladislaw perde o
controle e humilha Rosy, que é outra trouxa apaixonada por ele. Com isso,
Ladislaw e Dorothea ficam arrasados: ela achando que ele tem algo com Rosy; ele
imaginando o mesmo e colocando a culpa na moça, que, na real, não tinha culpa
de nada.
No
dia seguinte - depois de chorar até adormecer no chão gelado de casa -,
Dorothea resolve ir conversar com Rosy para cumprir sua missão de defender
Lydgate no escândalo. Aí rola o encontro dramático das duas sirigaitas, mas
fica claro que, enquanto coloca Lydgate num pedestal, a real intenção da
hipócrita Dorothea é afastar a rival do seu amado Ladislaw. E dá certo: Rosy
acaba confessando que também ama o pilantra, mas afirma que Ladislaw está
terrivelmente apaixonado por Dorothea.
Enfim,
Ladislaw vai atrás de Dorothea e, após páginas e páginas daquela punheta de
“ai, eu te amo, mas não posso ficar contigo”, eles finalmente se beijam, e ela
decide abrir mão das propriedades de Casaubon para viver na pobreza com o amado
(puta que pariu!). Há ainda um monte de pieguice envolvendo o casalzinho
mequetrefe - o que só comprova que Casaubon estava certo ao desconfiar da
lascívia da esposa e do sobrinho ingrato.
Vou
aos finalmentes, contando o destino de cada um dos três casais que protagonizam
o romance. Mas, antes, vale contar que Bulstrode é relativamente perdoado pela
esposa e, pelo que entendi, os dois passam a viver em outro povoado. O que fica
em aberto é a administração do hospital: Bulstrode sai de cena, Lydgate vai
para Londres e Dorothea empobrece, de modo que não sobra ninguém para sustentar
o tal hospital.
Enfim,
vamos aos casais. Fred e Mary são os que se dão melhor. Para convencer Caleb a
aceitar a administração da fazenda e, assim, ajudar Fred, Bulstrode passa o
terreno para o nome da esposa. Caleb aceita voltar a administrar as terras, que
acabam sendo repassadas a Fred, que, com o tempo, consegue comprar a
propriedade - aquela mesma que ele sonhava herdar no início da história. Ele e
Mary têm quatro filhos homens. Não ficam ricos, mas vivem felizes para sempre.
Lydgate
e Rosy vão para Londres, onde ele se torna um médico respeitável, embora tenha
de suportar o fardo da personalidade problemática da esposa, que constantemente
o diminui moralmente com seu temperamento mimado. Apesar disso, permanecem
juntos até a morte dele, aos 50 anos. Depois disso, Rosy se casa com outro médico,
descrito como velho e rico. Se não me engano, do casamento com Lydgate ela
também ficou prenha de quatro rebentos.
E
chegamos ao casalzinho mequetrefe. Sobre eles, o livro não entra em detalhes
sobre a vida a portas fechadas, então conto primeiro o que a autora revela e
depois completo com a minha imaginação. No texto, Dorothea e Ladislaw também
vão para Londres, têm filhos, ele se torna político famoso no Parlamento inglês
e ela vira dona de casa. Há menções pontuais - como a raiva inicial de Sir
James, que mais tarde aceita receber a visita da cunhada em Middlemarch, mesmo
sem gostar dela e do marido -, mas, no geral, é isso.
Agora,
minha imaginação: Ladislaw se torna um político fanfarrão, cheio de amantes,
que grita e humilha a esposa, às vezes descendo o braço nela. Vale lembrar que,
na noite em que ele vai atrás de Dorothea, antes do primeiro beijo, a narradora
descreve diversas explosões de raiva dele, do nada. Vejam algumas falas de
Ladislaw:
“—
É tão fatal quanto um assassinato, ou qualquer outro horror que separa as
pessoas — ele explodiu de novo. — É mais que intolerável… ter a nossa vida
mutilada por questões tão triviais…”
Aqui,
ele chama de trivial o direito de Casaubon de se prevenir daquilo que havia
sacado desde o início: que o urubu Ladislaw só esperava sua morte para ficar
com o patrimônio e com a esposa. Francamente, sr. Ladislaw…
Quando
Dorothea tenta consolar dizendo que a vida deles não precisava ser “mutilada”,
ele responde, furioso:
“—
Sim, tem de ser — disse Will, raivoso. — É cruel de sua parte falar assim, como
se houvesse algum consolo” (p. 821).
Ou
seja, ele chama Dorothea de cruel simplesmente porque ela tenta consolá-lo.
Todos os sinais estão ali: um sujeito opressor, ciumento, emocionalmente
instável, que, depois de casado, provavelmente descarregaria suas frustrações
na esposa, inclusive descendo o braço nela, enquanto mantém um harém de
amantes.
E,
assim, encerro este resumo. Apesar dos pesares, é um livro bom e divertido -
quase 900 páginas bem escritas, com ótimos enredos e personagens que dão vida a
um povoado imaginário chamado Middlemarch.


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