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quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Middlemarch – Parte 3 – À espera da morte

Esse capítulo revela muitas coisas, mas também faz mistério com a questão da morte, colocando três personagens em situação de doença grave. Contudo, antes disso, começa com um novo drama: Fred, que havia gastado dinheiro com diversão andando a cavalo, mas “estragando”, ou seja, machucando o cavalo do sujeito que fornece cavalos para os jovens se divertirem, acaba adquirindo uma dívida grande. Sem ter de onde tirar recursos — e com a certeza de que seu pai não apenas não iria emprestar, mas ainda lhe passaria um sermão — ele acaba pedindo dinheiro emprestado para o pai de Mary Garth, o pobre Caleb Garth, um trabalhador braçal que muitas vezes faz serviços sem cobrar. A família Garth vive sempre apertada e o dinheiro que tem guardado é para pagar os estudos do filho mais velho.

Bueno, Caleb assina uma promissória para Fred, que tem a ideia de vender o seu cavalo numa feira. Mas, como seu cavalo não pagaria todo o valor, ele pensa em trocar o seu cavalo por um de maior valor (sabendo que havia um conhecido interessado) — pagando a diferença — e, assim, conseguir o valor total da dívida. Acontece que o cavalo que Fred adquire é chucro e, em resumo, ele fica com um cavalo imprestável e com apenas 50 libras (a dívida é de mais de 100). Assim, ele acaba tendo que ir confessar a Caleb, a poucos dias de vencer a promissória, que não teria como conseguir o dinheiro. E conta isso na frente da esposa dele, que não sabia de nada. Em resumo, ele ferra com a família toda. Depois, vai contar para Mary e aí rola uma discussão, choro etc. Mas, em resumo, esse é um novo drama que aparece. O velho Featherstone ouve a conversa e diz para que Mary peça a Fred que fale com ele no dia seguinte.

Contudo, nesse meio-tempo, Fred fica doente e o médico da família acaba não dando tanta bola e não volta no dia seguinte. Aí chamam Lydgate, que diagnostica febre tifóide. A família fica braba com o outro médico e o troca por Lydgate. Esse é o primeiro “moribundo”, mas logo ele se recupera e fica de canto até o final do capítulo, praticamente. O enredo fica mais pesado entre Lydgate e Rosy, pois surge a fofoca de que eles estão de casinho, e então uma das tias de Rosy enquadra Lydgate: ou caga ou sai da moita. Então, Lydgate se afasta momentaneamente de Rosy.

Mas aí aparece o segundo moribundo. Volta à cena o casal Casaubon. Ao receber carta de Will — que manda uma para Dorothea e outra para o Sr. Casaubon — o casal discute, pois ele diz que está muito ocupado e não poderá receber a visita do sobrinho. Dorothea meio que se irrita e, então, ele tem um enfarte. Lydgate é chamado e, resumindo, diz a Dorothea que o marido pode morrer a qualquer momento se não se cuidar — precisa trabalhar menos e se distrair mais. Enfim, eles também ficam “em suspenso” nessa situação da narrativa. Ah, e Celia está comprometida com Sir James que, ao saber da doença de Casaubon, pensa: “eu sabia, mas mesmo assim vou seguir amigo e cordial com Dorothea”.

No meio da história toda, outra pessoa fica doente e, enquanto Lydgate vai visitar a casa da família Vincy, ele se encontra com Rosy e, depois dela chorar e ele beijar todas as suas lágrimas, eles finalmente se comprometem. No dia seguinte, Lydgate pede a mão para o Sr. Vincy, que está alegre pois o velho Featherstone está à beira da morte, e ele conta com a herança dele para Fred — e dá a mão da filha sem maiores cerimônias.

E então chega a parte final do capítulo com o terceiro moribundo: o Sr. Featherstone. Aí se revela que Mary Garth é sobrinha da primeira esposa dele (ele foi casado duas vezes, as esposas faleceram e ele não teve filhos). E a questão toda é: para quem o velho vai deixar a herança? Aparecem parentes de tudo que é lado, mas os que mais reivindicam são o irmão e a irmã do velho. A cena toda é muito cômica, pois uma legião de parentes acampa lá, mas ele não quer ver ninguém e recebe apenas Mary no leito de morte. Em certo momento, os irmãos e mais alguns sobem para espiar o velho e são tocados a bengaladas e xingamentos. Alguns apostam que a herança será dada a Mary, outros a Fred e outros aos parentes — pois “não seria coisa do Todo-Poderoso deixar a família de fora”.

Na cena final, o velho pede para Mary abrir o cofre e queimar um dos dois testamentos que ele escreveu. Ela se nega. Ele não consegue levantar da cama e oferece dinheiro a ela para fazer isso. Ela se nega de novo, pois não quer ficar como suspeita de nada. Ele se irrita mais e, resumindo, na manhã seguinte ele está morto, deixando o seguinte dilema: há dois testamentos no cofre — quais são eles e qual vai valer? Provavelmente vai ter muita briga pela frente. E temos agora três casais formados: o casal Casaubon, mas com Dorothea cercada de pretendentes e o marido doente; o casal Lydgate e Rosy; e um que está quase se formando, Fred e Mary. Aguardemos os próximos capítulos em 2026.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Middlemarch – Parte 2 – Velhos e jovens



Esqueci de mencionar anteriormente que cada parte é um “livro”, algo como um capítulo maior, enquanto os capítulos numerados são espécies de “subcapítulos”. No total são oito; então serão oito textos, cada um resumindo um desses livros — mas já no segundo percebo que são, na verdade, a continuação das histórias dos personagens.

Na segunda parte, que começa na p. 141, segue o dilema de Fred e sobre como ele vai conseguir a carta de Bulstrode para entregar a Featherstone. Bulstrode é um banqueiro poderoso, quase dono da cidade por decidir para quem dá — ou não — crédito, tendo boa parte de Middlemarch endividada com ele. Declara-se super religioso e tudo é “em nome de Deus” — inclusive os seus lucros e o seu poder.

Bulstrode é casado com a irmã do sr. Vincy, pai de Fred. Resumindo o encontro entre eles para resolver a carta: o sr. Bulstrode não tem Fred em alta conta. Considera-o um jovem relapso, sem responsabilidade, que vive se endividando — e, por isso, inclina-se a não escrever a tal carta. O sr. Vincy vai argumentando, insistindo, quase discutem, porque o futuro do filho está em jogo. Termina com a “última cartada”: lembra Bulstrode de que, se não ajudar, sua mulher (irmã de Vincy) ficará zangada. E funciona. Ele promete conversar com a esposa e, no dia seguinte, envia a carta para que Fred a leve ao sr. Featherstone.

Contudo, o sr. Featherstone é um velho ranzinza e ri dos argumentos de Bulstrode na carta, deixando Fred nervoso. Dá uma boa zoada nele antes de, finalmente, entregar o dinheiro prometido — mas não garante que o colocará como herdeiro. Fred, que tem 23 anos, fica tão perturbado que sente alívio quando é dispensado pelo velho, que ainda pede para que ele jogue a carta na lareira. Ao chegar em casa, entrega boa parte do dinheiro para a mãe guardar, para não gastar (fica no ar o motivo de guardar esse valor). Ah — também se confirma que ele está apaixonado por Mary, uma espécie de empregada direta do sr. Featherstone, descrita como feia e pobre:

“Assim como muitos jovens cavalheiros ociosos e espirituosos, ele estava completamente apaixonado, e por uma moça desenxabida, que não tinha dinheiro” (p. 158).

Depois, vem um longo capítulo contando a história do médico Lydgate, o forasteiro de Middlemarch: como se formou e como viveu sua única paixão, em Paris — a história de uma atriz que mata o marido no palco. Ele vai atrás dela, completamente apaixonado, até que ela se cansa e confessa que matou o marido de propósito porque não aguentava mais a vida de casada.

Também fica claro qual era o plano de Lydgate:

“Tal era o plano de Lydgate para o seu futuro: prestar um serviço bom e pequeno para Middlemarch, e um grande serviço para o mundo” (p. 167).

Ou seja: ele vai para o vilarejo para fazer um trabalho revolucionário na medicina, sem se envolver nas intrigas da cidade pequena. Mas logo é colocado numa situação que vira boa parte da trama desta parte: o hospital vai passar a remunerar o capelão (o clérigo que conversa com os pacientes). O atual é meio relapso (viciado em jogos, por exemplo), mas é gente boa e trabalha de graça há bastante tempo. O indicado por Bulstrode, por outro lado, é mais religioso e profissional.

Fica o dilema: fazer “justiça” e efetivar quem já vinha trabalhando de graça, com salário — ou colocar alguém mais competente e remunerado? O conselho é formado pelos figurões da cidade, incluindo o sr. Brooke e outros; entre os médicos está Lydgate, que não queria tomar partido nas tretas locais. Ele fica ainda mais dividido depois de jantar na casa do antigo clérigo, sr. Farebrother, percebendo que é um bom sujeito e precisa do salário. Mas também é avisado que, se votar contra Bulstrode, entrará na lista de inimigos do banqueiro.

A discussão é longa, vários personagens aparecem — mas, resumindo: o indicado por Bulstrode, o sr. Tyke, é eleito, contando inclusive com os votos do sr. Brooke e de Lydgate.

Bueno, digamos que essa é a primeira parte deste “livro”. Depois, volta para a história da lua de mel do sr. Casaubon com Dorothea. Um resumo bem resumido: eles estão em Roma, onde o sr. Casaubon passa mais tempo estudando no Vaticano do que com a esposa. Dorothea começa a ter crises e percebe que o casamento não era o que pensava.

Um primo de segundo grau bem mais novo (tratado como sobrinho), chamado Will, vê Dorothea quando está com um amigo alemão, artista. Tanto Will quanto o amigo, Naumann, apaixonam-se por ela e, daí em diante, ficam armando situações para estar com ela — muitas vezes junto do próprio sr. Casaubon, que Will chama de tio, mas diz ao amigo que detesta. Entre Will e o alemão, um tenta passar o outro para ficar mais tempo com Dorothea.

Ao final, Will encontra Dorothea enquanto Casaubon está estudando e diz que vai voltar à Inglaterra para “tomar jeito na vida”. Ao mesmo tempo, planta algumas dúvidas na cabeça dela sobre a suposta superioridade intelectual do marido. Ele está perdidamente apaixonado, e ela, ingenuamente, acha que ele é apenas um sobrinho inocente do marido, perdido no mundo.

O capítulo termina com o fim da lua de mel: o casal e o sobrinho Will voltam para a Inglaterra, separadamente, claro.

Por fim, o que deu para sacar até o fim da segunda parte, na p.245, é que são dois "casais" protagonista: Sr. Casaubon e Dorothea e Lydgate e Rosy, sendo que o segundo, por enquanto, ainda é platônico.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Middlemarch - Parte 1

 


Eu cheguei ao livro Middlemarch, de George Eliot (pseudônimo masculino adotado pela escritora britânica Mary Ann Evans, no século XIX), através da mesma lista — publicada no Instagram de um jornalista cultural — que me levou a Lucky Jim e a Contos de Canterbury. Neste texto, não vou fazer um comparativo entre eles; vou me ater ao mesmo estilo de resumo comentado para que, daqui a alguns meses ou anos, quando eu não lembrar da história, eu possa consultar e refrescar a memória.

Bom, Middlemarch é o nome de uma cidade fictícia da Inglaterra da era vitoriana (século XIX). Para ser mais específico, a história toda se passa por volta de 1830. Assim como Lucky Jim, é um bom livro para se ler ouvindo música clássica — embora, até o momento, eu não tenha feito isso com esta obra, que tem quase mil páginas. Quando ela chegou às minhas mãos, pelo correio, decidi: essa seria a minha leitura de férias de verão. E assim tenho feito neste final de 2025, quando terminei de ler o primeiro capítulo, intitulado A srta. Brooke.

Confesso que, nas primeiras páginas, temi que o livro fosse muito chato. Logo percebi, porém, que, apesar da linguagem típica da literatura clássica, tratava-se de uma história leve e divertida — algo que te tira por alguns instantes da futilidade inculta do pensamento raso dos vídeos curtos e das postagens das redes sociais. É triste, mas até a galera “pensadora” está atolada nisso; às vezes acho que nós, leitores de livros, estamos cada vez mais próximos da extinção — o que só aumenta o prazer que sinto quando pego esse tipo de narrativa.

Mas chega de papo furado e vamos ao que interessa. A srta. Brooke, que dá nome ao capítulo, é uma jovem chamada Dorothea, 19 anos, irmã mais velha de Celia. As duas perderam os pais na infância (isso é mencionado brevemente) e foram criadas pelo sr. Brooke — não lembro o primeiro nome —, que está na casa dos 60 anos. Enfim, um aristocrata do interior da Inglaterra. Boa parte deste primeiro capítulo gira em torno dessa família para, ao final, o foco mudar para outra que — pelo que pude espiar nas páginas seguintes — conduz o capítulo seguinte.

Há uma infinidade de personagens secundários; contudo, a história gira em torno da busca pela mão da jovem Dorothea que, pela descrição, é bela, mas tem uma personalidade “difícil”. Lembra levemente Catarina, de A megera domada (vulgo O cravo e a rosa). Ela não gosta de coisinhas delicadas, de música e arte (como se esperava das jovens senhoritas do interior inglês do século XIX), e sim de ciências, estudos e, conforme a narradora, outras “coisas de homens”. Ainda assim, não lhe faltam pretendentes — e a história acaba girando em torno das relações de dois deles com a família Brooke.

Aqui entra fortemente a questão do imaginário: a narradora trabalha com o que se passa na cabeça dos três envolvidos — Dorothea, Sir James Chettam e o reverendo Edward Casaubon.

Bom, já falamos de Dorothea, então vamos aos outros dois. Sir James Chettam é descrito como uma espécie de jovem galã, o sonho de qualquer dama. Ele corteja Dorothea, que se irrita com ele, mas aproveita para tirar proveito, fazendo com que ele construa casas para os trabalhadores da região (Dorothea tinha um espírito de preocupação social). Por outro lado, a irmã dela, Celia, é apaixonada por ele, mas sonha em ser sua cunhada — ou seja, que Dorothea e Sir James se casem.

Entretanto, surge Casaubon, um erudito intelectual quarentão. Todo mundo o acha meio detestável e, pelo espírito rebelde de Dorothea e sua sede por conhecimento, ela logo se apaixona. Cada um vai agindo conforme o seu quadrado: Sir James faz tudo jurando que Dorothea está cada vez mais apaixonada por ele; Dorothea nem sonha que Sir James quer casar com ela e antegoza momentos imaginários com Casaubon que, por sua vez, também se apaixona por Dodo, como a chamava Celia.

No meio disso tudo, tem o tio, sr. Brooke — figura icônica e engraçada, com um jeito característico e enrolado de falar — como dá para perceber neste trecho da conversa dele com Casaubon:

“As jovens senhoras não entendem de economia política, o senhor sabe [...]. Eu me lembro de quando estávamos todos lendo Adam Smith. Então, esse é um livro. Então, eu absorvi todas as novas ideias certa época, a perfectibilidade humana [...]” (p. 33).

Ao longo de suas falas, ele repete especialmente as expressões “o senhor (a) sabe” e “cousas do gênero”. Preocupado com o futuro das sobrinhas — a questão da herança está sempre nas conversas —, ele tenta encontrar alguém de quem elas gostem, mas que também lhes garanta o futuro financeiramente.

Assim, Casaubon conversa com o tio e manda uma carta para Dorothea; tornam-se noivos, para espanto — e revolta — de Sir James, que chega a falar com o pároco para tentar convencer o sr. Brooke a impedir o casamento, já que na Inglaterra a maioridade era apenas aos 21 anos — e Dodo tinha 19. Mas ninguém dá trela, o noivado se confirma, e Dodo fica antegozando os momentos em que poderá ajudar o marido intelectual enquanto aprende sobre as questões superiores do intelecto humano.

A história é “pausada” justamente quando eles estão prestes a casar e sair em lua de mel para Roma — onde Casaubon quer aproveitar para estudar escritos no Vaticano — e então começa uma narrativa paralela, novamente envolvendo relacionamentos, heranças e tradições — para ser mais exato: no capítulo XI, página 111.

Resumindo, a história envolve um jovem médico forasteiro (“protegido” do sr. Brooke), chamado Lydgate, e a filha do prefeito, sr. Vincy: Rosamond — ou Rosy, para os íntimos. Ela é irmã de Fred, um jovem rebelde.

Bueno, Rosy é descrita como bela e sonha em encontrar um forasteiro sem ligações com Middlemarch para se apaixonar. Então, ela ouve falar de Lydgate. Sabe que ele está tratando de um tio velho, rico e ranzinza, sr. Featherstone, e assim ela e Fred vão até lá numa manhã.

Aí rola uma treta com fofoca: o sr. Featherstone descobre que Fred fez uma dívida contando com a grana da herança que ele deixaria ao sobrinho e pede que Fred consiga uma carta por escrito do autor da fofoca — outro tio, chamado Bulstrode — negando tudo. Enquanto isso, Rosy e Lydgate se conhecem e, pelo visto, se apaixonam. Termina com os dois voltando para casa, cada um pensando no seu drama: Fred, preocupado em como sair da enroscada sem perder a herança, e Rosy, sonhando com o casamento.

Fim do primeiro capítulo.

Até a próxima, pessoal!