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segunda-feira, 27 de abril de 2020

Sobre Sérgio e 1917


Assisti hoje ao filme Sérgio, na Netflix. Vou contar exatamente como foi a minha história com esse filme. Há cerca de uma semana apareceu na capa da Netflix a sugestão. Vi que o ator principal parecia o Wagner Moura. Sou fã do Wagner Moura. Cliquei e vi que era ele mesmo mas o filme era em inglês. Dei uma espiada, vi tiro e bomba, e pensei: uau, o Wagner Moura conseguiu um papel num filme besteirol americano de tiro, porrada e bomba! Good for him! Mas não vou assistir. Aliás, que nome mais sem criatividade: Sérgio! E deixei quieto.
A semana passou e dois ou três amigos no Facebook postaram comentários favoráveis sobre o filme, mas sem dizer sobre o que se tratava. Então, fui pesquisar. Ao descobrir que se tratava da vida do Sérgio Vieira de Mello imediatamente me veio na memória o ano de 2003, quando eu estava iniciando meu trabalho como jornalista na Rádio Jornal da Manhã. Eu fazia rádio escuta da rádio Gaúcha e lembro que transcrevia as notícias sobre a guerra do Iraque, bem como acompanhei, através do Notícia na Hora Certa e do Correspondente Ipiranga, a morte do diplomata brasileiro da ONU. Decidi que eu PRECISAVA ver esse vídeo.
No entanto, no sábado passado, resolvi ver primeiro outro filme que fazia um tempinho que eu queria assistir: 1917. Resumo: achei um puta filme, mas não o suficiente para levar o Oscar 2020. Gostei mais do Coringa, Parasita e até mesmo do História de um casamento. Como comentei com um amigo, é um bom filme, mas para alguém que se aproxima da quarta década de vida em que já viu uma porrada de filmes de guerra, esse não é o melhor do gênero. Ainda prefiro Até o último homem, Resgate do soldado Ryan e outros. Mas isso não quer dizer que não seja um baita filme... Como eu ouvi muita gente dizer que era O MELHOR entre os indicados, fui com uma puta expectativa e talvez isso justifique uma pontada de decepção.
Confesso ainda que, como assisto a muitos filmes produzidos com a fórmula Disney/Hollywood com a Larissa, reconheci a técnica de colocar um ritmo alucinante com infinitas cenas em que o protagonista parece que vai morrer e no último minuto escapa... Quando você saca a técnica e percebe que isso vai seguir durante todo o filme, sem grandes acontecimentos paralelos, desanima um pouco... Vi isso em Frozen II, Dois Irmãos, Rei Leão, etc. Muitas cenas inverossímeis em um curtíssimo espaço de tempo. Pois é, foi isso que aconteceu comigo no 1917... E, como já li bons livros sobre a primeira guerra, dentre os quais o épico “Nada de novo no front”, esperava um pouco mais da película...
Passado o sábado, hoje assisti ao Sérgio. E, mesmo tendo expectativas, sentencio que – na minha humilde opinião – foi melhor do que o esperado. Que homem! E que mulher a Carolina! Absolutamente sensacional e emocionante. O cara foi um dos brasileiros mais fodas de que já se teve notícias nos últimos anos e permaneceu anonimo ao grande público durante todos esses anos. Eu mesmo sabia apenas que era um diplomata brasileiro da ONU morto em um atentado na guerra do Iraque. Ponto. Essa era a minha lembrança. Era isso que o meu cérebro trazia quando ouvia o nome “Sérgio Vieira de Mello”. Agora não. Agora sei que o cara foi foda. E pesquisando vídeos e mais histórias sobre eles, constatei que o Wagner Moura fez um puta trabalho, pois o cara era exatamente aquilo que ele conseguiu captar e retratar no filme (quem conheceu ele, corrija-me se estiver errado).
E quando vi a atriz absolutamente linda que interpretou a Carolina, pensei: que exagero! Porra, quem se deu bem foi o Wagner Moura! Mas fui pesquisar sobre ela na internet e vi que não foi nenhum exagero: a Carolina da vida real também é lindíssima. Que casal! E a energia positiva deles torna a história ainda mias dramática e triste... Que contraste!
Enfim, sugiro os dois filmes. Eu gostei mais do Sérgio, apesar de não ser indicado ao Oscar... Penso que se o 1917 acabou sendo um filme praticamente obrigatório para a humanidade do mundo ocidental, Sérgio é um filme simplesmente OBRIGATÓRIO para todo o brasileiro. Mas esqueça que disse isso, pois a palavra “obrigatório” geralmente espanta as pessoas – e com razão. Portanto, releiam todo o texto novamente, cortando esse último parágrafo! Belê?
Hasta!

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Pátria educadora


Eu achei que não teria coragem para escrever esse texto. Ou melhor, não teria estômago. Mas, respirei fundo, e aqui estou. Depois de ponderar comigo mesmo, decidi escrever apenas para eventualmente voltar a consultar futuramente, quando a bizarrice da trilogia “Pátria educadora” se apagar da minha massa cinzenta e aparecer algum “entendido” no assunto querendo debater o tema. Para quem não sabe, é uma produção “independente” do Brasil Paralelo. O título da "obra", claro, é uma ironia ao lema do segundo mandato do governo Dilma (bom mesmo é Brasil acima de tudo, Deus acima de todos, né não? Bem mais fácil de botar tudo no rabo do Nosso Senhor). São dois filmes de aproximadamente 50 minutos que culminam no “documentário” (ficcional?) de uma hora e meia.
Bom, para comentar uma série de filmes rasa e maldosa terei que ser raso e, talvez, um pouco maldoso. Também tentarei ser o mais breve possível – diferentemente do que fiz quando comentei outra produção do Brasil Paralelo, “Sobre armas e livros”. Lá vamos nós again.
O primeiro episódio tenta dar conta de milhares de anos que resultaram na formação do atual sistema educacional do mundo ocidental. Resumindo tudo, eles tentam apresentar uma ideia de que a esquerda dominou o troço todo e que as experiências mais radicais dos comunistas foram fracassos absolutos. Durante os três episódios é mencionada a “revolução cultural” de Mao Tse Tung e tenta se colar a imagem do ditador chinês às principais lideranças da esquerda brasileira contemporânea. O que eles não contam, obviamente, foi que Mao Tse Tung chegou ao poder derrubando um império sangrento que nadava em ouro enquanto a população literalmente morria de fome como mosca, aos milhões. Obviamente que o resto da história todo mundo sabe: como toda a “revolução”, depois que se toma o poder, os “revolucionários” não querem deixar o poder e se tornam uma nova ditadura, tão abominável quanto a anterior. É sempre assim, com direita e esquerda. Mas, estou desviando do assunto. Em síntese, se critica a Revolução Francesa, Maio de 1968, a China, Cuba e tudo o que possa ter qualquer relação com a esquerda. Ponto. E, lógico, lançam datas e datas, nomes e nomes, que já renderam livros e filmes aos milhares mundo afora, mas eles vão lá e tentam resumir tudo em um chavão clichê de 10 segundos para fazer o “cidadão comum” (que eles vão chamar de analfabeto funcional, ao final da trilogia) conseguir entender tudo. Ah, mas o ponto chave do primeiro episódio é mostrar que o comunismo e o fascismo são praticamente a mesma coisa, deixando tudo na mesma panela da esquerda. Olavo de Carvalho, obviamente, é uma das fontes.
No segundo episódio o alvo é Paulo Freire. Tenta-se de todas as formas se costurar a seguinte relação: Paulo Freire é fã de Mo Tse Tung e é amigo e fã de Lula e filiado ao PT. Logo, o PT é um braço da ditadura de Mao Tse Tung em que Paulo Freire é o mentor intelectual que lança ideias doutrinárias aos professores que, por sua vez, vão doutrinar os alunos (desde crianças até os universitários).  E, claro, são pegos fragmentos da realidade (de obras e falas) para criar uma imagem de um Freire monstruoso. Não vou aprofundar esse ponto, mas é possível pegar fragmentos da bíblia, por exemplo, e construir uma imagem completamente equivocada de Deus ou Jesus Cristo: um Jesus egoísta, maldoso e vingativo, por exemplo. Isso se chama edição. Com uma boa edição é possível mentir falando meias verdades (para mais informações, leia o meu segundo livro: Jornalisom Gonzo: mentiras sinceras e outras verdades). Ponto.
No terceiro episódio, o “documentário” (ficcional) é apresentado como uma grande denúncia do sistema educacional brasileiro. Lógico que eles pegam todos os podres da educação brasileira, dando ênfase aos 14 anos do governo PT, colocando todos os problemas de séculos de formação do sistema educacional na conta do Lula e da Dilma. Não se questiona, por exemplo, o enfraquecimento da educação nos anos 1990, que foi o que eu estudei e, na comparação com o que a minha filha está estudando, era mil vezes mais fraco. Ou seja, ainda estamos péssimos, mas evoluímos.
As bizarrices maiores, no entanto, ficam por conta do Olavo de Carvalho, que largou pérolas como “educação obrigatória é antidemocracia”. Na prática, o que ele defende é que se uma família quiser não colocar uma criança de 10, 12 ou 14 anos na escola para coloca-la trabalhar, ela poderia fazer isso sem problema algum. É compreensível, tendo em vista que ele praticamente criou a filha dele como um animal em um curral, sem educação e nem suprimentos básicos (procurem entrevistas que ela deu sobre o pai fanfarrão por aí na internet). Outra pérola é quando ele diz que não se tem uma obra relevante publicada por autores brasileiros em 50 anos. Lastimável. Mostra que o imbecil não conhece e não tem estudo sobre literatura brasileira. Tem outras besteiras que agora não lembro de cabeça, mas são todas do mesmo nível.
Também se pegam dados e mais dados que são apresentados parcialmente e que mostram apenas a parte que interessa aos locutores. E, obviamente, não apresenta em nenhum momento qualquer contraponto, o que torna, obviamente, um filme propagandístico da extrema direita. Por fim, quando detonam as universidades federais, aparecem dois advogados dizendo que há perseguição contra professores de direita. A perseguição, na verdade, é descrita como qualquer outra perseguição de qualquer cunho. Eu já vi um professor perseguir uma professora e os dois eram de esquerda. Então, fiquei me questionando: por que não ouviram nenhum professor de direita que se disse perseguido??? Nada. Pura superficialidade. Aliás, essa é a principal característica da trilogia. Uma trilogia intelectualmente preguiçosa e maldosa. Não se aprofunda em nenhum tema e não se ouve o outro lado. Em síntese, tenta se pegar todos os problemas da educação brasileira da história do país e coloca-la na conta do PT e do Paulo Freire. Eles são os demônios! E são comunistas, praticamente uns Mao Tse Tung brasileiros!
Bom, já escrevi demais. Haveria inúmeros pontos para serem detonados aqui, mas vou ser superficial, como eles foram. Para fechar, lanço a questão que me surgiu enquanto eu via o último episódio: e a solução para todos os problemas que foram apresentados se chama Bolsonaro e Weintraub??? Sério isso??? Querem convencer as pessoas de que Haddad, Lula, Dilma, Paulo Freire, etc, é pior do que isso (Bolsonaro e Weintraub)???? Aí, realmente, não é possível levar a sério um material desses. Certamente essa série de filmes, se fosse concorrer a algum prêmio, seria em uma hipotética categoria tragi-comédia-ficcional.
Ah, e maior cara de pau dos produtores foi apresentar um texto definindo o analfabetismo funcional (que cola perfeitamente na massa que elegeu o Bolsonaro se informando por memes, e não por livros ou canais sérios de informação) com imagens de protestos com bandeiras de entidades de esquerda. Seria cômico se não fosse trágico, pois já visualizo milhares de analfabetos funcionais que praticamente nunca leram uma obra clássica (que eles defenderam com unhas e dentes no final – para dar uma impressão de seriedade e intelectualismo) assistindo às três peças cômicas do Brasil Paralelo se posicionando e falando como se fossem especialistas no assunto... Haja estômago!

sábado, 11 de abril de 2020

Escritor de boteco


Estou lendo o segundo volume da trilogia autobiográfica de Henry Miller. Há uns dois anos li Sexus, hoje estou no Plexus e, talvez um dia, leia o Nexus, pois cada um desses volumes tem cerca de 700 páginas. No Sexus ele aborda mais questões de relacionamento, casamento, amantes, etc. No Nexus, pelo menos até a página 200, ele está focando na insanidade que era na década de 1920 (e sempre foi e continua sendo) querer “ganhar a vida” como escritor. Ou seja, ele luta para viver de literatura, sem se entregar a outros afazeres. Lendo sobre esse dilema do velho Henry – que, aliás, já estudei mais a fundo nas minhas pesquisas sobre Erico Verissimo e Hunter Thompson e outros jornalistas-escritores de diversos tempos – fiquei me questionando: posso me considerar um escritor? Tendo dois livros (acadêmicos) publicados e escrevendo frequentemente para jornais, sites e revistas, cheguei à conclusão de que sou um escritor de boteco. Explico-me.
Assim como há milhões de músicos de boteco espalhados pelo mundo, eu sou um escritor de boteco, que tem um público super restrito. Aliás, um público formado majoritariamente por parentes e amigos (minha mãe, meu primo Marcos e meu amigo Sérgio Stangler – que, aliás, me leem – ou dizem que leem - pela minha insistência em mandar os links dos meus textos).
Da mesma forma que os músicos, eu amo a arte (no caso, a literatura), produzo a arte, mas não consigo viver da arte. Logo, tenho minha profissão remunerada que não inclui produzir literatura (antes, jornalista; agora, professor). E se num boteco, depois da décima cerveja, você me perguntar: “mas se pudesse, você gostaria de viver exclusivamente de literatura?”. Eu certamente tomaria o próximo copo de cerveja em um gole e responderia: “É claro!”. Não me interpretem mal, eu adoro ser professor (amo do fundo do coração todos os meus alunos e ex-alunos) e, confesso, gostava demais (DEMAIS MESMO!) de trabalhar em redação. No entanto, se eu pudesse ter todo o tempo do mundo para criar romances e escrever o que quisesse e, principalmente, viajando livremente pelo mundo sem prazo para voltar para capturar histórias que me inspirasse, eu escolheria viver disso. No entanto, profissionalmente, a literatura é para mim, aos 38 anos de idade, o mesmo que é para o músico que trabalha num escritório durante o dia de segunda a sexta e na noite de sexta e sábado sobe ao palco muito mais por diversão e prazer pessoal do que para ganhar qualquer trocado.
Aliás, as semelhanças entre o músico e o escritor de boteco não param por aí. A luta pelo reconhecimento também é semelhante. O músico pode até se tornar semi-profissional gravando em estúdio, lançando um ou outro álbum, mas ele acaba não conseguindo largar a sua profissão rentável para viver da arte. E isso não quer dizer que ele seja menos bom do que os profissionais (conheço muitos músicos de boteco que tem muito mais talento do que vários sucessos nacionais). O mesmo acontece com o escritor.
Tive relativa facilidade para encontrar editoras para publicar meus dois livros acadêmicos, justamente porque sou pesquisador e professor da área – e tenho muito orgulho deles. Porém, há alguns meses conclui meu primeiro romance – um legítimo romance de boteco, uma espécie de tributo a Bukowski, Thompson, Henry Miller e Pedro Juan Gutierrez. No entanto, ao entrar em contato com duas grandes editoras brasileiras, elas sequer toparam olhar o material. Mas não desisto. Confio no meu taco. Sei que o que escrevi é muito melhor do que a maioria dos livros sem cor de figurões que publicam por causa do nome e sobrenome. Não vou parar de escrever por isso. Vou continuar sendo um escritor de boteco para a sorte, ou desespero, da minha mãe, do Marcos e do Sérgio (que, aliás, é o único para quem enviei os originais do meu primoroso romance). Enquanto houver leitores e botecos, seguirei escrevendo e sonhando.

sexta-feira, 27 de março de 2020

Amirável mundo novo


Terminei de ler nessa semana “Admirável mundo novo”, do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), publicado pela primeira vez em 1932. Ou seja, ele foi escrito 17 anos antes da obra “1984”, de George Orwell, lançada em 1949. No entanto, eu não quero fazer aqui um comparativo das duas obras, que relativamente fazem o mesmo exercício literário, intelectual e filosófico. Sobre o livro de Orwell, eu publiquei uma resenha no dia 14 de janeiro de 2016 aqui neste mesmo espaço. Apesar disso, vou começar destacando três diferenças visíveis entre as duas obras, para depois ficar apenas na de Huxley.
A primeira e grandíssima diferença é o tempo. Enquanto Orwell tenta imaginar em 1949 como seria o mundo em 1984 (apenas 35 anos de intervalo), Huxley projeta um mundo seis séculos à frente. Por um lado, poderíamos imaginar uma primeira etapa do futuro imaginado com a sociedade programada por Orwell e, na sequência, uma “evolução” até Huxley. Mas não vou fazer esse exercício, como comentei antes.
A segunda diferença, e que chama bastante a atenção de quem gosta do tema, como eu, é o sexo. Enquanto na sociedade de Orwell o sexo é reprimido pelo Grande Irmão, que tudo controla e tudo vê, na de Huxley ele é estimulado. Você querer ter apenas um parceiro ou exigir exclusividade é considerado imoral. A nova moral prevê que todos tenham vários parceiros e nada de fidelidade ou sentimentos românticos. Óbvio que, a essa altura, a ciência já havia eliminado as DSTs dessa época primitiva em que vivemos.
A terceira diferença está na forma de controlar a sociedade. Em Orwell, o ponto principal é a vigília, enquanto em Huxley a força da manutenção do governo/status quo, para garantir a felicidade e a estabilidade, é o condicionamento. Ou seja, o sujeito é condicionado, desde que nasce, a acreditar naquilo que vai garantir a estabilidade e a felicidade de todos. Já em Orwell, como percebemos quando lemos, há espaço para uma rebeldia, ou seja, o sujeito está sendo vigiado e ameaçado pelo Grande Irmão, finge acreditar em tudo, mas no fundo não acredita. Em Huxley não há espaço para isso. A não ser com uma exceção e, paramos aqui com as comparações.
Antes de voltarmos ao enredo, vou comentar minhas impressões pessoais ao ler a obra. Confesso que, quando comecei a ler, não gostei muito. Achei as primeiras páginas um tanto entediantes e com umas previsões sem sentido, já superadas, e que mostram que o autor estava preso ao tempo em que vivia. Por exemplo: estudantes anotando a lápis em caderno. Pelo nosso tempo, isso seria em 2632. Se em 2020 já é rara essa cena, imagina daqui a seis séculos. Outra coisa bizarra é a imaginação em torno dos meios de comunicação. O telefone ainda funciona com ligações pedindo uma chamada para o número tal (celular, nem pensar), o rádio com receptores grandes e o jornal impresso ainda são a principal mídia. Enfim, tirando essas bizarrices tecnológicas, principalmente da metade para o final da obra, há muitos pontos interessantes. Voltamos, assim, ao enredo.
O ano seria 2632 na nossa contagem atual ou, na contagem da narrativa, 632 Depois de Ford. Deus, Jesus Cristo e toda o tipo de religião são substituídos por Ford. Começa, então, a crítica de Huxley a uma sociedade utilitarista com uma busca incessante à felicidade e à estabilidade. Como disse, ser pervertido é falar em casamento, em família, essas coisas. As crianças são geradas em laboratórios, ou seja, não existem mais pais nem mães para “estragar” os sujeitos. Desde pequenos ouvem mensagens milhares de vezes que são repetidas automaticamente quando adultos. Os sujeitos são divididos em tipos de seres humanos que vão servir para alguma coisa útil na linha de produção e vão ser condicionados a serem felizes assim, sem questionamentos. Numa das explicações, o Diretor do laboratório explica aos alunos: “Mas nos Ípsilons – disse com muita propriedade o sr. Foster – nós não precisamos de inteligência humana” (p.34). Ou seja, quem vai ser administrador nasce e é criado para isso, quem vai apertar botões nasce e é condicionado para isso e assim por diante.
As crianças são estimuladas ao sexo desde cedo e aprendem a não sofrer com a morte. Também tem a “soma”, que seria uma droga perfeita, mas que não causaria ressaca ou qualquer efeito colateral. Elas são tomadas em doses de meia grama e evitam que qualquer sujeito se sinta triste, com raiva, desesperado, chateado, etc. Além disso, os bebês são estimulados a pegarem livros. No entanto, quando eles colocam suas pequenas mãozinhas em um livro, levam grandes choques. Assim, ficam condicionados a nunca quererem chegar perto de um livro ao longo da vida. “Elas crescerão com o que os psicólogos chamavam de ódio instintivo aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados. Ficarão protegidas contra os livros e a botânica por toda a vida” (p.42). É mais ou menos o que está tentando ser feito através das redes sociais por governos como Trump e Bolsonaro. Tentam enfiar na cabeça das pessoas que livros, cultura e arte fazem mal. Assim, os zumbis dessa era primitiva ficam condicionados a aceitar e acreditar nas mentiras impostas por eles. O pior é que está funcionando.
Feita essa contextualização geral da sociedade, vou aos personagens, que substituem as famosas frases “Jesus!” ou “Em nome de Jesus” ou “Deus nos salve!” ou “pelo amor de Deus” por “Ford!”, “Em nome de Ford”, “Ford nos salve!” ou “Pelo amor de Ford!”.
Bom, um dos personagens principais é Bernard. Ele é um cara meio deslocado que os outros dizem que recebeu uma dosagem errada de álcool quando foi fabricado. Ele tem uma necessidade quase instintiva a ser como nós, humanos da era pré-Ford: se apaixona, tem curiosidade em conhecer o mundo, questiona, etc. Ele é amigo de um escritor do departamento de textos sensíveis que também é meio inconformado: ele pensa que escrever apenas o que é permitido é muito chato, mas não sabe dizer sobre o que gostaria de escrever. E, toda vez que sente esse vazio, ele toma uns comprimidos de “soma” para voltar ao normal. Os dois são amigos. Bernard se apaixona por Lenina. Lenina acha Bernard muito esquisito, pois ele não anda com várias mulheres, como os cidadãos de bem do mundo fordiano. Lá pelas tantas, porém, Bernard consegue uma autorização do Administrador Mundial para ir ver um campo de selvagens (que seria mais ou menos o que sobrou da nossa sociedade primitiva do século XXI, ou seja, que se apaixona, se casa, crê em Deus, etc) nos Estados Unidos (a história se passa em Londres e línguas como francês, português ou espanhol já foram extintas). O campo de selvagens é mais ou menos como um safari africano, mas com pessoas que são chamados de indígenas – outra previsão bizarra, pois no início do século XXI os índios já foram praticamente dizimados na sua totalidade pelos homens brancos.
Nesse campo de selvagens, Bernard encontra Linda, uma mulher que se perdeu durante um safari e ficou morando com os selvagens. Ela acabou engravidando (uma tremenda obscenidade) e se tornou mãe! (pelo amor de Ford!) de John. Ela conta que o pai é o diretor do laboratório, assim, Bernard e Lenina levam Linda e John para a sociedade civilizada de Londres. Obviamente há N histórias paralelas, a vida dos dois selvagens são contadas por Huxley, etc. Mas, resumindo, eles voltam para a civilização e aí a confusão está feita (por isso que eu comecei a gostar mais do livro desse ponto em diante). A verdade sobre o diretor é revelada e o Selvagem tenta incutir ideias nos humanos-zumbis civilizados. Para impedir que a sociedade se contamine com ideias e infelicidades (afinal, família, amores, mortes, etc, só trazem infelicidade, segundo os fordianos civilizados) Bernard e o amigo escritor são enviados para ilhas isoladas, Linda morre, e John tem um caso que vira briga ferrenha com Lenina (sua prostituta, cortesã!!). E aí já nos encaminhamos para o final, e eu nem vou contar que John se mata na última cena na frente de milhares de seres humanos condicionados, o que deixa em aberto um futuro nebuloso (que poderia ter seguido com um segundo volume da obra) pois os humanos-zumbis nunca tinham ouvido falar em suicídio. Na minha imaginação, todas as testemunhas são isoladas para não contaminar o resto (#ficaemcasa) e são tratadas com mais milhares de horas de condicionamento, como é feito hoje pelos seguidores do Bolsonaro que, a cada cagada dele, ficam se mandando fake news absurdas pelas redes sociais que justificam as baboseiras proferidas pelo presidente.
Enfim, é isso. Vou partir para o próximo livro o mais breve possível, se Ford assim permitir. Amém!

segunda-feira, 23 de março de 2020

The Godfather


Eu devia ter uns 18 ou 19 anos, não lembro bem. Isso significa que estávamos lá por 1999. Naquele tempo, as locadoras de fita em VHS bombavam. Ter uma locadora era um negócio bem lucrativo. Para conseguir assistir aos lançamentos nos sábados era preciso reservar com algumas semanas de antecedência. Uma alternativa era alugar filmes em dia de semana, mas para quem estudava, era quase impossível. De vez em quando eu encontrava na Max Locadora, em Santo Ângelo, o meu amigo Vinícius Stein, mais conhecido como Vini. Na verdade, foi por essa época que conheci ele, jogando futebol e truco com a gurizada que se encontrava no colégio Onofre Pires. Nesses poucos encontros que houve na locadora ele sempre indicava filmaços. Era mais ou menos como um guia: perguntava que tipo de filme eu estava a fim de assistir e, diante da minha resposta, fazia indicações. Comédia, drama, ação, suspense, etc. Num desses encontros casuais ele disse que eu tinha que assistir ao Poderoso Chefão (Godfather, no original). “Mas tem que assistir os três em sequência... São três filmes de três horas cada”, ele me aconselhou e, ao mesmo tempo, advertiu. Aquilo ficou gravado em minha massa cinzenta e não foi apagado nem com todos os tragos e outras substâncias que ingeri ao longo dessas duas décadas.
No decorrer desses vinte anos eu sempre esperei uma oportunidade pra assistir ao Poderoso Chefão. Porém, toda vez que aprecia uma brecha, eu adiava pelos mais variados motivos. Veio o DVD no início dos anos 2000 e, como nem todas as locadoras tinham os clássicos disponibilizados na nova tecnologia e o vídeo cassete foi aposentado, o Poderoso Chefão foi ficando pra trás. Surgiu a internet e, novamente aquela conversa lá do final dos anos 1990 seguidamente voltava à minha memória. E, man, o Vini manjava de filmes! Devo ter alugado, naqueles tempos, uns seis ou sete filmes com indicação dele e todos me impressionaram. Não lembro o nome de nenhum (desconfio que o Resgate do Soldado Ryan foi um deles), mas o fato é que na minha mente ficou associada a imagem do Vini à de um especialista em bons filmes.
O barco foi andando, nesse tempo me tornei pai e troquei os longas que eu gostava pelos infantis. Agora, de uns tempos pra cá, estou voltando a ver filmes (ainda engatinho nas séries). E, no final das férias e início de confinamento pelo Coronavírus eu tenho feito algumas maratonas cinematográficas. Assim, finalmente, 20 anos depois daquele encontro, exatamente HOJE (dia 23 de março de 2020) eu assisti ao terceiro filme da trilogia Todo Poderoso Chefão. E, man, valeu a pena esperar.
Primeiro, sinto-me feliz por ter assistido apenas agora, com 38 anos. Provavelmente não teria aproveitado tanto se assistisse lá em 1998/99. Claro, seria uma boa ter assistido naquele tempo para, 20 anos depois, reassisir. Mas confesso que raramente vejo uma película duas vezes. As exceções são as que a minha nenê assiste, mas aí não tenho opção. Ela liga na TV e, pá, assisto dez vezes a mesma coisa.
Assisti ao Poderoso Chefão na quinta-feira (dia 19 de março), na sexta-feira (20 de março) e hoje (23 de março). Fiquei pensando como foi a espera do pessoal da época entre o lançamento do segundo (1974) e do terceiro filme (1990). Foi para simular essa espera que aguardei entre sexta e segunda para ver a última parte. 16 anos em dois dias.
E quais foram as minhas impressões sobre a trilogia? Bom, primeiro, foi a melhor trilogia que já assisti (até porque não vi muitas). Também colocaria o Todo Poderoso Chefão, sei lá, no mínimo numa lista dos 10 melhores filmes que já vi. Lembro que naquele tempo, final dos anos 1990, eu fazia listas de melhores filmes num caderno velho. Sempre que eu via um filme novo, eu a atualizava. Agora não faço ideia de quais seriam os meus cinco filmes favoritos – nunca mais parei pra pensar no assunto. Tem filme que eu vi e não lembro nem do título, nem da história. Alguns poucos ficaram gravados na minha mente sendo que, pessoalmente, o principal foi Forrest Gump (talvez porque dos filmes que vi naquela época é o que tenho uma lembrança mais nítida).
Sei que, certamente, a saga da família Corleone, a história de Vito Corleone contada nos dois primeiros filmes, a matança dos líderes das outras famílias da máfia em Nova York quando Michael assume a função de Dom Corleone quando Vito morre no final do primeiro filme, o assassinato do Mão Negra por Vito Corleone contado em retrospectiva no segundo filme e a ascensão de Vicenzo no terceiro – entre outras tantas cenas – também vão ficar na minha lembrança por um bom tempo. Creio que, se eu chegar aos 60 ou 70 anos, ainda vou lembrar algumas cenas clássicas desse filme.
Chego, então, às duas perguntas que – penso eu – todos os que viram a trilogia acabam se fazendo em algum momento da vida. Primeira: qual dos três filmes é o melhor? Eu, particularmente, descarto o terceiro. Talvez seja pelo longo intervalo entre os dois lançamentos, ou talvez pela ausência de Dom Vito, mas achei o terceiro o menos empolgante dos três. O motivo mais óbvio, no entanto, é pelo fato de Michael ficar querendo sair da máfia enquanto a máfia não sai dele. Achei o mais melodramático dos três. Ficaria, então, entre os dois primeiros. Qual o melhor? O primeiro ganhou o Oscar e tem a atuação impecável de Marlon Brando. No entanto, eu gostei muito da narrativa retrô de Dom Vito quando era jovem. Assim, cheio de dúvidas e por uma votação interna apertada (43 bilhões + 1 contra 43 bilhões de neurônios duduzianos) eu afirmo que gostei mais do segundo filme. Possivelmente porque é nele que estão as duas cenas que mais gostei de toda a trilogia (e essa é a segunda questão: qual a melhor cena dos três filmes?). Primeiro, o trecho que mostra como Dom Vito se tornou mafioso, desde que perdeu o emprego para o sobrinho do Mão Negra (o principal mafioso da época, início do século XX) até o momento em que ele mata o velho mandachuvas de Little Italy em Nova York e começa a mandar no bairro.
Segundo, o momento em que Vito vinga o seu pai matando um Dom Não Sei das Quantas, na Itália. Você realmente sente prazer ao ver ele enfiar a faca na pança do velho gordo pouco depois de ter beijado a sua mão e pedido a benção.
Bom, não vou contar todo o filme aqui. E, depois de mais de 20 anos, tenho que agradecer ao Vini pela dica, afinal, se não tivesse vindo dele, provavelmente eu nunca teria assistido. Em tempos de confinamento, fica a dica. Se não confiam no meu gosto cinematográfico, confiem no do Vini – que na época devia ter uns 15 anos, mas que aposto que não mudou de opinião agora, com cerca de 35 (acertei?). Deixo pra ele mesmo responder, se assim desejar.
Hasta!

sexta-feira, 20 de março de 2020

Sobre livros, filmes e o confinamento


Desde as férias até esse início de confinamento por conta do Coronavírus, eu tenho dedicado um bom tempo à leitura e ao cinema visto dentro de casa. Nem cheguei a resenhar tudo o que li e vi aqui. Acabou passando alguns livros mais acadêmicos, como o Veias Abertas da América Latina, e outros que sublinhei e rabisquei pra caralho, mas fiquei com preguiça de sentar e escrever sobre eles, como o “O sequestro dos uruguaios”. Desse livro-reportagem, escrito pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, eu parti direto para o “Longa pétala de mar”, de Isabel Allende, esse sim, devidamente resenhado anteriormente para o imaginário e existente leitorinho.
Sobre o livro “O sequestro dos uruguaios”, que terminei há cerca de duas semanas, não tenho muito a dizer a não ser indicar para todos. Ficar comentando aqui as atrocidades das ditaduras é desgastante, pois já estou careca de falar, de postar, de berrar aos quatro ventos. Talvez, o fato “novo”, para quem apenas conhece a ditadura brasileira é a abordagem sobre a ditadura argentina e uruguaia, especialmente esta última, que foi uma das mais cruéis de todas. Há inúmeras bizarrices e é espantosa a semelhança dos discursos dos militares negando o óbvio com as mentiras descaradas ditas todos os dias pelo presidente Bolsonaro. Vocês sabem: Bolsonaro diz que inventaram que ele falou uma baboseira. Aí mostram ele negando e em sequência mostram ele dizendo a baboseira. E assim por diante.
Enfim, o livro trata da ação conjunta entre as ditaduras uruguaia e brasileira para sequestrar, em novembro de 1978, um casal de uruguaios e duas crianças, de 3 e 8 anos. Na ocasião, Luiz Cláudio Cunha recebeu uma ligação anônima na sucursal de Veja em Porto Alegre, onde ele trabalhava e, acompanhado pelo fotógrafo, tornou-se testemunha do sequestro. Isso mudou tudo, pois fora esses quatro uruguaios, todos os outros latino-americanos que passaram pela situação de serem pegos fora do país de origem, foram assassinados. Isso, no entanto, não impediu a prisão e a tortura dos dois uruguaios sequestrados em Porto Alegre. A história toda ainda tem a pitoresca presença de um ex-jogador do Inter, Didi Pedalada: depois de deixar os gramados ele se tornou policial e torturador.
Também tem um puta material sobre a já comentada ditadura uruguaia e, ao final, um ótimo texto sobre a Operação Condor, que tratava justamente dessa cooperação internacional entre as ditaduras latino-americanas com o financiamento e participação direta dos Estados Unidos. Em síntese, vale muito a leitura. Na primeira parte, Luiz Cláudio Cunha narra o sequestro e apresenta os personagens. Posteriormente, ele conta o drama que foi para comprovar o que ele viu com os próprios olhos, tendo que lutar contra mentiras deslavadas de políticos e militares. Por fim, ele faz esse apanhado geral do contexto do Uruguai, da América Latina e da Operação Condor. Vale a leitura.
No final das férias eu ainda aproveite para colocar parcialmente em dia a minha lista de filmes, já que nos últimos anos eu não me dediquei muito às telinhas. O resumo da minha dedicação ao audiovisual recentemente (excetuando o jornalismo e o futebol) abrange nada muito além de Friends e Californication.
Comecei assistindo ao Coringa. Achei um puta filme, mas confesso que pelo alarde que fizeram, esperava um pouco mais. Na verdade, é genial a sacada de relacionar um puta problema social com um dos personagens mais conhecidos das histórias de super heróis/vilões. Isso atraiu milhões de pessoas para assistir a um drama que não tem nada de super-poderes e nem é interplanetário: é terreno, é humano e está nas cidades de todos os países do mundo. A maneira como as sociedades lidam com os doentes mentais de todos os tipos é ridícula e o filme tem o mérito de escancarar isso na fuça do telespectador.
Depois, assisti A história de um casamento. Outro puta filme. Mostra o drama de milhões de pessoas ao redor do globo que se separam com filhos pequenos. Claro, tem toda a facilidade da história toda acontecer nos Estados Unidos, onde os personagens não têm muitas preocupações financeiras e tudo é facilitado pela grana. Apesar disso, curti pra caralho, pois a psicologia, as filhas da putice e os procedimentos de uma separação com filhos pequenos também estão ali, escancarados aos olhos dos espectadores.
Não lembro se essa é exatamente a ordem dos filmes, mas na mesma semana assisti ao Parasita, vencedor do Oscar. Achei genial. Também mostra problemas sociais, desigualdades, além de questões históricas e culturais da Coréia (como a “casa” subterrânea escondida nas habitações para casos de catástrofes). Para completar, tem um bem refinado, quase perfeito. No entanto, achei que o banho de sangue do final destoou do restante do filme. Se eu fosse o roteirista, teria criado outro final. Não sei qual, mas seria diferente. E bem melhor. Azar dos coreanos. Poderiam ter levado todos os Oscars comigo.
Também vi Era uma vez em Hollywood. Comentei com um amigo meu que esse foi um filme feito para especialistas em fotografia e cinema ou para quem vive a vida paralela de Hollywood. Ele, que é fotógrafo e especialista, adorou. Já eu, achei o pior dos indicados ao Oscar de 2020. Possivelmente é ignorância minha.
Falta ver os outros indicados a melhor filme. Estou na caça do 1917, mas não sei onde achar. Depois, vi ainda o Green Book, vencedor do Oscar 2019. Puta filme. Todo mundo deveria assistir. Mas cansei, não vou contar agora. Tem no Google.
E ontem e hoje, cumpri uma promessa antiga. Desde os meus 17 anos eu pretendia assistir às três partes de O poderoso Chefão. Comecei ontem com a primeira e hoje vi a segunda.
Do jeito que a coisa anda, vou ter tempo para ver a terceira e comentar aqui. É um classicão e valeu a pena esperar 21 anos para assistir. Achei até melhor: se tivesse visto antes não teria aproveitado tanto. Ah, e nessa madrugada assisti ainda a um documentário na Netflix: A terra é plana. Esse também merece um post a parte.
Bueno, é isso por hoje. Cansei. São muitas imagens e palavras para serem absorvidas. A diferença é que agora temos tempo para isso. Só lançar um pouco de vinho no cérebro e tudo se processa claramente. Hasta!

quarta-feira, 18 de março de 2020

Longa pétala de mar


Em tempos de Corona Vírus e confinamento a melhor alternativa para não morrer de tédio é a leitura. Claro, também pretendo assistir a uns filmes, estudar, antecipar aulas e brincar com a minha pequena pelos próximos, sei lá, 40, 60, 90 dias (vá saber?). Pois sigo com o meu projeto de resenhar os livros que vou lendo para consulta-los futuramente, quando eles já tiverem sumido da minha massa cinzenta. E, quando eu não estiver mais aqui nesse planeta, pode ser útil para alguém que leu esses livros e também já não lembra mais do que se trata, ou ainda, para quem quer saber o enredo da obra em questão (apesar de que aqui eu conto o final, sem pudor).
Numa época em que o tema universal é um vírus, fiquei me questionando como as obras chegam às nossas mãos. Pois é, a descoberta da existência de um livro é mais ou menos como pegar um vírus: você tem que ter algum contato com ele. Porém, as semelhanças param por aí, pois um livro precisa ser escolhido.
A primeira vez que ouvi falar sobre “Longa pétala de mar” ocorreu, por coincidência, enquanto eu lia o “Viver para contar”, do Pablo Neruda (já comentado aqui). Estava eu, em janeiro, assistindo ao Manhattan Connection numa noite de domingo quando vi o Lucas Mendes e o Diogo Mainardi rindo da obra de Isabel Allende, que trata da travessia de dois mil refugiados espanhóis para o Chile durante a Guerra Civil do país europeu. Sabendo do que se tratava, ignorei a ignorância dos dois globais e fui atrás da obra. Descobri que havia sido lançada no Brasil em 2019. Dias depois desse episódio fui até a loja da L&PM, a Pocket Store, no Moinhos de Vento, em Porto Alegre, para entrevistar o Pinheiro Machado (o PM do nome da editora) para o programa Café Literário, e me deparei com uma pilha de livros formada pelo “Longa pétala de mar”. Não tive dúvidas de comprar na mesma hora.
Na última sexta-feira, quando anunciaram a suspensão das aulas na universidade em razão da pandemia do Corona Vírus, comecei a ler o livro de Isabel Allende. Foram cinco dias lendo as 278 páginas da edição publicada pela Bertrand Brasil, do grupo Record. Uma média de quase 60 páginas por dia. Isso demonstra, de cara, que se trata de uma narrativa de fácil leitura, com linguagem clara e algumas referências históricas que, alguém que de repente não sabe nada sobre o contexto histórico, talvez fique boiando um pouco, mas nada que comprometa o entendimento geral do romance. Algumas perguntas-respostas:
Primeiro: quem é Isabel Allende? Bem rapidamente, Allende nasceu no Peru, se criou no Chile, morou na Venezuela e hoje mora nos Estados Unidos e é naturalizada americana. É sobrinha do ex-presidente do Chile, Salvador Allende, assassinado no ataque de 11 de setembro de 1973, financiado pelos Estados Unidos, que colocou o general Pinochet no comando do país por cerca de 17 anos.
Segundo: é uma ficção ou uma não-ficção? Olha, eu classificaria como uma obra mista. O contexto histórico é todo real, os personagens secundários (políticos) também são reais. E os personagens protagonistas, mesmo sendo fictícios, foram construídos a partir de entrevistas, conversas e contatos feitos pela autora com um dos espanhóis que a inspirou para a criação do personagem principal. “Este é um romance, mas os fatos e as pessoas que pertencem à história são reais”, escreveu a autora nos agradecimentos. Além disso, ela conta que Victor Pey, a principal fonte consultada, morreu aos 103 anos de idade, quando a obra foi finalizada.
Para contar a história, eu vou dividir tudo em duas categorias: a dos acontecimentos históricos (fatos reais que aparecem na obra) e o drama dos personagens (baseados em fatos reais, mas com algumas doses de ficção).
Em 1936 estourou a Guerra Civil Espanhola. Allende usa algumas dezenas de páginas da primeira parte da obra contando sobre a guerra através dos personagens. Em síntese, um governo de esquerda havia sido democraticamente eleito, e a direita, comandada pelos militares, planejou um golpe militar, tomando as principais cidades espanholas. O que significava tomar as cidades? Matar todos os apoiadores do governo, fossem civis ou militares. Enfim, uma guerra sem leis, uma perseguição cruel e sanguinária semelhante a que Hitler faria depois no nazismo contra os judeus. O troço todo foi liderado pelo General Franco (que ao término da guerra, ficou espantosamente 40 anos no poder da Espanha. Um fascista dirigindo um dos países mais importantes da Europa, nas barbas do mundo, até nada mais nada menos do que 1975). Em síntese, quando a guerra civil acabou, começou a Segunda Guerra Mundial.
O curioso é que Franco venceu com o apoio da Alemanha nazista e da Itália fascista, sem nenhuma intervenção internacional em sentido oposto. Estados Unidos e União Soviética não se meteram e isso foi determinante para a vitória franquista/nazista/fascista. O que isso quer dizer? Que se Eua ou URSS tivessem entrado na Guerra Civil espanhola antes, a Segunda Guerra também teria iniciado mais cedo. Por exemplo, o troço todo poderia ter descambado em 1937... Mas, não foi assim que aconteceu e os defensores do governo eleito foram derrotados e os mesmos que venceram o nazismo e o fascismo na Segunda Guerra Mundial fingiram que nada acontecia na Espanha até a morte de Franco, em 1975.
Sendo perseguidos e executados a sangue frio, sem qualquer tipo de julgamento, os refugiados derrotados partiram para a França (eu fiz essa viagem de Barcelona para a França ano passado e, realmente, é uma viagem bem curta). O resultado disso? Milhões de espanhóis na fronteira tentando ingressar no país vizinho. E os franceses? Não queriam aqueles espanhóis miseráveis e vermelhos nem a pau! Fecharam as fronteiras e milhares morreram ali mesmo. Alguns conseguiram entrar clandestinamente e foram postos em campos de concentração em território francês, sendo tratado pior que cachorro de rua. Mulheres grávidas e crianças morriam como moscas. Diariamente eram atirados alguns poucos pães duros como pedra pelos soldados para o povo maltrapilho em pleno inverno europeu. Foi nesse contexto que Pablo Neruda, que então era embaixador chileno na França, conseguiu o navio para levar dois mil desses refugiados espanhóis que estavam presos em solo francês para o Chile, em 1939.
Vamos agora aos personagens. Víctor Dalmau é o principal protagonista. Ele é estudante de medicina quando estoura a Guerra Civil. Enquanto o irmão mais novo, Guillem, vai para o front como soldado, ele é improvisado como médico para atender aos feridos do lado que defendia o governo de esquerda democraticamente eleito. Enfim, tem todas aquelas histórias dramáticas de guerra. Os pais da dupla, no passado, haviam adotado uma garota chamada Roser. Ela sofria de maus tratos e foi retirada da família por um pastor de direita que a colocou em uma escola de música em Barcelona. Lá, o professor dela (pais dos dois irmão) viu o seu talento e a adotou tardiamente. Durante a guerra, nas idas e vindas de Guillem de Madrid para Barcelona, ele começa a se envolver com Roser. Em determinada cena ele volta para casa com tifus e quase morre. Roser cuida dele durante semanas e, quando ele está quase bom, o desejo os envolve e o coito acontece. Ele volta para a guerra enquanto Roser está grávida. Quando os defensores da república estão praticamente derrotados, o pai dos irmãos morre. Víctor pede que um amigo leve Roser grávida e a mãe para a França para que eles todos se encontrem do lado de lá da fronteira. Nesse meio tempo, Guillem morre em uma batalha. Víctor fica sabendo, porém não quer contar para Roser antes da criança nascer. Enquanto iam para a França, a mãe da dupla – que não concordava em deixar a sua casa para trás – resolve fugir e se perde no meio dos campos de refugiados. Assim, o amigo deles consegue conduzir apenas Roser para a França. Ela é presa e posta num campo de concentração.
Certamente morreria com a criança no ventre, ou daria a luz para um bebê que duraria poucos dias, mas um amigo da família de Víctor acaba indo ao seu encontro e a levando para uma fazenda para fazer o parto e, posteriormente, trabalhar no campo. O bebê nasce e, através dessa amiga, Víctor acaba localizando Roser. Ele fica sabendo que a mãe se perdeu e conta para Roser que Guillem, o pai da criança, morreu.
A situação é caótica quando Víctor fica sabendo da embarcação organizada por Neruda. Porém, como não há lugar para todos, é feita uma seleção, pois o governo chileno pede que levem apenas pessoas que possam contribuir para o país. No entanto, como Roser tinha um filho e cunhado não é parente, os dois resolvem se casar para tornar possível a ida de Víctor, Roser e da criança. Assim, o trio embarca rumo ao Chile.
Na minha humilde opinião, essa primeira parte é a mais interessante do livro, pois os dramas aparecem e mudam a todo instante e te envolvem a cada parágrafo. Depois, o romance deixa um pouco de ser tão histórico (mas cheio de vida) para ser mais pessoal – com dramas mais universais, tipo amor, paixão, traição, intrigas, etc.
Sintetizando tudo, chegando ao Chile, Roser e Víctor combinam que vão seguir casados (até porque não existia divórcio no país sul-americano). Curiosamente, o Chile já vivia o contexto da guerra fria e, novamente, há o eterno confronto direita x esquerda. Víctor se envolve com uma grã-fina que já é noiva. Os dois se apaixonam e ela acaba engravidando. Para não haver o escândalo, ela não conta nada a Víctor sobre a gravidez e vai para uma fazenda onde um padre convence a família a dar a criança para a adoção. No entanto, eles deixam a moça dopada e, quando ela acorda, falam que a criança nasceu morta.
O tempo passa e, com o passar dele, Víctor e Roser vão se apaixonando. Vou dar um pulo aqui para o contexto dos atentados de 11 de setembro de 1973. Quando Pinochet toma o poder, novamente Víctor e Roser se veem perseguidos por um governo militar e de extrema direita. Víctor é preso e torturado durante um ano. Quando consegue passar para o regime semi aberto (após salvar a vida de um militar do alto escalão) ele e Roser conseguem asilo na embaixada da Venezuela. Assim, partem para o país vizinho, tornando-se, mais uma vez, refugiados. Quando estão velhos, já nos anos 1980, cai o governo Pinochet e eles voltam ao Chile. Depois de todo esse tempo, quando Roser já havia morrido, aparece uma senhora na casa de Vìctor, que está com mais de 80 anos. A mulher diz ser filha dele e conta então a história da grã-fina. Acontece que a mãe da grã-fina, com peso na consciência, acabou entregando o jogo quando já está prestes a morrer e, assim, o nó foi desfeito. Claro que há páginas e páginas, voltas e reviravoltas e todo o drama que pode envolver uma história dessas, mas o resumão é esse. Ah, e nesse meio tempo, não lembro como, Víctor acha a mãe que, apesar da idade e da confusão nos campos de refugiados, estava viva e, assim, vai viver com ele e Roser no Chile.
Moral da história? A humanidade sempre foi e sempre será uma merda. Os conflitos que vivemos hoje (direita louca x esquerda radical) nunca pararam e nunca vão parar. Talvez a notícia boa é que hoje, raramente, há casos de perseguição em massa, com presos e execuções aos milhares, como foi há bem pouco tempo (não por falta de vontade de Bolsonaros da vida e seguidores: “Vamos metralhar a petralhada do Acre!!!”). Outra “coincidência”: o início e o fim dos regimes militares sempre foi comandado pelos Estados Unidos. Ou seja, os americanos – quando tem um presidente tipo Nixon ou Trump – financiam e apoiam a todo o custo governos autoritários que vão proteger os interesses americanos. Depois, quando entra um governo Democrata, a coisa alivia, mas nunca completamente. E assim a humanidade (pelo menos no lado das Américas) segue seu rumo. Sempre andando em círculos. E sempre se surpreendendo, como se o novo não fosse velho. Para finalizar, indico o livro, não só pela riqueza histórica, mas pela excelente narrativa, que envolve, emociona e ajuda a entender um pouco melhor essa espécie incompreensível chamada humanidade.
Ah, e por que o título do livro se chama “Longa pétala de mar”? Porque era assim que Pablo Neruda se referia ao Chile no continente americano: uma longa e cumprida pétala banhada pelas águas do Pacífico.
Hasta!