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quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Las Calles de Madrid

Madrid. A cidade real. A cidade do Real. Real Madrid. Madrid. Acordamos no meio da tarde e qualquer sinal de efeito do Rivotril já havia evaporado de meu cérebro. Queria sair, passear, tirar fotos, explorar as calles de Madrid. “Ayer la vi bailando por ahí, con sus amigas en una calle de Madrid”, como diz a letra de uma música que viria a conhecer na noite de ano novo, em Burgos. Antes de sairmos, apenas confirmei na recepção do hotel o que temia: nenhum sinal de minhas malas. Bueno, o jeito vai ser encarar tudo com a roupa do corpo mesmo: calça jeans, manga curta e o mesmo jaquetão que comprei num outlet em New Jersey anos antes para encarar o inverno americano.
A primeira coisa que gostei em Madrid, aliás, foi o hotel Barajas Plaza. Discreto, pequeno, mas aconchegante e com funcionários receptivos e sorridentes. Fica em uma rua super estreita no bairro de Barajas, perto de uma pracinha em formato oval. Aliás, a recepcionista nos deu um mapinha do tamanho de um cartão de visitas para chegarmos ao metrô. O plano era esse: deixar o carro na garagem por onde passássemos e usá-lo apenas na estrada, pois qualquer estacionamento custa muito mais do que os tickets do metrô. E o mapa do metrô de Madrid é um dos mais lógicos, fáceis e práticos que já vi. Sem querer bancar o convencido, mas para quem praticamente memorizou o mapa de Nova York no um ano em que morei lá, o de Madrid é fichinha. Seguimos o mapinha impresso até a estação: contorna-se a pracinha, segue reto, dobra à esquerda, à direita, chega à outra pracinha e logo na frente está o metrô. Embarcamos e descemos em Nuevos Ministerios. A lógica de Barajas até qualquer parte da cidade é essa: vai até Nuevos Ministérios, última parada, e de lá se vai para qualquer outro lugar. Ou quase. Pegamos mais um trem, que não me recordo o número, e descemos em Tribunal. Dali, estávamos praticamente na Gran Vía. Madrid! Europa! Finalmente cheguei a ti!
Ainda era dia e caminhamos um pouco pela Gran Vía até a fome bater. Critica-se muito os americanos, mas a praticidade das grandes redes de fast food somada ao preço baixo fez com que entrássemos em um Burger King. De estômago cheio, fomos descendo em direção a Plaza Mayor passando por uma espécie de calçadão lotado de lojas. E, lojas, quem conhece sabe, é com a Cris. De cara, já compramos alguns presentinhos para a nenê e para a vovó (da nenê). Para a minha sorte, não estava tão frio. Descemos até a Plaza Mayor.
Eu fotografava tudo o que via: a estátua do figurão no cavalo, o pinheiro de Natal, o urso, Puerta del Sol, o Mr. Been feioso que zanzava por ali com seu ursinho velho, os espanhóis, as espanholas, los niños e las niñas. Nada era poupado pela minha lente. Passeamos por ali, entramos e saímos de algumas lojas, voltamos para a Gran Vía, até o prédio onde está a placa com as letras luminosas Schweppes (que ainda estavam apagadas), andamos mais um pouco, paramos num Starbucks para tomar um café e, quando saímos, estava noite. A questão é que era outro visual.
Assim, aproveitei a intenção da Cris de visitar mais lojas com a minha vontade de fotografar tudo de novo, mas agora com o visual noturno e a iluminação de decoração natalina, e praticamente percorremos o mesmo caminho feito anteriormente até a Plaza Mayor. Fotografei tudo de novo, porém dessa vez com as luzinhas: o pinheiro, Puerta del Sol, o urso, as lojas, a placa do Schweppes, o Mr. Been com o ursinho velho, os espanhóis, as espanholas, los niños e las niñas. Fomos, voltamos, caminhamos mais pela Gran Vía, entramos nas lojas do Corte Inglêz, numa outra galeria sinistra que não sei o nome, fotografei, curti las calles de Madrid até que cansamos. Uma última parada para um jantar: um sanduichão com um pão francês gigante e algumas coisas sem ovo dentro. Resolvemos voltar, pois a ideia era pegar a estrada cedo na manhã seguinte.
Na chegada, uma passada num mercadinho na frente da praça de Barajas que estava aberta e lá abastecemos com suplementos para a viagem: refrigerante, salgadinho, bolachas, água mineral, etc. Não vou ser hipócrita para dizer que compramos frutas e coisas saudáveis, porque não fizemos isso... Mas enfim, poupamos uns bons euros estocando alimentos.
Chegamos ao hotel e, agora sim, a mala havia chegado. Senti-me completamente aliviado. Ali estavam as minhas botas de neves para os alpes suíços! Minha camiseta do Grêmio! Minha camiseta Xavante! Enfim, só coisas importantes que os 200 euros que me pagariam não compensariam, pois não seria possível comprar a tempo relíquias novas, afinal, onde acharia uma camiseta do tricolor gaúcho ou do Brasil de Pelotas na Europa para tirar fotos nos Alpes suíços??? Carajo! Esses espanhóis tem cada ideia... querer compensar isso com 200 euros... O cu deles.... Arrumamos as coisas que desarrumamos em pouco tempo e assim, na manhã seguinte, às seis horas pelo horário espanhol (três da madruga pelo horário de Brasília) acordamos para pegar a estrada rumo a Barcelona.
Para ser sincero, a excitação da viagem não me permite ter sono. O que surpreende a muita gente que me conhece, pois às vezes sou meio Bukowski nesse ponto: gosto de deitar para um cochilo a qualquer hora, não importa se de manhã, de tarde ou de noite. O sono vindo é o que conta. Isso faz com que muitos pensem que sou sempre sonolento... Mas, quando estou viajando, é como se me ligassem na tomada. Lembro, em 2005, num carnaval no Rio em que me disseram que o bloco Bola Preta começava às 8h. Posamos no apartamento de uma finlandesa em Botafogo, que morava com o marido e o filho, depois de chegarmos às quatro da manhã. Eu e meus três ou quatro amigos cariocas que estavam junto dormimos espalhados pelo sofá e pelo chão do apartamento. Acordei para mijar lá por 7h e tratei de fazer com que todo mundo levantasse para ir no Bola Preta. Só ouvia os cariocas falando com sotaque: “Esse gaúcho não dorme não, pow?”. Pois é, quando estou viajando, não durmo.
Carregamos o carro novamente, o fiatizinho 500, e pegamos las calles de Madrid até a autoestrada. A capital espanhola ainda dormia e praticamente não havia movimento. Foi fácil seguir o GPS e deixar a cidade (missão difícil e demorada em outras cidades, como Barcelona e Paris, na hora do rush). A estrada estava vazia e quase fiz o nosso Fiat 500 decolar. Talvez tenha levado alguma multa, não sei ainda. A máxima era de 130, mas, como não tinha praticamente mais ninguém dirigindo pelas vias sem nenhum buraco, com três ou quatro pistas, cheias de espaço, sem que eu percebesse o marcador chegava a 150, 160...
Quando via, diminuía, mas 130 parecia tão devagar naquelas estradas... Dirigindo, viajando e aprendendo, descobri uma peculiaridade da Europa: não há muitos postos de combustível pelo caminho. E eu, acostumado com o Brasil, que tem posto de combustível a cada 10 ou 15 quilômetros (ou bem menos do que isso) esperei o combustível chegar na reserva para abastecer. Passaram-se 10 minutos. 20 minutos. Meia hora e nada. Nenhuma placa, nenhum sinal, nada. Dos três risquinhos da reserva, dois já tinham ido para o espaço. Apelei para o GPS, que me indicou o posto mais próximo. Obviamente, era fora da estrada, numa cidadezinha no caminho. Quando chegamos (após pagar um pedágio que ficava na entrada da porra da cidadezinha) já não tinha mais risco nenhum no painel, que avisava: “peligro, poco combustible”. Completei e, a partir daí, assim que o painel marcasse que o tanque estava cheio pela metade eu já tratava de procurar um posto. E, geralmente ele aparecia quando o sinal entrava na reserva. Em síntese, outra dica: na Europa, pelo menos nos países por onde passei (Espanha, França, Itália e Suíça), é comum você andar 60, 70 ou até 80 quilômetros sem passar por nenhum posto de combustível de beira de estrada.
Depois de aproximadamente seis horas de viagem, chegamos a Barcelona, onde eu havia feito as reservas em um hotelzinho perto de Las Rambas, na parte sul. Era início de tarde e o GPS indicou um caminho que passava justamente na frente do Camp Nou. Assim, antes de chegarmos ao hotel, fizemos a nossa primeira visita na segunda maior cidade espanhola e capital da Cataluña.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Um sofá novo, trocar de carro, dar entrada numa casa ou viajar?

Quem é viajante não tem dúvidas em responder a essa pergunta. No seu livro Viajando, viajando, que já comentei aqui, Sérgio Stangler aborda a mesma temática. No início de 2018 recebi um dinheiro inesperado. Para ser mais preciso, um dinheiro a qual eu tinha direito, mas que demorou pra caralho para sair. E, então, saiu. Na época, a dona da casa que alugamos pediu o seu sofá de volta. Assim, surgiu a dúvida: comprar um sofá novo ou viajar? Além disso, o carro já estava com uma quilometragem alta. E havia a pressão de pessoas relativamente próximas para dar a entrada na compra de uma casa/apartamento. Apesar dos argumentos favoráveis ao sofá e dos palpites externos para a troca do carro ou a entrada em um imóvel, eu mandei tudo às favas e disse para a patroa: é a nossa chance de ir para a Europa. Não fazia ideia se algum dia apareceria uma chance como aquela. E, assim, passamos a planejar a viagem.
O fato de uma tia da Cris, a tia Ella, morar em Burgos, na Espanha, foi um facilitador. Entramos em contato com ela, que ficou super empolgada com a nossa visita. Assim, depois de muito especular, pesquisar, estudar, contatar meus pais para ver sobre a possibilidade da Larissa ficar com eles, de consultar agendamento de férias, finalmente comprei as passagens lá por março de 2018: partiríamos do Salgado Filho, em Porto Alegre, rumo a Madrid com escala em Guarulhos. Passaríamos Natal e ano novo em solo europeu e voltaríamos em voo no dia 6 de janeiro de noite. Tudo foi feito pela eficientíssima agência One Life, de Toledo-PR. Foi com ela que também mediei a minha ida para Nova York e de minha irmã, quando foi me visitar nos States e, depois, quando ela também foi para a Europa. Não é nada de roteiro turistão: eu informei as datas que queria ir e voltar, eles acharam os voos mais baratos, comparei com os da Decolar e outros sites, e valia a pena fazer o serviço com eles, que também trataram do seguro viagem e, no caso dos Estados Unidos, do visto americano. Em resumo, paguei duas passagens à vista - com o dinheiro inesperado - e as outras duas parcelei em dez vezes no cartão (porra, não tenho RBS pra pagar minhas passagens...).
E, assim, ficamos com o mesmo carro e com os sofás velhos que estavam atirados num canto da sala. E a casa, fica para outra. Está longe de ser minha prioridade comprar um imóvel. Pra mim, tendo uma barraquinha num parque público é o suficiente, desde que eu possa partir quando quiser. Liberdade não tem preço.
Passagens compradas, nos meses que se seguiram fui reservando os hotéis, para otimizar o orçamento. Otimizar. Uma ex-colega, Relações Públicas, disse que em uma entrevista de emprego sempre se deve utilizar essa palavra. Os chefes adoram. E eu otimizei meu orçamento. Cada mês pagava a hospedagem em um lugar. Uma outra reserva da grana recebida serviu para comprar euros, peguei mais a grana das férias e décimo e.... ficou tudo pronto! E, agora com a viagem findada, só posso dizer uma coisa: deu tudo 100% certo. Não faltou nem sobrou. Enquanto escrevo esses textos, como todo o viajante chato metido a besta faz, vou dando algumas dicas. Eu fiz um “caixa 2” para imprevistos, que sempre aparecem. E, financeiramente, uma das coisas que confirmei é o seguinte: se perde aqui, se ganha ali. Explico-me: paguei uma batata pra ver PSG x Nantes no Parque de Príncipe. Mas compensei jantando sanduíche comprado no mercado em Paris a dois euros. A vida é assim. Ganha-se aqui, perde-se ali. Sabendo dosar, vamos longe.
Questões financeiras resolvidas, chegou a hora de fazer o roteiro. A Cris combinou de passarmos o natal e o ano novo em Burgos, na Espanha, com a Tia Ella e a família. Concordei na hora. Sobraram duas opções: ou chegaríamos e pegaríamos a estrada para conhecer alguns destinos ou iríamos direto para Burgos, passaríamos o Natal lá e no dia 26 pegaríamos a estrada. Inicialmente achei a segunda opção melhor, mas depois, pensando bem, conclui que seria ruim chegar no dia 6, cansado de tanto viajar, e ter que pegar um avião de volta para o Brasil. Outra hora falo do meu trauma de aviões... Na dúvida, liguei para a tia Ella: e aí, tia, o que fica melhor para vocês? Ela sugeriu viajarmos primeiro e depois ficarmos lá para natal e ano novo. Perfeito. Comecei a traçar a rota. Primeira dúvida: trem, ônibus ou alugar carro? Todo mundo dizia que o melhor era pegar trem. Aí vai outra dica: siga o seu instinto e o seu interesse. E pesquise! No meu caso, eu tinha a experiência de alugar carro nos Estados Unidos. Então eu não era um novato no assunto, pois cruzei da costa Oeste à costa Leste dirigindo pelas estradas americanas, que se parecem muito com as europeias. Acabei botando tudo no papel: ok, de trem ou busão ficaria mais barato. Mas o barato sairia caro.
Estaríamos com bagagens. Seria horrível chegar de madrugada num lugar e pegar metrô para hotel. Se pegássemos taxi ou uber a economia já ia para as cucuías. Dois fatores me fizeram decidir: 1) era inverno. Chegar e partir cedo da manhã ou de madrugada seria uma tortura. De carro, seria muito mais confortável. 2) a perda de tempo. Se você vai pegar um trem ou ônibus você tem que se programar para estar tudo pronto na estação antes da hora, pois o trem não vai te esperar. Se você está de carro e se atrasar 10, 20 minutos, uma ou duas horas, pouco importa. O carro está lá. Um exemplo. Um trem que sai ao meio dia. Você vai ter que pegar um metrô até a estação carregando todas suas malas e sacolas. No inverno. Com a sua esposa pronta para jogar tudo na sua cara se alguma coisa sair errado. Muito arriscado. Você vai ter que levantar às 9h para deixar tudo pronto até às 10h para pegar o metrô para chegar pelo menos meia hora antes na estação de trem para achar o ponto de partida. Vai ter que pegar o trem. Vai ter que chegar no destino e se virar para achar o hotel. Vai perder tempo. Sua mulher vai ficar bravo com você. Vai estar frio e você vai estar cansado. De carro, você se levanta às 11h, toma um banho, da uma cagada, desce, faz o check out, põe o endereço do próximo destino no GPS e parte. Muito mais simples, fácil e confortável, não? Foi o que fiz. Óbvio, ai entra o caixa 2 dos imprevistos. Eu tinha reservado uns bons euros para pedágios, gasolina e outros gastos que pudessem surgir na estrada. E surgiram, como os 40 euros que tivemos que pagar para colarem um adesivo no carro para entrarmos na Suíça. Enfim, aí já estou adiantando a história... Voltemos àprogramação.
Peguei o mapa. Tínhamos duas possibilidades: ou chegar em Madrid e de lá irmos para Paris e fazermos a volta até Barcelona e irmos a Burgos (o que não seria muito sensato ou lógico) ou chegarmos em Madrid, partimos para Barcelona, subirmos a Milão para de lá ir para os alpes suíços, Zurique, Paris e Burgos. Como tínhamos pouco tempo, fiz essa segunda opção e deixei o passeio em Madrid para o final. Ou seja, chegaríamos em Madrid, dormiríamos uma noite e já partiríamos no dia seguinte para Barcelona. Assim, em agosto paguei o hotel em Barcelona, em setembro em Milão, em outubro na Suíça, em novembro em Paris. Resumindo: pegamos o avião com tudo pago: passagens, aluguel do carro e hospedagem. Só nos preocuparíamos com o que gastaríamos lá. Sei que o Sérgio, por exemplo, é contra planejamentos. Mas quando os recursos são escassos, eles são necessários. Se eu tivesse uma conta cheia de grana no Brasil faria tudo sem planejar. Iria para onde o vento apontasse sem me preocupar com preço de hotel ou em gastar com táxi. Mas não é meu caso. Minha conta no Brasil ficou raspadinha. No máximo, havia a opção do crédito que, graças a Deus, praticamente não usei.
Estando tudo planejado e organizado, finalmente chegou dezembro. A hora de pegar o avião. O momento de encarar o meu fantasma: o monstrengo que pesa toneladas e viaja por cima das nuvens como se fosse um beija-flor.
O avião sairia no dia 12 de dezembro. Uma semana antes começou a insônia. Coração dispara. Frio na barriga. Penso em desistir. Porra, perderia uma puta grana. A grana do sofá novo, da troca do carro, da entrada na casa. Penso que minha filha não vai. Se o avião cair, ficará órfã. Puta que pariu. Penso que meus pais e irmãos cuidariam bem dela. Penso, penso, penso. Acabo guardando para mim esses pensamentos. Vou me chapar de Rivotril e já era. Foi assim que fiz para ir para Nova York. Tomei um Rivotril antes de pegar o táxi e um quando o avião estava lá em cima. Apaguei e acordei com a aeronave descendo no JFK. Decido não tomar nada no trecho Porto Alegre – São Paulo. O avião sairia meio dia e pouco. Chegaríamos duas e pouco e pegaríamos o avião para Madrid às 17h05 pela Ibéria. Fui no seco até São Paulo. Quase esmaguei a mão da Cris. Suava frio, barriga gelava e aquela porra tremia tanto quanto eu. Mas chegamos. Quando as rodas tocam no chão, é o alívio. Aquele era o meu limite. Mais que isso, só com Rivotril. Rodamos, comemos e, quando fomos para o embarque, tomei um comprimido. Resolveu. Fiquei tranquilo, sonolento. Entramos na aeronave. O troço acelerou e zuummmmmm saiu do chão. Passou-se, sei lá, quase uma hora. No mapinha estávamos no nordeste quando, de repente, ZUMMMMMMM. O troço deu um solavanco. As pessoas gritaram “UUUOOOOOUUUUUU”. Se estivéssemos sem cinto pararíamos no teto. Na sequência, ele deu umas tremidas, como um carro que está apagando.
A Cris me olhou, apavorada. E eu só pensava “já era. É o fim. Eu sabia!!! Essa porra não é confiável, caralho!!!! Porque eu teimo comigo mesmo?!!!!”. O susto passou. Uma guria do outro lado chorava. O piloto falou em espanhol. Não entendi patavinas. Perguntei para umas cinco pessoas ao redor, todos brasileiros. Ninguém tinha entendido porra nenhuma. O que esse porra falou??? Que a merda vai cair??? Vamos ter que fazer pouso de emergência em Recife?? Caralho???? A aeromoça passou lá do outro lado. Eu, de pescoço esticado, tentando chamar a atenção dela. Quando ela olhou, comecei a abanar feito o Mr. Been. Ela veio. “O que o piloto disse???”, eu perguntei apavorado. “Ele disse que a viagem vai durar X horas e a previsão é de tempo bom em Madrid”, ela respondeu. Ufa. Por via das dúvidas, tomei mais um Rivotril. Capotei. Acordei quando estávamos cruzando o Marracos. Dali o troço passou rápido e logo pousamos em Madrid. Assim como quando cheguei em Nova York, estava chapado de Rivotril.
Fomos pegar as malas e a minha havia sumido. Fui até o balcão de malas extraviadas e disseram que se não aparecesse eu receberia 200 euros. Fiquei puto. Não houve Rivotril que me alcamasse?
- MAS NA MINHA MALA TEM MUITO MAIS DE 200 EUROS!!! EU QUERO A MINHA MALA!!!! TEM MINHAS BOTAS DE NEVE!!!!
A mulher se assustou um pouco. Pegamos o carro: um Fiat 500. Nada mal. Achamos sem maiores dificuldades o Hotel Barajas Plaza, que fica pertinho do aeroporto. Entramos no quarto e dormimos. Não sonhei com nada. Nem com o avião tremendo. Nem com a minha mala extraviada.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Aprendiz de viajante

Sempre gostei de narrativas de viagem. Não é a toa que mantenho um projeto de pesquisa que trata da temática no jornalismo. Gosto de todos os tipos de estilo: das crônicas ingênuas, das reportagens, das memórias, das poesias, dos romances, dos contos, enfim, de qualquer história em que haja deslocamento. Pode ser dentro do país, como Jack Kerouac fez, não só em On the road, mas em muitas de suas outras obras não tão conhecidas. Pode ser em uma estadia mais longa em outros países, como fez George Orwel em Na pior em Paris e Londres. Pode ser uma viagem a convite de um governo, como Erico Verissimo fez em deslocamentos aos Estados Unidos e Israel. Ou pode ser uma viagem para fazer uma grande reportagem, como fez Flavio Alcaraz Gomes em Um repórter na China. Também pode ser os livros anuais de Airton Ortiz, um jornalista viajante profissional. Ou ainda, pode ser a conversa fiada que às vezes fascina e noutras irrita pelos preconceitos e clichês, como nos textos da patricinha veterana Martha Medeiros ou do playboy de cabelos brancos David Coimbra, dois rebeésseteveéticos que já vi encarnarem a arrogância de alguns que trabalham no grupo, com a postura: foda-se o que você pensa, eu trabalho na RBS e você não. Como se alguém além da fronteira do Rio Grande do Sul soubesse o que quer dizer RBS... Sem ressentimentos, conheci o David pessoalmente e já fui xingado pela Marta por email. Independente disso, volta e meia pego alguma coisa deles para ler (acabei há pouco o primeiro volume do Um lugar na janela, da Martha, e estou em andamento com Um trem para a Suíça, do David. Geralmente procuro algo deles quando quero ler algo não muito complexo, mais para relaxar mesmo.
O fato é que os textos que vou postar aqui nos próximos dias sobre a minha primeira ida para a Europa (não sei se será a única ou não, só o futuro vai dizer) não tem nenhuma pretensão jornalística nem literária. Na verdade são mais textos para que, talvez, no futuro eu possa consultar quando estiver velho e sem memória para saber o que aconteceu no meu passado. Não posso me comparar à literatura de gênios como Orwel, Kerouac ou Verissimo e tampouco posso concorrer com a quantidade de viagens feitas por David Coimbra, Martha Medeiros, Arthur Verissimo ou qualquer outro jornalista relativamente famoso que é escalado para cobrir eventos ao redor do mundo e que vivem em aeroportos. Os meus, são textos amadores de um viajante amador. Ninguém nunca pagou as minhas viagens, portanto, para faze-las tive que passar por muita coisa, que, como já relatei aqui, vai da panfletagem no centro de Porto Alegre até jornadas em redação de rádio e jornal de interior de 12 horas para ganhar 300 reais sendo cagado na cabeça praticamente todos os dias por diretores e editores. A minha grande viagem naquele tempo era pegar o Tracisa velho e lotado no sábado de tarde para ir de Ijuí para Santo Ângelo ver meus pais e sair na balada no final de semana com o pouco que sobrava e voltar já no domingo para estar na redação na segunda-feira de manhã cedo. Aliás, para poder ter alguma grana para sair, almoçava na casa da minha tia Eva (in memorian) e de noite era o tradicional pão com mortadela e queijo no kitnet em que fazia os trabalhos da faculdade em um PC 486 usado que comprei de uma ex-colega e que não tinha mouse (aprendi todos os atalhos do Windows nessa época).
Quando sobrava alguma grana me dava ao luxo de comprar carne moída de segunda para comer com pão cacetinho. Certa vez, meu amigo e colega de rádio Célio Ferraza se surpreendeu porque eu disse, em meio ao expediente, que naquela noite teria um jogo importante do Grêmio e que na saída da rádio eu não poderia esquecer de passar no mercadinho para comprar R$1,50 de carne moída para a ocasião especial. Ele disse que, apesar de rir, sentiu pena porque geralmente as pessoas dizem que vão fazer um churrasco para ver uma partida importante... Até hoje, quando o Grêmio tem alguma decisão, ele me pergunta se já comprei a carne moída. Isso apenas para ilustrar que meus sonhos de viagens sempre foram modestos e para fazer cada viagem eu abri mão de muitas coisas e não me arrependo em nada de nenhuma delas. A primeira “grande” viagem foi em fevereiro de 2005 para o carnaval no Rio. Carnaval de pobre, da zona norte, ficando na casa de um amigo em Bonsucesso, que incluiu noite no Terreirão do Samba, ao lado da Sapucaí, mas que o ingresso custava 5 reais. Já escrevi sobre isso outras vezes... Depois, por mérito, ganhei uma bolsa para estudar um ano em Nova York (também já escrevi sobre isso). E, agora, essa outra “grande” viagem: umas férias de quase 30 dias na Europa com a minha esposa. São histórias ingênuas, naturais para quem está acostumado a viajar, idiotas para viajantes experts como os citados anteriormente e talvez interessantes para quem gosta de viajar na imaginação lendo narrativas que envolvem deslocamentos pelo globo. Aliás, desde que li Dom Quixote elegi Miguel de Cervantes o melhor escritor de todos os tempos, pois ele fez uma dupla viagem: a andança de Dom Quixote com Sancho Pança por campos inexplorados na geografia e na imaginação. E foi pela terra dele, a Espanha, que começou a nossa viagem. No entanto, antes, no próximo post, vou contar como tudo começou a ser planejado, um ano antes, lá no início de 2018...

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Piscina

Fazia 35°C
Quando ele chegou cansado
De um dia inteiro
De trabalho
E se jogou na piscina
Um dos raros luxos
Da qual
Não abria mão
Apesar da crise

Ela chegou
E parou
Na borda
Com aquela pança
Obscena
De fora

E começou a falar
E a se queixar
Da vida
Se queixou das árvores
Que derramavam folhas
Na piscina
Se queixou do cachorro
Que cagava
Pelo pátio
Se queixou dele
Que ficava ali
Boiando
Enquanto o mundo
Pegava fogo
E as contas estavam
Atrasadas


Então ele colocou as orelhas
Para baixo d’água
Deixando apenas
Os olhos e o nariz
Para fora
E ele ouvia apenas zumbidos
Daquela voz esganiçada
Que teimava
Em continuar
Se queixando de tudo

Ela falou por meia hora
E ele não ouviu nada
Além de zumbidos
E quando suas orelhas estavam enrugadas
Ela saiu
E então
Ele levantou a cabeça
E se sentiu
Maravilhosamente bem

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Trem noturno para Lisboa

Terminei de ler hoje “Trem noturno para Lisboa”, do escritor e filósofo suíço Pascal Mercier, lançado originalmente em 2004 e publicado pela Record em 2010. O livro, como um todo, é uma viagem. Em todos os sentidos. Às vezes é uma viagem na maionese. Noutras é uma viagem a sentimentos e pensamentos profundos da psicologia e da espiritualidade humana. Em determinados momentos é uma viagem lenta e vagarosa, que parece que não passa e não anda. Noutros, faz você ficar olhando pela janela, pensando na vida e nas suas loucuras.
Descobri esse livro totalmente por acaso. Como – se tudo der certo – vou viajar para a Europa pela primeira vez em breve, comecei a procurar livros com narrativas de viagem. Lembrei-me do “Trem para a Suíça” do David Coimbra e, pesquisando esse livro, acabou aparecendo no Google a obra de Mercier. Comecei a ler resenhas, vi que era da Record, pesquisei um pouco sobre a biografia do autor e, zaz, encomendei-o-ô, como diria Sambarilove. E é justamente sobre isso que trata o livro: o acaso. O acaso e muitas outras coisas, que tentarei explanar da maneira mais clara possível, pois não é fácil, pois há muitas considerações, de todas as ordens, para serem feitas. A começar pelo ritmo da narrativa.
Esse é um livro que eu não indicaria para qualquer pessoa. Um iniciante em literatura certamente iria odiar e, provavelmente, pegaria nojo de romances. Tudo porque o ritmo é lento, como o andar de um trem antigo (apesar da história já acontecer no século XXI). O que você imagina que vai acontecer e até torce para que aconteça, não se realiza. Principalmente o final (mas não vou dar uma de spoiler). Eu já tinha lido alguns livros que demoram pra engrenar. Lembro que o “Viver para contar”, do Gabriel Garcia Marquez, eu tive que pegar para tentar ler umas três vezes, até que finalmente passei da página 30, quando tudo começa a fazer sentido. Já li outros livros que levou mais tempo ainda, mas esse se superou. A história começa a te empolgar um pouco mais lá pela página 200 (o livro tem 460 páginas). Até então, o ponto alto é o início, quando o personagem principal, Gregorius, um professor de Filologia de uma universidade na cidade suíça de Berna, vê uma moça que ameaça se jogar de uma ponte. Eles têm uma sequência de cenas bizarras até que ela, uma portuguesa, vai parar sentada em uma classe de uma das suas aulas. De repente ela se levanta e deixa a sala. Coincidentemente, logo depois dessa cena, Gregorius encontra um livro em português em um sebo de autoria de um tal de Amadeu Prado. Ele compra esse livro e, como bom filólogo, começa a traduzi-lo. Então, o professor simplesmente se apaixona pela obra e pelo autor e resolve partir em um trem noturno para Lisboa, deixando tudo para trás, para investigar quem foi aquele sujeito que queria reinventar a língua portuguesa porque acreditava que as palavras já não davam mais conta da complexidade da vida.
Assim, ele acaba tentando montar um quebra-cabeça sobre quem foi Amadeu Prado. Para tanto, ele vai atrás das irmãs do escritor, dos amigos, dos inimigos, etc, afinal, o tal Prado, um médico, viveu no período da ditadura de Salazar. Gregorius tem quase 60 anos, enquanto os outros personagens ultrapassam a casa dos 80, o que não dá um caráter muito verossímil à obra, pois todos os personagens principais que se relacionaram com Amadeu Prato estão vivos, menos ele. Por quê? Porque o autor quis assim, ora pois. (Mercier, na foto)
Óbvio que essa trama toda tem mil nós que são desamarrados lentamente ao longo das mais de 400 páginas do livro, mas não vou me atrever a comentar mais nada sobre o complexo enredo. O que eu quero comentar aqui é, sim, os pontos da história que te deixam pensando sobre a vida (afinal, o autor é um filósofo). Há vários momentos em que o personagem se questiona sobre os detalhes, os acasos que mudam as vidas das pessoas. Alguém que você conheceu em um bar e, se você não estivesse naquele bar, naquele momento, você nunca teria conhecido, sendo que essa pessoa pode mudar para melhor ou para pior a sua vida. Outro ponto é o olhar sobre o outro. A todo o momento Gregorius pensa: como será que é ser aquela pessoa? Eu gostaria de ser aquele sujeito que fala uma língua que eu não compreendo, que leva outra vida, só para experimentar essa sensação. E, assim, o personagem sai da Suíça para ir ao outro lado da Europa, viver uma nova vida e, em pouco tempo, ele conhece pessoas que passam a fazer parte de sua existência. Em três ou quatro dias ele se sente como se aquelas pessoas que ele conheceu há tão pouco tempo dependessem dele e como se as pessoas que ele havia deixado para trás há 72 horas pertencessem a um passado distante, que já não tem mais nada a ver com a sua vida. Louco, não? Quem nunca se sentiu assim? Eu, particularmente passo por isso a cada mudança e, às vezes, a cada viagem. Quando eu estive um ano nos Estados Unidos a todo o momento eu me sentia como se aquilo agora fosse a minha vida e o que tinha ficado no Brasil fosse uma espécie de passado alcançável apenas pela força da memória. Depois voltei, e inverteu-se a situação.
Outra coisa que senti ao ler o livro é essa vontade que volta e meia toma conta de alguns (como eu) de uma hora para a outra ir para um lugar totalmente diferente começar uma nova vida, conhecer pessoas que eu nem sonho que existam e que vão entrar na minha trajetória, assim como eu vou entrar na delas. Como se eu girasse o mapa mundi e colocasse o dedo ao acaso em algum país da Ásia, da África, da Europa, da Oceania ou das Américas e resolvesse partir, sem futuro certo, sem saber o que está por vir. E o personagem passa por esses dilemas durante toda a narrativa: enquanto ele está em Lisboa, em determinados momentos ele quer pegar o avião de volta para a Suíça, e quando ele retorna para a Suíça ele fica a todo o momento tentado a voltar para Portugal. Na verdade é isso que somos: espíritos perdidos pelo mundo. Alguns se contentam em seguir o roteiro que foi imposto pelos seus pais e pela sociedade ao nascerem: estudar, trabalhar, juntar dinheiro, acumular coisas, ser cidadão de bem, procriar, ficar velho, acumular mais dinheiro e bem materiais e morrer. Tudo pela segurança. Tudo pelo medo do desconhecido, sendo que ao final, o desconhecido vence. O desconhecido é inevitável. E viajar para lugares onde as pessoas vivem outros tipos de vida é, no fundo, uma forma de flertar com o desconhecido. Acho que por isso eu me imagino morando em países como Nigéria, Japão, Suriname, Tasmania, Porto Rico, Islândia, Suécia, Polo Norte, Indonésia, Iran, Egito, etc. Por mais que a gente leia, veja filmes e se informe sobre qualquer lugar, a experiência prática é muito diferente. O maior exemplo é os Estados Unidos: é a cultura mais consumida do mundo. Todos já viram mil séries, filmes, documentários, já leram livros, já ouviram relatos de quem já foi pra lá ou leram blogs sobre pessoas que moram lá, porém, chegando em Nova York, Filadélfia, Los Angeles, Miami, Las Vegas, a sensação é completamente diferente. E geralmente a expressão que as pessoas usam é: “não tem nada a ver com o que eu imaginava”. Agora, imagina esse sentimento em relação a Abuja? A Casablanca? Ao Tehran? E, de certa forma, também é sobre isso o livro de Mercier. É um bom livro, para os que têm força de vontade e se sentem deslocados no mundo. Como eu disse, é uma viagem. Uma viagem lenta e por vezes cansativas, mas que quando termina, você pensa: valeu a pena.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sexografias

Quando foram abertas as perguntas ao público após eu comentar que Arthur Verissimo não é gonzo durante a minha apresentação no Intercom Nacional sobre a atuação de Hunter Thompson no jornalismo esportivo, um professor da UFPR questionou:
- E a Gabriela Wiener, é gonzo?
Franzi a testa, tentando lembrar desse nome. Nada.
- Quem?
- A Gabriela Wiener, a peruana.
Era um professor magro, de cabelos e barbas semi-grisalhos, fala mansa e rouca, mas não gravei o nome. Pensei mais um pouco e... nada.
- Desculpe, professor, mas essa eu não conheço...
- É que ela também se diz gonzo... Mas então deixa pra lá...
- E é boa?
- É... pega pesado... eu tenho até vergonha de indicar o livro dela, Sexografias, para os meus alunos...
Anotei o nome da autora e do livro e quando voltei para casa uma das primeiras coisas que fiz foi encomendar Sexografias. Dias depois, chegou. E mais dias depois, comecei a ler até que ontem terminei. Agora tenho até tema para o próximo artigo...
Se eu soubesse o nome do professor da UFPR que me questionou, até poderia enviar esse texto para ele, mas eu simplesmente não lembro. Tem jeito de ser um desses fodões da academia de cabelos quase grisalhos, oculinhos e pose de intelectual meio boêmio. Até dei meu humilde livro sobre o Erico Verissimo de presente e ele prometeu comprar o Jornalismo Gonzo, que lancei pela Insular. Se comprou mesmo, nunca vou saber, mas desconfio que não... As pessoas dizem isso só para nos sentirmos menos tristes do que somos por acreditar na literatura em um país como o Brasil...
Tentando responder a pergunta agora, dois meses depois, eu admito que não tenho uma resposta definitiva, mas uma hipótese. Uma não, várias. Penso que o Sexografias é talvez um pouco mais do que um tributo ao jornalismo gonzo, como eu considero que é o que o Verissimo faz. Ela REALMENTE se aproxima bastante da narrativa gonzo, mesmo sem ter drogas em primeiro plano. Na verdade, ela coloca o sexo em primeiro plano – como era de se deduzir, pelo nome da obra. Mas o fato é que ela VIVE as pautas e as pautas FAZEM PARTE da vida dela. Ou seja, assim como Thompson, ela não entrou na temática para virar uma jornalista famosa. Assim como Thompson, Gabriela também jogou a sua vida nos seus textos, apesar de terem objetos diferentes. E, isso sim eu afirmo, a narrativa de Gabriela é muito boa. Na minha humilde opinião, muito melhor do que do Arthur Verissimo – mais sincera, mais honesta, mais crítica, com um humor mais sutil e inteligente. Enfim, mais próxima da narrativa de Thompson. Porém, como eu respondi no Intercom, de maneira geral, a minha preocupação não é rotular “isso é gonzo”, “isso não é”. O gonzo do Thompson foi só dele. Agora, como disse, ele inspira muita gente. E, como comenta Gabriela, foram os outros que começaram a chamar o texto jornalístico dela de gonzo (bem como aconteceu com o Thompson), diferentemente do Verissimo, que se autoproclama O REPRESENTANTE do jornalismo gonzo no Brasil...
Em resumo, eu aceitaria de boas que um aluno, por exemplo, escrevesse um artigo ou monografia falando que Gabriela Wiener é gonzo. Já o livro do Arthur, não consigo enxergar dessa forma porque é algo muito diferente do que fez Hunter Thompson....
Agora, falando sobre a obra de Gabriela, aqui vão uns pitacos sobre as temáticas de seus textos. Primeiro, tenho que dizer que o único defeito da edição brasileira são os erros de digitação na tradução. São vários. Uma próxima edição teria que ser muito bem revisada. Mas, fora isso (e que não é culpa da Gabriela, pois ela escreveu em sua língua nativa – o espanhol) a obra é excelente. Tem sexo com uma estrela do cinema pornô (com o consentimento e ciúmes do namorado), tem ejaculação feminina provocada por um ninja que masturba a mulher até que ela jorre uma espécie de porra feminina, tem uma chapadeira de ayahuasca (um alucinógeno andino), tem sexo de porcos (o bicho), tem um final de semana com uma travesti peruana que mora em Paris e que, para não ser deportada, mente que é cubana e que se for enviada para lá vai ser morta pela ditadura de Fidel, tem atuação de Gabriela como prostituta e cliente de webcam, tem ida com o namorado a um swing em Barcelona, enfim, tem muita coisa, mas que vai além da cobertura de pautas bizarras, pois Gabriela faria tudo o que fez, mesmo que não fosse jornalista, pois ela é uma curiosa insaciável sobre a temática (bem como Thompson era em relação ao uso de drogas). Aliás, assim como Thompson soube usar drogas ao longo da vida sem perder totalmente o controle (algo raro, mas possível para poucos), Gabriela faz o mesmo sobre o sexo. Enfim, uma jornalista gonzo nata. Sem forçar a barra, sem querer aparecer. Como tem que ser. Se você ler a obra de Gabriela, desejo-lhe uma boa leitura e uma ótima gozada gonzo.

sábado, 20 de outubro de 2018

A marca humana

Eu gostaria de viver 200 anos apenas para poder ler todos os livros que gostaria de ler. Ontem, por exemplo, terminei o primeiro livro que peguei de Philip Roth. E, assim como Roth, há outras centenas de autores e livros clássicos e não clássicos que eu pretendo ler, porém, sei que para terminar a infinita lista eu teria que chegar, no mínimo, até os 200 anos. Justamente essa finitude e essa complexidade que é a vida humana, aliás, é o tema abordado por Philip Roth em “A marca humana”.
Racismo, sentimento de culpa, mentiras, desejos, prazeres, amores, família, amigos, isolamento, raiva, ódio, excitação, retórica, curiosidades, enfim, sentimentos de todos os tipos permeiam a ficção. Vou tentar dar uma pincelada de uma das obras mais complexas e completas que já li sobre a humanidade.
Norton é o narrador, mas que aparece muito discretamente ao longo do romance. Ele conta, não exatamente como uma biografia, a vida de Coleman Silk. Porém, para entender o contexto, é preciso pensar na história dos Estados Unidos. O fato principal da obra acontece em 1998, ao mesmo tempo em que ocorre o processo de impeachment contra Bill Clinton (que seria absolvido) depois do assédio a Monica Lewinsky.
Porém, em 1998, tanto Coleman quanto os outros personagens estão na faixa dos 60 e 70 anos. Ou seja, boa parte do que é narrado ocorreu dos anos 1940 até 1970, pegando aí a Guerra do Vietnã. Agora, sim, vamos ao que interessa: o enredo.
Coleman Silk é um sujeito branco, mas de família negra. O que no Brasil chamamos de mestiço. Porém, ele cresce justamente no período da segregação racial americana, ou seja, negros e brancos estudavam em escolas e universidades diferentes, utilizavam bebedores diferentes, sentavam em lugares diferentes dentro do ônibus, etc. Um parêntese: não é nessa ordem que os fatos são narrados, pois Roth começa pelo ápice da narrativa, mas para ficar mais fácil de entender essa resenha, optei por essa logística cronológica. Então, Coleman é, para os americanos dos anos 1950/60, um negro, pois apesar da pele clara, tem o sangue africano. Quando o pai de Coleman morre, ele vai estudar na New York University (ele e a família são de New Jersey, do lado de Nova York). Morando em Nova York, Coleman namora uma moça de descendência europeia e, depois de dois anos com a moça, resolve a levar para conhecer a sua família, sem contar nada a respeito de seus pais e irmãos. O jantar transcorre tranquilamente, mas quando os dois voltam para Nova York, ela chora em seu ombro e, em uma das paradas, ela pula fora do vagão do trem para abandoná-lo para sempre.
O tempo passa e Coleman arranja outra namorada, Iris, que viria a se tornar sua esposa. Para não perder a namorada, ele vai até a casa de sua família e diz que, a partir daquele dia, sua mãe não era mais sua mãe, sua irmã não era mais sua irmã e seu irmão não era mais seu irmão. Ele resolve apagar totalmente o seu passado e a sua origem. A primeira vez que ele tinha feito isso, aliás, foi quando ingressou na Marinha: ao preencher o formulário, onde havia “raça”, ele colocou “judeu” ao invés de “negro”. Tudo porque ele tinha uma descendência distante de judeus, mas que justificava a alternativa. Assim, ao renegar a sua família, ele resolve trocar novamente a raça negra pela de judeu (o que num contexto pós-Guerra, com a perseguição aos judeus, era algo positivo, pois a humanidade ainda tentava “compensar” o holocausto). Em síntese, assim como João Dória, Coleman foi um cara que tentou aproveitar totalmente todas as oportunidades para não ser excluído da sociedade, mesmo que isso implicasse em renegar o seu passado, a sua família. Assim, ele acabou excluindo de sua vida a sua mãe, os seus irmãos e amigos. Em seguida, Walt, o irmão mais velho, liga para Coleman e diz que ele está proibido, até o fim da vida, de tentar contatar de qualquer forma a mãe deles. E ele realmente faz isso.
Em Nova York, para Iris, então sua namorada, ele inventa que era filho único de uma mãe solteira que já morreu. Não tinha irmãos nem notícias de parentes. Enfim, um sujeito sozinho no mundo. Coleman casa, tem filhos e se torna professor universitário decano de uma universidade em Athena, uma cidadezinha do interior americano (não sei se é a Athena de Oregon, ou se é uma cidade fictícia, não me ative a esse detalhe). Ponto.
Chegamos, então, ao ponto com que Roth, ou melhor, Norton, inicia a narrativa do livro. Coleman fazia a chamada na terceira ou quarta semana de aula e, ao chamar dois alunos que ele nunca tinha visto na vida, ele pergunta “esses dois são spookers?”. Spooker, em inglês, quer dizer fantasma. Porém, no período da escravidão e do segregacionismo, o termo também foi utilizado para se dirigir de forma pejorativa aos negros. E por coincidência, os dois alunos em questão eram negros. Incentivados Delphine, uma professora francesa (que não vou entrar aqui na história dela, mas que é um personagem importante na narrativa), eles processam Coleman. Desse desgastante processo, acontecem duas tragédias pessoais a Coleman: ele resolve se aposentar da universidade e a sua mulher, Iris, morre em decorrência do estresse sem saber nada sobre a verdadeira história de Coleman. É nesse momento da narrativa que Coleman contata Norton para que ele conte a sua história (o que ele faz, mas de maneira independente, depois da morte de Coleman).
A narrativa vai seguindo, até que Coleman, então com 71 anos, se envolve com Faunie, a faxineira da universidade, de 34 anos. Abusada na infância e adolescência pelo padrasto, ela foge de casa aos 14 e, então, passa a sofrer nas mãos dos homens. Em resumo, casa-se com Les, um sujeito mais velho que vai para a Guerra do Vietnã e retorna completamente maluco. Eles têm dois filhos mas, depois da separação, enquanto ela estava no carro chupando um namorado, a casa pega fogo e os dois morrem. Les, então, a culpa pela morte das crianças e resolve persegui-la. E, assim, com o envolvimento de Faunie com Coleman, o professor universitário passa a entrar no campo de visão do perseguidor. Roth conta mais detalhadamente a história desses personagens, que são fantásticas, mas não vou reproduzir aqui o livro inteiro, caro imaginário leitor.
Em síntese, Coleman passa a ser novamente execrado publicamente: ele agora, além de racista, também abusa sexualmente de uma mulher analfabeta e sofrida na vida com metade da sua idade. É um tarado. Racista e tarado. Seus filhos viram-lhe as costas. Ex-colegas o abandonam. E Coleman fica completamente isolado. Ele e sua amante.
Para encurtar a história, Les mata indiretamente o casal. Ele pega o seu caminhão e o lança contra o carro de Coleman, que para desviar, sai da estrada e cai em um rio. Os dois morrem. E apenas Norton sustenta essa versão. Para todos, Coleman se matou e matou junto Faunie. Delphine, a professora francesa que encabeçou a acusação de racismo, agora também se aproveita da situação: alega que ele usou Faunie para atingir a universidade. Coleman é, então, um monstro. Essa é a constatação. Tudo sem saber a verdadeira história dele.
Como disse, há vários labirintos nessa história, que não entrei aqui. Essa é, em síntese, a narrativa do livro. De um lado, a história de Coleman. De outro, o seu cruzamento com personagens complexos. Todos julgam todos. Todos defendem o seu lado. Coleman entrou de gaiato em um relacionamento. Faunie, depois de toda a sua tragédia, encontrou alguém com o dobro da sua idade que lhe desse suporte sentimental e sexual. Les quis a vingança da assassina de seus filhos e de tudo o que tivesse perto dela com os traumas e os fantasmas da guerra em sua cabeça. Delphine se achava uma justiceira que iria fazer com que o professor vilão, tarado e racista tinha que ser condenado, mesmo que para isso tivesse que inventar coisas. Coleman se considerava uma vítima da sociedade que teve que renegar tudo para poder tentar levar uma vida normal, sem ser perseguido pela sua raça. Ou seja, pelo seu ponto de vista, cada um tinha a sua razão. E a razão de um se choca frontalmente contra a razão de outro. Com isso, mentiras e indícios são tidos como verdade. Tudo soa contemporâneo para o brasileiro de 2018, não? Exatamente. Foi o que senti ao ler o livro.
A história toda, a marca humana, a complexidade humana, pode ser facilmente jogada para a briga política e ideológica entre anti-PTs e anti-Bolsonaros. Cada um defende o seu ponto, olha para o seu umbigo e demoniza o outro. Há razões para isso? Certamente, mas na obra nos damos conta de como é fácil transformar o ódio em uma bola de neve que nos cega. Eis, por exemplo, um trecho da obra, que fala sobre a campanha que fizeram para execrar completamente a imagem pública de Coleman, na reflexão do personagem narrador Norton. Trata-se de uma acusação falsa que Delphine faz contra Coleman logo depois que ele morre, dizendo que ele havia arrombado o seu gabinete, destruído tudo, e mandado um email para os outros professores (que na verdade foi ela mesma que mandou).
“E como provar o envolvimento de Coleman? Impossível. Mas as pessoas acreditam assim mesmo. Por mais absurda a ideia de que ele arrombou a sala, destroçou os arquivos, entrou no computador, mandou a mensagem eletrônica para os colegas dela – todos acreditam, querem acreditar, não perdem uma oportunidade de contar a história mais uma vez. Uma história sem pé nem cabeça, implausível, e no entanto ninguém – pelo menos em público – faz as perguntas mais simples”. Perfeito. Parece até que o Coleman é do PT. “Basta fazer a acusação que ela está provada. Basta ouvir a alegação para que se dê crédito a ela. Não é preciso encontrar uma motivação para o perpetrador, não é preciso que haja nenhuma lógica nem razão. Basta um rótulo. O rótulo é a motivação. O rótulo é a prova. O rótulo é a lógica. Por que Coleman fez isso? Porque ele é x, porque ele é y, porque ele é as duas coisas. Primeiro racista, depois misógino. A esta altura do século XX, já não se pode dizer que ele é comunista, como se fazia antigamente”.
Encerro esse texto aqui, esperando que o meu tom spoiler não faça ninguém a desistir de ler esse livro, pois ele é muito mais complexo e fascinante, em suas 450 páginas, do que essa singela resenha de quase 4 páginas de Word.