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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Sexografias

Quando foram abertas as perguntas ao público após eu comentar que Arthur Verissimo não é gonzo durante a minha apresentação no Intercom Nacional sobre a atuação de Hunter Thompson no jornalismo esportivo, um professor da UFPR questionou:
- E a Gabriela Wiener, é gonzo?
Franzi a testa, tentando lembrar desse nome. Nada.
- Quem?
- A Gabriela Wiener, a peruana.
Era um professor magro, de cabelos e barbas semi-grisalhos, fala mansa e rouca, mas não gravei o nome. Pensei mais um pouco e... nada.
- Desculpe, professor, mas essa eu não conheço...
- É que ela também se diz gonzo... Mas então deixa pra lá...
- E é boa?
- É... pega pesado... eu tenho até vergonha de indicar o livro dela, Sexografias, para os meus alunos...
Anotei o nome da autora e do livro e quando voltei para casa uma das primeiras coisas que fiz foi encomendar Sexografias. Dias depois, chegou. E mais dias depois, comecei a ler até que ontem terminei. Agora tenho até tema para o próximo artigo...
Se eu soubesse o nome do professor da UFPR que me questionou, até poderia enviar esse texto para ele, mas eu simplesmente não lembro. Tem jeito de ser um desses fodões da academia de cabelos quase grisalhos, oculinhos e pose de intelectual meio boêmio. Até dei meu humilde livro sobre o Erico Verissimo de presente e ele prometeu comprar o Jornalismo Gonzo, que lancei pela Insular. Se comprou mesmo, nunca vou saber, mas desconfio que não... As pessoas dizem isso só para nos sentirmos menos tristes do que somos por acreditar na literatura em um país como o Brasil...
Tentando responder a pergunta agora, dois meses depois, eu admito que não tenho uma resposta definitiva, mas uma hipótese. Uma não, várias. Penso que o Sexografias é talvez um pouco mais do que um tributo ao jornalismo gonzo, como eu considero que é o que o Verissimo faz. Ela REALMENTE se aproxima bastante da narrativa gonzo, mesmo sem ter drogas em primeiro plano. Na verdade, ela coloca o sexo em primeiro plano – como era de se deduzir, pelo nome da obra. Mas o fato é que ela VIVE as pautas e as pautas FAZEM PARTE da vida dela. Ou seja, assim como Thompson, ela não entrou na temática para virar uma jornalista famosa. Assim como Thompson, Gabriela também jogou a sua vida nos seus textos, apesar de terem objetos diferentes. E, isso sim eu afirmo, a narrativa de Gabriela é muito boa. Na minha humilde opinião, muito melhor do que do Arthur Verissimo – mais sincera, mais honesta, mais crítica, com um humor mais sutil e inteligente. Enfim, mais próxima da narrativa de Thompson. Porém, como eu respondi no Intercom, de maneira geral, a minha preocupação não é rotular “isso é gonzo”, “isso não é”. O gonzo do Thompson foi só dele. Agora, como disse, ele inspira muita gente. E, como comenta Gabriela, foram os outros que começaram a chamar o texto jornalístico dela de gonzo (bem como aconteceu com o Thompson), diferentemente do Verissimo, que se autoproclama O REPRESENTANTE do jornalismo gonzo no Brasil...
Em resumo, eu aceitaria de boas que um aluno, por exemplo, escrevesse um artigo ou monografia falando que Gabriela Wiener é gonzo. Já o livro do Arthur, não consigo enxergar dessa forma porque é algo muito diferente do que fez Hunter Thompson....
Agora, falando sobre a obra de Gabriela, aqui vão uns pitacos sobre as temáticas de seus textos. Primeiro, tenho que dizer que o único defeito da edição brasileira são os erros de digitação na tradução. São vários. Uma próxima edição teria que ser muito bem revisada. Mas, fora isso (e que não é culpa da Gabriela, pois ela escreveu em sua língua nativa – o espanhol) a obra é excelente. Tem sexo com uma estrela do cinema pornô (com o consentimento e ciúmes do namorado), tem ejaculação feminina provocada por um ninja que masturba a mulher até que ela jorre uma espécie de porra feminina, tem uma chapadeira de ayahuasca (um alucinógeno andino), tem sexo de porcos (o bicho), tem um final de semana com uma travesti peruana que mora em Paris e que, para não ser deportada, mente que é cubana e que se for enviada para lá vai ser morta pela ditadura de Fidel, tem atuação de Gabriela como prostituta e cliente de webcam, tem ida com o namorado a um swing em Barcelona, enfim, tem muita coisa, mas que vai além da cobertura de pautas bizarras, pois Gabriela faria tudo o que fez, mesmo que não fosse jornalista, pois ela é uma curiosa insaciável sobre a temática (bem como Thompson era em relação ao uso de drogas). Aliás, assim como Thompson soube usar drogas ao longo da vida sem perder totalmente o controle (algo raro, mas possível para poucos), Gabriela faz o mesmo sobre o sexo. Enfim, uma jornalista gonzo nata. Sem forçar a barra, sem querer aparecer. Como tem que ser. Se você ler a obra de Gabriela, desejo-lhe uma boa leitura e uma ótima gozada gonzo.

sábado, 20 de outubro de 2018

A marca humana

Eu gostaria de viver 200 anos apenas para poder ler todos os livros que gostaria de ler. Ontem, por exemplo, terminei o primeiro livro que peguei de Philip Roth. E, assim como Roth, há outras centenas de autores e livros clássicos e não clássicos que eu pretendo ler, porém, sei que para terminar a infinita lista eu teria que chegar, no mínimo, até os 200 anos. Justamente essa finitude e essa complexidade que é a vida humana, aliás, é o tema abordado por Philip Roth em “A marca humana”.
Racismo, sentimento de culpa, mentiras, desejos, prazeres, amores, família, amigos, isolamento, raiva, ódio, excitação, retórica, curiosidades, enfim, sentimentos de todos os tipos permeiam a ficção. Vou tentar dar uma pincelada de uma das obras mais complexas e completas que já li sobre a humanidade.
Norton é o narrador, mas que aparece muito discretamente ao longo do romance. Ele conta, não exatamente como uma biografia, a vida de Coleman Silk. Porém, para entender o contexto, é preciso pensar na história dos Estados Unidos. O fato principal da obra acontece em 1998, ao mesmo tempo em que ocorre o processo de impeachment contra Bill Clinton (que seria absolvido) depois do assédio a Monica Lewinsky.
Porém, em 1998, tanto Coleman quanto os outros personagens estão na faixa dos 60 e 70 anos. Ou seja, boa parte do que é narrado ocorreu dos anos 1940 até 1970, pegando aí a Guerra do Vietnã. Agora, sim, vamos ao que interessa: o enredo.
Coleman Silk é um sujeito branco, mas de família negra. O que no Brasil chamamos de mestiço. Porém, ele cresce justamente no período da segregação racial americana, ou seja, negros e brancos estudavam em escolas e universidades diferentes, utilizavam bebedores diferentes, sentavam em lugares diferentes dentro do ônibus, etc. Um parêntese: não é nessa ordem que os fatos são narrados, pois Roth começa pelo ápice da narrativa, mas para ficar mais fácil de entender essa resenha, optei por essa logística cronológica. Então, Coleman é, para os americanos dos anos 1950/60, um negro, pois apesar da pele clara, tem o sangue africano. Quando o pai de Coleman morre, ele vai estudar na New York University (ele e a família são de New Jersey, do lado de Nova York). Morando em Nova York, Coleman namora uma moça de descendência europeia e, depois de dois anos com a moça, resolve a levar para conhecer a sua família, sem contar nada a respeito de seus pais e irmãos. O jantar transcorre tranquilamente, mas quando os dois voltam para Nova York, ela chora em seu ombro e, em uma das paradas, ela pula fora do vagão do trem para abandoná-lo para sempre.
O tempo passa e Coleman arranja outra namorada, Iris, que viria a se tornar sua esposa. Para não perder a namorada, ele vai até a casa de sua família e diz que, a partir daquele dia, sua mãe não era mais sua mãe, sua irmã não era mais sua irmã e seu irmão não era mais seu irmão. Ele resolve apagar totalmente o seu passado e a sua origem. A primeira vez que ele tinha feito isso, aliás, foi quando ingressou na Marinha: ao preencher o formulário, onde havia “raça”, ele colocou “judeu” ao invés de “negro”. Tudo porque ele tinha uma descendência distante de judeus, mas que justificava a alternativa. Assim, ao renegar a sua família, ele resolve trocar novamente a raça negra pela de judeu (o que num contexto pós-Guerra, com a perseguição aos judeus, era algo positivo, pois a humanidade ainda tentava “compensar” o holocausto). Em síntese, assim como João Dória, Coleman foi um cara que tentou aproveitar totalmente todas as oportunidades para não ser excluído da sociedade, mesmo que isso implicasse em renegar o seu passado, a sua família. Assim, ele acabou excluindo de sua vida a sua mãe, os seus irmãos e amigos. Em seguida, Walt, o irmão mais velho, liga para Coleman e diz que ele está proibido, até o fim da vida, de tentar contatar de qualquer forma a mãe deles. E ele realmente faz isso.
Em Nova York, para Iris, então sua namorada, ele inventa que era filho único de uma mãe solteira que já morreu. Não tinha irmãos nem notícias de parentes. Enfim, um sujeito sozinho no mundo. Coleman casa, tem filhos e se torna professor universitário decano de uma universidade em Athena, uma cidadezinha do interior americano (não sei se é a Athena de Oregon, ou se é uma cidade fictícia, não me ative a esse detalhe). Ponto.
Chegamos, então, ao ponto com que Roth, ou melhor, Norton, inicia a narrativa do livro. Coleman fazia a chamada na terceira ou quarta semana de aula e, ao chamar dois alunos que ele nunca tinha visto na vida, ele pergunta “esses dois são spookers?”. Spooker, em inglês, quer dizer fantasma. Porém, no período da escravidão e do segregacionismo, o termo também foi utilizado para se dirigir de forma pejorativa aos negros. E por coincidência, os dois alunos em questão eram negros. Incentivados Delphine, uma professora francesa (que não vou entrar aqui na história dela, mas que é um personagem importante na narrativa), eles processam Coleman. Desse desgastante processo, acontecem duas tragédias pessoais a Coleman: ele resolve se aposentar da universidade e a sua mulher, Iris, morre em decorrência do estresse sem saber nada sobre a verdadeira história de Coleman. É nesse momento da narrativa que Coleman contata Norton para que ele conte a sua história (o que ele faz, mas de maneira independente, depois da morte de Coleman).
A narrativa vai seguindo, até que Coleman, então com 71 anos, se envolve com Faunie, a faxineira da universidade, de 34 anos. Abusada na infância e adolescência pelo padrasto, ela foge de casa aos 14 e, então, passa a sofrer nas mãos dos homens. Em resumo, casa-se com Les, um sujeito mais velho que vai para a Guerra do Vietnã e retorna completamente maluco. Eles têm dois filhos mas, depois da separação, enquanto ela estava no carro chupando um namorado, a casa pega fogo e os dois morrem. Les, então, a culpa pela morte das crianças e resolve persegui-la. E, assim, com o envolvimento de Faunie com Coleman, o professor universitário passa a entrar no campo de visão do perseguidor. Roth conta mais detalhadamente a história desses personagens, que são fantásticas, mas não vou reproduzir aqui o livro inteiro, caro imaginário leitor.
Em síntese, Coleman passa a ser novamente execrado publicamente: ele agora, além de racista, também abusa sexualmente de uma mulher analfabeta e sofrida na vida com metade da sua idade. É um tarado. Racista e tarado. Seus filhos viram-lhe as costas. Ex-colegas o abandonam. E Coleman fica completamente isolado. Ele e sua amante.
Para encurtar a história, Les mata indiretamente o casal. Ele pega o seu caminhão e o lança contra o carro de Coleman, que para desviar, sai da estrada e cai em um rio. Os dois morrem. E apenas Norton sustenta essa versão. Para todos, Coleman se matou e matou junto Faunie. Delphine, a professora francesa que encabeçou a acusação de racismo, agora também se aproveita da situação: alega que ele usou Faunie para atingir a universidade. Coleman é, então, um monstro. Essa é a constatação. Tudo sem saber a verdadeira história dele.
Como disse, há vários labirintos nessa história, que não entrei aqui. Essa é, em síntese, a narrativa do livro. De um lado, a história de Coleman. De outro, o seu cruzamento com personagens complexos. Todos julgam todos. Todos defendem o seu lado. Coleman entrou de gaiato em um relacionamento. Faunie, depois de toda a sua tragédia, encontrou alguém com o dobro da sua idade que lhe desse suporte sentimental e sexual. Les quis a vingança da assassina de seus filhos e de tudo o que tivesse perto dela com os traumas e os fantasmas da guerra em sua cabeça. Delphine se achava uma justiceira que iria fazer com que o professor vilão, tarado e racista tinha que ser condenado, mesmo que para isso tivesse que inventar coisas. Coleman se considerava uma vítima da sociedade que teve que renegar tudo para poder tentar levar uma vida normal, sem ser perseguido pela sua raça. Ou seja, pelo seu ponto de vista, cada um tinha a sua razão. E a razão de um se choca frontalmente contra a razão de outro. Com isso, mentiras e indícios são tidos como verdade. Tudo soa contemporâneo para o brasileiro de 2018, não? Exatamente. Foi o que senti ao ler o livro.
A história toda, a marca humana, a complexidade humana, pode ser facilmente jogada para a briga política e ideológica entre anti-PTs e anti-Bolsonaros. Cada um defende o seu ponto, olha para o seu umbigo e demoniza o outro. Há razões para isso? Certamente, mas na obra nos damos conta de como é fácil transformar o ódio em uma bola de neve que nos cega. Eis, por exemplo, um trecho da obra, que fala sobre a campanha que fizeram para execrar completamente a imagem pública de Coleman, na reflexão do personagem narrador Norton. Trata-se de uma acusação falsa que Delphine faz contra Coleman logo depois que ele morre, dizendo que ele havia arrombado o seu gabinete, destruído tudo, e mandado um email para os outros professores (que na verdade foi ela mesma que mandou).
“E como provar o envolvimento de Coleman? Impossível. Mas as pessoas acreditam assim mesmo. Por mais absurda a ideia de que ele arrombou a sala, destroçou os arquivos, entrou no computador, mandou a mensagem eletrônica para os colegas dela – todos acreditam, querem acreditar, não perdem uma oportunidade de contar a história mais uma vez. Uma história sem pé nem cabeça, implausível, e no entanto ninguém – pelo menos em público – faz as perguntas mais simples”. Perfeito. Parece até que o Coleman é do PT. “Basta fazer a acusação que ela está provada. Basta ouvir a alegação para que se dê crédito a ela. Não é preciso encontrar uma motivação para o perpetrador, não é preciso que haja nenhuma lógica nem razão. Basta um rótulo. O rótulo é a motivação. O rótulo é a prova. O rótulo é a lógica. Por que Coleman fez isso? Porque ele é x, porque ele é y, porque ele é as duas coisas. Primeiro racista, depois misógino. A esta altura do século XX, já não se pode dizer que ele é comunista, como se fazia antigamente”.
Encerro esse texto aqui, esperando que o meu tom spoiler não faça ninguém a desistir de ler esse livro, pois ele é muito mais complexo e fascinante, em suas 450 páginas, do que essa singela resenha de quase 4 páginas de Word.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Um feliz dia do professor a todos os alunos (atrasado)

Bem antes do dia do professor, assim que terminei de ler “O Xá dos xás”, de Ryszard Kapucinski, eu havia programado de escrever esse texto para o dia 15 de outubro. Porém, como nem tudo nessa vida ocorre como a gente planeja, no dia 15 eu estava ou sem nenhuma inspiração ou de ressaca e acabei não escrevendo porra nenhuma. Hoje, porém, não exatamente um entusiasmo tomou conta do meu ser, mas pelo menos uma mistura de lembrança do que pensava em escrever somada a outras recordações e ponderações reapareceram.
A ideia inicial do texto do dia do professor era fazer um agradecimento aos alunos, relembrando um caso específico. No primeiro semestre de 2011 eu entrei em uma sala de aula como professor pela primeira vez na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Obviamente, eu tinha uma ideia do que poderia encontrar, mas a insegurança é algo um tanto quanto incontrolável em um momento desses. Lembro que no meu primeiro dia como professor dei aula para uma turma de cerca de 50 estudantes que estavam lá, com os olhos arregalados, esperando o que eu ia dizer na disciplina de Jornalismo Impresso. Recordo que fiquei preocupado se eles achariam que tudo o que eu estava falando era óbvio demais e só me tranquilizei quando no intervalo alguns alunos vieram me pedir explicação porque não tinham entendido quase nada do que eu havia dito. Esse é o problema do sujeito que sai de um programa de pós-graduação diretamente para dar aula para uma turma que está começando a graduação. Fui aprendendo aos poucos, exatamente como sugere um dos pedagogos mais importantes do mundo, conforme retomo ao final desse texto. E, desde aquele primeiro dia, até hoje, é o que eu mais faço na universidade: aprendo com todos, principalmente, com os alunos.
Chego, então, a um exemplo prático do que estou falando. Naquele mesmo primeiro semestre de 2011, eu também ministrava a disciplina de Jornalismo Especializado. Era uma matéria optativa e havia apenas nove estudantes matriculados. Até poderia tentar lembrar o nome de todos, mas não vou arriscar, pois corro o risco de esquecer algum e sei como as pessoas se magoam facilmente. Uma das atividades que passei ao longo do semestre era ler um livro-reportagem para escrever um resumo sobre a obra.
Pois um desses resumos ficou marcado em minha memória. Ficou tão marcado no escaninho de meu cérebro que coloquei a obra resumida pelo então aluno e hoje amigo Vinícius Waltzer (na foto à direita, com os também alunos daquela turma de Jornalismo Especializado, Marcio Furtado e Antoniela Rodrigues) na minha infindável lista de livros que eu pretendo ler antes de morrer. Trava-se, justamente, de o Xá dos xás. Lembro que alguns alunos achavam que eu tinha lido todos os livros que eles estavam resenhando. Coisa do imaginário de aluno, pois, por mais que eu tenha lido, nunca vou conseguir ler todos os bons livros de jornalismo literário, pois a lista é imensa (graças ao bom senhor). E, um dos que não tinha lido até pouco tempo, era justamente o Xá dos xás. Então, há duas semanas, finalmente li a obra de Kapuscinski que é simplesmente magistral.
Abro um parêntese para escrever um breve parágrafo sobre o livro. Kapuscinski foi correspondente internacional e de guerra durante décadas. Uma dessas coberturas ocorreu justamente sobre a revolução iraniana que colocou os revolucionários no poder em 1979. A revolução consistiu, basicamente, na derrubada do último xá (rei) do Irã. Em síntese, Mohammed Reza Pahlevi governou o país durante 25 anos e massacrou a população de todas as formas possíveis, principalmente perseguindo e matando opositores de seu governo, ou qualquer outra pessoa, para governar às custas do medo da população. Além disso, enriqueceu de maneira absurda, torrou o dinheiro do país (20 bilhões de dólares anuais graças ao petróleo) comprando máquinas e equipamentos de guerra que não tinha mão de obra especializada para operá-los, brigou, perseguiu e até matou alguns aiatolás (líderes religiosos), etc. Enfim, um típico governo fascista e sanguinário, o que dá uma importância ainda maior à obra no Brasil de 2018.
Portanto, o que pretendia com esse texto que escrevo agora é justamente contar esse exemplo para dizer que nós, professores, estamos aprendendo com os alunos diariamente, em todos os sentidos: seja com suas personalidades, com seus conhecimentos, com suas críticas e sugestões, ou até mesmo com olhares e expressões. E, no caso dessa primeira turma da UFPEL, acabei fazendo várias amizades que mantenho até hoje, mesmo sem um contato tão corriqueiro e direto com os ex-alunos, devido à distância. Depois dessa, todas as outras turmas que passaram por mim me ensinaram muito, bem como, cada aluno, por mais quieto ou inquieto que possa ser, também me marcou de alguma forma. Assim, só tenho a dizer que é um privilégio ser professor, mesmo em um país que tanto desvaloriza seus educadores em todos os níveis.
Por fim, retorno à questão do professor aprender com o aluno. Quando fiz mestrado em Comunicação na PUCRS, cursei uma disciplina da pós em Pedagogia, chamada Metodologia do Ensino Superior. Lá, estavam mestrandos e doutorandos de todas as áreas: Medicina, Direito, Engenharia, Jornalismo, Serviço Social, Enfermagem, Administração, etc. O norte da disciplina foi, justamente, Paulo Freire. Um dos livros que li, e que me marcou muito, foi especificamente Pedagogia da Autonomia, que reflete justamente sobre esse ponto: de que o ensino não é uma via de mão única, ou seja, a transmissão de conhecimento não é exclusivamente do professor para o aluno. Mas sim, de mão dupla: o professor está ensinando e aprendendo com seus alunos. Bem como, o respeito também deve ser multilateral, partindo de todas as partes. Eu, particularmente, sempre considerei todos, acima de tudo, seres humanos. Há hierarquia? Há, mas enquanto seres humanos, somos todos iguais. Ninguém é mais que ninguém, nem mesmo um presidente ou governador é mais do que um faxineiro ou um professor ou um médico. E, por isso, enquanto professor, preocupo-me quando ouço o futuro presidente do Brasil falando que se deve varrer das escolas e das universidades qualquer coisa que se relacione com Paulo Freire, talvez o intelectual brasileiro com maior reconhecimento fora do país. Também sugiro a esse sujeito que está pensando que é Deus a adotar a pedagogia de Paulo Freire enquanto presidente: ouça mais, tenha mais humildade, respeite mais aos outros e aprenda com as experiências negativas do passado. Ou, como ele mesmo gosta de fazer referência à religião, coloque mais em prática o que a bíblia ensina (certamente ele não conhece os 10 mandamenos). Mesmo que, da minha parte, eu não acredito que esse sujeito já tenha lido mais do que 10 páginas, quiçá 10 linhas, do antigo ou do velho testamento. E, se leu, não entendeu porra nenhuma.
Um feliz dia dos professores atrasado a todos os professores e, também, a todos os alunos que justificam a existência dessa profissão.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O sol na cabeça

Li esses dias, em dois toques, “O sol na cabeça”, de Geovani Martins, lançado nesse ano pela Companhia das Letras. Para quem não sabe, esse está sendo o livro mais badalado e queridinho da mídia na literatura brasileira em 2018. Porém, não foi através da mídia que descobri o livro. Foi no Intercom Nacional, em Joinville.
Numa das mesas sobre Jornalismo Literário, todo mundo começou a baixar o pau, não no livro, mas no fato de que a editora comprou as capas dos principais jornais do Brasil para colocar o livro de Geovani em destaque e sem qualquer identificação de que tanto a capa quanto as reportagens (que saíram simultaneamente nos principais jornais e revistas) era resultado da compra de espaço pela editora. Criticaram, também, o fato de que isso pode causar, futuramente, uma frustração ao jovem Geovani, pois é praticamente impossível ser dado tal destaque ao mesmo livro simultaneamente em todos os principais veículos de comunicação do Brasil (Globo, Folha de SP, Veja, Estadão, etc). Claro, a não ser que seja pago. Porém, todos fizeram a ressalva de que, sim, o livro era ótimo, pois Geovani é um carioca criado na favela e que escreve com a linguagem do morro carioca. Isso foi o suficiente para me despertar a curiosidade e fazer com que eu anotasse em meu bloquinho: Sol na cabeça, de Giovane Martins.
Cheguei em casa e fui no site da Estante Virtual encomendar tal livro. Quando chegou, devorei as suas 119 páginas em dois dias. São 13 crônicas-contos de Geovani e, claro, ele tem a manha. Dez anos mais novo que eu, ele nasceu em Bangu em 1991 e, segundo a orelha, participou de várias oficinas literárias. Tendo a técnica e a manha, ficou fácil para ele colocar histórias da favela (que acontecem todos os dias e que são mais impressionantes do que qualquer ficção) em palavras.
O estilo de cada conto-crônica, porém, varia. No primeiro, Rolézim, por exemplo, é a típica linguagem do morro carioca: “O piloto nem roncou quando nosso bonde subiu na traseira, o ônibus tava como, lotadão, várias gente, cadeira de praia, geral suado, apertado. Tava osso” (p.11). Outros, porém, são numa linguagem literária mais “tradicional”. Já sobre o conteúdo, é bem variado. Considerei absolutamente genial os dois textos que, talvez, mais tocam na ferida da sociedade: o preconceito e o racismo. Em Espiral, Geovani conta como percebeu pela primeira vez, ainda na infância, que fora da favela as pessoas tinham medo dele. Então, um pouco mais velho, ele decide fazer uma experiência e começa a seguir um cara branco da Zona Sul várias vezes, fazendo uma espécie de experiência para ver no que aquilo iria dar. Não vou dar uma de spoiler, mas a sacada e a narrativa são do caralho. Já no último conto do livro, numa crônica, ele conta como é comum morador do morro ser literalmente assaltado pela polícia (aquela endeusada pelos “homens de bem”). Também não vou entrar em detalhes, mas fica a dica.
Já em outros contos, porém, o texto parece redação de aluno de segundo grau como, por exemplo, na narrativa sobre a famosa Loura do Banheiro. Por isso, apesar de ter gostado do livro e de ter considerado alguns contos excepcionais, acho que outros textos deixam claro que Geovani está apenas começando e tem muito a evoluir até ser um escritor completo (ele tema matéria prima – as histórias – no colo para se consagrar definitivamente). Diria que metade do livro justifica o destaque dado pela mídia ao seu livro e a outra metade torna risível tal ênfase. Na soma de tudo, considero exagero o exemplar ser apontado como a grande obra da literatura brasileira em 2018, mesmo sendo um excelente livro. Ou não, considerando que eu não li nenhum outro livro de brasuca lançado nesse ano... Fica a curiosidade pelos próximos livros de Geovani que já nasce na literatura com flashes e holofotes, algo raríssimo e que muitos bons escritores nunca conseguiram durante a vida inteira.

sábado, 6 de outubro de 2018

Fodeu

O Brasil está pegando fogo. O Brasil está na merda. E eu acabei de assistir ao Grêmio empatar com o Bahia em casa e, depois de tanta fodeção, resolvi assistir a três episódios de Friends em sequência. Ah, caralho, como eu queria ser Joey, Ross ou Chandler. Aquelas tomadas nas ruas de Nova York me matam. Mas não, estou aqui, nesse país de merda. Está certo, os Estados Unidos de hoje também está uma merda. Bem como boa parte da Europa, da Ásia, da África e da Oceania. Ninguém vai ler essa porra de texto porque agora todo mundo está odiando ou amando o Bolsonaro. Nesse país comédia, é isso: antes, todo mundo amava ou odiava o Lula. Agora, todos odeiam ou amam Bolsonaro. Dois extremos. E eu aqui, acabando de ver Friends, tomando umas, querendo que tudo se foda. Às vezes acho que caminhamos para o fim do mundo: os espíritos elevados vão chegando ao paraíso, enquanto nós, que não nos achamos nunca, somos mandados de volta para essa terra perdida geração após geração. E a coisa vai ficando cada vez pior e pior e pior, até que, PUM, já era, quem se salvou se salvou, e quem não se salvou, se fodeu de vez. Penso que em 200 anos a questão está resolvida. Papo Daciolo, tá ligado? Mas não, não vou votar no maluco...
Meu voto é do Cirão da massa, mas sei que fodeu tudo de vez: vai dar Haddad e Bolsonaro para o segundo e o Bozo vai se eleger. As coisas mais bizarras possíveis vão acontecer. Vamos ver coisas que nunca imaginávamos que veríamos. A maioria delas, tristes e trágicas. Eu, porém, nunca acreditei muito na humanidade. E muito menos no Brasil. Enquanto os adultos não pararem pra pensar seriamente nas crianças, tudo estará perdido. Enquanto as crianças crescerem com referências patéticas, elas se tornarão patéticas quando chegarem à fase adulta. Grande parte dos eleitores que vão apertar números nas urnas amanhã são filhos de pessoas desequilibradas (às vezes concluo que todo mundo é desequilibrado, o que torna isso não necessariamente um insulto). Mas muitos dos que vão votar no Bozo são pessoas que vieram de famílias de bem: um pai autoritário e agressivo (que geralmente tem amantes por aí), mãe neurótica e amigos e parentes que seguem esse padrão. Pois eu digo: a parada é muito mais sinistra.
Porém, não vai ser eu quem vai mandar o papo reto pra essa cambada. Sinceramente, tô de saco cheio. Cansei de discutir com gurizada mimada, ex-amigos que foram rebeldes no passado e agora acreditam que são de uma raça superior porque “são de bem”, mulheres machistas, negros racistas, jovens conservadores e tudo o mais. Liguei o foda-se ao melhor estilo Bukowski: comprei cinco garrafas de Original para degusta-las nessa véspera de eleição. Cagar na urna de ressaca. Não vou ser hipócrita de dizer que quero um país melhor pra minha filha, porque desde que ela nasceu, eu só penso em uma forma de fazer com que ela possa deixar esse país infeliz para construir uma vida fora dessa fronteira verde e amarela. Algo que eu teria feito se tivesse tido a oportunidade. Algo que alguns amigos que conheci nos Estados Unidos fizeram e que não se arrependem nem um pouco. E não vai ser PT ou Bolsonaro que vai mudar a minha opinião.
Sinceramente, penso que o Brasil é uma causa perdida. Nunca vai haver segurança suficiente. Nunca teremos uma economia competitiva com os países de primeiro mundo. Nunca teremos artistas livres sendo valorizados. Nunca teremos um Nobel de Literatura. Nunca acabaremos com as filas nos bancos, supermercados, lotéricas, hospitais, etc. Nunca aprenderemos a dizer “com licença” e “por favor” nas mais variadas situações do espaço público. Nunca limparemos um lugar público após um grande evento (pois sempre teremos garis para fazer isso na manhã seguinte). Nunca sairemos tranquilos de noite em uma grande metrópole. Nunca esperaremos o pessoal do metrô sair para, então, entrarmos civilizadamente no vagão. Porque somos isso, somos o resultado de 500 anos de erros de todos os tipos e, quando parece que vamos acertar, optamos por voltar algumas décadas arás e começar tudo de novo.... Por isso, meus caros, nessa véspera de eleição, certo da vitória do candidato que representa uma volta ao ano de 1964 e de 1989, eu resolvi ligar o foda-se mais uma vez e assistir a Friends. E, provavelmente, eu faça isso durante os próximos quatro anos, divertindo-me com a série e com a cara de tacho com que metade dos eleitores de Bolsonaro vão ficar quando começarem a tomar no meio do cu pela cagada que fizeram na urna.
É isso. Cansei. Jair ou já era? Já era!!!!


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Estive em Lisboa e lembrei de você (Luiz Ruffato)

Acabei de ler hoje “Estive em Lisboa e lembrei de você”, de Luiz Ruffato. Antes que você, imaginário leitor, pense que estou inventando (pois há dois dias havia acabado de ler o Livro de Jô), explico: li em dois dias o texto do Ruffato, que faz parte da coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras, pois são apenas 83 páginas. E esse é um livro que precisa ser lido rapidamente, pois são apenas dois capítulos com parágrafos longos e linguagem completamente oral. Seria bom, inclusive, ler essa obra em voz alta, pois você literalmente ouve a voz do personagem que narra toda a tramoia em primeira pessoa, como se estivesse sentado em uma mesa de bar.
Tenho apenas duas considerações a fazer sobre o livro de Ruffato, uma positiva e outra negativa. Comecemos pela negativa, pois a partir dela, chego à positiva. O título não tem nada a ver com o enredo. E também, a história não se encaixa na proposta do Amores Expressos, pois é uma história de tudo, menos de amor (diferentemente do que parece ser o filme baseado na obra). Ou, talvez, de um amor platônico, mas que não chega a ser exatamente o ponto principal do livro. Assim, você pega o livro com uma expectativa (imaginando um brasileiro que está em Lisboa e pensa em alguém que está no Brasil, como em “O beijo que não vem da boca”, do Ignácio Loyola Brandão), mas não encontra nada disso na narrativa. E, dessa maneira, chego ao ponto positivo, pois o livro é, de maneira geral, excelente. É o típico livro pra ser lido em uma ou duas sentadas. Mas, por outro lado, é aquele livro para você se concentrar para ler, pois se você ficar devaneando mentalmente enquanto passa os olhos sobre o texto, talvez você perca o fio da meada e não se encontre mais na história.
A narrativa em primeira pessoa é de um personagem brasileiro: o típico sujeito semianalfabeto de uma cidade muito pequena do interior de Minas (que é a mesma cidade natal de Ruffato) e que, estando completamente fodido na vida (desempregado, sem os pais, com a esposa internada numa clínica psiquiátrica e o filho com a guarda dos sogros filhos da puta) pega as suas trouxinhas, a pequena herança deixada pela mãe e vai para Portugal cheio de sonhos (o sonho típico do brasileiro pobre que pensa em trabalhar por um tempo no país europeu que fala português para voltar “por cima da carne seca” cheio da grana um tempo depois). Porém, o que acontece, é uma tragi-comédia shekespereana.
O livro me fez lembrar do Passageiros do Trem N, do Sérgio Villas Boas (apesar da narrativa de Rufatto ser curta e a de Villas Boas ser longa e ter um pé e meio na reportagem). Ambos trabalham com esse imaginário dos brasileiros de que tudo é melhor fora do país. E, no contexto político de 2018, quem não está pensando em abandonar o Brasil? Espero que não tenhamos que sair do país para ter aquilo que de mais precioso existe na vida do ser humano: a liberdade. #elenão

terça-feira, 25 de setembro de 2018

O capítulo que salva o Livro de Jô da decepção total

Considero um reducionismo criticar o Jô Soares pelos seus últimos anos como apresentador de talk show¬, pois a carreira dele foi muito mais do que isso. Eu comecei a assistir ao Viva ao gordo ainda criança. Depois, acompanhei o Jô Onze e Meia no SBT durante toda a década de 1990, bem como a transferência dele de volta para a Globo, onde seguiu com o Programa do Jô até 2016. Durante os anos 1990 até meados de 2000 eu deixava uma fita no ponto e, dependendo do entrevistado, eu gravava. Ainda tenho aqui a caixa com várias fitas com programas gravados. O Jô Soares foi um dos caras mais fodas da televisão brasileira. Por isso às vezes me irrito quando algumas pessoas querem criticá-lo de maneira rasa (principalmente intelectuais da academia). Ele foi (não morreu ainda, mas praticamente se aposentou da TV) uma enciclopédia da história do Brasil e da TV. Conviveu com nomes consagrados no Brasil e no mundo. E, para mim, o seu auge foi no SBT nos anos 1990. Concordo com as críticas de seus últimos anos como apresentador do Programa do Jô quando, de fato, ele passou a querer aparecer mais do que os entrevistados e, muitas vezes, parece que focava em tentar humilhá-los ou coloca-los em situações ridículas. Porém, agora, depois de ter lido a autobiografia dele, o Livro de Jô, eu entendo que, talvez, na velhice, ele retomou o seu estilo de garoto nascido em berço de ouro da infância que assistia aos mais velhos pregarem peças nos outros, muitas vezes numa tentativa infantil de se auto afirmar como alguém superior em relação aos outros. Talvez um psicólogo possa avaliar melhor essa relação da personalidade do Jô da infância/adolescência com o Jô da velhice.
Bom, divaguei muito para dizer justamente isso: acabei de ler hoje o Livro de Jô: uma autobiografia desautorizada.
Comprei o livro justamente por tudo aquilo que mencionei antes: eu acompanhei a carreira do Jô por aproximadamente duas décadas. E, assim como muitos, parei de assistir aos programas nos últimos anos por essa tentativa desesperada que ele passou a ter de aparecer mais do que os entrevistados. No entanto, como falei, na década de 1990 houveram entrevistas absolutamente geniais (várias eu gravei) com todos os tipos de pessoas (famosos e anônimos). E, por assistir aos seus programas, eu sei que a formação intelectual do Jô não é brincadeira. Porém, talvez por isso, comprei o livro esperando encontrar memórias do nível das escritas por Erico Verissimo, em Solo de Clarineta, ou do Gabriel Garcia Márquez, em Viver para contar. Doce ilusão. A minha crítica é que Jô adotou no livro o mesmo estilo dos últimos anos de talk show: contou muitos e muitos “causos” de muitas e muitas pessoas, mas não contou a fundo a sua própria experiência (principalmente os seus podres). Ele até revela a sua relação com os pais e como foi a sua infância de filho temporão, comenta a estada na Suíça por cerca de cinco anos, as viagens pelo mundo, mas não foi realmente a fundo em praticamente nada. Limitou-se a contar histórias dos conhecidos, apresentando poucas reflexões sobre a vida – diferentemente do que fizeram os outros dois escritores mencionados antes. E isso, para mim, foi uma grande decepção.
Também foi uma decepção porque eu li três dos quatro romances publicados por Jô: Xangô de Baker Street, O homem que matou Getúlio Vargas e Assassinatos na Academia Brasileira de Letras. Desses três, curti muito os dois primeiros: achei de uma criatividade surpreendente e envolvente, além de um humor refinado e inteligente. O terceiro, porém, não teve o mesmo efeito. Assim, nem cogitei de ler As esganadas (se for bom, pode me deixar um comentário, caro leitor imaginário). E, novamente, senti-me decepcionado ao acabar as memórias, o que me leva a crer em duas coisas. Uma, a boa fase literária do Jô está nos seus dois primeiros romances; e outra, uma biografia que fosse escrita por algum jornalista da área ficaria muito melhor, pois, como disse, ele praticamente não conta nada que tenha feito de “errado” na vida. Todos sabemos que o ser humano é, por natureza, imperfeito e contraditório. E, ao contrário do que Erico e Garcia Márquez conseguiram fazer em suas memórias, o Jô escondeu a sete chaves esse lado mais humano dele.
O que salvou a autobiografia de Jô foi o último capítulo. Ali, sim, eu vi o Jô Soares dos velhos tempos. Ali ele comenta o que ele sentiu quando houve o golpe de 1964. Ali ele contou que foi de manhã para o DOPS e saiu de madrugada, quando achou que nem fosse mais sair. Ali ele conta a relação dele com o filho Rafael, que sofria de autismo e faleceu aos 51 anos. Ali ele menciona um pouco mais os seus dois casamentos. Ali ele conta uma história fascinante do encontro dele com o taxista que atropelou e matou a sua mãe, dona Mêcha. Ali ele conta da relação quase familiar entre os atores da Família Trapo da Record. Ali ele se revelou mais intimamente. Pena que foi tarde, depois de mais de 400 páginas em que ele se escondeu demais atrás dos personagens históricos que, para quem não tem a idade dele e não conhece a maioria daqueles nomes, torna-se chato pra caralho. Uma ou outra anedota salva as primeiras 400 páginas.
Escrevi essa crítica para expor o que senti ao terminar o livro. E para dizer: leia o último capítulo. Esse, sim, vale muito a pena. Esse sim, salvou o Livro de Jô da decepção total. Ao final, ele promete um segundo volume. Talvez, quando ele partir dessa para a outra, por comoção e respeito a um cara foda da comunicação brasileira, eu acabe lendo. Afinal, nunca gosto de dizer nunca.