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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Gabriela, cravo e canela


 Lembro que a primeira vez que tive vontade de ler Jorge Amado foi em 2005, quando participava da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Estava fazendo meu TCC sobre Erico Verissimo e, naquele ano de comemoração do centenário do escritor, teve uma exposição comemorativa à data e, nela, havia várias cópias de cartas trocadas entre Erico e Jorge Amado falando sobre família e, principalmente, literatura. Aquela amizade ficou gravada em minha mente. Como não havia celular com câmera, eu copiava aquelas correspondências em um bloco de notas. Acho que fiquei horas anotando, tanto é que, quando vi, a exposição havia fechado, garçons começaram a passar servindo vinho e champanhe e, sem querer, fiquei para o evento seguinte, que aconteceria apenas para alguns figurões...

O tempo passou, eu fiz meu TCC e dissertação de mestrado sobre o Erico, até que, lá pelas tantas, li O Quincas Berro D’água, uma novela de Jorge Amado. Adorei. Passou-se mais um bom tempo até que, poucos anos atrás, li Capitães da Areia. Também adorei. Nunca cogitei ler Tieta, pois lembro da novela que assisti na Globo quando era criança. Então, agora, caiu-me nas mãos Gabriela, cravo e canela, que terminei hoje de ler. Não vou fazer um resumo geral sobre a obra, pois há inúmeros espalhados por aí, então vou simplesmente traçar as minhas impressões para, num futuro imaginado, se assim me for permitido, eu consultar esse texto quando o enredo e tudo o mais já estiverem deletados da minha massa cinzenta.

Confesso que peguei o livro com preconceito. Lembro vagamente da novela da Globo sobre o livro e esperava uma história mega clichê: um personagem masculino rico que se apaixona por uma personagem feminina pobre, linda e indefesa. Comecei a ler, mas logo percebi que, no livro, não era nada disso (não assisti à novela, mas, sendo da Globo, consigo imaginar). Para começo de conversa, Jorge Amado dá a pincelada do que vai rolar na primeira parte: um coronel mata a esposa e o amante no mesmo dia em que Nacib, um sírio naturalizado brasileiro e protagonista masculino do romance, conhece Gabriela. Contudo, até você chegar nesse dia, tem muita água para rolar. Ou seja, Gabriela praticamente inexiste na primeira centena de páginas da obra que leva o seu nome. E isso me agradou positivamente por vários motivos.

Primeiro, porque ele apresenta uma cidade, mas não apenas geograficamente, e sim todo o seu ambiente e época: Ilhéus, litoral da Bahia, em 1925. Ali é apresentado um universo de personagens que dão vida e verossimilhança à história. Nessas primeiras cem páginas, você conhece o árabe Nacib, o coronel Ramiro Bastos, o exportador de cacau Mundinho Falcão, o Capitão e o Doutor, as concubinas dos coronéis, como Glória, as prostitutas do cabaré, o conquistador Tonico Bastos, Malvina e muitos outros. Você passa a se sentir um conhecido desse povo todo, como se estivesse em Ilhéus conversando com todos eles no bar do Nacib. E isso é espetacular.

Bueno, ao ler a história e ver que ela não tinha nada a ver com o que eu imaginava (o clichê que eu achava que encontraria), comecei a gostar cada vez mais do romance. Inclusive, não é nenhuma surpresa, pois adorei os outros dois livros que já havia lido do Jorge Amado. Claro que, para ler e curtir, você precisa fazer uma viagem no tempo e considerar a cultura da época, especialmente em uma cidade do interior do Nordeste brasileiro, completamente desprovida de certas consciências sociais que temos relativamente mais avançadas do que naquele espaço/tempo. Contudo, há a todo momento o choque entre o sistema estilo feudo do século anterior (XIX), com a lei sendo a bala e a coragem, e a ideia de progressismo financeiro e de costumes. Obviamente que, como em todos os tempos, há o choque entre o pessoal conservador e o progressista, entre os que se deprimem por as coisas estarem mudando e os que se empolgam excessivamente, e assim por diante.

E sobre os protagonistas? Bom, na primeira parte a gente conhece bem Nacib, o árabe dono do bar, que logo no início da narrativa vê Filomena, sua cozinheira idosa, largar o emprego do dia para a noite para ir morar com o filho. Então, Nacib se encontra com uma questão importante para ser resolvida: achar uma cozinheira urgentemente, pois, além de manter o bar, ele ainda havia aceitado fazer o jantar de um importante evento marcado para o dia seguinte à partida de Filomena. O jeito, para resolver o problema do jantar, era contratar os serviços de duas irmãs gêmeas (idosas e virgens, estilo solteironas dos anos 1920), mas que eram muito caras; ou seja, ele praticamente não teria lucro, apenas não cancelou para não se queimar na praça. E assim passa a primeira parte, com a cidade se dividindo em dois polos (os apoiadores do octogenário coronel Ramiro Bastos e os do progressista – mas forasteiro – Mundinho Falcão), e Nacib no meio, sem poder tomar partido, pois todos são seus clientes. Enquanto isso, ele precisa achar a tal cozinheira, sendo que profissionais dessa área, capazes de fazer as comidas típicas do bar, estavam em falta na cidade.

Porém – não vou me alongar, pois está muito bem descrito no livro e nos resumos – Ilhéus está prosperando economicamente devido à produção e venda de cacau, e sertanejos de todas as partes do Nordeste partem para lá, atravessando matas a pé, fugidos da miséria de suas cidades. E uma dessas figuras é Gabriela, que, durante a travessia, se envolve com Clemente. Enquanto ela está indo para Ilhéus para conseguir emprego de “qualquer coisa” na cidade, ele está fazendo a travessia com o sonho de se tornar produtor de cacau. No fim, quando chegam, um fazendeiro contrata Clemente para trabalhar na roça, enquanto Nacib, num último ato desesperado (pois esses sertanejos recém-chegados se reuniam em um “mercado” para serem contratados), contrata Gabriela, que está completamente coberta de poeira e sujeira, justamente no dia em que acontece o assassinato cometido pelo coronel contra o amante e a esposa. Cansado, ele a leva, mas tendo quase certeza de que seria uma furada, pois uma sertaneja pé-rapada não saberia fazer grandes coisas. Contudo, ele é surpreendido em todos os sentidos: no dia seguinte, quando levanta, há comida deliciosa à sua espera e, mais: Gabriela é linda. E, assim, no final da primeira parte, ao deixar roupas que ele comprou para ela no quarto, Gabriela desperta e, de um jeito um tanto quanto cômico, eles acabam passando sua primeira noite juntos...

Bueno, acabei me alongando e, agora sim, vou resumir, destacando que A PARTIR DAQUI TEM SPOILER PESADO. Digo isso porque, quando eu cheguei ao clímax do romance, como eu não havia assistido à novela, nem visto a série lá dos anos 1970, e também não havia lido nenhum resumo sobre a obra, fui enganado pelo narrador – uma jogada de mestre dele. Inclusive, creio que quem lê o livro sabendo do final não vai ter o mesmo impacto de quem pegou o livro para ler sem saber quase nada sobre o enredo – a não ser que é uma história de amor entre Gabriela e um homem.

Pois bem, vou começar resumindo as outras questões do romance. Em dado momento, a briga política de Ilhéus pega fogo: Mundinho Falcão e Ramiro Bastos estão disputando vários cargos (indicando seus nomes para intendente, deputados, senadores etc.) e, para os cargos que não são municipais, o apoio de Itabuna ganha importância. Então, o intendente de Itabuna conversa com ambos (ele é amigo de longa data de Ramiro), mas acaba se desentendendo com o coronel e apoiando Mundinho. Aí o intendente sofre um atentado quando estava no bar de Nacib, acompanhado de Mundinho, em um dos momentos mais nervosos do romance, pois o pistoleiro é um jagunço que fez a travessia com Gabriela e, após longa perseguição, é ela quem acaba salvando ele. Mas, para não me estender mais e ainda contar o principal do romance, termino dizendo apenas que esse pistoleiro se salva, bem como o intendente não morre com o tiro. A questão política estava praticamente resolvida, mas é finalizada com a morte de Ramiro Bastos pouco antes das eleições. Assim, a turma de Mundinho leva a melhor, para a alegria dos defensores do progresso e do fim de algumas das práticas mais cruéis do coronelismo em Ilhéus.

Mas o principal mesmo é o que se sucede com Nacib e Gabriela. Obviamente, eles se envolvem, mas ela não muda nada: segue ingênua, gosta de flertar com outros homens etc., enquanto Nacib vai ficando bitolado, completamente apaixonado, com medo de perdê-la, pois os principais coronéis e autoridades da cidade dão em cima dela, oferecendo casa montada, pedaço de terra etc. Mesmo temendo o preconceito, ele acaba casando com ela para garantir que não vai perdê-la; porém, ela diz a todo momento que não precisa, que está bom assim, mas que, se seu Nacib quer, ela não vai dizer não.

E aí acontece o seguinte: Nacib tenta transformá-la numa dama, sem sucesso. Mas, ao mesmo tempo, eles são descritos como completamente apaixonados um pelo outro, e é aí que o sem-vergonha (no bom sentido) Jorge Amado pega o leitor. Pois, ao mesmo tempo em que há o conflito entre a vontade de Nacib de “esconder” Gabriela da cobiça dos outros homens, de tentar controlá-la e fazer com que ela se vista e se comporte como as dondocas de Ilhéus, e a vontade dela de ser livre, de brincar, de ir ao circo, de andar descalça, também há a descrição de um casal feliz: do tipo que se dá bem, briga por bobagem, mas se ama na cama.

Você está nesse ambiente, lá pelo final do livro, achando que vai ficar tudo nesse banho-maria, quando, de repente: PAH! Você se surpreende junto com Nacib. Tudo começa quando ele pega um guri que trabalha para ele roubando dinheiro do caixa. Então, ele fica puto e resolve bater no guri, que não aceita numa boa e larga uma frase do tipo: “vai cuidar da tua mulher, que os outros tão furando”. Nacib pega o guri pelo cangote, que se caga todo, e conta o que sabe. Então, no dia seguinte, Nacib finge sair e acaba flagrando Gabriela na cama com Tonico (o filho de Ramiro Bastos, metido a galã, casado e que é até padrinho do casamento de Nacib). E aí seu mundo cai – e o teu, leitor, cai junto. Pois você, mesmo sabendo que aquele casamento foi todo errado, que Nacib oprimia Gabriela etc., se sente traído. E é uma sensação estranha. Triste, eu diria. E o que acontece depois também tem esse ar de tristeza que qualquer pessoa que já viveu o fim de um casamento sabe bem do que estou falando. E o resto não vou detalhar, pois é meio uma ajeitação para dar um ar de “final feliz” à história. Apenas me limito a dizer que os amigos de Nacib o ajudam a anular o casamento (então fica uma coisa do tipo “nunca aconteceu”), Gabriela vai a um terreiro e arma para, às vésperas da inauguração do restaurante colocado por Nacib em sociedade com Mundinho Falcão, desaparecer o cozinheiro e, assim, ele termina tendo que chamá-la de volta, pois nenhuma outra cozinheira no mundo se iguala a ela. Chega-se ao happy end, com os dois voltando a viver como antes do casamento: ela sendo a cozinheira dele, com quem às vezes ele deita, mas também deita com as prostitutas dos cabarés, enquanto ela também passa a não lhe dever nenhuma fidelidade. Algo que eu, particularmente, achei meio impossível de acontecer na vida real, especialmente nos anos 1920, mas que não tira o brilho do romance.

That’s it, folks.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

O retorno de Casanova


 Cheguei a este livro através do Guia de Leitura da professora Léa Mesina, de 100 autores clássicos da literatura universal. Da lista dela, cheguei aos 39. Ainda faltam 61, mas tem vários ali que não me interessam, então me contento em chegar a 50. Mas, vamos ao Casanova, de Arthur Schnitzler.

Bom, vou começar pelo fim. Ou melhor, pelo pós-fim. Quando termina a novela (é um livro em capítulo único de 115 páginas), o autor austríaco explica: fora uma ou outra menção ao passado de Casanova, a narrativa toda é pura ficção. O livro, aliás, foi escrito em meio a Primeira Guerra Mundial, no século XX, e Casanova viveu XVIII. Feitas essas breves considerações, vamos à história.

O imaginário popular de Casanova contemporâneo, inclusive com filmes, é de um sujeito belo, gentil, cavalheiro, que trata todas as mulheres como dama, tipo Dom Juan. Já Schnitzler resolve fazer uma paródia: constrói um Casanova com 53 anos (a idade que o autor tinha ao escrever a ficção), decadente, ranzinza e sem escrúpulos. Enfim, um crápula. A ideia dele era retratar um conquistador em decadência: sem um pila no bolso, com rugas aparecendo, uma pança saliente e assim por diante. Porém, esse “novo” velho Casanova é um mentecapto, um patife, um salafrário tomado de vilanismo no que se refere às mulheres. Essa é a crítica, no sentido de, de certa forma, ter me decepcionado, pois eu não creio que um Casanova conquistador e gentil se tornaria esse crápula por conta da idade.

Na narrativa, Casanova está fora de Veneza, de onde fora expulso 25 anos atrás, e está se preparando para voltar. Contudo, um velho amigo o encontra na estrada e o hospeda durante um fim de semana, e é sobre esse fim de semana que se passa a história. Primeiro, é revelado para o leitor que quando esse personagem era novo e conheceu sua futura esposa, Amalia, os pais dos dois não aceitavam o relacionamento por falta de grana. Casanova deu um jeito de fazer os pais aceitarem (inclusive traçou a mãe de Amalia) e, em agradecimento ao feito, a própria Amalia satisfez os desejos de Casanova, sem o seu futuro marido nem imaginar. Então, quando Casanova retorna, Amalia está louca para se atirar nos braços dele de novo, mas ele não quer nada com ela. O casal tem três filhas, duas pequenas e uma adolescente de 13 anos, além de uma sobrinha, Marcolina, de uns 20 anos, metida a intelectual e tal. Obviamente, Casanova se apaixona por Marcolina, mas que o vê como um velho e não liga para a fama dele. Além disso, ela está de caso com o tenente Lorenzi, que tem 23 anos. Também aparece na história um marques com sua mulher, e o tenente tem um caso com a mulher do marques (além disso, é revelado que o tenente também andou com Amalia), então, temos uma rivalidade aí: Casanova, o antigo conquistador, de 53 anos, e Lorenzi, o jovem e garanhão duas décadas mais novo. Está aí a história central do romance, que vou tentar resumir brevemente.

Bom, primeiro vou justificar porque Casanova é um traste nessa ficção do autor austríaco: ele simplesmente estupra a jovem de 13 anos. Ela vai lhe chamar para jantar no quarto e ele vê que ela tinha tomado um vinho e abusa dela e pede para ela não contar para ninguém! Filho da puta, mentecapto. Mas enfim, como se não bastasse, na parte mais final, o tenente Lorenzi perde toda a grana no jogo de cartas e, mais para frente, Casanova faz uma proposta: empresta o valor que Lorenzi fica devendo para o Marques – e que, por conta da dívida e dos ciúmes da mulher, não vai perdoar – desde que ele diga para Marcolina que ele quer um encontro às escuras e sem conversa com ela e, então, ao invés de Lorenzi comparecer, apareceria ele, Casanova. Lorenzi, tomado de raiva, aceita a proposta do jaguara. Eu achei que o tenente aprontaria com ele, como em uma comédia shakespeareana: mentiria para Amalia que queria se encontrar com ela, avisaria Marcolina, e faria o antigo casal de amantes se encontrarem, com Amalia achando que estava nos braços de Lorenzi, e Casanova achando que estava metendo na Marcolina. Mas não foi isso que aconteceu. Na noite em que Casanova – na mente dos outros – já tinha partido, ele retorna e tem o tão esperado encontro com Marcolina, e o momento descrito pelo autor austríaco é uma viagem que não vou me atrever a tentar descrever, apenas vou dizer que, após consumado o ato, ela reconhece Casanova. Quando ele vai pagar o dinheiro para Lorenzi, no pátio do castelo, o tenente o desafia para um duelo, mas como Casanova estava só com um casacão, eles acabam duelando pelados, e Casanova termina por matar Lorenzi e voltar para Veneza – aí não vou explicar a questão da volta dele, pois esse texto ficaria deveras longo para uma novela curta.

Bueno, o principal da história é esse. Como já ressaltei inúmeras vezes, mantenho esse espaço apenas para isso: resenhar alguns dos livros que leio para, no futuro, consultar o enredo principal, pois nossa massa cinzenta é totalmente perecível.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O quarto de Giovanni

 


Terminei de ler ontem O quarto de Giovanni, de James Baldwin. Bom, antes de mais nada, este texto nada mais é do que um resumo para eu consultar no futuro, quando não lembrar mais de nada do que terminei de ler ontem — ou seja, contém spoiler pra caralho. Dito isto, tenho algumas considerações sobre o que é escrito por aí sobre esse livro para, depois, falar mais especificamente dele.

Tanto na orelha quanto na contracapa, assim como no site da Companhia das Letras, o livro passa a visão de que se trata de um romance “gay”. Do jeito que encontrei as sínteses por aí, imaginei que fosse uma espécie de Pedro Juan Gutiérrez versão homossexual, com descrições de relações sexuais, putarias etc. Não tem nada disso. E sequer considero que seja um “clássico da literatura gay”, como costuma ser dito. O enredo até poderia nos levar a crer nisso: a história principal envolve David, o protagonista-narrador, Hella, sua noiva, e Giovanni, com quem David se envolve. Os dois primeiros são americanos; o terceiro, italiano. O romance inteiro se passa na França, em grande parte em Paris.

Mas, na verdade, trata-se de um romance com personagens complexos, que não foca especificamente na questão da sexualidade, como me fizeram crer. Não há nenhuma descrição explícita de cenas de sexo. Quando há algo do tipo, o narrador menciona um beijo e corta por aí, dando a entender que os personagens treparam. E é isso. Os dilemas de relacionamento descritos não são exclusivos de relações “gays”, como fazem parecer as resenhas da editora e da internet. São dilemas comuns a qualquer relacionamento. Mas vamos à história.

Assim como Baldwin, David tem problemas com sua família, que está nos Estados Unidos. A mãe faleceu cedo, e o relacionamento com o pai e a madrasta é conturbado. Inclusive, um dos motivos para partir para a Europa é ficar longe do pai e buscar liberdade, naquela fase boa da vida que vai mais ou menos dos 25 aos 30 anos. Pelo que dá para entender, ele conhece Hella já estando na Europa e fica noivo dela. Em determinado momento, ela parte da França para a Espanha para pensar no pedido de casamento feito por David, que logo no início já admite que havia tido uma relação sexual com um jovem nos tempos de escola.

Hella fica muito tempo na Espanha — tipo, meses — e David está quebrado, sem grana. Então, ele procura Jacques, um velho homossexual que conhecera anteriormente, para pedir apoio financeiro. Jacques é peculiar: adora ajudar, mas também gosta de ser cruel. Assim, ele dá uma força a Giovanni que, mesmo não gostando do velho, acaba tendo que sair com ele (no sentido de dar voltas, não de fazer sexo, seu obsceno leitor). E, numa dessas andanças, David conhece Giovanni, que trabalha em um bar alternativo dos anos 1950 (época em que se passa a história), cujo proprietário é Guillaume, outro velho homossexual.

O livro não é longo, então há cenas de um único dia ou noite que se estendem bastante, enquanto outras são narradas bem por cima. Uma das cenas longas é justamente essa noite em que David conhece Giovanni e, depois, os dois saem com Jacques e Guillaume quando o bar fecha, indo tomar café da manhã em outro lugar. Até ali, tanto para Jacques quanto para Guillaume, David era apenas um heterossexual dando voltas enquanto a noiva viajava, mas todos percebem que surge um clima entre ele e Giovanni.

Vale mencionar também que, desde o princípio, o narrador já conta que, ao final, Giovanni cometeu um crime e é condenado à guilhotina (sim, fui descobrir que a pena de morte por decapitação vigorou na França até o início dos anos 1980!). Mas o motivo não é revelado de imediato. Baldwin faz aquele jogo temporal clássico, alternando passado, presente e futuro. Mas, para não me alongar, sigamos.

David continua quebrado, o pai reluta em mandar dinheiro porque quer forçá-lo a voltar aos Estados Unidos e, sem grana para pagar o aluguel do hotel onde mora, ele acaba indo viver no quarto de Giovanni — um quartinho pequeno, acanhado, sujo e bagunçado. Como era de se esperar pelo título, o quarto é um elemento marcante da história. Assim, David passa a viver como um casal com Giovanni, que trabalha no bar, enquanto ele fica no quarto, imerso em suas confusões mentais.

Certa tarde, David, sem nada para fazer, sai e encontra uma conhecida. Eles conversam e acabam indo para o apartamento dela para trepar. Quando volta, encontra Giovanni completamente alterado, em crise de ciúmes. Depois de se acalmar, Giovanni conta que foi demitido porque não quis trepar com Guillaume, que ainda armou uma cena na frente dos clientes, acusando-o de ter roubado o bar. Começa, então, um novo drama: Giovanni fica transtornado, com crises de ciúmes constantes, e David passa a querer sair dali de qualquer jeito, até porque Hella está voltando.

Giovanni é dramático e faz aquelas cenas do tipo “eu vou morrer se você me abandonar, promete que fica comigo pra sempre?”. Mas Hella chega, e David vai encontrá-la e, literalmente, abandona Giovanni. Depois há um encontro bizarro entre Jacques, Giovanni, David e Hella, e mais um momento dramático quando David volta ao quarto para pegar suas coisas. Enfim, David acaba ficando com Hella, enquanto Giovanni, sem ter onde cair morto, cede à situação e passa a ficar com Jacques por interesse, além de se juntar a grupos que antes ele e David criticavam por serem muito esparafatosos.

Já falei demais, então vou resumir o final: Giovanni vai pedir emprego novamente a Guillaume que, pelo que entendi, depois de transar com ele, diz que não vai contratá-lo. Giovanni surta e mata Guillaume. Enquanto isso, David segue com Hella. Mas, enquanto aguardam a execução de Giovanni, David convence Hella a se mudarem para uma casinha no interior da França. Lá, ele entra em crise e, sem saber se Giovanni já foi executado ou não, e cada vez menos envolvido com Hella, David some por três dias, indo para um bar e se envolvendo com um marinheiro. No terceiro dia, Hella o encontra nesse bar com o tal marinheiro, rola aquela cena de “meu Deus, você descobriu”, e ela responde algo como “eu meio que já sabia”. Aí vem o drama final: Giovanni é executado, Hella, dramática, volta para os Estados Unidos, e David fica sozinho no interior da França (provavelmente volta para casa depois). Fim.

Ok, pode-se dizer que é um livro da chamada literatura gay, mas eu o li como um romance sobre relacionamentos complexos, cheios de dramas, brigas, ciúmes etc., como em qualquer relação. Várias cenas de conflito, tanto entre David e Hella quanto entre David e Giovanni, eu já vi, vivi, ouvi de outros ou testemunhei mundo afora. O que quero dizer é que separar esse enredo como “gay”, como se fosse algo feito apenas para consumo do público “gay”, é uma tremenda bobagem. Como já disse, trata-se de um romance sobre relações humanas complexas. Aliás, é irritante essa tentativa de classificação do tipo: ele é gay porque se relacionou com outro homem, logo não gosta de mulher. No mundo do bicho-homem, em geral, todo mundo gosta de todo mundo, mas insistem nessas categorias para selecionar, excluir e hierarquizar pessoas, relacionamentos e a própria sociedade.

Agora sim: fim.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Midllemarch – Parte 8 (final) – Ocaso e aurora

 


Ah, Dorothea. Dorothea, Dorothea… como és burrinha e estúpida, doce Dorothea. Comparada à gloriosa, imagética e luminosa Dulcineia del Toboso, do astuto Dom Quixote, você não passa de uma ameixa seca, sem gosto. Para você me entender, leitor contemporâneo: Dorothea, que pode ser apontada como a protagonista de Middlemarch, é aquela moça sonhadora, de bom coração, que adora defender os fracos e oprimidos, mas que, apesar de tudo, tem nas boas intenções uma mistura de ingenuidade e hipocrisia. Descrevendo a parte final, você vai entender melhor meus argumentos.

Bom, a parte final começa repercutindo o escândalo envolvendo Lydgate e Bulstrode na morte do Sr. Raffles. Não vou me alongar nos pormenores: acho que, sendo direto sobre o que aconteceu, dá para entender bem a situação. E, sabendo do desfecho, não há por que ficar enrolando - quem quiser os detalhes, que leia o livro inteiro, ora pois.

Para ajudar Lydgate, Dorothea tem a ideia de suprir as mil libras emprestadas por Bulstrode. Assim, ela preenche um cheque para levar ao médico, com o objetivo de quitar a dívida com o banqueiro e permitir que Lydgate encerre qualquer relação com ele. Lydgate, porém, está deprimido por causa da esposa e conversa com Dorothea, que se oferece para falar com Rosy, tentando fazê-la enxergar o quanto é amada pelo marido. O problema é que Rosy está de quatro por Ladislaw, o galã vigarista que engana todo mundo - menos a mim e, no fim das contas, Casaubon.

Mesmo tendo partido, Ladislaw fica arranjando subterfúgios para voltar a Middlemarch toda a hora, sempre com a esperança de reencontrar Dorothea, que, por sua vez, também vive inventando desculpinhas para arrastar o rabo para o amado. Acontece que Ladislaw aparece na cidade e, enquanto está a sós com Rosy, Dorothea chega com a carta contendo o cheque para Lydgate pagar Bulstrode. Ela flagra os dois na sala, deixa o cheque sobre a mesa e vai embora.

Ladislaw e Rosy ficam parados, sem reação. A essa altura, Rosy já enxerga Dorothea como rival - e, vale lembrar, ela judia do pobre Lydgate sempre que pode, enquanto o trouxa segue se arrastando para conseguir o mínimo de atenção da esposa (deprimente!). Diante da situação, Ladislaw fica com raiva - ele sempre fica com raiva por qualquer coisa - e grita com Rosy, como se ela tivesse alguma culpa pelo encontro inusitado. Afinal, foi ele quem apareceu ali (E A CASA ERA DA ROSY, CACETE!), e foi Dorothea quem chegou de surpresa. Mesmo assim, Ladislaw perde o controle e humilha Rosy, que é outra trouxa apaixonada por ele. Com isso, Ladislaw e Dorothea ficam arrasados: ela achando que ele tem algo com Rosy; ele imaginando o mesmo e colocando a culpa na moça, que, na real, não tinha culpa de nada.

No dia seguinte - depois de chorar até adormecer no chão gelado de casa -, Dorothea resolve ir conversar com Rosy para cumprir sua missão de defender Lydgate no escândalo. Aí rola o encontro dramático das duas sirigaitas, mas fica claro que, enquanto coloca Lydgate num pedestal, a real intenção da hipócrita Dorothea é afastar a rival do seu amado Ladislaw. E dá certo: Rosy acaba confessando que também ama o pilantra, mas afirma que Ladislaw está terrivelmente apaixonado por Dorothea.

Enfim, Ladislaw vai atrás de Dorothea e, após páginas e páginas daquela punheta de “ai, eu te amo, mas não posso ficar contigo”, eles finalmente se beijam, e ela decide abrir mão das propriedades de Casaubon para viver na pobreza com o amado (puta que pariu!). Há ainda um monte de pieguice envolvendo o casalzinho mequetrefe - o que só comprova que Casaubon estava certo ao desconfiar da lascívia da esposa e do sobrinho ingrato.

Vou aos finalmentes, contando o destino de cada um dos três casais que protagonizam o romance. Mas, antes, vale contar que Bulstrode é relativamente perdoado pela esposa e, pelo que entendi, os dois passam a viver em outro povoado. O que fica em aberto é a administração do hospital: Bulstrode sai de cena, Lydgate vai para Londres e Dorothea empobrece, de modo que não sobra ninguém para sustentar o tal hospital.

Enfim, vamos aos casais. Fred e Mary são os que se dão melhor. Para convencer Caleb a aceitar a administração da fazenda e, assim, ajudar Fred, Bulstrode passa o terreno para o nome da esposa. Caleb aceita voltar a administrar as terras, que acabam sendo repassadas a Fred, que, com o tempo, consegue comprar a propriedade - aquela mesma que ele sonhava herdar no início da história. Ele e Mary têm quatro filhos homens. Não ficam ricos, mas vivem felizes para sempre.

Lydgate e Rosy vão para Londres, onde ele se torna um médico respeitável, embora tenha de suportar o fardo da personalidade problemática da esposa, que constantemente o diminui moralmente com seu temperamento mimado. Apesar disso, permanecem juntos até a morte dele, aos 50 anos. Depois disso, Rosy se casa com outro médico, descrito como velho e rico. Se não me engano, do casamento com Lydgate ela também ficou prenha de quatro rebentos.

E chegamos ao casalzinho mequetrefe. Sobre eles, o livro não entra em detalhes sobre a vida a portas fechadas, então conto primeiro o que a autora revela e depois completo com a minha imaginação. No texto, Dorothea e Ladislaw também vão para Londres, têm filhos, ele se torna político famoso no Parlamento inglês e ela vira dona de casa. Há menções pontuais - como a raiva inicial de Sir James, que mais tarde aceita receber a visita da cunhada em Middlemarch, mesmo sem gostar dela e do marido -, mas, no geral, é isso.

Agora, minha imaginação: Ladislaw se torna um político fanfarrão, cheio de amantes, que grita e humilha a esposa, às vezes descendo o braço nela. Vale lembrar que, na noite em que ele vai atrás de Dorothea, antes do primeiro beijo, a narradora descreve diversas explosões de raiva dele, do nada. Vejam algumas falas de Ladislaw:

“— É tão fatal quanto um assassinato, ou qualquer outro horror que separa as pessoas — ele explodiu de novo. — É mais que intolerável… ter a nossa vida mutilada por questões tão triviais…”

Aqui, ele chama de trivial o direito de Casaubon de se prevenir daquilo que havia sacado desde o início: que o urubu Ladislaw só esperava sua morte para ficar com o patrimônio e com a esposa. Francamente, sr. Ladislaw…

Quando Dorothea tenta consolar dizendo que a vida deles não precisava ser “mutilada”, ele responde, furioso:

“— Sim, tem de ser — disse Will, raivoso. — É cruel de sua parte falar assim, como se houvesse algum consolo” (p. 821).

Ou seja, ele chama Dorothea de cruel simplesmente porque ela tenta consolá-lo. Todos os sinais estão ali: um sujeito opressor, ciumento, emocionalmente instável, que, depois de casado, provavelmente descarregaria suas frustrações na esposa, inclusive descendo o braço nela, enquanto mantém um harém de amantes.

E, assim, encerro este resumo. Apesar dos pesares, é um livro bom e divertido - quase 900 páginas bem escritas, com ótimos enredos e personagens que dão vida a um povoado imaginário chamado Middlemarch.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Middlemarch – Parte 7 – Duas tentações

 


Esse é o capítulo com a narrativa mais linear e, creio, será o resumo mais curto de todos até aqui. Desta vez, os casais platônicos Dorothea/Ladislaw e Fred/Mary são praticamente deixados de lado, e a história gira quase toda em torno do casal Lydgate, de Bulstrode e do Sr. Raffles.

Em síntese, o cerco financeiro em torno de Lydgate aprofunda a crise no casamento dele com Rosy, que tenta resolver o problema à sua maneira, às escondidas, mas só piora a situação. Um exemplo disso é quando ela escreve ao tio de Lydgate pedindo as mil libras que salvariam o casal financeiramente, e ele responde com uma carta dura, dizendo lamentar que Lydgate estivesse tentando usar a esposa para conseguir um empréstimo. Ao ler a carta do tio, Lydgate perde a paciência com a esposa, que por sua vez, o acusa de não ter avisado que depois do casamento eles passariam por aquilo, fazendo com que o médico se sinta culpado e recuando na discussão.

Sem mais delongas, a situação de Lydgate se cruza com a relação entre Bulstrode e o Sr. Raffles. Este segue atazanando a vida do banqueiro, que continua lhe dando alguma quantia para mantê-lo afastado. Até que o Sr. Raffles fica doente e é levado para a fazenda de Bulstrode por Caleb, que o encontra cambaleando pela estrada. Enquanto delira por causa da doença (resultado de muita bebedeira), ele conta tudo ao operário, que, ao avisar Bulstrode de que um antigo conhecido seu estava doente na fazenda, aproveita para encerrar qualquer tipo de relação profissional e pessoal com ele, partindo do pressuposto de que o Sr. Raffles já havia contado sobre o passado do banqueiro. Como Caleb é discreto, ele não pretende espalhar nada.

Depois disso, Lydgate pede dinheiro emprestado - justamente as mil libras - a Bulstrode, que é rude e se recusa a emprestar, sugerindo que o médico se declarasse insolvente. Lydgate fica arrasado, mas Bulstrode se depara com o Sr. Raffles muito doente e manda chamar o médico. Em resumo, para garantir a simpatia de Lydgate - caso o Sr. Raffles dissesse alguma coisa -, Bulstrode acaba emprestando as mil libras ao médico. Lydgate dá orientações claras sobre os cuidados com o Sr. Raffles, mas Bulstrode, quando a empregada pede permissão para dar uma bebida ao doente (mesmo com a proibição médica), autoriza. Com isso, o Sr. Raffles amanhece morto.

O problema é que, em Middlemarch, antes de adoecer, o Sr. Raffles, já bêbado, havia contado toda a história a um sujeito qualquer, que rapidamente espalha a fofoca (uma grande parte desse capítulo detalha como a fofoca se espalhou). Logo se cria o escândalo: o passado de Bulstrode é marcado por corrupção (incluindo o roubo da herança de Ladislaw), e Lydgate passa a ser visto como cúmplice da morte do Sr. Raffles, em função do empréstimo das mil libras.

Como a peste está se aproximando do povoado, ocorre uma reunião do conselho da cidade para decidir a compra de um terreno que servirá como cemitério coletivo. Antes mesmo do início da reunião, os membros deixam claro que não querem mais Bulstrode no conselho por causa do escândalo, e Lydgate percebe que muitos acreditam que ele tem algo a ver com a morte do Sr. Raffles. O Sr. Brooke estava presente e, ao final, vai conversar com Dorothea, contando tudo. Ela, por sua vez, afirma confiar na inocência de Lydgate.

Agora, faltando cerca de 100 páginas para o fim, eu apostaria que Ladislaw acabará sendo beneficiado pelo escândalo, recebendo dinheiro de Bulstrode e, assim, finalmente se casando com Dorothea. Fred, por sua vez, deve acabar com Mary. A pior situação é a de Lydgate com Rosy, pois, mesmo quitando a dívida, ela não aceita reduzir o padrão de vida de dondoca e eles seguem sem se acertar. Aguardemos as próximas páginas.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Middlemarch – Parte 6 – A viúva e a esposa

Quando vi o título desta parte, imaginei que se trataria da transformação de Dorothea, de viúva do Sr. Casaubon, em esposa de Will Ladislaw. Não chega a tanto, pois boa parte do capítulo aborda histórias de outros personagens. Contudo, antes de seguir a ordem da narrativa, faço um breve comentário sobre essa relação entre Ladislaw e Dorothea.

Não pesquisei sobre isso na web, então não sei se esse é um daqueles casais “clássicos” e “queridinhos” da literatura. Ainda assim, acho que este é o casal mais irritante e hipócrita de todos. Primeiro porque Will se coloca como coitado para conquistar Dorothea, que, como temia Casaubon, cai como uma patinha nas armadilhas sentimentais dele. Ele segue se fazendo de vítima, e ela segue sendo a idiota que acredita nas coitadices do nigromante, enquanto todos os outros personagens sacam que ele não vale nada. Mas, pelo que estou percebendo, a própria autora cada vez mais o coloca como uma espécie de “herói honrado” - em breve vocês vão entender por quê.

 

Mas eu - EU! - não esqueci que ele conquista Dorothea à base de manipulação e mentira. Além disso, quando eles conversam cara a cara, ele sente raiva a qualquer resposta negativa dela, o que me faz imaginar que ele seria um daqueles maridos opressores que, em pouco tempo, estaria descendo o braço nela - com o apoio da sociedade oitocentista. Mas deixemos o casalzinho mequetrefe de lado por um momento para falar do capítulo.

Bom, na verdade, este é um dos capítulos mais “lentos”, com muitas cenas secundárias e descrições longuíssimas, e pouco avanço efetivo da história. O que dá para dizer, primeiro, é que Will Ladislaw segue enfiado na casa de Lydgate e, em dado momento, dá a entender que a Sra. Lydgate está gostando dele, mesmo ele sendo apaixonado por Dorothea. Há também um encontro breve entre o casalzinho mequetrefe, mas eles ficam naquela punheta de sempre: “ai, todo mundo me pinta como vilão porque teu marido colocou aquele adendo no testamento, mas eu sou honrado e não vou casar contigo por isso…”, “ai, eu acredito em você, mas você é tão vítima, pois o mundo é mau, está errado, e você é o bem supremo da humanidade”. Como diriam os adolescentes de hoje: não tenho saco pra isso. Ou, como diria Bukowski: tirem a roupa logo e vão foder num quarto ao invés de foder com a paciência do leitor.

Depois, o protagonismo da maior parte do capítulo gira em torno da crise financeira de Lydgate. Rosy perde o bebê ao se encantar com um primo do marido e sair a cavalgar com ele, mesmo contra as orientações médicas. Em seguida, Lydgate é obrigado a confessar para ela que estão falidos e precisam penhorar alguma parte da mobília, o que mostra que a lógica da sociedade do consumo desenfreado - consumir por consumir para manter um padrão de ostentação - é bem mais antiga do que a era das redes sociais. Diante da notícia, Rosy, que é uma dondoca, ameaça sair de casa para voltar a morar com os pais, mas acaba voltando atrás - ainda assim, fica um climão entre os dois, até porque, como comentei antes, há esse indício dela estar afim do galã, pegador casadas, Will Ladislaw.

Ah, e Fred, para poder se casar com Mary, tem a brilhante ideia de trabalhar como peão com o pai dela, Caleb, escapando assim da carreira na igreja. Contudo, a mãe de Mary solta umas indiretas, deixando claro que, se não fosse por ele, Mary se casaria com o Sr. Farebrother, que agora tem dinheiro. Fred se ofende, rola uma cena de ciúmes e tal, mas acabam se acertando, com ele trabalhando para Caleb e alimentando o sonho de casar com Mary.

Mais para o final, há a cena do leilão em que, resumidamente, o Sr. Raffles volta a chantagear Bulstrode e faz insinuações para Ladislaw. Bulstrode, então, acaba contando a verdade para Will - e ei-la aqui: há uns 30 anos atrás, antes de aparecer em Middlemarch, Bulstrode namorou a mãe de Ladislaw, e todos eles estavam metidos em tretas. Pelo que entendi, compravam produtos roubados a preço baixo e revendiam por valores altos. Para escapar disso, a mãe de Ladislaw acabou abandonando a família. A avó dele, uma viúva rica, morreu e, como ninguém sabia onde ela estava, Bulstrode ficou com a herança. Na verdade, só o Sr. Raffles sabia que ela (a mãe de Ladislaw) ainda estava viva, morando com seu filho pequeno, razão pela qual Bulstrode pagou para ele ir embora para a América. Em outras palavras: metade da fortuna herdada por Bulstrode seria, por direito, da mãe de Will; como ela morreu, esse direito passaria a ele. Will, contudo, orgulhoso - e agora dá para entender por que eu disse antes que a narradora o coloca na condição de herói honrado -, recusa o dinheiro oferecido por Bulstrode, alegando que ele tem origem na receptação de produtos roubados (ai, que honrado esse fanfarrão!).

Ou seja, aqui ele poderia ter recebido o dinheiro e ficado com Dorothea, mas a narradora o coloca, como eu disse, na posição de super-honesto, mesmo depois de ele ter mentido e manipulado Dorothea para conquistá-la enquanto ela era casada. E ela, por sua vez, se apaixonou furtivamente pelo Sr. Casaubon, casou com ele contra a vontade de todos, para ceder ao primeiro galanteador barato que aparecesse. Como diriam as senhorinhas de Middlemarch: lamentável. Resumindo, portanto, o Sr. Raffles permanece nas redondezas e segue com Bulstrode nas mãos, enquanto o banqueiro se sente aliviado por saber que Ladislaw não vai espalhar a fofoca pela comunidade.

Na cena final, há mais um encontro entre Will e Dorothea antes de ele partir do povoado - e, a essa altura, já chegou aos ouvidos da viúva a fofoca de que ele anda enfiado na casa de Lydgate conversando com Rosy dia e noite. Mas, novamente, eles recaem na mesma punheta emocional de sempre: “ai, como tu é bom, honrado e incompreendido; e “ai, eu não vou ficar contigo por dinheiro, mesmo gostando de ti” e blá-blá-blá. Provavelmente acabarão juntos, levando uma vida infeliz para sempre.

Assim, neste ponto da narrativa, temos os três casais protagonistas nas seguintes situações: Will e Dorothea presos nessa punheta sentimental eterna; Lydgate e Rosy em crise por causa do endividamento dele e da dondoquice dela; e Fred trabalhando com Caleb na tentativa de finalmente se casar com Mary.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Middlemarch – Parte 5 – A Letra Morta

 


O capítulo - que já dá um spoiler no título - começa devagar, mas depois dá uma (boa) melhorada. Primeiro, Dorothea vai atrás de Lydgate para saber a real situação do marido. A essa altura, Rosy já está casada com o médico e, chegando lá, ela encontra acidentalmente Ladislaw; mas, como Lydgate não está em casa, ela segue para o hospital. Após deixar a casa, Ladislaw faz elogios rasgados para Dorothea, fazendo com que Rosy desconfie que ele gosta dela. A frieza de Dorothea também faz com que ele se dê conta da proibição que Casaubon havia feito contra ele.

A partir da conversa entre Dorothea e Lydgate, ela se compromete a ajudar o hospital com doações anuais, após o médico contar sobre o boicote que vem sofrendo dos figurões de Middlemarch. Então, começa um trecho longo que basicamente foca no contraste entre as ideias inovadoras na medicina trazidas por Lydgate e a sociedade conservadora local, como, por exemplo, quando contam que o médico chegou a solicitar à família de uma senhora falecida permissão para usar o cadáver dela para estudos (um escândalo!). Daí, parte-se para o conflito entre reformistas e conservadores, tendo como base o caso do médico, inclusive pelo fato de Lydgate ter ressalvas para receitar remédios. Também fica clara a amizade de Ladislaw com Lydgate e, por extensão, com Rosy. Além disso, é revelado que Rosamond esperava um bebê, e o médico andava estressado pelas dívidas adquiridas para que eles se casassem.

O negócio esquenta novamente quando Will Ladislaw tem a ideia de aparecer à missa nas vizinhanças de Casaubon, pensando que era um homem livre e poderia ir onde quisesse, mas com a clara intenção de ver Dorothea e provocar Casaubon. Depois da cena dramática em que os personagens se cruzam rapidamente, Casaubon pede que Dorothea diga se pode prometer algo que ele lhe pedisse sobre o seu pós-morte. Enquanto ela pensa que ele irá falar algo sobre trabalho, ele está preocupado com as intenções de Will de ocupar o seu lugar. Há um drama geral, e ela fica de responder no dia seguinte.

Após quase não dormir, exausta, ela vai encontrar o marido, que diz que vai até certo local e que é para ela aparecer depois de um tempo. Cansada, ela vai decidida a dizer que topa fazer o que ele pedir, mas, ao chegar lá, ele está de cabeça baixa. Aí surge uma das melhores frases que eu já li para descrever que uma pessoa havia morrido: “Porém, o silêncio nos ouvidos de seu marido nunca mais seria interrompido” (p. 499).

E aí o negócio esquenta de novo, pois Casaubon é enterrado, mas Sir James Chettam (marido de Celia, que a essa altura já tem um filho) tenta convencer o Sr. Brooke a despachar Ladislaw, pois eles haviam encontrado, junto com o testamento, um adendo - que inicialmente não é revelado, mas que antecipo aqui - segundo o qual, se Dorothea se casasse especificamente com Will, ela perderia o direito à herança da propriedade. Mais à frente, ainda no capítulo, isso terá reflexos: a família de Dorothea fica puta com o defunto (pois isso abre brecha para fofocas de que ela tinha um caso com Will enquanto era casada) e também faz com que Will se sinta ofendido, pois, se ele casasse com Dorothea, além dos fuxicos, passaria por um homem pobre que quer casar com mulher rica por interesse. Claro que tudo isso não ocorre assim, tão rapidamente, e ocupa páginas e páginas que eu resumi aqui nessas mal traçadas linhas.

Por outro lado, Dorothea precisa indicar alguém para a igreja do povoado para ocupar o lugar do finado marido e, seguindo o conselho de Lydgate, ela indica Farebrother (o mesmo que havia sido deixado de lado para ser o pároco remunerado do hospital). Assim, ele fica feliz, pois finalmente vai ter uma boa renda e vai poder deixar o jogo de lado.

Aqui antecipo outra história, que no livro aparece mais para frente: Fred volta à cena, pedindo para Farebrother ajudá-lo na questão de se casar com Mary. O impasse é o seguinte: ele se forma - acho que em teologia - mas não quer seguir na igreja. Contudo, como o pai insiste que ele dê um jeito na vida, ele revela ao pároco que, se Mary concordar em se casar com ele, mesmo se ele virar pároco, ele encararia a profissão. Acontece que, antes disso, a família de Farebrother estava insistindo para que, com sua nova condição, ele pedisse a mão de Mary. Enfim, Farebrother vai lá e expõe a situação de Fred para Mary, que, em outras palavras, diz que só casa com ele se ele não seguir carreira na igreja. Farebrother ainda dá uma tenteada para saber se ela se casaria com outra pessoa além de Fred, mas ela diz que não, sem jeito, até desconfiando das intenções do religioso. A cena encerra assim: Mary dá esperanças para Fred, desde que ele dê um jeito na vida primeiro, mas sem trabalhar na igreja.

Aí chega a questão política do Sr. Brooke. Ele faz um discurso cômico (mencionado no prefácio do livro), em que é vaiado e ridicularizado - tudo gira em torno da p. 520. Falando com seus vícios de linguagem, ele se perde e termina com o público vaiando e atirando ovos nele. Como resultado, ele desiste de se candidatar a uma vaga no Parlamento e, ao mesmo tempo, desiste do jornal O Pioneiro e de Ladislaw enquanto seu mentor intelectual - inclusive insiste para que Will vá embora. Mas, sacando os motivos do Sr. Brooke e dos demais, Will acaba tendo ainda mais vontade de ficar, mesmo sem o emprego de jornalista. Ele está desesperançoso quanto a Dorothea, mas, em uma breve reflexão, tem a ideia de “pedir” um prazo de uns cinco anos para dar um jeito na vida e, se ela topar, ele ficaria. Assim, ele é deixado de lado aqui na narrativa.

Refletindo, minha impressão é a seguinte: Dorothea e Will têm em torno de 20 anos, são jovens e desmiolados. Dorothea inicialmente é apresentada como uma figura feminina diferente, com gostos distintos das demais moças, algo com um que de revolucionário, etc., mas logo se revela uma figura muito caricata da adolescente rebelde que só se mete em furada quando o assunto é romance. Ela primeiro se apaixona e se casa com um homem bem mais velho e, então, rapidamente se dá conta da merda que fez. Fica viúva e vai caindo como um patinho (exatamente como Casaubon temia) nos papos de Will, que também é um rebelde que só sabe agir pela emoção. Caso fiquem juntos, na minha imaginação, levariam igualmente um resto de vida infeliz, pois tomam decisões movidas pela emoção e, mais adiante, isso tende a se transformar em frustrações profundas...

E, agora sim, aparece um novo enigma na narrativa. O padrasto de Rigg (o filho bastardo do velho Peter) reaparece. Acontece que Rigg vendeu a propriedade do velho para o Sr. Bulstrode - o que causou revolta na família do finado Peter Featherstone. Mas isso pouco importa. Ele vendeu porque o sonho dele é trabalhar com câmbio, vendendo ouro. E aí reaparece o Sr. Raffles - mais uma vez bonachão e provocador. Dá a entender que a mãe de Rigg faleceu e que agora o Sr. Raffles está viúvo. Fica claro que ele sabe algo do passado do manda-chuva de Middlemarch, o Sr. Bulstrode.

Pela conversa dos dois, é revelado que o banqueiro, no passado, pagou para o Sr. Raffles ir embora para a América. Eles não se viam havia cerca de 20 anos. Raffles revela, por cima, que Bulstrode deu um golpe do baú numa velha viúva e tinha uma enteada perdida por aí. Parece que a família dele não sabe disso (a esposa e as filhas, por exemplo). E Ladislaw tem algum parentesco com Bulstrode (talvez seja o pai dele — isso fica no ar no final do capítulo). Em resumo, ele chantageia Bulstrode, mas o velho banqueiro oscila entre aceitar e não, acabando por oferecer um pagamento trimestral para que Raffles fique longe. Ele dá risada da proposta e pede apenas 200 libras para sumir por um tempo, ao que o banqueiro aceita, já exausto.

Acontece que o Sr. Raffles não sabe que Ladislaw está nas redondezas; então, provavelmente algo nesse sentido vai acontecer mais à frente. Enfim, a cena final do encontro entre os dois é muito boa, pois vai despertando várias curiosidades e sentimentos em quem lê: afinal, Bulstrode até então era apontado como o ricaço intocável que dava as cartas em Middlemarch e, de repente, está nas mãos de um charlatão beberrão que adora provocar. Inclusive, para cada frase de arrogância de Bulstrode, o Sr. Raffles solta uma nova tirada, o que chega a fazer o leitor ter simpatia pelo mentecapto.