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terça-feira, 7 de setembro de 2021

Exército de um Dudu só

 


            Esse é um texto que gostaria de escrever bêbado, mas não posso, pois amanhã tomo a segunda dose da vacina contra a Covid. É um texto que poderia ser triste, porém creio que não vai ser o caso. É um texto sobre como eu, conhecido em alguns ciclos como Dudu, fiquei complemente sozinho em relação ao meu exército de anos atrás, mais especificamente, do final do século XX. Como fui totalmente abandonado pelos meus ingratos e desgraçados soldados. Não fui um bom comandante e perdi o posto para o capitão golpista. Vou tentar explicar.

            Tive uma infância e adolescência perfeitas em relação a amizades. Nunca sofri bullying, sempre tive uma porrada de amigos, desses que frequentavam a minha casa em Santo Ângelo. Às vezes tinha alguns que até lá posavam. Como meu pai era o único sócio da AABB da cidade, eu agendava jogos no campo de futebol sete e escalava os que jogavam. Vezemquando a lista passava dos 30 nomes. Sentia-me o técnico da seleção: tinha que fazer cortes. Os critérios não eram técnicos, era amizade e afinidade. E, dentre os selecionados, eu ainda escolhia os que ganhariam carona no carro do pai. Chegamos a colocar dois no banco do carona e mais cinco atrás. Oito, com o pai, que também jogava. Mais que um time sete. Chegando lá, não raras vezes havia mais de dezena de bicicletas. Fazíamos três, quatro times, e o horário de uma hora virava duas, três, cinco, oito! O tiozinho, gente fina, sempre deixava. Como aqueles campos eram desconhecidos na cidade (e era dos melhores!) essa era uma barbada nossa. E, como disse, eu era uma espécie de comandante: o dono da bola e do campinho. Porém, modéstia parte, jogava bem.... Era um dos melhores.

            No colégio, durante o Ensino Médio, nossa turma sempre teve uma média de dez a quinze alunos do sexo masculino. Não tinha internet, não tinha Orkut, quiçá Facebook. Tinha o telefone, que era o instrumento usado para agendar os jogos. E tinha, obviamente, as conversas pessoais, as idas de uns na casa dos outros, as festas, etc. Em 2001 entrei na faculdade e aos poucos fui perdendo contato com toda essa turma de Santo Ângelo. A sensação que tenho é que se quisesse, pegava o telefone e reuniria todo mundo no campinho da AABB de Santo Ângelo (agora pagando a hora, óbvio). Apareceu o Orkut e vez ou outra aparecia alguém daquela turma como amigo. Alguns até viravam contato no MSN. O tempo passou, e chegou o Facebook. Creio que cerca de 60% daquela turma apareceu em algum momento como amigo. No entanto, vieram as eleições de 2018 e boa parte se perdeu ali. E agora, em 2021, depois de todos os motivos que todos sabem (vou ficar apenas no incentivo ao não uso de máscara e de distanciamento em um cenário com quase 600 mil mortes) se foi mais uma leva. A leva final. Em resumo, fiquei sozinho. Se hoje for para Santo Ângelo, não tenho ninguém para ligar para conversar. Ou melhor, não tenho vontade de procurar ninguém daquele tempo. O que foi bom, foi bom, mas ficou lá, no passado. De todos os meus colegas de Ensino Médio, até onde sei, apenas eu (EU num universo de 20 a 25 guris) não votei e não apoio o capitão. Perdi todos os meus soldados para ele. Não sobrou um. Só eu. Talvez, dentre toda aquela turma do futebol da AABB ainda haja um ou outro que não compactua com a barbárie (mortes, inflação, guerra contra a democracia, etc) que está aí, patrocinada pelo líder oficial da nação. No entanto, não se manifestam nesse sentido publicamente, o que me faz desconfiar que também abandonaram o meu barco e ficaram no do capitão.

            Para não cometer injustiças, há dois daquele tempo que desconfio que compartilham a minha perspectiva, mas não vou mencionar nomes, pois não tenho certeza. Sei que recentemente houve baixas frustrantes e inesperadas. Quando eu falei que não queria contato com quem apoia um governo responsável por tantas mortes, não estava brincando. Vivendo num estado como o Rio Grande do Sul, cada vez mais me apego ao estilo antissocial e niilista do velho Buk: prefiro ficar sozinho, com meus livros e minha cerveja. Porém, para a minha sorte, depois daquela fase “das antigas” vieram muitos outros amigos e amigas. Para ficar com eles, topo largar os livros, abrir umas e celebrar a vida juntos! Todos vacinados. Todos a favor da democracia. Somos poucos, mas estamos unidos.

            Hasta!

terça-feira, 27 de julho de 2021

Dilemas humanísticos e literários


* Creio que nunca fiquei sem escrever nesse espaço por tanto tempo. A pandemia, a preguiça, a idade (chegando na crise dos 40), enfim, uma série de fatores me levaram a inatividade literária enquanto "escritor". Sigo lendo, sim, porém, não estou me prestando mais nem a resenhar minhas leituras. Também comecei a estudar gestão financeira - e sobre isso quero escrever outra hora. No entanto, quebro o gelo para, na verdade, republicar a minha coluna da semana passada do Diário Popular. Sim, a duras penas, escrevo uma coluna semanal para o maior jornal de Pelotas (RS). Apenas não incluí no texto abaixo, sobre o livro "Viagem ao fim da noite", de Céline, a magistral descrição do autor sobre os dilemas, as chatices e as aporrinhações que podem envolver um relacionamento, que aparece na parte final e é simplesmente genial. Enfim, segue, para o meu imaginário leitor:



Comentei duas semanas atrás sobre a primeira parte da obra “Viagem ao fim da noite” e sobre um resumo biográfico do escritor francês Céline. Terminei de ler esse livro há poucos dias e, confesso, fiquei completamente perdido e angustiado. Vou tentar me explicar. Como havia mencionado no outro texto, eu peguei essa obra para ler por ser considerada uma obra prima da literatura francesa que influenciou diversos escritores mundo afora, inclusive os americanos, que tanto leio e gosto, como Charles Bukowski e John Fante. Na primeira parte da narrativa, o personagem (alter ego do autor) participa da Primeira Guerra Mundial como soldado, é internado em um hospício de Paris, foge para a África, é enviado quase que sem querer para os Estados Unidos, escapa da tutoria da imigração em Nova York, trabalha na fábrica da Ford em Detroit, namora uma prostituta e volta para a França. Ação pura, com várias viagens e situações pitorescas. Já na segunda parte, o personagem se forma em Medicina e se torna médico de um povoado pobre nos arredores de Paris. Parece que tudo está calmo, pois ele fica páginas e páginas contando histórias dos pacientes e de seus infortúnios pessoais e financeiros, até que no último quarto do livro todos os pontos se ligam e tudo vira uma trama que mistura ação, suspense, romance, aventura e tudo de bom que um clássico literário pode ter. Em síntese, terminei de ler o livro com aquela sensação de que, sim, trata-se de um dos melhores livros já escritos na literatura ocidental. Ponto.

Chega-se, no entanto, a parte da angústia. Quando finalizei a última página, fiquei com uma sensação de vazio, de não saber o que pensar, ao lembrar que aquele autor, que escreveu aquelas páginas maravilhosas, sobre uma história que foi a história de suas primeiras três décadas de vida, foi um simpatizante de Hitler, defensor do nazismo e que anos depois de lançar essa obra publicou diversos panfletos com conteúdo fortemente antissemita. O pior, no entanto, é o posfácio escrito anos depois, em que ele fala que ninguém entendeu nada do livro, ao querer separar ele da própria obra. Ou seja, ele queria dizer que aquela história do “Viagem ao fim da noite” era exatamente ele mesmo, era exatamente o que ele sempre pensou e sempre pensaria, ou seja, aquela história era Céline na sua essência, o mesmo Céline nazista, cruel e desumano que o levou a um fim de vida pobre e melancólico. E aí, diante de todas essas informações, você fica com uma cara de: caraco cara, como pode? Como é possível alguém que viveu o que viveu, que sofreu o que sofreu, que andou por onde andou, que viu o que viu, que estudou o que estudou, ter sido nazista no seu tempo??? Tentei comparar Céline com aquelas pessoas que conhecemos e que estão perdidas em meio a ideias fascistas em pleno século XXI, mas mesmo assim, não consigo entender.

Por isso, acabei apenas me juntando à imensa legião de leitores de Céline que não conseguem explicar satisfatoriamente essa estranha complexidade da relação entre Céline e sua obra. Até creio que deve haver livros de especialistas tentando linkar esses pontos, ou até mesmo entrevistas do autor comentando esse dilema humanístico e literário, no entanto, a única explicação que consigo encontrar é: ele realmente ferrou com a sua psique na Primeira Guerra e os traumas o tornaram um maluco com potencial psicótico, muito sangue frio e com uma incrível habilidade de utilizar as palavras e descrever cenas que o tornaram o autor de obras primas como o “Viagem ao fim da noite”.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Fama e Anonimato

 Confesso pra vocês que, mesmo pesquisando New Journalism por alguns anos, eu nunca havia lido “Fama e anonimato”, do Gay Talese, na íntegra. Quando estava no mestrado até tinha retirado essa obra na biblioteca da PUCRS para ler “Frank Sinatra has a cold”, mas não tinha lido mais nenhum dos outros textos que compõe essa coletânea de grandes reportagens literárias do auge da carreira de Talese. No final de 2020, quando o Papai Noel materno perguntou o que eu iria pedir, bati o martelo: “Fama e anonimato”, de Talese.



E eis que, nesse primeiro mês de 2021, na maior do parte enquanto me balançava na rede da casa de meus pais, li esse livro publicado em português pela Companhia das Letras. Aliás, li e curti. O livro é dividido em três partes. A primeira é a que mais gostei: são cinco textos sobre Nova York que formam praticamente um perfil da cidade. Lamentei, apenas, não ter lido esses textos antes de morar lá por um ano, entre 2013 e 2014, ou enquanto eu estava lá. Porém, também é muito prazeroso ler essas reportagens/crônicas conhecendo a cidade e vendo que diversas das referências feitas por Talese nos anos 1950/60 seguem as mesmos, como Madison Square Garden, Time Square, Central Park, etc. Muita coisa mudou nesse meio século, no entanto, a personalidade da cidade eu diria que continua exatamente a mesma. Portanto, esses textos são simplesmente obrigatórios para qualquer pessoa apaixonada por Nova York. Pena que fui descobrir isso apenas agora.

A segunda parte são reportagens que Talese escreveu sobre a construção da ponte Verrazano-Narrows, que liga os bairros do Brooklyn a Long Island, em Nova York. Confesso que, enquanto estive lá, não dei muita bola para essa ponte. Agora descubro que, na época, era uma das mais longas do mundo. Mesmo tendo alguns trechos relativamente longos que são um tanto quanto chatos (quando, por exemplo, ele tenta explicar as questões técnicas da construção), a parte humana é uma aula de jornalismo. Ele apresenta diversos dos construtores, conta sobre acidentes e mortes, sobre o drama das famílias que foram expulsas das casas onde nasceram pra construírem a ponte, e ainda aponta o antagonismo na relação entre os trabalhadores com a obra de concreto e os políticos e empresários engravatados que não botaram a mão na massa mas que apareceram nas fotos e na TV na hora da inauguração. Também relata de maneira muito foda o perfil dos “boomers”, que são os trabalhadores que viajam o país (e até o mundo) para trabalhar na próxima grande obra da humanidade (diversos que trabalharam nessa ponte, depois trabalharam na construção do World Trade Center, por exemplo). Também é curioso como ele apresenta a grande utilização e exploração da mão de obra indígena utilizada nessas obras. Enfim, como disse, afora as páginas meio “boring” sobre questões técnicas, é um puta texto.

Por fim, na terceira parte, aparecem biografias de famosos ou veículos badalados. Nesse trecho está “Frank Sinatra has a cold” (traduzido como “Frank Sinatra está resfriado”), bem como perfis dos pugilistas campeões mundiais em seus tempos Flory Patterson e Joe Louis (dois negros com histórias parecidas, mas com personalidades completamente distintas), a biografia do cineasta Joshua Logan, do jogador de baseball Di Maggio (que foi casado com Marly Moore) e assim por diante. Ao final do livro, a Companhia das Letras ainda colocou outros dois textos “making of” escritos por Talese anos depois sobre as reportagens de Frank Sinatra e da ponte. As duas baixas, não só da última parte, como de toda a obra, na minha opinião, são dois textos sobre veículos de comunicação que eram badaladíssimos na época: um sobre a Voge e outro sobre a Paris Review. Afora isso, é uma obra – sob o ponto de vista do jornalismo literário – quase perfeita.

domingo, 24 de janeiro de 2021

A garota de Cassidy

 Pouco antes do Natal, zanzando por uma livraria, encontrei “A garota de Cassady”, de David Goodis. Li o resuminho na contracapa e gostei: o texto da edição da L&PM dava a entender que era um estilo meio beat, meio Bukowski, meio maldito e meio suspense. Terminei de ler hoje as suas 215 páginas da edição pocket. Considerei razoável, porém, com um final decepcionante.



Apesar de ser uma boa história, a linguagem é bem diferente do texto cru de Bukowski, por exemplo. Cenas de sexo são descritas sem palavrões. A única semelhança é a bebedeira: praticamente todos os personagens são alcóolatras. O protagonista é um desgraçado sob o ponto de vista da sorte. Resumindo, dificilmente possa existir alguém tão azarado quanto ele no mundo real. Cassidy – esse é o seu nome - era um piloto de avião que se mete numa enrascada e é preso algumas vezes até que acaba se escondendo no interior americano. Lá, refaz a vida, casando-se com uma megera bêbada, agressiva e possessiva. Então, há uma dúvida de quem é a garota de Cassady: a esposa ou Doris, uma alcóolatra igualmente azarada na vida por quem ele se apaixona. Para resumir, ele se mete em uma confusão parecida com a que tirou ele da avaliação, mas agora dirigindo um ônibus. Aí começa todo o suspense que caracteriza Goodis como autor noir. Porém, dessa vez, não darei spoiler nem para o eu do futuro.

Limito-me a dizer que é um romance bonzinho, que fica lançando mil perguntas para você seguir lendo, atiçando a curiosidade, mas que beira ao extraordinário. Ou seja, a sequência de acontecimentos não são muito verossímeis. Faltava apenas super poderes, como voar ou atravessar paredes, para ser um romance de super herói, apesar de que o herói, nesse caso, é um anti herói azarado ao extremo. E temos ainda o final do livro, que me decepcionou demais. Eu esperava uma coisa e aconteceu o oposto. Porém, é um oposto meio happy end que reverte o caráter que alguns personagens demonstravam na narrativa até ali. Senti-me enganado, no mau sentido.

Acabei lendo esse romancezinho intercalando com a coletânea de reportagens “Fama e Anonimato”, do Gay Talese. Já tinha lido “Frank Sinatra has a cold” (que aparece nesse livro), porém, nunca tinha lido essa obra na íntegra. Agora estou lendo e devo acabar na próxima semana. Voltei a intercalar dois livros depois de bastante tempo e, vou confessar, foi uma bela repetição de experiência, pois assim como as histórias de Talese pegam os Estados Unidos dos anos 1950, 60 e 70, o texto de Goodis acontece no mesmo país nos anos 1940/50. Ou seja, mesmo sem querer, parece que os personagens de um livro se relacionam com os do outro. Claro que, para você fazer todo esse paralelo, uns latões de cerveja ajudam. Enfim, não me atrevo a indicar ou não “A mulher de Cassidy”, pois penso que alguns provavelmente vão adorar, enquanto outros vão odiar. Para mim, foi um livrinho interessante, mas que não chegou a me surpreender – uma boa história com final decepcionante. E isso é tudo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A possibilidade de uma ilha – Montanha russa literária

                 Terminei de ler hoje “A possibilidade de uma ilha”, do escritor francês Michel Houellebecq. No Brasil, trata-se de um livro raro. Publicado pela Record, está esgotado na editora e em todas as livrarias. Só é possível encontrar unidades em sites como Estante Virtual. O preço mais barato que achei foi de aproximadamente R$200. Vale a pena o investimento? Vou responder ao final do texto.


             Primeiro, trata-se de um livro montanha russa. Certamente esse é o livro que mais intercala páginas e páginas geniais com páginas e páginas horríveis. Tudo porque é possível pensar na narrativa em duas histórias. Na primeira, que é a genial, e que deveria compor com exclusividade a obra, é a história de Daniel, um sujeito comum, que vira humorista de stand up comedy na França com muito sucesso, principalmente explorando os piores instintos humanos (que é vulgarmente chamado de “humor negro”, apesar de eu preferir o termo “humor de mau gosto”). Enfim, na narrativa de Daniel1 está o lado bom do livro – até certo ponto. Ele conta sobre os seus romances, narra o seu declínio profissional, físico e psicológico, vive a famosa crise dos 40, apaixona-se, muda-se para a Espanha, termina o casamento, apaixona-se de novo por uma garota espanhola com a metade da sua idade, é abandonado por ela, e ainda tem sacadas genais sobre a sociedade, como o fato de que quem sustenta essa adoração e esse culto pela beleza e pela riqueza é, na sua maioria, os feios que nunca serão bonitos e os pobres que nunca serão ricos. Geralmente quem é rico e bonito nem pensa sobre o assunto. Assim, as pessoas passam a vida tentando serem bonitas e sonhando com uma riqueza que nunca vai vir – o que justifica boa parte da frustração humana. No entanto, não vou me alongar, pois são várias reflexões ou cenas que levam a tais pensamentos nos textos do personagem Daniel1. Esse é o lado genial da obra e que vale a pena ler.

                O que estraga o livro é o enredo principal. Daniel1 é o último da geração de humanos que é sucedida pelos “neohumanos”. No entanto, o texto já começa a ficar chato quando ele entra em uma seita chamada de “helohimismo”, que defende que a humanidade do futuro não será formada por filhos, mas sim, por clones, assim cada um terá a vida eterna, sendo clonado sucessivamente por gerações – no entanto, a clonagem só traz a semelhança física, não as lembranças da antiga vida. Assim, cada Daniel escreve um diário. O livro é composto pelos diários de Daniel 1, Daniel 24 e Daniel 25. Porém, as narrativas de Daniel 24 e Daniel 25 são pura viagem na maionese, além de serem chatas pra caralho. É uma viagem completamente sem sentido e achei absurda demais, pois eu tinha calculado que o Daniel 25 viveria aproximadamente 1.500 anos depois do Daniel 1, mas Houellebecq conta, em determinado trecho, que ele vive 2.000 anos depois. O bizarro é que o cara vive dois mil anos depois mas cita apenas autores pré-século XX, quer dizer, em 2.000 não aconteceu nada digno de nota e não surgiu mais nenhum autor histórico ou clássico? Achei essa uma falha gravíssima da narrativa. Mas isso é o de menos – o texto ficou chato pra caralho mesmo quando entra nesse tema futurista.

                Fazendo uma projeção simples, das cerca de 470 páginas da obra, penso que umas 150 se salvam (e poderiam formar um romance separado, perfeito, se Houellebecq tivesse se preocupado apenas em contar a história de Daniel1, sem querer viajar na maionese). Portanto, concluo que não vale a pena pagar duzentão para comprar esse livro, até porque é o pior dos que li do autor francês: prefiro muito mais Partículas Elementares e Plataforma, nessa ordem. O que eu sugeriria para o astuto e critico leitor é pegar emprestado (ou em alguma biblioteca) “A possibilidade de uma ilha” e ler apenas os relatos do Daniel 1, e mesmo assim pular as partes em que ele conta sobre a maldita seita, pois ele faz descrições chatas e irritantes. Finalizando, penso que não apenas é injustificável pagar duzentos barões no livro, como também não vi muito sentido no sucesso que ele fez na época do seu lançamento (2006, se não me engano) – achei que essa imaginação dele sobre o futuro foi muito tosca e muitas já foram por água abaixo em menos de 15 anos, quem dirá imaginar isso em 2.000! 


Por isso, volto a repetir: se o livro ficasse apenas na história e nas reflexões de Daniel1 sobre o cotidiano dele, os casos amorosos, as relações interpessoais, a crise dos 40 e a crítica social, esse seria um dos melhores livros que já li. Mas já que não é assim, só posso lamentar pelo tempo perdido e pelos duzentões jogados pelo ralo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Black Bazar

Acabei de ler pela primeira vez na vida um livro de um autor da República do Congo. Não confundir com a República Democrática do Congo, o Congo grande, o antigo Zaire, ou ainda, a terra do Mazembe. A República do Congo é um país e a República Democrática do Congo é outro. A primeira é chamada de Congo pequeno e tem praia no Oceano Atlântico e a segunda é conhecida como Congo grande, e não tem praia. Os apelidos, obviamente, são devido à diferença entre ambos no tamanho geográfico. E mais: o Congo pequeno foi colonizado pelos franceses enquanto o Congo grande (terra do Mazembe) foi colonizado pelos belgas. Enfim, eu aprendi tudo isso e muito mais depois de ler o livro de Alain Mabanckou, Black Bazar, além de ficar sabendo que o pessoal do Congo pequeno odeia quando confundem o seu país com o Congo grande e vice-versa. E mais: eles odeiam do fundo do coração quando as pessoas acham que o Congo é um único país, pois eles não gostam de ser confundidos com os seus vizinhos (e rivais). Ponto.

            Tudo isso aprendi com as histórias de fundo de Black Bazar, porque esse não é um livro de história, nem um romance histórico, nem um livro-reportagem, nem nada do gênero. Trata-se de um romance ficcional escrito por Alain Mabanckou e publicado em português pela editora Malê. O enredo é o seguinte: o personagem principal vive em Paris e arranja uma mulher com quem tem uma filha. Ela o abandona para voltar para o Congo pequeno com o amante, que é seu primo. Não tem spoiler nisso, pois desde o início fica claro que essa é a trama. No entanto, nas páginas que se seguem, o personagem-narrador vai contando o que aconteceu, desde que conheceu a moça (que é francesa, descendente do Congo), até as brigas e o fato dele desconfiar que a filha não é fruto do seu relacionamento, mas sim do caso da mina com o amante, etc. É escrito quase que num formato de coletânea de crônicas, ou seja, é uma linguagem e um estilo que variam entre o cômico, o irônico e a contextualização histórica com as explicações que apresentei no primeiro parágrafo desse texto. O mérito é ter um enredo e um texto leve, para ser lido para relaxar: não tem nenhuma trama mirabolante, nem jogos temporais, nem nada que exija muito do leitor para entender o troço todo. Enfim, depois de ler O som e a fúria, de Faulkner, é como você estar tomando cachaça e passar para uma cervejinha bem light.

(Verde: Congo pequeno. Laranja: Congo grande - República Democrática do Congo, terra do Mazembe)

            É um bom livro, mas também não tem nada de espetacular. Claro que se pode fazer uma leitura sob a perspectiva de que o autor conta o cotidiano de imigrantes africanos em Paris – algo sociologicamente importante -, bem como as diferenças e até rivalidades entre os africanos de diferentes países – nigerianos, costa-marfinenses, congoleses, sul-africanos, angolanos, etc. Ah, outro ponto importante é que o personagem não chama os outros personagens pelo nome, mas sim, por apelidos. Ele próprio é o Bundólogo, devido a sua tara por bundas. Ele analisa as mulheres – e suas personalidades – conforme o formato e o movimento da bunda. Se fosse comparar com um autor brasileiro, o estilo dele me lembrou um pouco o do David Coimbra dos velhos tempos (o que falava de relacionamentos, não o atual, que quer se meter a falar de política e outros assuntos sérios e acaba exagerando nos clichês e nas bobagens).

            Pesquisando sobre o autor, descobri que ele é do Congo pequeno, da mesma cidade do personagem da obra (mas não descobri se o livro tenta ser uma autobiografia ou não) e que atualmente ele é professor de Literatura na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Para resumir, mesmo não colocando essa obra numa imaginária lista de 50 melhores livros que já li, pretendo ler outras obras dele, justamente pelo seu estilo leve, para descontrair e para refletir sobre relacionamentos (que tem os mesmos prazeres e problemas no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, no Congo, na China, no Japão, na Groelândia, no Paraguai, no México, no Polo Norte, etc). O ponto fraco da obra, para mim, são os parênteses muito extensos que ele usa para contar histórias paralelas que não tem nada a ver com o enredo principal, como por exemplo, quando ele conta sobre o assassinato de um político antigo do Congo pequeno que foi assassinado pelo presidente por ter comido a cafetina amante do chefe de Estado. Acho que ele se estendeu demais nessa história que não tinha nada a ver com o drama do protagonista. Há uma ou outra historinha nesse sentido, mas, na literatura nada se perde, tudo se aproveite (nem que seja para espantar a insônia).

            Para concluir, fazendo um parecer final do livro para o enxerido leitor, meu veredicto final é: indico.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O som e a fúria


             Acabei de ler o livro “O som e a fúria”, de William Faulkner. Eis um puta livro, que gostei, mas não recomendo para ninguém. Explico-me. Eu peguei “O som e a fúria” para ler enquanto estava na quarentena dentro da quarentena (vou comentar sobre isso, talvez, algum dia nesse espaço). Acho que acumulei energia e, mesmo com a sensação de cansaço no corpo, meu cérebro estava a mil: ou seja, não tinha sono. Então, eu consegui ler até que de certa forma tranquilamente até a página 184, sem sentir sono. Eu lia, lia, lia, não entendia quase nada, mas seguia lendo e lendo e lendo, tentando conectar uma coisa com a outra, tentando dar um nexo e um sentido a tudo. Não foi fácil. O que me ajudou, de fato, foi o fato de meu cérebro estar acelerado, a tal ponto que cheguei nessa mesma página 184 em três dias. O que isso quer dizer? Simples, o livro começa a fazer sentido apenas a partir da página 184. Na verdade, para entender a narrativa sob um olhar lógico e mais linear, você poderia simplesmente pegar o livro e começar a lê-lo na página 184. Diria que as primeiras 184 páginas de “O som e a fúria” é um nariz de cera gigante (conceito do jornalismo para se referir às enrolações que os jornalistas faziam antigamente antes de chegar ao principal da notícia).

      Mas, vamos à história. Mais uma vez ressalto que esse texto contém spoiler e que está sendo escrito, principalmente, para minha consulta futura, para quando minha massa cinzenta tiver apagado da minha memória tudo o que li nos últimos dias. A narrativa é dividida em quatro partes bem definidas, na voz de três narradores-personagens e de um narrador onisciente. Alguns anos depois, Faulkner escreveu um epílogo, contando o destino dos personagens, pois ao final da versão original (de 1929) é como se ele simplesmente tivesse abandonado a todos em meio de um labirinto sem você fazer ideia sobre o que possa ter acontecido com cada um. Penso que, provavelmente, por críticas e questionamentos, ele deve ter escrito esse epílogo cerca de 20 anos depois para resolver esse abandono dos personagens nesse labirinto literário.

            O primeiro narrador é Benjamin. Ele sofre de um profundo retardo mental. É interessante porque – pelo que tenho conhecimento – esse é talvez o único (se não o único, o mais famoso) personagem escrito na voz de um deficiente mental. Você consegue entender isso, mas aos poucos você também vai percebendo que o personagem mistura tudo, tempo, acontecimentos passados e presentes, personagens, histórias, etc. O que é um mérito, pois ele realmente parece ilustrar o pensamento de uma pessoa nessa condição. Nessa etapa, o personagem está com 33 anos e está quase sempre sendo cuidado por crianças de cinco a 14 anos, que o tratam como se fosse um bicho de estimação – mas sempre brigando com ele com um ar infantil, dizendo coisas como “Pare de chorar, seu bobão!” ou “toma, pega essa flor e fica quieto”. 

Ele chora a toda hora e por qualquer coisa e se acalma geralmente olhando o fogo ou quando dão para ele algum chinelo ou objeto qualquer. Ele tem uma afeição especial por Caddy, sua irmã, e chora sempre que ela sai de casa. Tudo isso dá para ir conectando com a linguagem desconexa desse trecho da narrativa. Ah, o nome dele originalmente é Maury, mas quando a mãe dele percebe que ele é deficiente mental ela resolve mudar para Benjamin para ver se muda a sorte do rapaz – obviamente que não resolve em nada. E a história toda se passa entre 1910 e 1928 – mas desisti de tentar pensar cronologicamente nessa parte e na próxima. Vencer essas páginas em condições normais (ou seja, cansado, com sono) seria impossível. Admito que só cheguei ao final desse capítulo devido a minha insônia e condição de cérebro acelerado, possivelmente pelo acumulo de energias de ficar parado na quarentena da quarentena.

            O segundo narrador é Quentin. Antes de seguir com ele, vale ressaltar que a narrativa gira em torno da família Compson, formada por Jason patriarca, Dona Caroline matriarca, e pelos filhos: Benjamin, Quentin e Jason filho (narradores) e Caddy, irmã que é marcante na narrativa dos três. Além disso, era época da segregação racial americana, então, fica explícito o total preconceito, racismo e desprezo da família branca em relação aos criados – chefiados por Dilsey, mãe de Fronny e Luster. Ainda há T.P, outro criado negro da família. Enfim, expressões como “Não se meta na coisa dos brancos” ou “esses negros não servem pra nada” ou ainda “trabalho o dia inteiro para ter um monte de negros comendo na minha cozinha” são comuns na narrativa. Não vou me ater a nenhum ponto específico da obra, pois há estudos e mais estudos de especialistas sobre isso, então, apenas vou apresentar o enredo mesmo. Apesar de Quentin não ter o mesmo problema mental de Benjin, ele também é completamente perturbado. Ele é apaixonado pela irmã, Caddy, e morre de ciúmes dela. Ele odeia qualquer pretendente ou namorado e fica possesso em pensar que ela possa ter perdido a virgindade. É completamente depressivo e alterna momentos de lucidez com misturas de fatos e épocas, o que confunde muito a leitura. Também há extensas frases sem sentido, o que pode fazer com que o leitor pegue no sono ou desista da obra. Enfim, apesar de ser mais linear e lógico que o texto de Benji, ainda não há um nexo completo e é preciso ir juntando milhares de peças de quebra-cabeça para tentar dar sentido a tudo. Por exemplo: você só vai entender que Quentin se matou na fala de Jason. Por falar nisso, chegamos ao terceiro narrador.

         Na terceira parte, que começa na página 184, Jason filho assume a narrativa. A essa altura Jason pai já morreu e a mãe, Dona Carolina, é uma espécie de senhora que passa o dia na cama sempre achando que está prestes a morrer. Quando ela é incomodada pelos choros de Benjamin, ela aparece na cozinha e briga com os criados, dizendo coisas como “não posso mais nem sofrer em paz?” ou “Jason, meu filho, logo não vou mais estar aqui e você será mais feliz”. Está sempre se queixando e não nega o favoritismo moral a Jason filho. No entanto, o personagem é um filho da puta de marca maior. Seria como um Bolsonaro de classe média americana. Racista ao extremo, golpista, ladrão, sem vergonha, mas que adora reclamar do governo, dos empresários e do mundo inteiro. É um revoltado que ficou puto porque viu os pais gastarem todo o seu dinheiro para mandar Quentin para Harvard (e ele se matou) e para o casamento de Caddy (que pouco depois foi abandonada pelo marido). Enfim, ele odeia o mundo e a hipocrisia é a sua marca maior. Eu conheço gente como ele, inclusive, em vários trechos sublinhei e marquei o nome de uma pessoa em especial, que tem atitudes exatamente como as de Jason. É um personagem revoltante que dá vontade de pegar e esfolar vivo.

           

    Agora, vamos montar o quebra-cabeças. Quentin é apaixonado pela irmã, Caddy, é enviado para Harvard e, pouco tempo depois de chegar lá, após se meter em algumas confusões até certo ponto cômicas, acaba cometendo suicídio logo que a irmã se casa. Caddy, no entanto, engravidou e casou com um sujeito para tentar salvar o nome, porém, o marido descore tudo e a abandona logo após a consolidação do matrimônio. Ela, por sua vez, que já mora em outra cidade, larga a criança para a mãe cuidar. Jason filho odeia a criança desde bebê, pois ele estava para conseguir um emprego em um banco graças ao cunhado. Então, ele atribui a perda da única chance que ele teria na vida ao nascimento da criança. Ele rouba o dinheiro enviado por Caddy até ela ter 17 anos. Além disso, ele inferniza a guria, sempre dizendo que saiu vagabunda igual a mãe, que matava aula para sair dando por aí, aquela coisa toda. O troço vai indo (vale lembrar que Caddy nunca mais voltou para ver a filha, até porque estava proibida de fazer isso pela família inteira) até que a guria, um belo dia, consegue entrar no quarto de Jason e pega toda a grana e se manda com um namoradinho que trabalha num circo que está na cidade. Jason fica louco, sai atrás deles, mas não acha. Tenta convencer a polícia a ir atrás, mas o próprio delegado conhece a peça e suspeita que a grana não era dele mesmo. Dona Carolina, apesar do filho traste, que sempre a humilha, tem uma devoção pelo filho da puta. Enfim, num resumo do resumo, a narrativa encerra com esses dilemas: Quintin (filha de Caddy, que recebeu o nome do tio suicida) foge com o cara do circo levando a grana, Dona Caroline segue na cama achando que vai morrer, Jason fica puto da vida sem saber o que fazer. Claro que os personagens, que são os criados, participam de toda a narrativa, comentando, tentando entender o que acontece, etc. A essa altura, Jason também já tinha mandado castrar Benji, depois que ele conseguiu escapar do portão da casa e atacar uma garota que andava pela calçada. Além disso, em outra cena, ele ganha ingressos para o circo e Luster, filho adolescente da empregada Dilsey, quer ir mas não tem nenhum centavo. Jason tenta vender os ingressos por 5 centavos mas, como o garoto não tem, então ele queima os ingressos na frente do guri. Contei isso para vocês terem uma ideia da filhadaputice desse filho da puta que parece com alguém que infelizmente conheço.

            Por fim, a narrativa fica por aí. Como disse, 20 anos depois, Faulkner voltou e deu um rumo para cada personagem, mas não vou repetir aqui, basta ler o epílogo da obra. A única que continuou sem paradeiro foi a Quentin, que apenas fica claro que ela fugiu e nunca mais voltou, mas Faulkner não conta o que aconteceu com ela, ao contrário do que faz com todos os outros (Benjamin, por exemplo, após a morte da mãe, é enviado a um hospício pelo irmão).

            Esse é o resumo do resumo de “O som e a fúria”. Um romance completamente fragmentado (segundo o tradutor, com forte influência de Ulysses, de James Joyce), mas com ação, movimento, dramas, perseguições, violência, racismo, amor, decadência, resistência e tudo o mais que pode ter uma boa narrativa literária de ação. Como disse lá no início, o problema é vencer as 184 páginas iniciais (metade do livro). Por isso, indico esse livro apenas para quem tenha essa paciência. Ou, então, para quem esteja de quarentena com o cérebro a mil, precisando um pouco de som e de fúria.

            Hasta!

 PS: as imagens são do filme, que ainda não vi.