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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Lula – Biografia – Volume 1

 


            Terminei de ler o primeiro volume da biografia do ex-presidente Lula com um mix de opiniões e sentimentos. Vou tentar organizar essa miscelânea de pensamentos, primeiramente, contando muito resumidamente a divisão da narrativa. Fernando Morais, um dos maiores escritores da literatura brasileira, dedica as primeiras 160 páginas para contar sobre a prisão de Lula, em toda a sua particularidade e complexidade. Ou seja, só esse episódio já renderia um livro de mil páginas a parte, então, em determinados trechos ele contextualiza a Vaza Jato de forma mais ampla e, em outros, ele narra os momentos específicos que antecederam a prisão e o cotidiano de Lula na cadeia em Curitiba até ele conquistar a liberdade. Nas páginas seguintes, há uma longa narrativa, com destaque para atuação de Lula no sindicalismo até a criação do PT, mas que inclui a infância e adolescência do personagem e todo o drama familiar que engloba agressões pesadas de seu pai, trabalho infantil, fome, pobreza e tudo o mais. A história toda vai até a eleição de Lula como deputado, antes da campanha presidencial de 1989. Morais conta no posfácio que o volume dois vai tratar das três derrotas (uma para Collor e duas para FHC) e das duas vitórias (2002 e 2006) nas campanhas presidenciais. Aguardemos.

            Antes de falar sobre as minhas opiniões e sentimentos, gostaria de ressaltar que a biografia de Morais dá um soco no estômago nos slogans preconceituosos que foram colados na testa de Lula. Primeiro: a fama de analfabeto. Lula estudou até o quinto ano e, parou, para trabalhar. Na fábrica aonde trabalhava, fez um curso de torneiro mecânico, profissão que exerceu nos anos seguintes. Ou seja, ele não era analfabeto no sentido em que as pessoas queriam que ele fosse: o de não saber ler, nem escrever. E, segundo, ele trabalhou dos 8 aos 38 anos, ou seja, ele não foi um cara escorado no sindicalismo e que depois passou a “viver de política”. Em outras palavras, aquelas frases toscas como “Lula é analfabeto” ou “Lula nunca trabalhou” são lorotas para boi dormir. Outro ponto importante é o drama da perda do dedo, que foi um acidente de trabalho que ocorreu justamente pelo cansaço de seu colega. Lembre-se disso quando ouvir algum animal falando algo como: “O vagabundo analfabeto de nove dedos”.  

            Dito isso, vamos às considerações. Primeiro, jornalisticamente. Confesso que quando acabei de ler fiquei com aquela sensação de, pô, a história por si só já é espetacular, o Fernando Morais não precisava ter sido tão engajado politicamente na porra toda. No entanto, agora de noite, vendo os comentários em uma notícia sobre protestos pela volta às aulas presenciais em um instituto federal de Pelotas, em que pessoas alienadas e bolsonaristas acéfalos defecam nas redes sociais todo o seu ódio por professores, pesquisadores e intelectuais, eu voltei atrás e concluí: sim, Fernando Morais acertou em se engajar na narrativa desconstruindo os preconceitos que foram colados à imagem de Lula por uma elite decadente ao longo de décadas. Inclusive, há um apêndice interessante na obra em que Morais apresenta uma pesquisa sobre as horas/páginas dedicadas pelos grandes veículos da mídia brasileira para condenar Lula moralmente antes da aberração da Vaza Jato. Nada de novo, afinal, como conta Morais, o ex-presidente passou por perseguições semelhantes nos seus primeiros anos de política, inclusive, sendo preso pela ditadura militar do período.

            Terminada a leitura, ainda pesquisei no Google as reportagens sobre as condenações de Lula – tanto da época, quanto as de agora, sobre a anulação das provas de Moro. Para mim é tudo muito simples: pega-se os argumentos/provas da defesa de Lula (muitas são citadas no livro), pega-se os argumentos/provas da acusação (que, bizarramente, inclui o próprio juiz do caso, o político Moro) e se faz a relação entre os argumentos/provas. Simples. Reli as “provas” que justificariam a prisão do Lula e confesso que ri sozinho, no sofá. Claramente não há nenhuma prova clara e documental. Há indícios, sendo que muitos poderiam ser facilmente produzidos pelas autoridades/acusadores, especialmente em um país como o Brasil, onde a polícia coloca arma na mão de defunto para dizer que matou em uma “troca de tiros com a polícia” (ver Rota 66, de Caco Barcelos). E, obviamente, tudo fica mais claro quando se tem um juiz que combina com a acusação as estratégias para condenar o réu (conforme provou o Intercept Brasil, em uma das grandes reportagens mais importantes desse século) e esse mesmo juiz vira, primeiro, ministro do governo eleito graças a decisão dele, de tirar Lula das eleições de 2018, e que, para piorar, vira candidato à presidência contra o próprio réu (Lula) em 2022!!!! É surreal demais para ser verdade.

            Então, concluo dizendo que, por um lado, essa não vai ser a biografia definitiva de Lula, tendo em vista que, sim, percebe-se um comprometimento do autor com o biografado (o que jornalisticamente é ruim). Creio eu que uma biografia de Lula mais fiel à realidade pode ser escrita daqui à 40 ou 50 anos, com outro jornalista, mais isento, utilizando os dois volumes escritos por Morais como fonte, mas acrescentando episódios e informações que, mesmo quando folclóricas, foram deixadas de lado numa tentativa (ao que me parece) de não denegrir de forma alguma a imagem do biografado, que é ainda candidato à presidente. Sendo mais claro: sim, o livro de Morais peca, nesse sentido, por deixar claro – para os leitores mais atentos – que havia uma preocupação em não mencionar nada que pudesse comprometer a imagem de Lula, até porque o lançamento do livro ocorre em ano eleitoral... E, para ser mais claro ainda: sim, é uma biografia que mostra apenas um lado da moeda (não no sentido de honestidade ou corrupção, mas no sentido de que ninguém é perfeito) e, espero eu, como disse, daqui a algumas décadas algum bom jornalista, como o Morais fez com Chatô e outros, possa escrever olhando a história de Lula de fora e sob todos os ângulos e sem se preocupar se vai desagradar ele ou não. Até porque, de certa forma, sabe-se que ficou um sentimento de gratidão à Lula por parte do autor, pois ele dependeu do consentimento do ex-presidente para ter acesso à sua vida, tanto em entrevistas, quanto em testemunhos de acontecimentos importantes para a história do personagem.

            Para finalizar, colocando tudo na balança, entendo as “falhas” de Morais, pois esse foi um livro necessário no momento em que vivemos, afinal, é importante separar o joio do trigo e colocar os pingos nos is. E, para o futuro do país, temos de um lado uma possiblidade de voltarmos a ter esperança com Lula governando pelas reposições salariais, pelo acesso à comida, à educação, enfim, ao capital e aos serviços, e de outro um maluco de atirar pedra e outro que, claramente, trocou a toga pelos holofotes e que não pode ser levado a sério pelas manchas que deixou na sua bizarra atuação no próprio judiciário. Ou, se preferirem, posso resumir tudo em uma palavra e um número. Se antes eu só achava, agora tenho certeza: é Lula 2022!

Hasta!

sábado, 29 de janeiro de 2022

Sobre férias, praia, livros e filmes

 


Estou de férias em Xangri-lá, na casa dos meus pais. Aliás, esse tem sido o destino das minhas férias nos últimos cinco ou seis anos. Sou um semimorador de Xangri-lá, pois fico por aqui mais ou menos uns dois meses por ano. Essa é uma praia tranquila, colada em Capão da Canoa, a casa no litoral de muitos porto-alegrenses. Eu me implico com eles, os porto-alegrenses. No geral, eles chegam aqui e pensam que estão lá: não respeitam faixa de segurança, sinais de trânsito, filas preferenciais nos mercados e tudo o mais o que eles fazem na caótica e suja capital dos gaúchos. Acabo resmungando: por que não ficam por lá, diabedo? Esses dias fiz essa pergunta e minha pequena disse: mas tu também não mora aqui! Eu respondi, de bate pronto, que sou um semimorador, pois meus pais moram e eu fico 15% dos 12 meses do ano por estas bandas. Durante as férias, todos os dias possíveis eu corro/caminho na praia por cerca de duas horas. Esses dias fui correndo daqui, de Xangri-lá, até a frente da casa do meu amigo, escritor e médico Sérgio Stangler (aquele mesmo que previu a minha morte e que tem os originais inéditos do meu grande romance), perto do farol, em Araçá. Fui pesquisar no Google e descobri que percorri – entre ida e volta – mais de 10 quilômetros. Tu vês.

Também tenho aproveitado as férias para ler e ver filmes. Depois do livro do Jorge Amado, comentado por aqui no penúltimo post, eu li “O sol é para todos”, da Harper Lee. Um livro singelo, com uma história simples sobre o cotidiano da família de um advogado que é contratado para defender um homem negro acusado de estupro nos Estados Unidos segregacionista do início do século XX. Não vou dar detalhes, mas a escrita da autora nessa obra me fez lembrar alguns livros da primeira fase do Erico Verissimo, como “Olhai os lírios do campo” ou “O resto é silêncio”. Terminado o livro, fui procurar o filme, que ganhou o Oscar de melhor roteiro adaptado de 1963. Confesso que foi uma das melhores adaptações de livros para o cinema que já vi.

Não vou lembrar de todos os filmes que vi nesses dias. Destaco, positivamente, “The rescue” (O resgate), um documentário que trata do milagroso salvamento do time infantil de futebol que ficou dias preso em uma caverna alagada na Tailândia, em 2018. Vale muito a pena e, creio eu, deva disputar o próximo Oscar da categoria. Negativamente aponto “Faroeste Caboclo”, a adaptação da música do Legião Urbana. Fui ver na expectativa de ver o João de Santo Cristo roubar as velhinhas no altar, comer todas as menininhas da cidade e gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador na zona, mas nada disso acontece. Além disso, o pobre João só leva no cu (literalmente) durante o filme, mudaram a ordem dos acontecimentos e suprimiram as partes em que ele se dá relativamente bem. Pobre João. Uma injustiça. O resultado foi um filme decepcionante para quem, como eu, ouve o clássico de Renato Russo desde os 10 anos (três décadas curtindo esse som).

Voltando para a literatura, dia desses li “Todo o dia a mesma noite”, um puta livro-reportagem da jornalista Daniela Arbex sobre a tragédia da boate Kiss. Nessa semana ouvi na rádia que estão fazendo uma série na Netflix baseada na obra, que é dramática, emocionante, triste e revoltante. Também não darei “spoiler”. Paralelamente a tudo isso, estou lendo um livro técnico de quase 600 páginas: Mercado de Capitais, do professor da UFMG, Juliano Pinheiro. Um livro didático e excelente para se alfabetizar minimente sobre finanças. Ainda vou escrever mais sobre isso em breve, se a previsão do Stangler não se concretizar. E, por fim, estou na metade da biografia do Lula, obra de Fernando Morais, que dei de presente de Natal para o meu pai. Sobre ela talvez, se estiver inspirado, vou falar mais futuramente. Ah, e obviamente, se a previsão do Stangler falhar. Aliás, falando em morte, um dia talvez eu escreva um texto sobre o picareta Olavo de Carvalho, que voltou para o inferno há pouco. Mas não posso garantir, pois creio que ele não é digno da minha atenção. Se for, vai um texto para divertir o cruel, diabólico e insaciável leitor.

Bueno, chegou a hora da minha corrida/caminhada pela praia. Se eu não voltar nos próximos meses é porque o Stangler acertou e, talvez, ficou rico.

Hasta!

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

A morte da assinatura de um assinante morto

 



            Cancelei a minha assinatura do jornal Dário Popular. Hoje. Está certo, atento leitor, eu sou colunista do Diário Popular, aqui de Pelotas. E, não se espante: sim, como colunista, se eu quiser ter acesso ao jornal, eu tenho que assiná-lo, pagando integralmente a anuidade ou a mensalidade. E vou morrer. Segundo o meu amigo, escritor e médico Sérgio Stangler, eu vou morrer em breve. Para a sorte do Sérgio, talvez ele fique rico por dois motivos: um, ele vai ter acertado a premonição e, portanto, vai poder além de ser médico dizer que é algo como Pai de Santo ou vidente; e, dois, eu tenho um livro escrito, o melhor que já produzi (de todos os quatro) que está nas mãos dele, pois não encontrei nenhuma puta editora que tope publicá-lo me pagando um mínimo percentual das vendas. Assim, pedi para que, quando eu morrer, ele fique responsável de publicar todas as bobagens que são doidas demais para não serem compartilhadas com humanidade. E, na cabecinha dele, isso deve ter algum valor monetário (algo que eu não acredito muito em um país como o Brasil). Mas tudo bem, cadum, cadum.

            E o que uma coisa tem a ver com a outra??? Ora, muito fácil. Primeiro vou explicar os motivos do meu cancelamento da assinatura. Creio que, assim, rapidamente o astuto leitor vai ligar uma coisa com a outra. A minha assinatura semestral venceu dia desses. Veio a cobrança e eu não paguei. Assim, imaginei que parassem de enviar o jornal. A minha ideia era parar com a assinatura no último mês de 2021, pois fico até metade de fevereiro de 2022 fora de Pelotas, assim, voltaria a assinar quando voltasse, normalmente, tudo na paz do Nosso Senhor. No entanto, a cobradora do jornal veio me cobrar. Disse que eu devia para o jornal. Eu quis saber como ãnsim (?!), como perguntam lá nas missões. Ela explicou que eu não havia pago o boleto que tinham me enviado. Então eu expliquei toda essa história da viagem e tals. Ela cagou pra mim e disse que eu não podia fazer isso, pois teria que pagar pelos jornais que recebi, em um tom que me senti um vigarista, um Zeca Urubu, um caloteiro que queria ficar rico dando golpes em inocentes jornais do interior gaúcho. Tentei dizer que eu era assinante e colunista, que eu só queria negociar o troço todo, mas ela cagou pra mim e ponto. Para ela, o negócio se resumia a: VOCÊ DEVE, VOCÊ PAGA! That’s it.

            Achei tudo meio estranho. Estou fazendo um curso de finanças e, além do que já havia estudado sobre administração durante o próprio curso de Jornalismo, eu havia aprendido que as empresas não sobrevivem sem cientes. E um leitor de um jornal, para uma empresa jornalística, é um cliente. Se são 20 mil assinantes, são 20 mil clientes, e se tratar todos assim durante muito tempo, cedo ou tarde a casa cai, mesmo que leve gerações. Então, lembrei de todos os lugares em que trabalhei e que convivi com funcionários que cagavam pra todo mundo. Pensei: “essa é um desses tipos”. Contatei instâncias superiores e obtive o mesmo resultado: cagaram pra mim novamente. Bueno, diante disso, só vi uma solução: cancelar a assinatura para toda a eternidade.

            Entenderam a relação disso com a minha morte?? Não?!?! Está bem, vou desenhar para o burrinho leitor compreender. Imaginemos que eu mantivesse a assinatura do Diário Popular. E, uma semana depois, a premonição do Sérgio Stangler se confirmasse e eu batesse as botas. Eles continuariam com todos os meus dados e seguiriam enviando o jornal para o meu endereço. Tentariam me cobrar no celular, no e-mail, enviariam mil boletos para lotar a caixinha de correspondência, que chegaria para futuros inquilinos desse apartamento e que as colocariam no lixo sem abrir. Eu, como estaria mortinho da Silva, não responderia às mensagens de whatts nem aos e-mails. A cobradora rapidamente concluiria que eu havia sumido para dar golpes em outras cidades interioranas no meu plano de enriquecer rapidamente. Assim, as cobranças viriam e viriam e viriam e viriam até que depois de, sei lá, alguns anos, alguém lá no jornal diria, com ar de Sherlock Holmes:

- Hei! Esse tal de Eduardo Ritter está recebendo o nosso jornal há décadas e nunca nos paga!!! Vamos pegar ele!!!

            Nesse período, a senhora patroa seria viúva e minha filha estaria formada, trabalhando, quando numa bela tarde de sol aparece um sujeito engravatado para entregar uma cobrança judicial. A viúva abriria o papelzinho e cairia dura para todo o sempre ao ver as cifras da cobrança. E minha pobre filha, teria que trabalhar arduamente durante anos e anos para pagar a dívida do velho pai morto, que não quis cancelar a assinatura do jornal que cobra infinitamente aos seus assinantes enquanto eles não procurarem o jornal para efetuar o cancelamento.

            Entenderam agora? Ah, e vocês também devem estar se perguntando: Bueno, o Stangler é um médico conceituado. Ora, se ele dissesse que eu iria morrer, eu procuraria todos os médicos para fazer todos os exames possíveis para evitar a minha partida para ao além. Mas calma, apressado e angustiado leitor. Os motivos não são um câncer ou veias entupidas, gases ou excesso de hemorroidas. Não. Segundo ele, eu vou morrer por causa da neblina que apareceu lá em Araçá, do lado de Capão, e por causa de uma toninha desfalecida encontrada na areia. E, para confirmar, teve o quero-quero que morreu do coração lá nas dunas enquanto perseguia a cadela dele. Eis a frase, ipsis litteris: “De tantos presságios, não pude evitar de entender o que me estava sendo avisado pelos céus: o Eduardo Ritter vai morrer!”. Bueno, diante disso, me sinto mais aliviado em ter encerrado a assinatura do Diário Popular.

Hasta o além!

 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

I'm back!

 

Atendendo ao pedido de milhões de leitores (imaginários) dessa bagaça, e de um de carne e osso (meu amigo, escritor e professor Francisco Dandão) volto a escrever aqui. Passaram-se mais de três meses desde o último post. De lá para cá, tomei a segunda dose da vacina contra a Covid, peguei Covid, vi o Grêmio ser rebaixado, bebi um monte, vi o Galo ser campeão de quase tudo, vi o Menguinho tomar uma linda surra do Palmeiras e cair das tamancas na final da Libertadores, virei faixa cinza de judô e, mais recentemente, li um livro e assisti a três filmes. Foi para falar de um desses três filmes que fui intimado pelo professor Dandão a escrever sobre. No entanto, deixo essa película para o final.


Vou começar pelo livro. Terminei de ler ontem “Capitães da areia”, de Jorge Amado. Difícil escrever sobre essa obra, pois há inúmeras boas resenhas sobre ela na internet. O que me impressiona é o tempo em que foi produzida: década de 1930, sendo publicada, censurada e queimada pela ditadura de Getúlio Vargas em 1937. Dois fatos interessantes: essa obra prima, que trata da vida de órfãos de seis a 16 anos que viviam nas ruas de Salvador, foi escrita quando Jorge Amado tinha 25 anos. Um guri! Um gênio. Segundo consta na edição da Companhia das Letras, o escritor baiano foi viver um tempo com as crianças de rua para embasar a narrativa, dando um “quê” jornalístico ao texto. E outra: um ano depois da publicação, Lampião foi capturado e morto, sendo que ele é um dos personagens secundários da obra. Em síntese, não tem como não embarcar nas histórias e aventuras e dramas de Pedro Bala, Sem Pernas, Gato, Professor, Boa-Vida e toda a rapaziada. Mas não vou abordar o enredo pois, quem quiser, pode ler o livro ou, senão, pelo menos o resumo nos sites literários que habitam a internet.


Sobre os filmes, vou ir de trás para frente. Começo pelo que assisti hoje, indicação do meu amigo e colega Fábio Cruz: Rush – no limite da emoção. É uma produção de 2013 que trata da rivalidade histórica entre dois pilotos de Fórmula 1 dos anos 1970: Niki Lauda e James Hunt. Confesso que nunca tinha ouvido falar deles, mas o Fábio falou tão bem (mas tããããooooo bem) do filme que fiquei curioso. E não me decepcionei, pois nunca mais vou esquecer do bizarro, metódico, disciplinado, teimoso e corajoso Niki Lauda (tri-campeão mundial) e do irreverente, irresponsável, provocador, galã e igualmente corajoso James Hunt (campeão em 1976, campeonato abordado no filme). Também não vou comentar sobre o enredo para não dar spoiler, mas adianto que esse campeonato de 1976 (especialmente a última corrida) foi uma espécie de Batalha dos Aflitos da Fórmula 1. Ah, e os dois, apesar de terem personalidades antagônicas, são muito cômicos, com ótimas e hilariantes tiradas em diálogos entre eles e com outros personagens.

Já no domingo de noite, assisti na Globo News um documentário sobre o Chacrinha. Também muito bom. Conheci mais sobre esse fenômeno da TV brasileira que, na minha humilde opinião, junto com Sílvio Santos, foi o apresentador mais emblemático da história de nossos populares canais abertos, apesar de cada um ter seus defeitos (Chacrinha ser um bitolado por Ibope e Sílvio Santos apoiar a versão brasileira mal acabada de Hitler).


Por fim, chego ao comentário solicitado pelo professor Dandão. Ele também tem uma coluna e escreveu sobre dois filmes: Marighella e Pixinguinha, ambos com Seu Jorge como ator principal. Ao terminar de ler o texto, imediatamente coloquei o Marighella para assistir. São duas horas e meia de muita ação, suspense, luta, sonhos e história. Muita história. Trata-se também de um filmaço que reforça o que, de certa forma, quem já estudou o assunto sabe: o absurdo que foi a ditadura militar implementada no Brasil com o golpe de 1964. Difícil tentar pensar em um ponto específico para comentar aqui, pois são milhares de pontos que se relacionam dando sentido ao todo. Então, para não dar spoiler, vou me limitar a destacar a atuação perfeita de Seu Jorge como ator, interpretando Marighella.

E depois de tanto ouvir falar sobre o filme e sobre Marighella (uns criticando por transformar um terrorista em herói, outros aclamando a luta do herói diante da opressão), tiro minha própria conclusão para a pergunta crucial: afinal, Marighela foi terrorista ou herói? O próprio Marighella dá a primeira pista para a resposta no filme, quando ele berra com emoção: “sim, sou terrorista, sim!!!!”. Afinal, o “terrorismo” era a única forma de lutar em desvantagem contra um sistema fortemente armado, cruel, opressor, calculista e sanguinário. Um sistema mais terrorista do que o próprio “terrorismo” dos protestantes. Portanto, respondendo à questão, depois de ver o filme e pesquisar mais sobre ele, creio que Marighella foi os dois: terrorista e herói. Ou melhor, um terrorista criado pelo próprio sistema para lutar heroicamente contra as crueldades e desumanidades praticadas pelo seu próprio criador. Um terrorista-herói formado pelo sistema para lutar contra ele. Exatamente como fez o pequeno Pedro Bala, em Capitães da Areia.

Por hoje é isso. Um dia, talvez, eu volte again. Hasta!

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Exército de um Dudu só

 


            Esse é um texto que gostaria de escrever bêbado, mas não posso, pois amanhã tomo a segunda dose da vacina contra a Covid. É um texto que poderia ser triste, porém creio que não vai ser o caso. É um texto sobre como eu, conhecido em alguns ciclos como Dudu, fiquei complemente sozinho em relação ao meu exército de anos atrás, mais especificamente, do final do século XX. Como fui totalmente abandonado pelos meus ingratos e desgraçados soldados. Não fui um bom comandante e perdi o posto para o capitão golpista. Vou tentar explicar.

            Tive uma infância e adolescência perfeitas em relação a amizades. Nunca sofri bullying, sempre tive uma porrada de amigos, desses que frequentavam a minha casa em Santo Ângelo. Às vezes tinha alguns que até lá posavam. Como meu pai era o único sócio da AABB da cidade, eu agendava jogos no campo de futebol sete e escalava os que jogavam. Vezemquando a lista passava dos 30 nomes. Sentia-me o técnico da seleção: tinha que fazer cortes. Os critérios não eram técnicos, era amizade e afinidade. E, dentre os selecionados, eu ainda escolhia os que ganhariam carona no carro do pai. Chegamos a colocar dois no banco do carona e mais cinco atrás. Oito, com o pai, que também jogava. Mais que um time sete. Chegando lá, não raras vezes havia mais de dezena de bicicletas. Fazíamos três, quatro times, e o horário de uma hora virava duas, três, cinco, oito! O tiozinho, gente fina, sempre deixava. Como aqueles campos eram desconhecidos na cidade (e era dos melhores!) essa era uma barbada nossa. E, como disse, eu era uma espécie de comandante: o dono da bola e do campinho. Porém, modéstia parte, jogava bem.... Era um dos melhores.

            No colégio, durante o Ensino Médio, nossa turma sempre teve uma média de dez a quinze alunos do sexo masculino. Não tinha internet, não tinha Orkut, quiçá Facebook. Tinha o telefone, que era o instrumento usado para agendar os jogos. E tinha, obviamente, as conversas pessoais, as idas de uns na casa dos outros, as festas, etc. Em 2001 entrei na faculdade e aos poucos fui perdendo contato com toda essa turma de Santo Ângelo. A sensação que tenho é que se quisesse, pegava o telefone e reuniria todo mundo no campinho da AABB de Santo Ângelo (agora pagando a hora, óbvio). Apareceu o Orkut e vez ou outra aparecia alguém daquela turma como amigo. Alguns até viravam contato no MSN. O tempo passou, e chegou o Facebook. Creio que cerca de 60% daquela turma apareceu em algum momento como amigo. No entanto, vieram as eleições de 2018 e boa parte se perdeu ali. E agora, em 2021, depois de todos os motivos que todos sabem (vou ficar apenas no incentivo ao não uso de máscara e de distanciamento em um cenário com quase 600 mil mortes) se foi mais uma leva. A leva final. Em resumo, fiquei sozinho. Se hoje for para Santo Ângelo, não tenho ninguém para ligar para conversar. Ou melhor, não tenho vontade de procurar ninguém daquele tempo. O que foi bom, foi bom, mas ficou lá, no passado. De todos os meus colegas de Ensino Médio, até onde sei, apenas eu (EU num universo de 20 a 25 guris) não votei e não apoio o capitão. Perdi todos os meus soldados para ele. Não sobrou um. Só eu. Talvez, dentre toda aquela turma do futebol da AABB ainda haja um ou outro que não compactua com a barbárie (mortes, inflação, guerra contra a democracia, etc) que está aí, patrocinada pelo líder oficial da nação. No entanto, não se manifestam nesse sentido publicamente, o que me faz desconfiar que também abandonaram o meu barco e ficaram no do capitão.

            Para não cometer injustiças, há dois daquele tempo que desconfio que compartilham a minha perspectiva, mas não vou mencionar nomes, pois não tenho certeza. Sei que recentemente houve baixas frustrantes e inesperadas. Quando eu falei que não queria contato com quem apoia um governo responsável por tantas mortes, não estava brincando. Vivendo num estado como o Rio Grande do Sul, cada vez mais me apego ao estilo antissocial e niilista do velho Buk: prefiro ficar sozinho, com meus livros e minha cerveja. Porém, para a minha sorte, depois daquela fase “das antigas” vieram muitos outros amigos e amigas. Para ficar com eles, topo largar os livros, abrir umas e celebrar a vida juntos! Todos vacinados. Todos a favor da democracia. Somos poucos, mas estamos unidos.

            Hasta!

terça-feira, 27 de julho de 2021

Dilemas humanísticos e literários


* Creio que nunca fiquei sem escrever nesse espaço por tanto tempo. A pandemia, a preguiça, a idade (chegando na crise dos 40), enfim, uma série de fatores me levaram a inatividade literária enquanto "escritor". Sigo lendo, sim, porém, não estou me prestando mais nem a resenhar minhas leituras. Também comecei a estudar gestão financeira - e sobre isso quero escrever outra hora. No entanto, quebro o gelo para, na verdade, republicar a minha coluna da semana passada do Diário Popular. Sim, a duras penas, escrevo uma coluna semanal para o maior jornal de Pelotas (RS). Apenas não incluí no texto abaixo, sobre o livro "Viagem ao fim da noite", de Céline, a magistral descrição do autor sobre os dilemas, as chatices e as aporrinhações que podem envolver um relacionamento, que aparece na parte final e é simplesmente genial. Enfim, segue, para o meu imaginário leitor:



Comentei duas semanas atrás sobre a primeira parte da obra “Viagem ao fim da noite” e sobre um resumo biográfico do escritor francês Céline. Terminei de ler esse livro há poucos dias e, confesso, fiquei completamente perdido e angustiado. Vou tentar me explicar. Como havia mencionado no outro texto, eu peguei essa obra para ler por ser considerada uma obra prima da literatura francesa que influenciou diversos escritores mundo afora, inclusive os americanos, que tanto leio e gosto, como Charles Bukowski e John Fante. Na primeira parte da narrativa, o personagem (alter ego do autor) participa da Primeira Guerra Mundial como soldado, é internado em um hospício de Paris, foge para a África, é enviado quase que sem querer para os Estados Unidos, escapa da tutoria da imigração em Nova York, trabalha na fábrica da Ford em Detroit, namora uma prostituta e volta para a França. Ação pura, com várias viagens e situações pitorescas. Já na segunda parte, o personagem se forma em Medicina e se torna médico de um povoado pobre nos arredores de Paris. Parece que tudo está calmo, pois ele fica páginas e páginas contando histórias dos pacientes e de seus infortúnios pessoais e financeiros, até que no último quarto do livro todos os pontos se ligam e tudo vira uma trama que mistura ação, suspense, romance, aventura e tudo de bom que um clássico literário pode ter. Em síntese, terminei de ler o livro com aquela sensação de que, sim, trata-se de um dos melhores livros já escritos na literatura ocidental. Ponto.

Chega-se, no entanto, a parte da angústia. Quando finalizei a última página, fiquei com uma sensação de vazio, de não saber o que pensar, ao lembrar que aquele autor, que escreveu aquelas páginas maravilhosas, sobre uma história que foi a história de suas primeiras três décadas de vida, foi um simpatizante de Hitler, defensor do nazismo e que anos depois de lançar essa obra publicou diversos panfletos com conteúdo fortemente antissemita. O pior, no entanto, é o posfácio escrito anos depois, em que ele fala que ninguém entendeu nada do livro, ao querer separar ele da própria obra. Ou seja, ele queria dizer que aquela história do “Viagem ao fim da noite” era exatamente ele mesmo, era exatamente o que ele sempre pensou e sempre pensaria, ou seja, aquela história era Céline na sua essência, o mesmo Céline nazista, cruel e desumano que o levou a um fim de vida pobre e melancólico. E aí, diante de todas essas informações, você fica com uma cara de: caraco cara, como pode? Como é possível alguém que viveu o que viveu, que sofreu o que sofreu, que andou por onde andou, que viu o que viu, que estudou o que estudou, ter sido nazista no seu tempo??? Tentei comparar Céline com aquelas pessoas que conhecemos e que estão perdidas em meio a ideias fascistas em pleno século XXI, mas mesmo assim, não consigo entender.

Por isso, acabei apenas me juntando à imensa legião de leitores de Céline que não conseguem explicar satisfatoriamente essa estranha complexidade da relação entre Céline e sua obra. Até creio que deve haver livros de especialistas tentando linkar esses pontos, ou até mesmo entrevistas do autor comentando esse dilema humanístico e literário, no entanto, a única explicação que consigo encontrar é: ele realmente ferrou com a sua psique na Primeira Guerra e os traumas o tornaram um maluco com potencial psicótico, muito sangue frio e com uma incrível habilidade de utilizar as palavras e descrever cenas que o tornaram o autor de obras primas como o “Viagem ao fim da noite”.

sábado, 30 de janeiro de 2021

Fama e Anonimato

 Confesso pra vocês que, mesmo pesquisando New Journalism por alguns anos, eu nunca havia lido “Fama e anonimato”, do Gay Talese, na íntegra. Quando estava no mestrado até tinha retirado essa obra na biblioteca da PUCRS para ler “Frank Sinatra has a cold”, mas não tinha lido mais nenhum dos outros textos que compõe essa coletânea de grandes reportagens literárias do auge da carreira de Talese. No final de 2020, quando o Papai Noel materno perguntou o que eu iria pedir, bati o martelo: “Fama e anonimato”, de Talese.



E eis que, nesse primeiro mês de 2021, na maior do parte enquanto me balançava na rede da casa de meus pais, li esse livro publicado em português pela Companhia das Letras. Aliás, li e curti. O livro é dividido em três partes. A primeira é a que mais gostei: são cinco textos sobre Nova York que formam praticamente um perfil da cidade. Lamentei, apenas, não ter lido esses textos antes de morar lá por um ano, entre 2013 e 2014, ou enquanto eu estava lá. Porém, também é muito prazeroso ler essas reportagens/crônicas conhecendo a cidade e vendo que diversas das referências feitas por Talese nos anos 1950/60 seguem as mesmos, como Madison Square Garden, Time Square, Central Park, etc. Muita coisa mudou nesse meio século, no entanto, a personalidade da cidade eu diria que continua exatamente a mesma. Portanto, esses textos são simplesmente obrigatórios para qualquer pessoa apaixonada por Nova York. Pena que fui descobrir isso apenas agora.

A segunda parte são reportagens que Talese escreveu sobre a construção da ponte Verrazano-Narrows, que liga os bairros do Brooklyn a Long Island, em Nova York. Confesso que, enquanto estive lá, não dei muita bola para essa ponte. Agora descubro que, na época, era uma das mais longas do mundo. Mesmo tendo alguns trechos relativamente longos que são um tanto quanto chatos (quando, por exemplo, ele tenta explicar as questões técnicas da construção), a parte humana é uma aula de jornalismo. Ele apresenta diversos dos construtores, conta sobre acidentes e mortes, sobre o drama das famílias que foram expulsas das casas onde nasceram pra construírem a ponte, e ainda aponta o antagonismo na relação entre os trabalhadores com a obra de concreto e os políticos e empresários engravatados que não botaram a mão na massa mas que apareceram nas fotos e na TV na hora da inauguração. Também relata de maneira muito foda o perfil dos “boomers”, que são os trabalhadores que viajam o país (e até o mundo) para trabalhar na próxima grande obra da humanidade (diversos que trabalharam nessa ponte, depois trabalharam na construção do World Trade Center, por exemplo). Também é curioso como ele apresenta a grande utilização e exploração da mão de obra indígena utilizada nessas obras. Enfim, como disse, afora as páginas meio “boring” sobre questões técnicas, é um puta texto.

Por fim, na terceira parte, aparecem biografias de famosos ou veículos badalados. Nesse trecho está “Frank Sinatra has a cold” (traduzido como “Frank Sinatra está resfriado”), bem como perfis dos pugilistas campeões mundiais em seus tempos Flory Patterson e Joe Louis (dois negros com histórias parecidas, mas com personalidades completamente distintas), a biografia do cineasta Joshua Logan, do jogador de baseball Di Maggio (que foi casado com Marly Moore) e assim por diante. Ao final do livro, a Companhia das Letras ainda colocou outros dois textos “making of” escritos por Talese anos depois sobre as reportagens de Frank Sinatra e da ponte. As duas baixas, não só da última parte, como de toda a obra, na minha opinião, são dois textos sobre veículos de comunicação que eram badaladíssimos na época: um sobre a Voge e outro sobre a Paris Review. Afora isso, é uma obra – sob o ponto de vista do jornalismo literário – quase perfeita.