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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

A triste sina de uma presidenta


*Essa é uma história totalmente ficcional. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. 
** Não recomendável para menores de 18 anos.

Ela era horrível, feia e burra. Tinha cabelos esbranquiçados que tentava esconder pintando-os de preto. O bafo evocava cheiro de esgoto e merda de gato. Ria de todo mundo, tirava onda, dizia que queria a morte das inimigas. “Tomara que a vaca da Dolores morra de câncer!”. “Tomara que a bruxa da Lurdes perca o neto!”. “Tu viu o vestido roxo ridículo da Felícia ontem de noite?”. Uma legítima megera, horrível, cafona, desprezível e velha que gostava de rir dos outros sem se olhar no espelho. Antes de chegar ao topo, ninguém a suportava e, por isso, às vezes ela passava por crises psicológicas que a marcaram profundamente e que reapareceram mais tarde, quando todos, por puro interesse, puxavam-lhe (literalmente) o saco. Mesmo sendo uma nigromante mentecapta, estava no terceiro casamento. Em todos os casos, os homens que a levaram para o altar não tinham colhões para negar a uma proposta de vida boa com o trabalho que ela mantinha como política da terra do nunca. Colhões, aliás, que ela tinha de sobra. Gostava de humilhar os seus maridos em público, bem como os três enteados que ela teve, pois devido a sua condição genética não podia engravidar. A relação com os três era sádica: xingava, zombava deles, reforçava os apelidos que eles recebiam na escola, dizia para eles não chorarem pois pareciam mais mariquinhas que ela mesma, dava tapa no ouvido. Por outro lado, ela dava de tudo para eles. E o que sobrava ia para a enteada caçula, que ficava escondida em casa, sendo criada para servir a algum marido macho e viril que a usaria apenas para procriar – como um touro faz com uma vaca. Assim, todos eles cresceram com sérios problemas psicológicos: ora eram inseguros e cagalhões, ora eram legítimos playboys que sabiam que tinham a madrasta perua e psicótica para lhes defender. Graças as suas relações políticas, quando os três patetas cresceram, conseguiram ótimos empregos (um até trabalhou fritando hambúrguer na terra do Tio Sam). Isso enchia as inimigas de inveja. “Quero só ver a cara da Lurdinha quando ela souber que o Nenê tá nos States! Rá-rá! Não perco por nada essa cena, menina!”. Tinha dupla personalidade: às vezes seu lado masculino aflorava, falava grosso, enxia o peito, franzia a testa e espalhava o medo em quem estivesse por perto – inclusive no marido. Outras vezes, era uma mocinha delicada, que empinava o rabo enrugado como uma gata no cio pra conseguir o que queria. E noutras, descia das tamancas: tinha chiliques e desmunhecava para ofender as inimiga. Os dois primeiros maridos não aguentaram e partiram. Já o terceiro... Aguenta tudo: a piada dos amigos, a oposição da família, a loucura sádica dos filhos. Ela não fez nenhuma força de esconder da imprensa e dos amigos o caso que teve com um americano: um famoso e rico empresário. Primeiro, foram flagrados jantando em um restaurante chique em Rio de Setembro, onde cumpria mandato. Depois, inventou uma viagem para os Estados Unidos onde foram vistos entrando em um motel. Mesmo com fotos e vídeos, ela negava tudo. E dava porrada no marido pra ele dizer que aquela não era ela. Porém, o empresário americano, igualmente sádico, filmou alguns de seus encontros eróticos e postou tudo no Xvídeos, Xmaster e outros Xs. Em um, é possível vê-la com seus cabelos esbranquiçados e mal pintados curtos, suas orelhas pontudas e bunda enrugada de costas para a câmera enquanto faz um belo de um boquete no americano. O gringo, grisalho, gordo e escandaloso, geme e grita “oooh, baby!!! Yesss baby!! Yessssss”. Então, ele para tudo, pega o celular, e filma ela se lambuzando com todo o seu grosso leite de potro cobridor de fêmea envelhecida. Fica com a cara toda esbranquiçada, de boca aberta, dizendo “I love you, big bastard!”. Em outro, o empresário gordo está sentado na beira da cama, ela vem rebolando a sua bunda grande, branca e enrugada enquanto toca um funk evangélico, até sentar em seu membro duro. Então, ela rebola e rebola e rebola até que ambos têm um gozo longo, prolongado e nojento. Parecem dois porcos grunhindo. Apesar dos vídeos, ela nega, o empresário não fala com a imprensa e o marido diz que foi montagem. Coisa da oposição, sabe como é? Né? É. Ela foi eleita recentemente ao cargo mais importante do país, uma ilha chamada Bozolândia, localizada a alguns quilômetros da costa chilena, Pacífico adentro. Nesses últimos dias ela anda meio adoentada: resolveu finalmente fazer a cirurgia para troca de sexo. Foi uma forma de punir o marido, que gostava do troca-troca. Um dia, ela surtou e, segundo os vizinhos, gritou para todo mundo ouvir: “Agora você não vai mais ter minha piroquinha, tá bem, meu bem!? Agora você só vai poder me comer!!!! Rárárárá!!!!”. Um deles gravou tudo com o celular. O argumento que foi tudo montagem, novamente colou para o eleitorado da presidenta. Parece que deu problema na hora da cirurgia e o troço infeccionou. O médico da boca torta olhava para o lado e espirrou e saltou um de seus dentes amarelados dentro do buraco. Ele não viu e deixou o dente lá dentro, que causou uma infecção bacteriana aguda. O último boletim do médico da boca torta diz que ela está em coma. Pobre Bolsonara. Ela era uma péssima pessoa, mais feia que o diabo e mais burra que uma topeira acéfala, mas mesmo assim, vai causar dor na sua legião de seguidores que a escolheram para representar todos os seus sentimentos sujos e obscuros reprimidos. Eu, como conheço muitas dessas pessoas, sinto pena, pois ficarão órfãs e dificilmente vai aparecer algo tão bizarro e desprezível na história da humanidade para ocupar o seu lugar.


Ilustração de  Butcher Billy

sábado, 24 de agosto de 2019

O gato sem bolas


Eu acabo de ler
Um poema do velho Buk
Sobre um gato
Que lambia
As próprias bolas

Quando termino a leitura
Levanto a cabeça
E vejo o meu gato
Que lambe o lugar
Onde as suas bolas
Deveriam estar
Mas que infelizmente
Alguém
As arrancou
Dali.



sábado, 17 de agosto de 2019

Hasta la vista, Burgos!



Além da visita aos tios Ella e Xema e ao primo Alex, a visita a Burgos também foi ótima porque me permitiu conhecer a uma cidade do interior da Espanha que foge um pouco daqueles roteiros turísticos tradicionais feitos por brasileiros na Europa (Paris, Roma, Madrid, Paris, Londres, etc). E, para você conhecer melhor qualquer país, é importante conhecer o seu interior. Esse foi um dos motivos que fez com que eu reservasse alguns meses dos 12 que tive nos Estados Unidos para passar por cidades que estão fora da rota turística americana, como Holcomb, no Kansas, e Louisville, no Kentucky. É nessas cidades que você conhece, de fato, o povo de determinado país. Assim como Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador são apenas um pedaço do Brasil bem menor do que a soma das cidades de interior e Porto Alegre não representa em quase nada o Rio Grande do Sul (quem quer conhecer o estado politicamente mais atrasado do Brasil nesse primeiro terço de século, tem que ir para Santo Ângelo, Bagé, Uruguaiana, Passo Fundo, Frederico Westphalen, Lajeado, Pelotas, Rio Grande, Seberi, Catuípe, Santa Rosa, Cruz Alta, Caxias, Bento Gonçalves, Carlos Barbosa, Vacaria, Santo Cristo, Alecrim, etc). Foi o que meu amigo gremista Henrique disse certa vez no Smithfield, em Nova York, vendo um jogo do Grêmio: “Cara, se tu só conhece Nova York, tu não conhece os Estados Unidos”. E, penso eu, que a Espanha, também, vai além de Madrid e Barcelona. I mean, o povo espanhol, assim como de todos os países, é representado ao mundo pelas grandes cidades e capitais, mas a sua essência, o seu coração, a sua alma, está no interior.
Enfim, chega de enrolação, se você não entendeu o que estou querendo dizer ou não concorda, vamos trocar uma ideia qualquer hora... Pois teria muito mais a falar sobre isso. O fato é que foi graças a essa passagem por Burgos, no norte da Espanha, uma cidade de 176 mil habitantes (em termos de população, menor do que Passo Fundo) que conhece um pouco melhor o país. Essa é um lugar que une tudo de bom que uma cidade pode ter: infraestrutura, história milenar, movimento, vida noturna agitada, gastronomia própria, cultura forte, áreas verdes, etc. É uma cidade europeia, por supuesto, então, é claro que é meio ridículo você querer comparar uma cidade brasileira com uma europeia ou americana apenas pela questão da população.
Um dos lugares mais impressionantes de Burgos – e da Espanha, penso eu – é a sua belíssima catedral. Não vou contar aqui a história dela, pois para isso tem toda a web, mas realmente quando você a vê, impressiona. A tia Ella falou algo que faz todo o sentido: “Ela não perde em nada para Notre-Dame, porém, os franceses souberam vender melhor a igreja do velho corcunda para o mundo”. Eu acrescentaria que, o fato de estar em Paris e de ter sido palco de um dos clássicos da literatura universal, também ajuda. Ambas são grandiosas e contam com uma puta história, mas, sob o ponto de vista arquitetônico, realmente a de Burgos é até mais imponente que Notre-Dame (impressão pessoal). Dentro da catedral (ou ao lado, não lembro bem) o presépio em miniatura (um dos maiores da Europa) impressiona religiosos, ou não. Eu ando me questionando ultimamente sobre as minhas próprias crenças religiosas que já nem sei mais dizer no que acredito ou não (mas isso é tema para outro post). Também visitamos os mosteiros de Burgos, seculares, e que te fazem viajar no tempo, além do centro histórico, parques, etc.
Parte interna da catedral
 Presépio

Mosteiros de Burgos

Enfim, encerro essa narrativa sobre a nossa passagem por Burgos deixando a dica: se você vai passar pela Espanha, cogite visitar a cidade de Cid, da catedral maravilhosa e de clima agradável e acolhedor (espiritualmente falando). E, lógico, só tenho a agradecer aos tios Ella e Xema pela oportunidade, pois Burgos só entrou na nossa rota de mochilão europeu graças a eles. Hasta la próxima!

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Santa Claus, Cid, Zeus e Peregrino em Burgos


Como a essa altura do campeonato já faz mais de meio ano que tudo aconteceu – e, como disse, meu objetivo não é fazer um diário, mas sim contar as principais impressões da viagem – não vou narrar dia a dia os cerca de 10 dias em que ficamos em Burgos, hospedados na casa da tia Ella e do tio Xema, que moram com o filho Alex e o labrador Zeus (que é bem parecido com a nossa Zuma). Até porque agora, escrevendo em um apartamento gelado no inverno gaúcho, as lembranças se misturam – não lembro o que fizemos primeiro ou o que fizemos por último. Então, vou dividir a passagem por burgos em Natal e Ano Novo, com algumas lembranças e memórias sendo colocadas em meio a essas duas datas.
Esse foi o segundo Natal que passei fora do Brasil: o primeiro havia sido em Nova York, em 2013. Assim como daquela vez, foi bem familiar e caseiro: ficamos em casa, colocando as conversas em dias, comendo bastante (sinceramente, não lembro exatamente o quê, mas recordo que era diferente das nossas comidas e que era delicioso), bebendo cerveja e fazendo a tradicional troca de presentes com a presença espiritual de Santa Claus, o Papai Noel, que vive ali pra cima, no Polo Norte finlandês. Ah, e claro, falamos com a Larissa por chamada de vídeo, que estava na casa de meus pais, em Xangri-lá-RS, pois a saudades da minha baixinha começava a apertar – e essa a primeira vez que passávamos o Natal longe dela e da Laura – a outra baixinha, que já está com 18 anos.
Não lembro se foi no dia 24 mesmo, ou no dia seguinte, que a tia nos mostrou o povoado onde eles moram: é uma espécie de distrito em Burgos que fica – se não me engano – em torno de uns 5 quilômetros do centro. É bem tranquilo e, depois de zanzar por lá umas quatro ou cinco vezes sozinho com o Zeus, eu já me localizava geograficamente com certa facilidade. 

Rua onde moram tio Chema, Ella, Alex e Zeus
Cris e Tia Ella passeando com Zeus
Povoado onde moram Tia Ella e Tio Xema


Era difícil se perder, porque de qualquer lugar você enxergava a ponta da torre da igreja com o sino, e a casa da tia fica ali pertinho. Eu colocava a minha toca, blusão, casaco e luvas e ia para o vento frio do inverno espanhol com o Zeus, que comparado com a Zuma é o cachorro mais obediente do mundo. A única “arte” que ele fez foi uma vez em que o soltei num gramado aberto com a guia no pescoço e ele saiu correndo até um canto onde fez xixi em cima da guia....
Depois, lavei-a bem em uma torneira pública, enquanto ele ficava tentando beber a água que saía de lá, atrapalhando a minha empreitada...
A tia e o tio também nos mostraram todo o centro, comemos as tradicionais batatas bravas tomando chope, saímos para comer, visitei a livraria que, se não me engano, é a mais antiga da Europa, onde comprei dois livros: a coletânea completa de poesias de Jorge Luís Borges e um livro de narrativa de viagem do jornalista espanhol Antonio Pampliega sobre o Afeganistão. Também compramos presentes pra todo mundo no Brasil, essas coisas que todo turista faz, além de algumas roupas e casacos para inverno, fora os que ganhamos do tio e da tia... Minha preocupação passava a ser a mala: será que caberia tudo nas duas bagagens a que tínhamos direito ao voltar para o Brasil? Resposta nos próximos capítulos...
De noite, geralmente jogávamos canastra: eu e o Chema contra a Cris e a tia. Geralmente ganhávamos (kkkkkkk – não resisti de alfinetar a tia...). Aprendi várias coisas em espanhol, como o “vete a tomar por culo”, que no início eu entendia outra coisa, que já não lembro mais o que era, mas que fez todo mundo dar boas gargalhadas. Eu falava coisas como “vete a tomar per colo” ou “vete a levar no colo” até memorizar a frase. Inclusive, cheguei a anotar ela em um papel, para xingar alguém enquanto jogávamos.
Outra coisa era o “joooooder!”, que eu ouvia eles falarem a toda hora – principalmente durante os jogos - mas, na minha ingenuidade, não tinha me ligado em trocar o “j” pelo “f”, e assim ficava me questionando: “que diabos é joder??”. Até que um dia perguntei, para diversão do tio e da tia. Também tinha uma brincadeira de “Xuxa”, “Xaxa”... que eu não lembro ao certo como terminava e que também não recordo de onde surgiu: acho que “xaxa” quer dizer bo.... em espanhol, não tenho certeza.
Ah, e também conheci a sede do Juventud, o time de categorias de base que o Xema treina, juntamente com o Alex. É um passatempo, pois o tio tem o seu emprego normal e treina o time de jovens nos horários de folga. Ganhei até uma manta do clube, que tem as mesmas cores do Juventude de Caxias do Sul. Assisti também aos jogos sub-12, sub-10 e sei lá mais o quê das categorias de base dos clubes europeus que eram transmitidos pelos canais fechados por equipes super profissionais (com repórteres entrevistando guris de 8 ou 9 anos, comentaristas falando de tática como se estivessem comentando jogos da Champions, narradores profissionais, etc). Também vi nos noticiários algumas pautas que pareciam ser brasileiras: como um caso de racismo contra um jogador na Itália e a polêmica em torno de um policial que tinha matado um cachorro em Barcelona, alegando que atirou para não ser mordido. Um prato cheio para um jornalista e pesquisador da área, como eu. Obviamente, enquanto via tudo, eu ficava pensando em como seria bom fazer um pós-doutorado por lá... Quem sabe um dia...
Bom, aconteceram muito mais coisas, obviamente, mas as imagens de algumas fotografias que partilho aqui falam por si sós. Ah, não posso esquecer de escrever sobre a catedral de Burgos, uma das mais belas e impressionantes da Europa, e do presépio em miniatura – que se não me engano é o maior da Europa ou da Espanha, ou de ambos. Também descobri que essa obsessão por títulos de “o maior”, “o mais espetacular”, “o número 1” não é exclusividade de brasileiros e americanos. Acho que todos os povos lutam para ser os melhores ou maiores em algumas coisas. Hoje, por exemplo, o Brasil é o país com o presidente mais idiota e patético do mundo – e é difícil encontrar alguém que acompanhe política internacional que discorde disso. Mas não vou entrar nesse assunto agora...
Ah, e Burgos também está na rota do caminho do peregrino de Santiago de Compostela que, aliás, queria estudar mais sobre isso. Bem como fiquei curioso para ler mais sobre Cid, que tem a estátua numa das principais regiões da cidade e que teria sido uma espécie de bandido-herói espanhol há mais ou menos uns mil anos atrás: ele foi o único guerreiro a ganhar uma batalha mesmo depois de morto. Pelo que entendi do que o tio Xema me contou, não recordo em que contexto, o exército do Cid estava perdendo uma guerra e Cid havia sido morto. Porém, devido a fama de ser um guerreiro forte e praticamente imbatível, colocaram-no em cima do cavalo, morto, com a lança a postos. Ao ver Cid vindo montado a cavalo, armado, os inimigos deram no pé. Enfim, é bastante coisa para aprender e estudar.


Tia Ella e Tio Xema

Uma das livrarias mais antigas da Espanha
Peregrino de Santiago de Compostela
Cid: Herói Nacional




Bueno, como também o tempo anda escasso – e mesmo sem iniciarem as aulas do segundo semestre já tenho várias outras obrigações acadêmicas, literárias, profissionais e pessoais – vou acabar resumindo essa reta final da nossa viagem. Obviamente que situações e episódios que aconteceram há meses, anos ou décadas sempre estão voltando e as menções e lembranças estão frequentemente reaparecendo em nossa mente e, para mim, em meus textos. Hasta!

terça-feira, 28 de maio de 2019

Chegando em Burgos


No dia 23 de dezembro partimos para Burgos, no norte da Espanha, para passar o Natal com a tia Ella, o tio Chema (não sei como escreve, então coloco como se diz mesmo...) e o primo Alex. Na verdade, são todos parentes da patroa Cris, mas tomo a liberdade de surrupia-los para a minha família também. Para chegar a tempo, tive que tomar uma decisão difícil: cancelar a ida que estava programada para o Palácio de Versalhes. Na minha ingenuidade, eu pensava que daria conta do palácio na manhã do dia 23, mas conversando com diversas pessoas que conhecem o local, desisti, pois é preciso um dia inteiro para aproveitar. E outra: só vale a pena não pagar o ticket e explorar apenas a parte externa na primavera e verão, e estávamos no inverno, o que significava nada de gramados e árvores verdes por todos os lados. No fim, essa decisão foi a mais sábia possível. Dei-me conta disso ao perceber que na véspera da véspera de Natal todo mundo parecia querer deixar Paris. Versalhes fica para a próxima.
Saímos cedo no dia 23, mas levamos mais de duas horas para deixar o engarrafamento parisiense para chegar até a autoestrada. Além disso, houve vários imprevistos. Primeiro, era domingo, e uma das avenidas principais próximas ao hotel estava fechada. Devia haver alguma feira, maratona, atentado, protesto ou algo assim. A única certeza é que fui dobrar numa esquina e dei de cara com um guarda gordinho com testa enrugada e cara de bravo. Perguntei: “está fechada?”, ao que ele confirmou, sem dizer um piu. Vendo que éramos “gringos”, mandou a gente voltar e pegar outra rua. O negócio é que o GPS tinha bugado e o do celular só atualizava quando estava online. Assim, pelo mapa, eu tentava voltar para a rota, mas não tinha jeito. Depois de tanto rodarmos, quando vi que não tinha mais jeito para voltar à rota, acabei entrando na contramão numa ruazinha. Levei uns buzinaços e uns xingamentos em francês, mas depois do susto (meu, da Cris e dos outros motoristas) estávamos de novo na linha rosa do GPS, que indicava a rota a ser seguida!
- Você é louco? – perguntou a Cris.
- Com se você não soubesse... – respondi tranquilamente.
Ora, pois, se não fosse maluco não estaria dirigindo por Paris, entrando na contramão, rumo ao desconhecido. Um pouco de insanidade, às vezes, faz bem.
A viagem demorou mais do que o previsto. Havia engarrafamento, inclusive, nas autoestradas. Como disse, parecia que todos os parisienses estavam indo passar o Natal no interior. Assim, andamos, andamos e andamos. Em algumas paradas, fui me dando conta de que Paris não diz quase nada sobre a França. I mean, no que se refere à França como um todo. Assim como o Brasil é muito mais do que São Paulo, Rio de Janeiro e as capitais, a França é algo totalmente diferente de Paris. No interior, as pessoas praticamente não falavam inglês, nos postos, restaurantes e lanchonetes. O negócio era colocar em prática as habilidades aprendidas quando jogava Imagem e Ação com a Laura, quando ela tinha uns 10 anos... Mímica sempre tem a sua utilidade em terras estrangeiras. Sobrevivemos, almoçamos, jantamos e, já de madrugada, cruzamos a fronteira.
Chegar à Espanha me deu um alívio. As estradas, lá, estavam vazias. Novamente, andamos, andamos e andamos. A cada placa que indicava Burgos, respirávamos aliviados. Até que chegamos. Porém, o acesso ao bairro aonde a tia mora não é lá muito fácil de interpretar e, assim, saí da rota do GPS mais algumas vezes. Dessa vez, para não infringir a lei, a cada erro eu ia até o final da rua para fazer o retorno no lugar certo. Vá que levei multas em Paris, Milão, Zurique, Barcelona, etc. Um pouco de prudência, às vezes, também faz bem... Não queria ir à falência pagando multas para os europeus...
Levamos um pouco mais de tempo, mas lá por volta das duas ou três da manhã do gelado inverno de Burgos finalmente chegamos à frente da casa da tia. Porém, não tínhamos certeza se aquela era a casa certa. A Cris fez o que geralmente as mulheres fazem nessa situação:
- Desce lá e vê!
- E se não for?
Pois é, e se não fosse? Problema meu, uai! Apertei a campainha pronto para ver um espanhol aparecendo na janela com espingarda em punho, xingando-me. Mas, para a minha sorte, quem abriu a porta foi a tia. Depois de, sei lá, mais umas 14 horas de viagem, finalmente chegávamos são e salvos. Àquela altura já estávamos no dia 24 de dezembro. Subimos ao quarto, gentilmente cedido pela tia e pelo tio, e dormimos até tarde no outro dia para passar, pela segunda vez na vida, o Natal longe de terras brasucas... Mas essa já é outra história, que fica para a próxima.

domingo, 19 de maio de 2019

Viajando nas páginas de Airton Ortiz


Nos últimos meses, tenho mergulhado nas narrativas de viagem do jornalista e escritor gaúcho Airton Ortiz. Desde 1999, quando começou o seu projeto literário e profissional, Ortiz lançou um livro por ano, atingindo, até o momento, a publicação de 19 livros, entre crônicas, romance-reportagem e narrativa de ficção. Ler a obra de Ortiz é viajar pelo mundo com ele, conhecendo diferentes culturas, diferentes povos e diferentes pessoas. Mas uma das curiosidades que eu tinha desde que descobri esse autor que ainda não tem o devido reconhecimento no cenário da literatura nacional era: quem é esse sujeito? Quem é esse cara que consegue viver de literatura e de viagens? Será um milionário sem ter o que fazer que passa torrando o seu dinheiro para viajar pelo mundo e escrever sobre ele? Será um filho de alguma família rica do Rio Grande do Sul que é patrocinado pelos seus antecedentes? Ou será um jornalista que conseguiu meter a cara e conquistar patrocinadores e o público que bancam essa carreira invejável? Bingo para quem apostou na última alternativa. Mas, antes de chegar lá, vou contar um pouco da história dele, que tive acesso com entrevistas informais feitas por whattsapp e por e-mail em diversos e diferentes dias deste ano de 2019, além de leituras e pesquisas sobre material já escrito por ele e sobre ele.
Airton Ortiz nasceu em Rio Pardo em novembro de 1954. Desde a infância, sempre foi um apaixonado por rádio. Foi ouvindo as grandes reportagens radiofônicas, ainda na infância, vivida em parte no município de Candelária-RS, que ele teve desperta a vontade de viajar e conhecer o mundo. Em 1968, por exemplo, ele ganhou um prêmio literário na escola ao escrever sobre a amizade de Brasil e Portugal. Além disso, ele passou a trabalhar na Rádio Cachoeira, ode estreitou ainda mais os seus laços com o jornalismo quando começou a contribuir para a editoria de esportes do Jornal do Povo. Em 1975, mudou-se para Porto Alegre onde encontrou no jornalismo uma forma de conhecer o mundo.
Formou-se na PUCRS no início dos anos 1980 e, dentre outros trabalhos, criou a editora Tchê! (eu já li alguns livros dessa editora, como o Erico Verissimo, escrito pelo meu orientador de mestrado, Antonio Hohlfeldt, mas nem sonhava que fosse dele). Nesse meio tempo, também concluiu um curso de pós-graduação em Administração de Empresas pela UFRGS, onde, também ampliou o seu conhecimento sobre outras línguas, dentre as quais o espanhol e o inglês. Na capital, atuou também na Rádio Farroupilha, onde trabalhou com Flávio Alcaraz Goms, que já escreveu livros fantásticos de viagem, como Um repórter na China (vale muito a pena!).
Admirador da música e da cultura gaúcha, ele também participou do programa Galpão do Nativismo, da Rádio Gaúcha, como comentarista, e mais tarde do programa Mapa Mundi, da Rádio Bandeirantes, dessa vez falando sobre turismo.
Além de criara  editora, Ortiz também lançou e editou o Jornal Tchê, focado justamente na cultura gaúcha. Tudo isso durou até 1997, quando ele encerrou as suas atividades na editora para trabalhar como freelancer e focar no seu projeto de jornalismo literário de viagem. Chegamos, então, a reposta da pergunta apresentada no primeiro parágrafo.
Já sendo um jornalista relativamente conhecido no Rio Grande do Sul, Ortiz encontrou em grandes editoras (como a Record e a Saraiva) e em uma grande empresa do estado (o Zaffari) a viabilização para colocar o seu projeto em prática. Ele já estava com 45 anos quando estreou, em 1999, no gênero lançando “Aventura no topo da África”, o seu primeiro livro-reportagem de viagem. Desde então, ele lança um livro por ano, dentre crônicas, livros-reportagens e ficção. E qual o segredo para esse sucesso?  “É preciso ter paciência, dedicação e convicção de que é isso que se quer”, conta.
“Desde a primeira viagem que eu fiz para produzir o primeiro livro, a viagem foi bancada pelo Zaffari e desde então todas as viagens são bancadas pelo Zaffari. É verba de publicidade deles e eles têm um bom retorno com isso”, explica. No total, o escritor já viajou para mais de 80 países e, além de publicar as narrativas de viagem, ele também já lançou livros infantis, infanto-juvenis e contribuiu para diversas coletâneas.
Curioso sobre as duas obras de ficção escritas por ele, pedi para que me enviasse um áudio comentando os dois livros do gênero, “Cartas do Everest” e “Gringo”. Coloco aqui, na íntegra, as respostas. 
Sobre Cartas do Everest:
“É baseado em fatos reais porque eu juntei em uma única história fatos que aconteceram, alguns comigo, e outros aconteceram com outros alpinistas. Tudo aquilo que está relatado ali, ou quase tudo, aconteceu, não na mesma montanha e não na mesma temporada. Mas são coisas que foram acontecendo com os alpinistas e que eu fiquei sabendo, por estudar muito alpinismo e as grandes escaladas. Então, tudo que está ali foi inspirado em fatos reais. Claro, não aconteceu exatamente como está ali, porque senão não seria ficção. Mas é uma ficção baseada em fatos que realmente aconteceram pelas montanhas, alguns comigo, outros com meus amigos, outros com relatos que eu ouvi nos acampamentos nas montanhas e outros que eu li nas biografias dos caras e nas grandes reportagens. Isso serviu de pano de fundo para contar a história que eu queria contar, que é como pessoas reagem de maneira diferente diante da mesma situação. Coloquei os três personagens, um brasileiro, um americano e um alemão, mostrando que diante da mesma situação cada um deles reage de maneira diferente. A ideia era mostrar a diversidade das pessoas, a diversidade da cultura de onde eles vem, e a diversidade das nossas reações diante das mesmas situações”.

Já sobre Gringo:
“Criei a história, o personagem passando pelos lugares que eu já tinha passado antes. Todas as locações do Gringo são conhecidas por mim. Isso é um projeto meu, pessoal, do meu projeto literário, que os meus livros só vão acontecer em lugares que eu conheço, mesmo os de ficção. E o que o Gringo tem de diferente, é que depois de ter construído toda a história eu peguei a mochila e refiz a viagem do gringo, aí no ritmo e na sequência que está descrita no livro. Eu queria ver se há grandes modificações entre a história que eu imaginei naqueles lugares que eu passei em tempos diferentes e em épocas diferentes para uma viagem que eu passei por todos os lugares numa sequência cronológica. A grande diferença do Gringo, talvez única no mundo, é que depois do ficcionista ter inventado uma viagem, ele foi lá na vida real e fez aquele roteiro. Muitas das coisas que aconteceram durante a viagem já estavam no Gringo. Depois de fazer tantas viagens pelo mundo e ter tanta experiência a gente já tem ideia do que vai acontecer. Quebra um pouco aquela expectativa porque eu já sei, dependendo de onde eu chegar no mundo, eu já sei como vou ser recebido. O objetivo do Gringo é mostrar o amadurecimento de uma pessoa. Geralmente quando uma pessoa passar por uma situação de tragédia, de quase morte, elas repensam a vida delas ou dão um novo rumo para a vida delas. Eu acho que não precisa chegar a uma situação dessas para a gente repensar a vida da gente. Uma viagem é a melhor oportunidade par aa gente repensar a vida da gente e ver o que a gente quer ou não quer. O Gringo é uma experiência de autoconhecimento,, um romance de formação e de aventura, em que conta o amadurecimento de um cara a partir das experiências que ele vai tendo na viagem. Incluí a troca com outros viajantes e com os nativos em que a pessoa vai amadurecimento. Ela é também toda inspirada em fatos reais”.

Em síntese, para quem gosta de viajar e de ler, Airton Ortiz oferece um prato cheio! E isso que nem falei dos diversos prêmios que ele ganhou, além de ser patrono de variados eventos literários, tendo já sido patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. E esperamos que muitas outras obras do autor ainda sejam lançadas, pois esse mundo é grande e bom, Sebastião!  

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves: História para bolsonarista ver e aprender


Enquanto lia Meio Sol Amarelo, da escritora nigeriana Chimamanda Gnozi Adichie (comentei sobre esse livro em texto aqui do blog de 3 de fevereiro de 2018), apanhei um pouco para memorizar os nomes africanos dos personagens: Olanna, Kainene, Ugwu, Inatimi, etc. No entanto, lembro que fiquei me questionando: considerando que mais da metade da população brasileira é parda ou negra, por que não temos sobrenomes africanos em nosso país? Cheguei a pensar em pesquisar sobre isso, mas acabou passando. Então, no último verão eu li Na Minha Pele, do Lázaro Ramos (também escrevi sobre esse livro aqui no blog) e, através dele, cheguei no livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (foto acima), que responde à minha pergunta sobre a ausência de sobrenomes africanos, além de contar muito mais da história praticamente (e provavelmente, intencionalmente) esquecida do Brasil.
Porém, para contar sobre o sumiço dos sobrenomes africanos, tenho que contextualizar a história toda e, assim, já abordo o livro de maneira geral. No romance, publicado originalmente em 2006 (a minha edição é da Record, 2017), a personagem narradora, chamada Kehinde (nascida em 1810), ainda criança e vê guerreiros tribais estuprarem e matarem a sua mãe e o irmão mais novo. Ficando apenas ela, a irmã gêmea e a avó, elas partem para Uidá, localizada onde hoje é Benin, entre Togo e Nigéria. Em Uidá, um belo dia Kehinde e a irmã, ambas com sete anos, veem chegar à costa africana um navio que é cercado por uma pequena multidão. Estando ali no meio do povo, um homem branco pede para as gêmeas mostrarem os dentes e, após avaliar os corpos e estado geral de saúde, seleciona as duas crianças para embarcarem. A avó aparece, a procura das netas, e implora para embarcar junto. O homem checa as condições de saúde e acaba aceitando. Enquanto alguns dos africanos pensava que seriam transformados em carneiro para virar comida de branco “no estrangeiro”, os africanos muçulmanos acreditavam que a travessia seria um sacrifício até chegar a terra de Alá.  E, assim, a personagem é literalmente sequestrada da África, ainda no tempo do Brasil colônia, para ser escrava no Brasil.

Claro que a narrativa da Ana Maria é muito mais complexa, literária e instigante do que esse breve, rápido e superficial resumo. Ela dá ênfase ao caráter humano, à inumanidade da viagem da África para o Brasil, que dura mais de mês e muitos acabam morrendo de fome ou de doenças, inclusive a irmã e a avó de Kehinde, que são jogadas ao mar. É algo que deveria ser lido por todo o brasileiro. Algo que não está humanizado nos livros de história que falam sobre a escravidão no Brasil.
Chegando à terra tupiniquim, encontro a explicação para a operação borracha, não só nos nomes, mas na cultura e nas diversas religiões africanas no Brasil: todos os escravos que chegam ao país são obrigados a serem batizados com nomes brasileiros (afinal, os brancos não querem selvagens pagãos) e, consequentemente, recebem sobrenomes portugueses, como Silva e Sousa. Assim, sobrenomes como Azikiwe, Awolowo, Adichie, etc, sumiram do mapa brasuca. Os escravos também eram proibidos de falar na sua língua materna e de expressar qualquer tipo de ritual religioso ou cultural (a não ser em raros momentos de folga, desde que não houvesse nenhum de seus “donos” por perto). Assim, Kehinde passa a ser Luísa Gama, mesmo tendo conseguido fugir do batismo católico.
As histórias são todas arrepiantes: a viagem praticamente sem comida, o tratamento dados aos africanos que eram vendidos nos mercados (quanto mais demorava a ser vendido, pior eram as condições, pois muitos morriam de fome e outras doenças nessa espera por um “dono”), as chibatadas nas fazendas, os estupros (geralmente o dono guardava as meninas para ser o primeiro a fazer sexo com elas), o tratamento desumano, enfim, tudo é cruel demais para você pensar que, no Brasil, um presidente da República tem a cara de pau de dizer durante uma entrevista que o país não tem dívida histórica nenhuma e que ele não é racista porque o sogro dele é chamado de “Negão”.... Mas enfim, não vamos mudar de assunto...
A obra é absolutamente demais, em todos os sentidos. Eu li em pouco mais de 20 dias as suas 950 páginas. Nelas, Ana Maria Gonçalves dá vida aos escravos, mostra o seu lado humano, bem como é feito no americano “12 Anos de Escravidão”. Detalha as suas crenças, conta sobre as capturas, sobre as fugas, as revoltas, etc.
Kehinde (imagem ilustrativa de como foi Kehinde ou Luísa Gama) desembarca em São Salvador (hoje Salvador) e é vendida para um fazendeiro chamado José Carlos Gama (daí o seu sobrenome). A personagem é comprada para fazer companhia à filha dele, chamada de “sinhazinha” até o fim do romance, com quem, na fase adulta, ela faz uma forte amizade. Após entrar na adolescência, José Carlos estupra Kehinde e castra o escravo que era seu pretendente diante dos olhos dela. Do estupro, nasce Banjoko, seu primeiro filho. Depois que José Carlos morre, a viúva, chamada Ana Felipa, muda-se para a fazenda e leva consigo alguns escravos, dentre eles Kehinde, com quem ela tem uma implicância muito forte. No entanto, para manter Kehinde longe de um escravo pela qual ambas estavam apaixonadas, Ana Felipa coloca Kehinde a trabalhar “a ganho”, que era quando os “donos” permitiam que os escravos trabalhassem na rua (geralmente com comércio – assim muitas mulheres iam para a prostituição) para ganhar algum dinheiro. Obviamente havia uma quantia que o escravo deveria pagar ao seu dono. Bom, estou detalhando muito um livro que tem 950 páginas, então, em resumo, após vários desencontros e dramas, Kehinde finalmente consegue comprar a carta de alforria (liberdade) e a de seu filho, justamente quando a “sinhá” resolve se mudar para o Rio de Janeiro, querendo separar Kehinde da criança (algo que também era normal: mães e filhos serem separados em compra e venda de escravos).
Após passar por várias situações horríveis, Kehinde conhece e se apaixona por um português, com quem tem mais um filho: Luiz Gama, que nasce em 1830. Assim temos a romantização de uma história real: Luiz Gama foi um importante jornalista e advogado negro que lutou durante  sua meia década de vida contra a escravidão (eu já tinha lido o livro de Luiz Carlos Santos, sobre ele). Em síntese: o romance conta a história da mãe de Luiz Gama (foto).
Em algumas entrevistas disponibilizadas no youtube, Ana Maria conta todo o processo de produção do romance, que foi justamente um trabalho de muuuuuita pesquisa, leitura, consulta à acervos, e tudo o mais. Mas, voltando à narrativa do romance, Banjoko morre cedo, aos sete anos. Mas o drama maior vem mais tarde, quando a personagem Kehinde se envolve em vários trabalhos e busca conhecimentos pelo Brasil sobre as religiões africanas, passando a ficar longe de casa por longos períodos. Nesse interim, o português, pai de Luiz Gama, casa-se com uma brasileira (afinal, nunca um português assumiria publicamente um relacionamento com uma ex-escrava). Aproveitando a ausência da mãe, o português (que estava atolado em dívidas de jogo) vende Luiz Gama como escravo, mesmo ele sendo livre, para uma embarcação que o leva ao Rio de Janeiro. Após a venda, o português some e nunca mais se tem notícias dele. Então, começa a saga da busca de Kehinde pelo filho perdido. Fazendo novamente um pulo e resumindo tudo ao máximo: eles nunca mais se encontram. Kehinde passa por diversas situações limites, mas consegue se dar bem financeiramente. Ainda relativamente jovem, mas já no final da narrativa, ela acaba voltando para a África, onde segue tendo sucesso financeiro. De lá, a personagem conta como era a vida em um território que ainda estava sendo divido pelos europeus. Ou seja, Uidá, para onde ela volta, e Lagos, hoje capital da Nigéria, eram reinos diferentes mas, de certa forma, pertenciam a um mesmo país. Bem, não vou descrever aqui os outros personagens, como por exemplo, o marido africano com quem Kehinde casa e tem filhos. Mais uma vez tentando ser o mais breve possível, o romance conta os 88 anos de vida da personagem, que atravessa o século XIX, revelando muito da vida dos escravos brasileiros, da política dos primeiros anos do país após a independência, a continuidade do tráfico de escravos, mesmo após a sua proibição legal, a vida na África, a vida dos africanos que compravam a liberdade e voltavam ao velho continente africano, as rixas entre os africanos e os negros nascidos no Brasil, as rixas entre os africanos que retornavam para a África e que se achavam superiores aos africanos que nunca tinham deixado o continente, a escravidão na própria África (nas guerras, os perdedores eram escravizados pelos vencedores e também eram vendidos e comercializados – sendo que muitos desses eram enviados para o Brasil, Estados Unidos, Cuba e todas as outras colônias espalhadas pelo mundo), enfim, é tanta coisa que realmente só lendo o livro para você entender a magnitude da filha da putice que o ser humano é capaz de fazer com o próximo...
Ah, e por que o título é “Um defeito e cor?”. Simples: porque em dado momento, o negro que conseguisse comprar a sua liberdade, para conseguir um emprego, tinha que assinar um documento assumindo ter “defeito de cor”. E isso seguiu por um bom tempo. Aliás, do jeito que estamos caminhando para trás nesse país, não duvido que não surja um decreto bozal propondo a volta de tal documento, bem como “defeito de gênero”, “defeito de ideologia”, “defeito de genes”, etc.
A boa notícia é que, segundo uma das entrevistas da Ana Maria, a Globo está adaptando o livro como série para 2020. Estou muito curioso para assistir e, espero que consiga ser minimamente fiel ao livro, principalmente colocando atrizes africanas para interpretar Kehinde, pois a autora do livro faz a descrição da cor da pele justamente no início da obra, salientando a diferença entre os negros africanos e os negros brasileiros que nasciam filhos de mãe negra e pai branco (ou vice-versa).
Bom, sei que deixei muita coisa importante de fora, pois esse é um livro que faz você viajar longe. Minha única crítica, sob o ponto de vista da narrativa, é que lá pela metade o texto (sempre em primeira pessoa) passa a ser uma carta de Kehinde escrita para o Luiz Gama. Tudo bem a narrativa ser uma carta, mas até então isso não fica claro. Ou seja, você lê até a metade como um romance em primeira pessoa e, de repente, o troço todo vira uma carta, falando “você não deve saber disso” ou “se eu pudesse te falar e ouvir sua voz”, etc. Aliás, falando agora como leitor, também penso que há algumas descrições com detalhes excessivos (possivelmente tentando dar verossimilhança a tudo e, claro, porque depois de toda a pesquisa que autora fez, é normal que ela quisesse expor o máximo possível dessa pesquisa ao leitor). Portanto, considero que seria totalmente possível (e aconselhável, penso eu) cortar umas 200 páginas, ou até mais, fechando a obra em umas 700 páginas. Mas enfim, isso não tira em nada o mérito do livro. Inclusive, eu diria que até a metade da obra a narrativa é de tirar o fôlego e não há nada que pudesse ser suprimido. Porém, depois, talvez para balancear melhor os períodos, a autora colocou todos aqueles detalhes para compensar a falta de ação, como por exemplo, quando descreve a Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, e festas religiosas de todos os tipos.

Ah, e falando em religião, um dos pontos altos do romance é a Revolta Malês, que foi quando escravos muçulmanos planejaram uma rebelião em Salvador para escravizar os mulatos e crioulos (como eram chamados os filhos de escravos nascidos no Brasil) e matar os brancos. É sensacional, porém, como a revolução não deu certo e os seus organizadores e participantes, na sua enorme maioria, foram mortos, essa importante batalha da história brasileira foi praticamente apagada dos livros didáticos (e com a bozaiada no poder, agora é que não vão ganhar espaço mesmo). Aliás, como a região da Nigéria e Benin é formada por uma porcentagem alta de muçulmanos, nada mais normal do que haver muitos muçulmanos no Brasil naquele tempo – a maioria enviados para o nordeste. Porém, assim como os sobrenomes, eles também foram sufocados até não sobrar quase nada da cultura e da religião muçulmana negra no país.
Para encerrar, fica essa dica de leitura e os parabéns a Ana Maria Gonçalves por escrever uma das mais importantes e espetaculares obras da literatura brasileira. E obrigado ao Lázaro Ramos, por escrever sobre essa obra em seu livro, pois sem isso eu nunca teria descoberto esse tesouro da literatura.
Coloco abaixo alguns trechos aleatórios para você ter ideia do que estou falndo:
Sobre a viagem da África ao Brasil: “O calor e o cheiro forte de suor e de excrementos misturado ao cheiro da morte, não ainda do corpo morto, mas da morte em si, faziam tudo ficar mais quieto, como se o ar ganhasse peso, fazendo pressão sobre nós. Já estávamos todos muito fracos, pois era o início do quarto dia sem comer” (p.51).  
Sobre os negros vendidos nos mercados: “O comum a todos eram os ossos, que de tão aparentes quase rasgavam a pele sem viço e sem cor definida, coberta por imensa quantidade de escaras” (p.68).
Sobre poderosos na África que foram escravizados: “Mais tarde, vendo que isso não mais bastava, ele a acusou de feitiçaria e a vendeu aos mercadores de escravos para que a levassem para longe do Daomé, fazendo o mesmo com várias pessoas da família real. Era a primeira vez que isso acontecia na família dos reis do Daomé” (p.132).
Sobre o estupro cometido pelo “dono” branco na frente do pretendente escravo: “Eu queria morrer, mas continuava mais viva do que nunca, sentindo a dor do corte na boca, o peso do corpo do sinhô
José Carlos sobre o meu e os movimentos do membro dele dentro da minha racha, que mais pareciam chibatadas [...] O Lourenço tinha conseguido chorar e, ao perceber isso, o sinhô José Carlos o chamou de maricas e perguntou se estava chorando porque também queria se deitar com um macho como o que estava se deitando com a noivinha dele. [...] Passou cuspe no membro e possuiu o Lourenço também, sem que ele conseguisse esboçar qualquer reação ou mesmo gritar de dor, pois tinha a garganta apertada pelo colar. [...] Virou o Lourenço de frenet, pediu que dois homens do Cirpriano o segurassem e cortou fora o membro dele” (p.171-172).
Sobre a revolta malês: “Entre os pretos havia a ideia de tomar o poder e matar ou escravizar todos os que não fossem africanos, principalmente os crioulos. Mas mesmo entre os pertos havia desunião, quase sempre desde a África, por pertencerem a nações inimigas. Eles não entendiam que no Brasil precisavam comportar de modo diferente, esquecendo a inimizade e ficando todos do mesmo lado” (p.416).
Sobre o falso fim da escravidão: “Mas há um ou dois anos mais ou menos, perguntei a um retornado bastante esclarecido se não havia mesmo mais escravidão no Brasil e ele me disse que ainda havia sim. Não nas grandes cidades, onde os pretos e crioulos eram mais bem-informados, mas havia lugares mais para o interior do país, nas fazendas, onde as pessoas nunca ficariam sabendo que não podiam mais ser mantidas como escravas. A notícia não tinha chegado até elas, e talvez ainda fique assim por algumas gerações” (p.868).
Enfim, o livro inteiro é uma grande citação imperdível. Portanto, reserve um mês da sua vida para mergulhar no tempo e entender um pouco mais sobre o fato de o racismo não ter nada de “mimimi” como ainda insistem os bolsonaristas desse país.