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sábado, 30 de janeiro de 2021

Fama e Anonimato

 Confesso pra vocês que, mesmo pesquisando New Journalism por alguns anos, eu nunca havia lido “Fama e anonimato”, do Gay Talese, na íntegra. Quando estava no mestrado até tinha retirado essa obra na biblioteca da PUCRS para ler “Frank Sinatra has a cold”, mas não tinha lido mais nenhum dos outros textos que compõe essa coletânea de grandes reportagens literárias do auge da carreira de Talese. No final de 2020, quando o Papai Noel materno perguntou o que eu iria pedir, bati o martelo: “Fama e anonimato”, de Talese.



E eis que, nesse primeiro mês de 2021, na maior do parte enquanto me balançava na rede da casa de meus pais, li esse livro publicado em português pela Companhia das Letras. Aliás, li e curti. O livro é dividido em três partes. A primeira é a que mais gostei: são cinco textos sobre Nova York que formam praticamente um perfil da cidade. Lamentei, apenas, não ter lido esses textos antes de morar lá por um ano, entre 2013 e 2014, ou enquanto eu estava lá. Porém, também é muito prazeroso ler essas reportagens/crônicas conhecendo a cidade e vendo que diversas das referências feitas por Talese nos anos 1950/60 seguem as mesmos, como Madison Square Garden, Time Square, Central Park, etc. Muita coisa mudou nesse meio século, no entanto, a personalidade da cidade eu diria que continua exatamente a mesma. Portanto, esses textos são simplesmente obrigatórios para qualquer pessoa apaixonada por Nova York. Pena que fui descobrir isso apenas agora.

A segunda parte são reportagens que Talese escreveu sobre a construção da ponte Verrazano-Narrows, que liga os bairros do Brooklyn a Long Island, em Nova York. Confesso que, enquanto estive lá, não dei muita bola para essa ponte. Agora descubro que, na época, era uma das mais longas do mundo. Mesmo tendo alguns trechos relativamente longos que são um tanto quanto chatos (quando, por exemplo, ele tenta explicar as questões técnicas da construção), a parte humana é uma aula de jornalismo. Ele apresenta diversos dos construtores, conta sobre acidentes e mortes, sobre o drama das famílias que foram expulsas das casas onde nasceram pra construírem a ponte, e ainda aponta o antagonismo na relação entre os trabalhadores com a obra de concreto e os políticos e empresários engravatados que não botaram a mão na massa mas que apareceram nas fotos e na TV na hora da inauguração. Também relata de maneira muito foda o perfil dos “boomers”, que são os trabalhadores que viajam o país (e até o mundo) para trabalhar na próxima grande obra da humanidade (diversos que trabalharam nessa ponte, depois trabalharam na construção do World Trade Center, por exemplo). Também é curioso como ele apresenta a grande utilização e exploração da mão de obra indígena utilizada nessas obras. Enfim, como disse, afora as páginas meio “boring” sobre questões técnicas, é um puta texto.

Por fim, na terceira parte, aparecem biografias de famosos ou veículos badalados. Nesse trecho está “Frank Sinatra has a cold” (traduzido como “Frank Sinatra está resfriado”), bem como perfis dos pugilistas campeões mundiais em seus tempos Flory Patterson e Joe Louis (dois negros com histórias parecidas, mas com personalidades completamente distintas), a biografia do cineasta Joshua Logan, do jogador de baseball Di Maggio (que foi casado com Marly Moore) e assim por diante. Ao final do livro, a Companhia das Letras ainda colocou outros dois textos “making of” escritos por Talese anos depois sobre as reportagens de Frank Sinatra e da ponte. As duas baixas, não só da última parte, como de toda a obra, na minha opinião, são dois textos sobre veículos de comunicação que eram badaladíssimos na época: um sobre a Voge e outro sobre a Paris Review. Afora isso, é uma obra – sob o ponto de vista do jornalismo literário – quase perfeita.

domingo, 24 de janeiro de 2021

A garota de Cassidy

 Pouco antes do Natal, zanzando por uma livraria, encontrei “A garota de Cassady”, de David Goodis. Li o resuminho na contracapa e gostei: o texto da edição da L&PM dava a entender que era um estilo meio beat, meio Bukowski, meio maldito e meio suspense. Terminei de ler hoje as suas 215 páginas da edição pocket. Considerei razoável, porém, com um final decepcionante.



Apesar de ser uma boa história, a linguagem é bem diferente do texto cru de Bukowski, por exemplo. Cenas de sexo são descritas sem palavrões. A única semelhança é a bebedeira: praticamente todos os personagens são alcóolatras. O protagonista é um desgraçado sob o ponto de vista da sorte. Resumindo, dificilmente possa existir alguém tão azarado quanto ele no mundo real. Cassidy – esse é o seu nome - era um piloto de avião que se mete numa enrascada e é preso algumas vezes até que acaba se escondendo no interior americano. Lá, refaz a vida, casando-se com uma megera bêbada, agressiva e possessiva. Então, há uma dúvida de quem é a garota de Cassady: a esposa ou Doris, uma alcóolatra igualmente azarada na vida por quem ele se apaixona. Para resumir, ele se mete em uma confusão parecida com a que tirou ele da avaliação, mas agora dirigindo um ônibus. Aí começa todo o suspense que caracteriza Goodis como autor noir. Porém, dessa vez, não darei spoiler nem para o eu do futuro.

Limito-me a dizer que é um romance bonzinho, que fica lançando mil perguntas para você seguir lendo, atiçando a curiosidade, mas que beira ao extraordinário. Ou seja, a sequência de acontecimentos não são muito verossímeis. Faltava apenas super poderes, como voar ou atravessar paredes, para ser um romance de super herói, apesar de que o herói, nesse caso, é um anti herói azarado ao extremo. E temos ainda o final do livro, que me decepcionou demais. Eu esperava uma coisa e aconteceu o oposto. Porém, é um oposto meio happy end que reverte o caráter que alguns personagens demonstravam na narrativa até ali. Senti-me enganado, no mau sentido.

Acabei lendo esse romancezinho intercalando com a coletânea de reportagens “Fama e Anonimato”, do Gay Talese. Já tinha lido “Frank Sinatra has a cold” (que aparece nesse livro), porém, nunca tinha lido essa obra na íntegra. Agora estou lendo e devo acabar na próxima semana. Voltei a intercalar dois livros depois de bastante tempo e, vou confessar, foi uma bela repetição de experiência, pois assim como as histórias de Talese pegam os Estados Unidos dos anos 1950, 60 e 70, o texto de Goodis acontece no mesmo país nos anos 1940/50. Ou seja, mesmo sem querer, parece que os personagens de um livro se relacionam com os do outro. Claro que, para você fazer todo esse paralelo, uns latões de cerveja ajudam. Enfim, não me atrevo a indicar ou não “A mulher de Cassidy”, pois penso que alguns provavelmente vão adorar, enquanto outros vão odiar. Para mim, foi um livrinho interessante, mas que não chegou a me surpreender – uma boa história com final decepcionante. E isso é tudo.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A possibilidade de uma ilha – Montanha russa literária

                 Terminei de ler hoje “A possibilidade de uma ilha”, do escritor francês Michel Houellebecq. No Brasil, trata-se de um livro raro. Publicado pela Record, está esgotado na editora e em todas as livrarias. Só é possível encontrar unidades em sites como Estante Virtual. O preço mais barato que achei foi de aproximadamente R$200. Vale a pena o investimento? Vou responder ao final do texto.


             Primeiro, trata-se de um livro montanha russa. Certamente esse é o livro que mais intercala páginas e páginas geniais com páginas e páginas horríveis. Tudo porque é possível pensar na narrativa em duas histórias. Na primeira, que é a genial, e que deveria compor com exclusividade a obra, é a história de Daniel, um sujeito comum, que vira humorista de stand up comedy na França com muito sucesso, principalmente explorando os piores instintos humanos (que é vulgarmente chamado de “humor negro”, apesar de eu preferir o termo “humor de mau gosto”). Enfim, na narrativa de Daniel1 está o lado bom do livro – até certo ponto. Ele conta sobre os seus romances, narra o seu declínio profissional, físico e psicológico, vive a famosa crise dos 40, apaixona-se, muda-se para a Espanha, termina o casamento, apaixona-se de novo por uma garota espanhola com a metade da sua idade, é abandonado por ela, e ainda tem sacadas genais sobre a sociedade, como o fato de que quem sustenta essa adoração e esse culto pela beleza e pela riqueza é, na sua maioria, os feios que nunca serão bonitos e os pobres que nunca serão ricos. Geralmente quem é rico e bonito nem pensa sobre o assunto. Assim, as pessoas passam a vida tentando serem bonitas e sonhando com uma riqueza que nunca vai vir – o que justifica boa parte da frustração humana. No entanto, não vou me alongar, pois são várias reflexões ou cenas que levam a tais pensamentos nos textos do personagem Daniel1. Esse é o lado genial da obra e que vale a pena ler.

                O que estraga o livro é o enredo principal. Daniel1 é o último da geração de humanos que é sucedida pelos “neohumanos”. No entanto, o texto já começa a ficar chato quando ele entra em uma seita chamada de “helohimismo”, que defende que a humanidade do futuro não será formada por filhos, mas sim, por clones, assim cada um terá a vida eterna, sendo clonado sucessivamente por gerações – no entanto, a clonagem só traz a semelhança física, não as lembranças da antiga vida. Assim, cada Daniel escreve um diário. O livro é composto pelos diários de Daniel 1, Daniel 24 e Daniel 25. Porém, as narrativas de Daniel 24 e Daniel 25 são pura viagem na maionese, além de serem chatas pra caralho. É uma viagem completamente sem sentido e achei absurda demais, pois eu tinha calculado que o Daniel 25 viveria aproximadamente 1.500 anos depois do Daniel 1, mas Houellebecq conta, em determinado trecho, que ele vive 2.000 anos depois. O bizarro é que o cara vive dois mil anos depois mas cita apenas autores pré-século XX, quer dizer, em 2.000 não aconteceu nada digno de nota e não surgiu mais nenhum autor histórico ou clássico? Achei essa uma falha gravíssima da narrativa. Mas isso é o de menos – o texto ficou chato pra caralho mesmo quando entra nesse tema futurista.

                Fazendo uma projeção simples, das cerca de 470 páginas da obra, penso que umas 150 se salvam (e poderiam formar um romance separado, perfeito, se Houellebecq tivesse se preocupado apenas em contar a história de Daniel1, sem querer viajar na maionese). Portanto, concluo que não vale a pena pagar duzentão para comprar esse livro, até porque é o pior dos que li do autor francês: prefiro muito mais Partículas Elementares e Plataforma, nessa ordem. O que eu sugeriria para o astuto e critico leitor é pegar emprestado (ou em alguma biblioteca) “A possibilidade de uma ilha” e ler apenas os relatos do Daniel 1, e mesmo assim pular as partes em que ele conta sobre a maldita seita, pois ele faz descrições chatas e irritantes. Finalizando, penso que não apenas é injustificável pagar duzentos barões no livro, como também não vi muito sentido no sucesso que ele fez na época do seu lançamento (2006, se não me engano) – achei que essa imaginação dele sobre o futuro foi muito tosca e muitas já foram por água abaixo em menos de 15 anos, quem dirá imaginar isso em 2.000! 


Por isso, volto a repetir: se o livro ficasse apenas na história e nas reflexões de Daniel1 sobre o cotidiano dele, os casos amorosos, as relações interpessoais, a crise dos 40 e a crítica social, esse seria um dos melhores livros que já li. Mas já que não é assim, só posso lamentar pelo tempo perdido e pelos duzentões jogados pelo ralo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Black Bazar

Acabei de ler pela primeira vez na vida um livro de um autor da República do Congo. Não confundir com a República Democrática do Congo, o Congo grande, o antigo Zaire, ou ainda, a terra do Mazembe. A República do Congo é um país e a República Democrática do Congo é outro. A primeira é chamada de Congo pequeno e tem praia no Oceano Atlântico e a segunda é conhecida como Congo grande, e não tem praia. Os apelidos, obviamente, são devido à diferença entre ambos no tamanho geográfico. E mais: o Congo pequeno foi colonizado pelos franceses enquanto o Congo grande (terra do Mazembe) foi colonizado pelos belgas. Enfim, eu aprendi tudo isso e muito mais depois de ler o livro de Alain Mabanckou, Black Bazar, além de ficar sabendo que o pessoal do Congo pequeno odeia quando confundem o seu país com o Congo grande e vice-versa. E mais: eles odeiam do fundo do coração quando as pessoas acham que o Congo é um único país, pois eles não gostam de ser confundidos com os seus vizinhos (e rivais). Ponto.

            Tudo isso aprendi com as histórias de fundo de Black Bazar, porque esse não é um livro de história, nem um romance histórico, nem um livro-reportagem, nem nada do gênero. Trata-se de um romance ficcional escrito por Alain Mabanckou e publicado em português pela editora Malê. O enredo é o seguinte: o personagem principal vive em Paris e arranja uma mulher com quem tem uma filha. Ela o abandona para voltar para o Congo pequeno com o amante, que é seu primo. Não tem spoiler nisso, pois desde o início fica claro que essa é a trama. No entanto, nas páginas que se seguem, o personagem-narrador vai contando o que aconteceu, desde que conheceu a moça (que é francesa, descendente do Congo), até as brigas e o fato dele desconfiar que a filha não é fruto do seu relacionamento, mas sim do caso da mina com o amante, etc. É escrito quase que num formato de coletânea de crônicas, ou seja, é uma linguagem e um estilo que variam entre o cômico, o irônico e a contextualização histórica com as explicações que apresentei no primeiro parágrafo desse texto. O mérito é ter um enredo e um texto leve, para ser lido para relaxar: não tem nenhuma trama mirabolante, nem jogos temporais, nem nada que exija muito do leitor para entender o troço todo. Enfim, depois de ler O som e a fúria, de Faulkner, é como você estar tomando cachaça e passar para uma cervejinha bem light.

(Verde: Congo pequeno. Laranja: Congo grande - República Democrática do Congo, terra do Mazembe)

            É um bom livro, mas também não tem nada de espetacular. Claro que se pode fazer uma leitura sob a perspectiva de que o autor conta o cotidiano de imigrantes africanos em Paris – algo sociologicamente importante -, bem como as diferenças e até rivalidades entre os africanos de diferentes países – nigerianos, costa-marfinenses, congoleses, sul-africanos, angolanos, etc. Ah, outro ponto importante é que o personagem não chama os outros personagens pelo nome, mas sim, por apelidos. Ele próprio é o Bundólogo, devido a sua tara por bundas. Ele analisa as mulheres – e suas personalidades – conforme o formato e o movimento da bunda. Se fosse comparar com um autor brasileiro, o estilo dele me lembrou um pouco o do David Coimbra dos velhos tempos (o que falava de relacionamentos, não o atual, que quer se meter a falar de política e outros assuntos sérios e acaba exagerando nos clichês e nas bobagens).

            Pesquisando sobre o autor, descobri que ele é do Congo pequeno, da mesma cidade do personagem da obra (mas não descobri se o livro tenta ser uma autobiografia ou não) e que atualmente ele é professor de Literatura na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Para resumir, mesmo não colocando essa obra numa imaginária lista de 50 melhores livros que já li, pretendo ler outras obras dele, justamente pelo seu estilo leve, para descontrair e para refletir sobre relacionamentos (que tem os mesmos prazeres e problemas no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, no Congo, na China, no Japão, na Groelândia, no Paraguai, no México, no Polo Norte, etc). O ponto fraco da obra, para mim, são os parênteses muito extensos que ele usa para contar histórias paralelas que não tem nada a ver com o enredo principal, como por exemplo, quando ele conta sobre o assassinato de um político antigo do Congo pequeno que foi assassinado pelo presidente por ter comido a cafetina amante do chefe de Estado. Acho que ele se estendeu demais nessa história que não tinha nada a ver com o drama do protagonista. Há uma ou outra historinha nesse sentido, mas, na literatura nada se perde, tudo se aproveite (nem que seja para espantar a insônia).

            Para concluir, fazendo um parecer final do livro para o enxerido leitor, meu veredicto final é: indico.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O som e a fúria


             Acabei de ler o livro “O som e a fúria”, de William Faulkner. Eis um puta livro, que gostei, mas não recomendo para ninguém. Explico-me. Eu peguei “O som e a fúria” para ler enquanto estava na quarentena dentro da quarentena (vou comentar sobre isso, talvez, algum dia nesse espaço). Acho que acumulei energia e, mesmo com a sensação de cansaço no corpo, meu cérebro estava a mil: ou seja, não tinha sono. Então, eu consegui ler até que de certa forma tranquilamente até a página 184, sem sentir sono. Eu lia, lia, lia, não entendia quase nada, mas seguia lendo e lendo e lendo, tentando conectar uma coisa com a outra, tentando dar um nexo e um sentido a tudo. Não foi fácil. O que me ajudou, de fato, foi o fato de meu cérebro estar acelerado, a tal ponto que cheguei nessa mesma página 184 em três dias. O que isso quer dizer? Simples, o livro começa a fazer sentido apenas a partir da página 184. Na verdade, para entender a narrativa sob um olhar lógico e mais linear, você poderia simplesmente pegar o livro e começar a lê-lo na página 184. Diria que as primeiras 184 páginas de “O som e a fúria” é um nariz de cera gigante (conceito do jornalismo para se referir às enrolações que os jornalistas faziam antigamente antes de chegar ao principal da notícia).

      Mas, vamos à história. Mais uma vez ressalto que esse texto contém spoiler e que está sendo escrito, principalmente, para minha consulta futura, para quando minha massa cinzenta tiver apagado da minha memória tudo o que li nos últimos dias. A narrativa é dividida em quatro partes bem definidas, na voz de três narradores-personagens e de um narrador onisciente. Alguns anos depois, Faulkner escreveu um epílogo, contando o destino dos personagens, pois ao final da versão original (de 1929) é como se ele simplesmente tivesse abandonado a todos em meio de um labirinto sem você fazer ideia sobre o que possa ter acontecido com cada um. Penso que, provavelmente, por críticas e questionamentos, ele deve ter escrito esse epílogo cerca de 20 anos depois para resolver esse abandono dos personagens nesse labirinto literário.

            O primeiro narrador é Benjamin. Ele sofre de um profundo retardo mental. É interessante porque – pelo que tenho conhecimento – esse é talvez o único (se não o único, o mais famoso) personagem escrito na voz de um deficiente mental. Você consegue entender isso, mas aos poucos você também vai percebendo que o personagem mistura tudo, tempo, acontecimentos passados e presentes, personagens, histórias, etc. O que é um mérito, pois ele realmente parece ilustrar o pensamento de uma pessoa nessa condição. Nessa etapa, o personagem está com 33 anos e está quase sempre sendo cuidado por crianças de cinco a 14 anos, que o tratam como se fosse um bicho de estimação – mas sempre brigando com ele com um ar infantil, dizendo coisas como “Pare de chorar, seu bobão!” ou “toma, pega essa flor e fica quieto”. 

Ele chora a toda hora e por qualquer coisa e se acalma geralmente olhando o fogo ou quando dão para ele algum chinelo ou objeto qualquer. Ele tem uma afeição especial por Caddy, sua irmã, e chora sempre que ela sai de casa. Tudo isso dá para ir conectando com a linguagem desconexa desse trecho da narrativa. Ah, o nome dele originalmente é Maury, mas quando a mãe dele percebe que ele é deficiente mental ela resolve mudar para Benjamin para ver se muda a sorte do rapaz – obviamente que não resolve em nada. E a história toda se passa entre 1910 e 1928 – mas desisti de tentar pensar cronologicamente nessa parte e na próxima. Vencer essas páginas em condições normais (ou seja, cansado, com sono) seria impossível. Admito que só cheguei ao final desse capítulo devido a minha insônia e condição de cérebro acelerado, possivelmente pelo acumulo de energias de ficar parado na quarentena da quarentena.

            O segundo narrador é Quentin. Antes de seguir com ele, vale ressaltar que a narrativa gira em torno da família Compson, formada por Jason patriarca, Dona Caroline matriarca, e pelos filhos: Benjamin, Quentin e Jason filho (narradores) e Caddy, irmã que é marcante na narrativa dos três. Além disso, era época da segregação racial americana, então, fica explícito o total preconceito, racismo e desprezo da família branca em relação aos criados – chefiados por Dilsey, mãe de Fronny e Luster. Ainda há T.P, outro criado negro da família. Enfim, expressões como “Não se meta na coisa dos brancos” ou “esses negros não servem pra nada” ou ainda “trabalho o dia inteiro para ter um monte de negros comendo na minha cozinha” são comuns na narrativa. Não vou me ater a nenhum ponto específico da obra, pois há estudos e mais estudos de especialistas sobre isso, então, apenas vou apresentar o enredo mesmo. Apesar de Quentin não ter o mesmo problema mental de Benjin, ele também é completamente perturbado. Ele é apaixonado pela irmã, Caddy, e morre de ciúmes dela. Ele odeia qualquer pretendente ou namorado e fica possesso em pensar que ela possa ter perdido a virgindade. É completamente depressivo e alterna momentos de lucidez com misturas de fatos e épocas, o que confunde muito a leitura. Também há extensas frases sem sentido, o que pode fazer com que o leitor pegue no sono ou desista da obra. Enfim, apesar de ser mais linear e lógico que o texto de Benji, ainda não há um nexo completo e é preciso ir juntando milhares de peças de quebra-cabeça para tentar dar sentido a tudo. Por exemplo: você só vai entender que Quentin se matou na fala de Jason. Por falar nisso, chegamos ao terceiro narrador.

         Na terceira parte, que começa na página 184, Jason filho assume a narrativa. A essa altura Jason pai já morreu e a mãe, Dona Carolina, é uma espécie de senhora que passa o dia na cama sempre achando que está prestes a morrer. Quando ela é incomodada pelos choros de Benjamin, ela aparece na cozinha e briga com os criados, dizendo coisas como “não posso mais nem sofrer em paz?” ou “Jason, meu filho, logo não vou mais estar aqui e você será mais feliz”. Está sempre se queixando e não nega o favoritismo moral a Jason filho. No entanto, o personagem é um filho da puta de marca maior. Seria como um Bolsonaro de classe média americana. Racista ao extremo, golpista, ladrão, sem vergonha, mas que adora reclamar do governo, dos empresários e do mundo inteiro. É um revoltado que ficou puto porque viu os pais gastarem todo o seu dinheiro para mandar Quentin para Harvard (e ele se matou) e para o casamento de Caddy (que pouco depois foi abandonada pelo marido). Enfim, ele odeia o mundo e a hipocrisia é a sua marca maior. Eu conheço gente como ele, inclusive, em vários trechos sublinhei e marquei o nome de uma pessoa em especial, que tem atitudes exatamente como as de Jason. É um personagem revoltante que dá vontade de pegar e esfolar vivo.

           

    Agora, vamos montar o quebra-cabeças. Quentin é apaixonado pela irmã, Caddy, é enviado para Harvard e, pouco tempo depois de chegar lá, após se meter em algumas confusões até certo ponto cômicas, acaba cometendo suicídio logo que a irmã se casa. Caddy, no entanto, engravidou e casou com um sujeito para tentar salvar o nome, porém, o marido descore tudo e a abandona logo após a consolidação do matrimônio. Ela, por sua vez, que já mora em outra cidade, larga a criança para a mãe cuidar. Jason filho odeia a criança desde bebê, pois ele estava para conseguir um emprego em um banco graças ao cunhado. Então, ele atribui a perda da única chance que ele teria na vida ao nascimento da criança. Ele rouba o dinheiro enviado por Caddy até ela ter 17 anos. Além disso, ele inferniza a guria, sempre dizendo que saiu vagabunda igual a mãe, que matava aula para sair dando por aí, aquela coisa toda. O troço vai indo (vale lembrar que Caddy nunca mais voltou para ver a filha, até porque estava proibida de fazer isso pela família inteira) até que a guria, um belo dia, consegue entrar no quarto de Jason e pega toda a grana e se manda com um namoradinho que trabalha num circo que está na cidade. Jason fica louco, sai atrás deles, mas não acha. Tenta convencer a polícia a ir atrás, mas o próprio delegado conhece a peça e suspeita que a grana não era dele mesmo. Dona Carolina, apesar do filho traste, que sempre a humilha, tem uma devoção pelo filho da puta. Enfim, num resumo do resumo, a narrativa encerra com esses dilemas: Quintin (filha de Caddy, que recebeu o nome do tio suicida) foge com o cara do circo levando a grana, Dona Caroline segue na cama achando que vai morrer, Jason fica puto da vida sem saber o que fazer. Claro que os personagens, que são os criados, participam de toda a narrativa, comentando, tentando entender o que acontece, etc. A essa altura, Jason também já tinha mandado castrar Benji, depois que ele conseguiu escapar do portão da casa e atacar uma garota que andava pela calçada. Além disso, em outra cena, ele ganha ingressos para o circo e Luster, filho adolescente da empregada Dilsey, quer ir mas não tem nenhum centavo. Jason tenta vender os ingressos por 5 centavos mas, como o garoto não tem, então ele queima os ingressos na frente do guri. Contei isso para vocês terem uma ideia da filhadaputice desse filho da puta que parece com alguém que infelizmente conheço.

            Por fim, a narrativa fica por aí. Como disse, 20 anos depois, Faulkner voltou e deu um rumo para cada personagem, mas não vou repetir aqui, basta ler o epílogo da obra. A única que continuou sem paradeiro foi a Quentin, que apenas fica claro que ela fugiu e nunca mais voltou, mas Faulkner não conta o que aconteceu com ela, ao contrário do que faz com todos os outros (Benjamin, por exemplo, após a morte da mãe, é enviado a um hospício pelo irmão).

            Esse é o resumo do resumo de “O som e a fúria”. Um romance completamente fragmentado (segundo o tradutor, com forte influência de Ulysses, de James Joyce), mas com ação, movimento, dramas, perseguições, violência, racismo, amor, decadência, resistência e tudo o mais que pode ter uma boa narrativa literária de ação. Como disse lá no início, o problema é vencer as 184 páginas iniciais (metade do livro). Por isso, indico esse livro apenas para quem tenha essa paciência. Ou, então, para quem esteja de quarentena com o cérebro a mil, precisando um pouco de som e de fúria.

            Hasta!

 PS: as imagens são do filme, que ainda não vi.

sexta-feira, 20 de novembro de 2020

 Guerra e Paz – Parte 4


     


       
    TERMINEI!!!! Já ficando meio maluco de vez, terminei hoje de ler as 1.491 páginas de Guerra e Paz, de Leon Tolstói, publicado pela L&PM em quatro edições. A sensação de cansaço se deve às últimas 45 páginas, que na verdade são como um posfácio de Tolsoi onde ele fica divagando – meio que tomado de nóia – sobre conceito de liberdade. Mas, afora isso, a quarta parte de Guerra e Paz é igualmente espetacular.

            Destacaria duas vertentes sobre essa quarta parte. Primeiro, o contexto histórico e social. Claro que essa história é contada pelas trajetórias dos personagens (com suas falas e ações), mas vou tentar explicar isso em um contexto mais amplo e geral. Tolstói mata no romance uma das minhas principais dúvidas que eu tinha quando peguei a obra para ler: como o exército francês, tão mais forte, tão numeroso, tão favorito, consegue decair a ponto de ter que fugir de Moscou e da Rússia? Eis a mágica das páginas de Tolstói. Ele escreve passando a impressão de que esse final – que num olhar durante os acontecimentos parecia impossível – era perfeitamente imaginável. É como um time virar o primeiro tempo sem jogar nada, tomando 3 a 0 diante da sua torcida, ir para o vestiário vaiado e na volta virar o jogo para 4 a 3. Bueno, vamos aos fatos.

            O exército francês, que foi para a Rússia com mais de 600 mil homens (na época a França tinha 44 milhões de habitantes) invade Moscou, conforme contado na parte 3, resumida no post anterior. Bueno, estão lá, os franceses todos, de boas numa Moscou abandonada, curtindo o outono, saqueando a cidade, carregando as carruagens com joias e comendo tudo o que encontravam pela frente. Então, como explica Tolstói, ao invés de Napoleão (ele ironiza a fama de gênio militar contando esse “causo”) se preparar para o inverno, organizando o exército com mantimentos, comida e roupa, ficou lá, um mês coçando, comendo e saqueando. É mais ou menos a história da cigarra e da formiga – no caso, a formiga são os russos e a cigarra é o exército de Napoleão. Pois bem. Aos poucos, os russos que fugiram e estavam nas proximidades começaram a formar milícias e, com uma tática de guerrilha, começam a atacar os franceses. A comida vai acabando, os franceses percebem que os russos não voltarão a Moscou enquanto eles lá estiverem (e, com isso, eles mesmos teriam que plantar, produzir roupas e se organizar enquanto sociedade) e ninguém respeita os decretos de Napoleão. Por exemplo, ele manda os comerciantes russos voltarem ao trabalho, prometendo que os militares franceses não vão mais saquear nada, que tudo ficará bem e que só haverá paz e amor no novo império napoleônico. Resultado: ninguém volta ao trabalho e os militares seguem saqueando. Enfim, o caos toma conta e (eis de novo a história da formiga e da cigarra) o inverno chega!

            Os franceses começam a se retirar, mas não conhecem muito bem o terreno. Assim, as colunas francesas vão sendo atacadas tanto pelo exército oficial da Rússia, quanto pelos grupos guerrilheiros. Sintetizando, quem estava massacrando passa a ser massacrado. E mais: os russos nem precisam fazer nada, porque os batalhões franceses vão minguando com as mortes causadas por fome e frio. Podia aparecer dez russos montados a cavalos que um grupo de mil franceses se rendia, pois eles pensavam que sendo prisioneiros pelo menos receberiam comida. No entanto, o exército russo não estava muito melhor: a perseguição é de um exército esfarrapado contra um exército morto de frio e de fome. E, mesmo os russos acabam tendo muitas baixas causadas pelo clima adverso e a falta de mantimentos. Portanto, a gente tem uma raposa velha e renga perseguindo um coelho virado em coro e osso. E tudo isso a temperaturas abaixo de 0°C no início do século XIX. Essa perseguição vai até os franceses conseguirem deixar o país. Esse é o resumo do resumo do fracasso francês e do fim do sonho e Napoleão de conquistar o mundo (sonho imitado mais de 100 anos depois por Hitler e que também termina na Rússia).

            Bueno. Tolstói, especialmente nesse quarto volume, mescla o romance com alguns capítulos escritos como se fossem ensaios sobre a situação da Rússia na época. Ele escreve abertamente desenhando Napoleão como um psicopata megalomaníaco do nível do Hitler e defende o marechal Kutuzov, criticado pelos russos – especialmente pelos historiadores – por não ter aniquilado completamente os franceses, prendendo ou matando Napoleão. No entanto, Tolstói explica que, para isso, ele teria que sacrificar os próprios homens. A situação foi praticamente essa: ou os russos matariam os franceses (incluindo Napoleão) mas também se matariam e ficariam sem exército, ou faziam essa perseguição no cangote dos franceses até os poucos sobreviventes do frio e da fome deixarem o país. Kutuzov optou pela segunda alternativa e foi massacrado pela opinião pública, morrendo nessa condição de “militar burro e desastrado”. O título da obra, claro, já é uma defesa de Kutuzov, afinal, com escreveu Charlie Brown no filme do Snoopy, primeiro veio a guerra e depois veio a paz. Simples assim. Se não fosse Kutuzov, teria havido mais guerra e milhares de russos teriam que ser sacrificados para aniquilar completamente o inimigo. Entenderam? Se não entenderam, leiam tudo de novo. Ou melhor: leiam o livro. Aliás, já falei que esses resumos são para consulta pessoal futura, quando eu não lembrar mais nada da narrativa...

            Pois bem, obviamente Tolstói fala sobre muitos e muitos outros pontos dessas questões, mas vou parar por aqui no que diz respeito à contextualização histórica. Vamos, agora, aos personagens.

            Pedro, que no final da parte 3 havia sido preso ao defender uma mulher que teve o colar roubado por um soldado francês, segue preso. Na prisão, ele reflete muito, inclusive conclui que a falta de liberdade na prisão é mais ou menos a mesma – moralmente falando – que a que ele sentia no casamento dele com Helena. Na prisão, ele se destaca, pois é um dos poucos da alta sociedade russa a estarem presos (a maioria são camponeses, comerciantes ou soltados). Ele presencia e descreve a execução de vários prisioneiros russos. Resumindo, quando os franceses resolvem deixar Moscou, levam consigo os prisioneiros. Óbvio que, se não tinha comida nem para o exército, quem dirá para os presos. Assim, aqueles que não conseguem mais andar, vão sendo fuzilados pelo caminho. Ponto. Agora vamos para histórias paralelas, que vão se cruzar com essa.

            Primeiro, Helena. Lá pelas tantas, Tolstói volta a falar nela, enquanto Pedro está preso, e ela acaba falecendo sem saber onde está o ex-marido. Tolstói dá a entender que pode ter sido remorso, por ela ter pedido a separação para se casar com um amante mais velho para, depois que esse morrer, casar com o outro amante, mais novo. Segundo, um batalhão formado por Dolokov, Denissov e Pétia (o guri de 16 anos, filho mais novo dos Rostov) é quem liberta os prisioneiros do acampamento de Pedro. Ironia do destino: Dolokov, quase morto por Pedro em duelo anteriormente, salva a vida dele, agora. Porém, o mais comovente dessa parte é o entusiasmo de Pétia, querendo ver ação do alto de seus 16 anos. Tolstói descreve muito bem essa empolgação juvenil diante da guerra e, foi justamente por causa dela, correndo loucamente para atacar o inimigo, que Pétia acaba levando uma bala na cabeça e morrendo, para desespero de Denissov, amigo da família Rostov. Ponto.

            Enquanto isso, o príncipe André, ferido na parte 3, é levado junto com os Rostov, o que faz com que ele se aproxime novamente de Natacha. Os dois voltam a se apaixonar (a essa altura Anatole já morreu), porém, não há esperança para André escapar. A princesa Maria, irmã de André, vai para onde estão os Rostov e acaba ficando amiga de Natacha. Logo, o príncipe André morre, deixando o filho Nikolucha para Maria cuidar. Natacha entra em depressão e se considera a pessoa mais infeliz e desgraçada do mundo. Porém, vem a notícia da morte de Pétia, seu irmão mais novo, e aí quem cai em desespero são os pais deles: o conde Rostov e a condessa. O conde vive mais um ano e também morre. Pedro reaparece e, resumindo mais ainda, findada a guerra, acaba se apaixonando por Natacha, que corresponde aos seus sentimentos. Assim, eles se casam e têm filhos (na última parte Tolstói dá um pulo de sete anos na história). É engrada a descrição do casamento dos dois: Natacha é aquela esposa típica, possessiva, ciumenta e que descuida com a aparência, mas morre de ciúmes e medo de que o marido vá trocá-la por outra. Pedro segue sendo o mesmo personagem desengonçado e submisso de sempre, apesar de ter ideias revolucionárias.

            Já Nicolou Rostov, após perder o irmão caçula, acaba recebendo uma carta de Sônia, sua prima pobre, dizendo que ele não precisa mais manter a palavra de casar com ela. A carta, porém, só foi escrita devido a pressão feita pela condessa, mãe de Nicolau e tia de Sônia. Assim, Nicolau opta por se casar com Maria e, tal casamento, acaba livrando a família inteira da falência (mas isso só após a morte do conde Rostov).

            Agora, uma síntese-spoiler: o romance termina com a descrição da vida dessas duas famílias: Pedro, Natacha e os filhos morando nas propriedades de Pedro, que segue sendo um conde rico, e Nicolau casado com a princesa Maria, morando no palacete do velho príncipe Nicolau, pai de Maria, o rabugento que já tinha morrido antes.

            E os demais? Pois vamos lá. Como disse, o príncipe André morreu na guerra, bem como Pétia. Helena Kuraguini morreu de doença. O pai dela, o príncipe Vassili, segue vivo até o final, mas praticamente não se fala mais nele, bem como no seu filho mais velho, Hipólito (que, aliás, praticamente não aparece em todo o romance). Anatole, o filho mais novo, também morreu na guerra. Já os personagens Ana Mikailovna e o filho, Bóris, que no início aparecem bastante, são abandonados. Simplesmente ficaram esquecidos lá pelas tantas e não se tem mais notícia deles, o que leva a crer que, no real mundo imaginário do autor seguiram suas vidas até a velhice. Por fim, a condessa Rostov, mãe de Nicolau e Natacha e do falecido Pétia vive até o fim do romance, mas fica visível a presença do mal de Alzheimer nela (mesmo que Tolstói não use esse nome). É curioso, porque mostra que, na época, ninguém tinha paciência alguma com quem sofresse dessa doença: ela é tratada como se fosse apenas uma velha esquecida que lembrava apenas das coisas de antigamente.

            Assim, finalizo esse meu resumão de Guerra e Paz. Óbvio que muitíssimas coisas ficaram e fora, por isso digo, vagabundo leitorinho enxerido: saia do computador/celular e vá ler o livro na íntegra! Hasta la vista!

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Guerra e Paz – Parte 3


           

  Não consegui cumprir a meta de ler o terceiro volume em dez dias. Explico-me: vieram as eleições americanas e tudo parou. Fiquei de terça até sábado sem ler uma mísera página. Além dos compromissos profissionais e dos desafios do Fifa 21, acompanhei a virada histórica de Biden contra o representante do Demo na Terra. Assisti a tudo como se fosse uma final de Copa do Mundo. E, assim, atrasei a leitura e fui terminar esse terceiro volume apenas ontem.

            Se no volume dois a guerra tinha ficado de lado, ela voltou com tudo no terceiro volume. Não sei precisar exatamente os motivos, mas creio que esse foi o melhor trecho do Guerra e Paz que li até agora. De início, Tolstói começa explicando a banalidade do início da guerra. Em síntese, Napoleão estava entrando cada vez mais na Rússia, mas de boas, como se estivesse passeando acompanhado do seu exército, quando um funcionário do império russo pediu os documentos dele. Pra quê! O imperador megalomaníaco tomou isso como ofensa pessoal e, somando-se a outros motivos fúteis, ele declarou guerra ao seu até então amigo, o imperador russo Alexandre. A partir de então, tudo muda. E são tantos os pontos para reflexão, que certamente a maioria deles vão ficar de fora por lapso de memória desse que vos escreve.

            Primeiro, diante desse cenário e da expectativa de uma nova guerra há uma divisão na sociedade russa. E isso justifica a tática de Napoleão para tomar a Rússia: dividir para conquistar. Ele apresenta como objetivo invadir a Rússia e criar uma Europa única, mantida sob a sua espada. Na cabeça ele, essa era uma boa ação: no império europeu ele seria o imperador, faria justiça com as próprias mãos, todos seriam felizes e não haveria injustiças nem tristezas. O curioso é que hoje a gente ainda se surpreende quando vemos pobres e trabalhadores defendendo políticos dos magnatas e dos ricaços, como o patético Bolsonaro no Brasil ou o demoníaco Trump, nos Estados Unidos. A gente não consegue entender como imigrantes adoram um político que odeia imigrantes! Como negros apoiam um político racista! Como mulheres defendem com todas as forças um presidente machista! E assim por diante... Mas, lendo Guerra e Paz, percebo que isso sempre existiu, pois fica evidente que havia uma divisão na sociedade russa entre os pró-Rússia e os pró-Bonaparte. Ou seja, mesmo com Napoleão invadindo a Rússia, matando e devastando o que encontrasse pelo caminho, havia aquele grupo (geralmente da elite, diga-se de passagem) que achava que era melhor para a Rússia ficar sob o comando de Napoleão. Assim, havia dualidade e polaridade política na Rússia das guerras napoleônicas de 1812.

            Um personagem que ilustra isso é o príncipe Vassili. Ele, como bom capacho, circula pelos dois ambientes. Então, quando ele está num jantar chique pró Napoleão, ele fala como se fosse um bonapartista. Porém, quando ele está em um ciclo pró Rússia, ele age como se odiasse o imperador francês. Mas, nessas descrições, Tolstói apresenta cenas que parecem acontecer no Brasil ou nos Estados Unidos de 2020. É como se o personagem circulasse entre sociedades trumpistas e pró-Biden, ou bolsonaristas e petistas. Muito bizarro.

            Natascha, como uma jovem adolescente, sai da depressão de ter perdido o noivo e o amante em uma tacada e começa a se empolgar com toda a movimentação da guerra como se fosse uma brincadeira. Pétia, o irmão caçula dos Rostov, implora tanto aos pais que o deixem ir para a guerra (ele está com 16 anos) que o conde e a condessa Rostov acabam cedendo, mas tomando o cuidado para que ele fosse para um regimento mais seguro. André Bolkonski, o príncipe abandonado por Natascha, vai para a guerra, bem como Anatole, o amante frustrado. Pedro Bezukov fica em Moscou acompanhando tudo, mas ele vai ao campo de batalha em uma cena muito cômica, apenas por curiosidade. Ou seja, os exércitos estão se matando e ele está zanzando por ali, como um turista... É muito engraçado, mas Tolstói usa muito bem essa cena humorística para descrever o terror da guerra. Assim, ele consegue algo raro: ao mesmo tempo em que diverte, ele também deixa o leitor impressionado com cenas realistas das atrocidades que o homem é capaz de cometer. Como escreveu Tolstói: “A finalidade da guerra o homicídio; suas armas são a espionagem, a traição, a ruína dos habitantes, o saque e o roubo organizados para a manutenção do exército, a fraude e a mentira mascaradas como astúcias de guerra” (p.954).

            Outra semelhança com a contemporaneidade: o desencontro de informações. Boatos correm como se fossem fake news de whatts app. Uns dizem que os franceses querem invadir Moscou, outros não acreditam. Uns dizem que os franceses estão sendo expulsos pelo glorioso exército russo, outros alegam o contrário, e assim por diante. O troço todo vai indo, há toda uma descrição das posturas dos comandantes dos dois exércitos, há cenas memoráveis envolvendo Napoleão, mas o ponto alto é a batalha de Borodino, um povoado próximo a Moscou. As tropas de Napoleão marcham em direção a Moscou e param próximo a essa cidade, que está tomada pelo exército russo, que promete defender a capital até a morte. Os dias se passam com angústia e há uma grande expectativa no ar. Os dois exércitos estão confiantes, mas ao mesmo tempo não tem certeza da vitória. Eis a complexidade da batalha. O confronto começa (e é nesse que Pedro está zanzando entre os soldados, apenas observando, como se fosse um turista) e logo se percebe que o exército francês é mais forte. Porém, o exército russo é mais determinado. Os dois exércitos se massacram. No entanto, Napoleão poderia ter ganho essa batalha se sacrificasse a sua velha guarda, porém, ele sabia que seria eternamente criticado por seus apoiadores se fizesse isso. Pelo que entendi, houve um empate. Os franceses não avançaram, mas os russos ficaram em frangalhos. Assim, os franceses mesmo sem ter oficialmente ganho essa batalha apenas esperaram os russos saírem dali para avançar sobre Moscou. Claro que o exército francês também estava destroçado e havia tido milhares e milhares de baixas.

            E aqui entra outra descrição histórica, através dos personagens: a fuga de Moscou. Os condes, príncipes e fidalgos todos resolvem abandonar a cidade, levando tudo o que podiam. Assim, quando o exército russo chega em Moscou encontra apenas poucos moradores, uns que não acreditavam que os franceses realmente chegassem, outros bêbados, outros criados que foram abandonados pelas famílias junto com as casas, além de presos e loucos, soltos dos hospícios e das prisões. Em uma cena histórica, o governador de Moscou – pouco antes da chegada dos franceses – para livrar a cara com a população, pega um preso qualquer (que por curiosidade é um sujeito que havia sido capturado por ter traduzido textos sobre Napoleão do alemão para o russo) e o joga para a população dizendo que ele é o culpado pela tragédia da Rússia. É uma cena dantesca que acaba com a cruel morte do sujeito, diante de moradores novamente divididos: enquanto alguns caem na ladainha do governador e partem pra cima do sujeito, outros ficam horrorizados diante da crueldade, principalmente sabendo que aquilo não era verdade. Enfim, como disse, são tantos os pontos impressionantes desse volume que não terei como abordar todos. Vale ressaltar, no entanto, que Tolstói mescla realidade e ficção: essa cena da execução do preso aconteceu de verdade, no entanto, a reconstrução foi toma imagética, mesclando muita criatividade e inventividade com pesquisa histórica.

            Mas, creio que o principal mesmo, afora a fuga dos personagens, a permanência de Pedro em Moscou com um plano mirabolante para tentar matar Napoelão, o curioso encontro entre André e Anatole (os rivais que brigaram por Natascha) na enfermaria, ambos gravemente feridos, um novo reencontro entre o príncipe André à beira da morte com Natascha, a descrição dos preparativos da fuga de Moscou por parte dos personagens, e muito mais, o ponto alto é uma divergência histórica sobre o incêndio de Moscou. Tolstói coloca que os franceses acusaram os russos de incendiar Moscou para não deixar nada pra eles, enquanto os russos acusam os franceses de terem incendiado Moscou por terem encontrado a cidade deserta. Na visão de Tolstói não foi nem uma coisa, nem outra. Ou melhor, foi um pouco de cada. Por um lado, ele relata que incêndios eram comuns em Moscou naquela época, que era uma cidade toda de madeira. Portanto, em uma cidade deserta, se há um incêndio e não há quem o apague, obviamente esse fogo se alastra facilmente. As cenas que envolvem o incêndio também são espetaculares e dão a entender exatamente isso: alguns focos do incêndio foram acidentais, outros foram postos por incendiários, principalmente russos. Mas Tolstói desmente categoricamente que o incêndio tenha sido uma sacada genial do exército russo para ferrar com os franceses. Foi algo que aconteceu mais espontaneamente, ou por iniciativa de alguns populares que ficaram em Moscou, do que possa ter sido algo planejado estrategicamente por generais e militares do alto escalão do exército russo. 

            Enfim, em resumo, o terceiro volume dessa edição da L&PM termina justamente com o incêndio e a prisão de Pedro, que acaba avançando em um soldado francês ao vê-lo roubar o colar de uma moradora qualquer (a essa altura, os militares franceses estavam literalmente saqueando a cidade). No entanto, antes disso, Pedro salvou a vida de um alto oficial francês, que seria atingido por um tiro disparado por um maluco bêbado, e esse disse dever a vida a Pedro, o que me leva a imaginar que, possivelmente, esse militar francês vá salvar a vida de Pedro no volume quatro. São suposições. Natascha e André estão juntos no mesmo acampamento e, novamente, há uma dúvida se André vai sobreviver ou não e se ele e Natascha vão casar caso ele se recupere. Anatole está sumido, ferido, mas também há a expectativa de que tenha morrido. Helena, a essa altura, já pediu o divórcio a Pedro para se casar com outro. Ah, e o pai do príncipe André já faleceu e Nicolau Rostov está sumido da narrativa desde que salvou Maria, irmã de André, e eles meio que se apaixonaram (apesar de Nicolau ter prometido a Sônia, a sua prima pobre, casar-se com ela depois da guerra). Há outras e outras tramas, mas essas são as que me ocorrem agora. O interessante é que você pensa nessas histórias todas como se fossem de pessoas que você conhecesse. Parece que alguém está me perguntando: “e o príncipe André, tem ouvido falar dele?”, e eu estivesse respondendo, “ah, sim, ele foi para a guerra mas está gravemente ferido, de novo, aquele descuidado. Agora está lá, jogado numa nas palhas de uma estalagem, gemendo feito um condenado, tendo delírios de febre, enquanto Natascha está cuidando dele, sonhando com o seu perdão e querendo um novo noivado...”. “E a Helena?”, pergunta-me o imaginário interlocutor. “Ah Helena? Você não vai acreditar! Arranjou dois amantes e pediu divórcio ao Pedro. Decidiu se casar primeiro com o mais velho, pois logo que ele morrer ela já pensa em casar com o mais novo, assim ela leva o dote dos dois!!! Certamente o pai dela, o príncipe Vassili, deve estar extremamente orgulhoso, apesar que o velho esta sofrendo pelo desaparecimento do seu filho mais novo, o Anatole., e....”.

            Enfim, enfim, vamos ao quarto e último volume! Como dizem os russos de Tolstói: vamos a isto! Vamos a isto! Vamos a isto!