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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O gelo que se move

Hoje estava um pouco menos frio do que ontem aqui em New York City. Ontem estava -15 e hoje -8 (na média). Então, saí para fazer fotos do Rio Hudson congelado. A paisagem é sensacional. Aliás, acho que nunca falei tantas vezes pra mim mesmo “sensacional”. Eu olhava, clicava, e murmurava “sensacional”. Tanto é que foram mais de 400 cliques. Depois, quando cheguei em casa, com a cabeça mais tranquila, vi que metade das fotos eram iguais. Na empolgação, eu não parava de clicar.
Olhando de alguns ângulos, a imagem fazia com que eu me sentisse no Pólo Norte, Alaska ou Patagônia. Só faltavam os pinguins e ursos polares (o esquimó era eu). Inclusive, como boa parte do rio ficou congelada, os patos abandonaram o gelo e invadiram o parque de Riverside. Eles estavam lá, zanzando pela grama, como cachorro que caiu da mudança.
A imagem era linda e, apesar do frio, com a calça térmica e o blusão de lá por baixo do casaco térmico, a sensação não era tanto de congelamento. Então, fiquei um bom tempo olhando o gelo se movendo: uma imagem que até então só tinha visto na TV, em documentários sobre as regiões geladas do mundo em canais como o National Geograph.
Concluí: a sensação é tão boa quanto a que você sente ao parar numa praia paradisíaca e ficar ali, olhando a natureza e pensando na vida. Pois foi assim que me senti. Fiquei mirando a parte onde o gelo estava duro (joguei uma pinha de longe que saiu quicando nas águas geladas do Hudson), olhando New Jersey do outro lado, os pedaços de gelo soltos se movendo pelas águas que estavam em estado líquido, e as gaivotas dando rasantes nas crateras de gelo. Era uma imagem de filme. E, olhava ao meu redor, e não via absolutamente ninguém. Nem uma alma viva. Nem um dos únicos animais que se autodenominam racionais. O sinal da humanidade só era percebido na ponte que liga Manhattan a New Jersey, nos prédios dos dois lados do rio, e nos carros que andavam pelo lado de Riverside. Fora isso, perto de mim, ou na pracinha de crianças ou no restante do parque de Riverside, eu era o único Homo Sapiens admirando aquela beleza. Pensei: “são quase 10 milhões de habitantes em Nova York, mais milhares de turistas, mas todos estão ocupados em Shopings, na internet, no Facebook, no mercado fazendo compras, trabalhando para ganhar dinheiro para comprar um carro para ostentar diante dos outros, que também estão trabalhando e trapaceando para ganhar mais dinheiro para comprar um carro melhor e uma casa maior do que a do primeiro... E pensei: “como a humanidade é subdesenvolvida...”. Na verdade, no geral, os seres humanos não são muito mais avançados do que os cachorros ou gatos ou porcos ou gaivotas ou pinguins, por exemplo. Não fazem muito mais do que fazer as próprias necessidades, dormir, comer, beber e trepar. A diferença é que acabam inventando mais coisas para ocupar enquanto nascem e esperam a morte... Mas, geralmente são coisas inúteis, como fazer compras nas mega lojas, jogar vídeo game, falar mal dos outros pelas redes sociais, etc...
Pensava nisso tudo enquanto olhava ali, o gelo andando no Rio Hudson. Estava escorado numa grade, olhando para baixo. À meia distância, vi um homem que me olhou com curiosidade e também foi na grade. Olhou pra baixo.
Não conseguiu ver nada. Só viu uma água gelada com crateras de gelo andando, nada de mais. Não viu um carrão importado, um casarão, uma mulher pelada, uma propaganda de TV ou um jogo de baseball. Então, em menos de cinco segundos ele deu meia volta, e foi embora. E eu fiquei ali, apenas olhando o gelo andando nas águas geladas. Eu, meus pensamentos e as gaivotas.

4 Comentários:

  • O importante é o que importa! Tu tá com tua tribo ao teu redor, feliz, portanto pode filosofar a vontade. As vezes é nesse estado, meio de saciedade da vida que tropeçamos em verdades tão simplesmente grandiosas que ficamos espantados de não tê-las visto antes! Go ahead my boy!

    Por Blogger Marcos, às 8 de janeiro de 2014 16:33  

  • aiaiai quem sabe as pessoas podem estar em casa pq nasceram vendo o q tu tah vendo agora? Assim comoalguém pode achar lindoo o calor subindo no asfalto em poa e pensar cadê o povo?Estão em casa no ar ou na praia, cansados do calor... aí cansados do frio...

    Por Blogger Carol, às 8 de janeiro de 2014 17:05  

  • Realmente um olhar diferente do Gonzo Man em NYC. Contemplativo. Me senti aí.... Gostaria de estar fazendo isso com uma garrafa de vinho. Haha.

    Por Blogger Márcio, às 8 de janeiro de 2014 17:20  

  • Querida ermã, comparar o rio congelado com o sol no asfalto em poa é como comparar ACDC com música sertaneja...

    Por Blogger Eduardo Ritter, às 8 de janeiro de 2014 20:37  

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