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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Where the buffalo roam

Quando você olha a previsão do tempo de noite e vê que no outro dia a máxima é de -1ºC, você não coloca muitas atividades outside your place. Cada vez estou entendo mais porque algumas traduções do inglês para o português ficam idiotas se traduzidas ao pé da letra em nossa língua-mãe... mas enfim. Foi o que aconteceu comigo na virada do domingo para a segunda-feira. A previsão era exatamente essa, menos um, e eu não tinha nenhuma obrigação fora de casa. Então, elaborei um schedule at home, que contou com o filme “Where the buffalo roam” durante a tarde.
O filme é muito foda. Encontrei completo no youtube, mas sem legendas. É como eu sempre digo, quando estou meio down, em crise com a minha tese, é só entrar em contato com a obra do Thompson, seja por livro ou por filme, que me reanimo. Explicando um pouco sobre o filme, trata-se de uma comédia baseada na biografia do Hunter Thompson. O filme é de 1980 (o Thompson morreu em 2005, ou seja, ele estava em plena produção jornalística e literária) e, de uma certa forma, traz uma caricatura do Thompson e de seu advogado maluco, que é o mesmo personagem do Medo e Delírio em Las Vegas. Vale muito a pena. Se você leu algum livro do Thompson e gostou, então, é obrigatório.
Mesmo sendo um filme cômico, com cenas exageradas (os produtores dizem que foi fifty-fifty, ou seja, metade do filme é ficção e outra metade é baseada na biografia do Thompson), eu parei pra pensar e lembrei, em certos momentos, o que eu estou fazendo aqui, nos States Thompsianos. Mais especificamente, a minha reflexão ocorreu no momento em que o filme mostra um julgamento de hippies que foram pegos fumando maconha. Um deles é condenado e então o juiz lê a sentença. O Hunter pergunta para o advogado: “o que ele está fazendo?”, já que é um amontoado de palavras sem sentido. O advogado responde “lendo a lei”. E, ao fim, o juiz pergunta para o réu: “Entendeu a sua pena?”. E ele, com uma puta cara de adolescente perdido no mundo, balança a cabeça negativamente e murmura “não”, ao que o juiz retruca e aumenta a pena: “cinco anos de prisão”. Ou seja, aí está, entenderam!!!??? Aí está a indignação! Aí está a minha paixão pelo jornalismo gonzo! Aí está a esperança, a indignação contra coisas absurdas que acontecem com o aval de uma lei... sem sentido!!!! E que, teoricamente, teria o aval da sociedade!
O guri foi condenado a 5 anos por fumar maconha e dizer que não entendeu a lei no tribunal (ou seja, foi condenado por ser sincero! É absurdo demais!) E o Hunter Thompson, em meio a um monte de jornalistas que acham isso normal, se indignava! Ele dizia “caralho, isso é muito absurdo! Como vocês ficam quietos diante disso???”. E isso acontece todos os dias! E no Brasil também! E pior: acontece com os jornalistas presenciando cenas absurdas muito piores que essa (eu mesmo, tenho muitas histórias nesse sentido, em que, por exemplo, narrei o que vi no jornal e no outro dia tinha vereador ligando pro dono do jornal pedindo a minha cabeça! É muito revoltante!). E é disso que o jornalismo gonzo trata! De se revoltar contra as coisas absurdas que acontecem todos os dias, principalmente aquelas que ocorrem com o aval da lei, da “Justiça” e da sociedade, e que o jornalista vê, e na maioria das vezes, ele não conta – por motivos diversos, menos os de sua real função!
Eu já participei de processo judicial. E é exatamente assim. O juiz é um deus – ele crê nisso, e todos na sala acreditam. Se você falar alguma coisa sem a sua permissão você pode passar anos na cadeia. É ridículo demais! É absurdo demais! E o juiz decide o que quer, os juris podem ser uns imbecis, e eles decidem que você, mesmo inocente, vai passar o resto da vida na cadeia, ou que, um assassino psicopata vai ficar solto! E isso acontece sempre, todos os dias, e com a concordância da imprensa!!!!
Eis minha indignação.... Eis como eu me sinto ao recuperar a obra e a biografia de Hunter Thompson. Ele se indignava. Tudo bem, na maioria das vezes chapado, bêbado, etc, mas se indignava, porra! Se levantava contra aqueles que tem o aval da sociedade para decidir! E mostrava no jornal, na revista, os absurdos que eram cometidos, pela polícia, pelos juízes, pelos políticos... Mas não era algo vazio, algo como as choradeiras do Facebook, como “José Genoíno é ladrão e quer tratamento médico”. Não, ele ia muito além disso. Ele fugia do lugar comum. Ele pegava os questionamentos pequenos e transformava em grandes questões. Ele deixava louco os leitores, os donos dos jornais, os outros colegas jornalistas, as fontes, os políticos, os empresários que dependiam das falcatruas envolvendo povo-imprensa-empresa, enfim, ele deixava todo mundo louco, porque ele escancarava as suas vísceras diante dos olhos de todos! Foi assim que ele derrubou candidatos à presidência dos Estados Unidos!
E, creio eu, essa é uma das funções do jornalismo. O jornalismo, por natureza, deveria fazer isso.Entretanto, os poucos que fazem isso, entram para a história da profissão. Deveria ser o contrário. Mas não é. E eis, aqui, nesse humilde blog, a justificativa para a minha tese, e, de certa forma, a aplicação do conceito de parresía (recuperado por Foucault, e que quer dizer, a grosso modo: dizer a verdade contra a autoridade no espaço público correndo algum risco – de vida, de ser preso, etc) ao jornalismo gonzo. Sei que outros jornalistas fizeram isso, inclusive no Brasil, como o Tim Lopez, que pagou com a vida a vontade do dizer a verdade no espaço público contra poderosos... mas creio que o jornalismo gonzo, na parte do jornalismo literário, pode abrir os olhos de muitos estudantes e jornalistas formados medíocres que se contentam em simplesmente se adaptar as regras do status quo, que eles sequer entendem como funciona, como já apontou Bourdieu... Mas, enfim, aí ampliamos muito mais o campo da discussão.. por hora chega! Hasta!

3 Comentários:

  • Pra entrar nessa, só correndo o risco; de vida inclusive! Fuck german!

    Por Blogger Marcos, às 26 de novembro de 2013 01:44  

  • Uma tese com conteúdo político, social... com questões que levantam discussões de temas que afetam todos... abrangente...
    É por esse motivo, do Thompson ter essa veia de indignação pulsante durante sua carreira jornalística que ele se destacou. Já o jornalismo de hoje, pela apatia e padronização, pra mim, é apenas mais uma profissão em que o jornalista é um empregado, que permanecerá empregado se seguir a cartilha da empresa (por exemplo um jornal) onde trabalha. Na cartilha entre outras regras está a regra de não publicar nada que possa denegrir a imagem dos patrocinadores. Há assuntos que não podem ser abordados por conta de interesses do dono do jornal. Sim um jornal tem dono, que em muitos casos não tem interesse por colocar em prática os princípios do jornalismo e muito menos tem formação na área o que justifica o caráter financeiro, o objetivo de lucro que o equipara a uma outra empresa qualquer.

    Por Blogger Márcio, às 26 de novembro de 2013 15:08  

  • Fuck german, ótimo texto e é bem por aí. Quase senti vontade de voltar ao jornalismo. Mas passou a vontade, ainda bem eheh

    Mas é bem por aê alemão. A padronização estéril e intimidante do jornalista e do seu texto mostra que a profissão está em uma situação deplorável...



    Por Blogger Zaratustra, às 28 de novembro de 2013 03:45  

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