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quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mendigos e Altivos

Estou terminando de ler Mendigos e Altivos do escritor egípcio Albert Cossery (foto ao lado). O livro foi escrito em 1955 e, conforme o autor, no ritmo de uma frase por dia. Entretanto, lendo o livro, acho difícil que tenha sido escrito realmente no ritmo de uma frase por dia. Mas, enfim, isso não importa. O que importa é a filosofia defendida por Cossery. Ele defende, através de um romance ficcional muito bem escrito, a vagabundagem como estilo de vida. No livro, que desconfio ser semiautobiográfico, Gohar, o personagem principal, abandona a vida burguesa que levava como professor universitário para viver de... vida!. Ele passa a morar em um bairro pobre do Cairo, fazendo amizades com mendigos, cafetões, prostitutas, traficantes, etc. Entretanto, é curioso o pensamento dele, defendendo que aprendeu muito mais com aquelas pessoas que vivem no submundo do que com seus estudos e sua moral conservadora dos tempos em que era um professor universitário.
Na obra, Cossery apresenta um trio de vagabundos. Além de Gohar, um traficante pilantra e um funcionário do governo, que odeia o seu próprio trabalho, compartilham a filosofia de vida do escritor egípcio. Entretanto, há pequenas diferenças entre um vagabundo e outro. O traficante pilantra, por exemplo, quer ganhar a vida usando todos os meios ilícitos possíveis, se mudando de hotel para hotel de um dia para o outro para fugir da polícia. Já o funcionário do governo, de saco cheio de seu trabalho burocrático, adota uma filosofia mais revolucionária. Ele namora uma prostituta e só pensa em fazer a revolução, em desacatar as autoridades, em discutir com policiais. E Gohar, que é o mestre dos outros dois, prefere protestar contra o sistema simplesmente não participando dele.
Mas, o que move esses três personagens no enredo é o assassinado de uma prostituta. Desde o início o leitor sabe que foi Gohar quem a matou, em uma crise de abstinência de haxixe. Porém, o crime foi cometido sem que houvesse testemunhas. No meio da história, surge o inspetor, que investiga o caso. Acostumado a investigar crimes banais, por assalto ou tráfico de drogas, ele se envolve com os personagens e com o suspense do crime, afinal, não houve motivo aparente para o assassinato: nada foi roubado, a prostituta não fora estuprada e não tinha inimizades. Devido a falta de provas, o inspetor acaba se dedicando de corpo e alma à investigação.
No fim, o que acontece? Não sei, ainda faltam 30 páginas para terminar de ler o livro, mas estou curioso para descobrir. Existem várias alternativas. Os dois vagabundos secundários querem mandar Gohar para a Síria, onde o uso de drogas é legalizado, no entanto, nenhum dos três tem dinheiro. Já Gohar não está muito preocupado se vai ser preso ou não, porém, ele sempre deixou explicito que sempre sonhou em morar na Síria para cultivar uma plantação de maconha para consumo próprio. Então, há varias possibilidades: Gohar pode ser preso, pode fugir para a Síria ou, simplesmente, o livro pode acabar sem que o investigador descubra nada e eles fiquem como estão.
Esta é a graça da literatura. Uma boa narrativa, com um pouco de suspense e muita filosofia. O que eu não entendo, no fim das contas, é porque muitos moralistas repudiam de corpo e alma livros, filmes ou músicas que abordem, por exemplo, o uso de maconha. Eu não fumo, mas não tenho nada contra quem fume, e acho divertido ler histórias que tratem do tema de uma maneira cômica. A única coisa que eu defendo, sim, é a liberdade de expressão.
* Texto publicado em A Tribuna Regional

1 Comentários:

  • Porra alemao. Eu sou a favor do ócio, e de uma filosofia italiana chamada "dolce far niente", que quer dizer mais ou menos "doce preguiça" ou, literalmente, "doce fazer nada". Meu ídolo é o Garfield, meu bicho de estimação é o bicho preguiça e meus livros preferidos são Elogio do Ócio, do Bertrand Russel, e O ócio criativo, do Domenico de Masi.

    E tenho dito.

    Por Blogger Zaratustra, às 8 de abril de 2011 12:26  

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