.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves: História para bolsonarista ver e aprender


Enquanto lia Meio Sol Amarelo, da escritora nigeriana Chimamanda Gnozi Adichie (comentei sobre esse livro em texto aqui do blog de 3 de fevereiro de 2018), apanhei um pouco para memorizar os nomes africanos dos personagens: Olanna, Kainene, Ugwu, Inatimi, etc. No entanto, lembro que fiquei me questionando: considerando que mais da metade da população brasileira é parda ou negra, por que não temos sobrenomes africanos em nosso país? Cheguei a pensar em pesquisar sobre isso, mas acabou passando. Então, no último verão eu li Na Minha Pele, do Lázaro Ramos (também escrevi sobre esse livro aqui no blog) e, através dele, cheguei no livro Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves (foto acima), que responde à minha pergunta sobre a ausência de sobrenomes africanos, além de contar muito mais da história praticamente (e provavelmente, intencionalmente) esquecida do Brasil.
Porém, para contar sobre o sumiço dos sobrenomes africanos, tenho que contextualizar a história toda e, assim, já abordo o livro de maneira geral. No romance, publicado originalmente em 2006 (a minha edição é da Record, 2017), a personagem narradora, chamada Kehinde (nascida em 1810), ainda criança e vê guerreiros tribais estuprarem e matarem a sua mãe e o irmão mais novo. Ficando apenas ela, a irmã gêmea e a avó, elas partem para Uidá, localizada onde hoje é Benin, entre Togo e Nigéria. Em Uidá, um belo dia Kehinde e a irmã, ambas com sete anos, veem chegar à costa africana um navio que é cercado por uma pequena multidão. Estando ali no meio do povo, um homem branco pede para as gêmeas mostrarem os dentes e, após avaliar os corpos e estado geral de saúde, seleciona as duas crianças para embarcarem. A avó aparece, a procura das netas, e implora para embarcar junto. O homem checa as condições de saúde e acaba aceitando. Enquanto alguns dos africanos pensava que seriam transformados em carneiro para virar comida de branco “no estrangeiro”, os africanos muçulmanos acreditavam que a travessia seria um sacrifício até chegar a terra de Alá.  E, assim, a personagem é literalmente sequestrada da África, ainda no tempo do Brasil colônia, para ser escrava no Brasil.

Claro que a narrativa da Ana Maria é muito mais complexa, literária e instigante do que esse breve, rápido e superficial resumo. Ela dá ênfase ao caráter humano, à inumanidade da viagem da África para o Brasil, que dura mais de mês e muitos acabam morrendo de fome ou de doenças, inclusive a irmã e a avó de Kehinde, que são jogadas ao mar. É algo que deveria ser lido por todo o brasileiro. Algo que não está humanizado nos livros de história que falam sobre a escravidão no Brasil.
Chegando à terra tupiniquim, encontro a explicação para a operação borracha, não só nos nomes, mas na cultura e nas diversas religiões africanas no Brasil: todos os escravos que chegam ao país são obrigados a serem batizados com nomes brasileiros (afinal, os brancos não querem selvagens pagãos) e, consequentemente, recebem sobrenomes portugueses, como Silva e Sousa. Assim, sobrenomes como Azikiwe, Awolowo, Adichie, etc, sumiram do mapa brasuca. Os escravos também eram proibidos de falar na sua língua materna e de expressar qualquer tipo de ritual religioso ou cultural (a não ser em raros momentos de folga, desde que não houvesse nenhum de seus “donos” por perto). Assim, Kehinde passa a ser Luísa Gama, mesmo tendo conseguido fugir do batismo católico.
As histórias são todas arrepiantes: a viagem praticamente sem comida, o tratamento dados aos africanos que eram vendidos nos mercados (quanto mais demorava a ser vendido, pior eram as condições, pois muitos morriam de fome e outras doenças nessa espera por um “dono”), as chibatadas nas fazendas, os estupros (geralmente o dono guardava as meninas para ser o primeiro a fazer sexo com elas), o tratamento desumano, enfim, tudo é cruel demais para você pensar que, no Brasil, um presidente da República tem a cara de pau de dizer durante uma entrevista que o país não tem dívida histórica nenhuma e que ele não é racista porque o sogro dele é chamado de “Negão”.... Mas enfim, não vamos mudar de assunto...
A obra é absolutamente demais, em todos os sentidos. Eu li em pouco mais de 20 dias as suas 950 páginas. Nelas, Ana Maria Gonçalves dá vida aos escravos, mostra o seu lado humano, bem como é feito no americano “12 Anos de Escravidão”. Detalha as suas crenças, conta sobre as capturas, sobre as fugas, as revoltas, etc.
Kehinde (imagem ilustrativa de como foi Kehinde ou Luísa Gama) desembarca em São Salvador (hoje Salvador) e é vendida para um fazendeiro chamado José Carlos Gama (daí o seu sobrenome). A personagem é comprada para fazer companhia à filha dele, chamada de “sinhazinha” até o fim do romance, com quem, na fase adulta, ela faz uma forte amizade. Após entrar na adolescência, José Carlos estupra Kehinde e castra o escravo que era seu pretendente diante dos olhos dela. Do estupro, nasce Banjoko, seu primeiro filho. Depois que José Carlos morre, a viúva, chamada Ana Felipa, muda-se para a fazenda e leva consigo alguns escravos, dentre eles Kehinde, com quem ela tem uma implicância muito forte. No entanto, para manter Kehinde longe de um escravo pela qual ambas estavam apaixonadas, Ana Felipa coloca Kehinde a trabalhar “a ganho”, que era quando os “donos” permitiam que os escravos trabalhassem na rua (geralmente com comércio – assim muitas mulheres iam para a prostituição) para ganhar algum dinheiro. Obviamente havia uma quantia que o escravo deveria pagar ao seu dono. Bom, estou detalhando muito um livro que tem 950 páginas, então, em resumo, após vários desencontros e dramas, Kehinde finalmente consegue comprar a carta de alforria (liberdade) e a de seu filho, justamente quando a “sinhá” resolve se mudar para o Rio de Janeiro, querendo separar Kehinde da criança (algo que também era normal: mães e filhos serem separados em compra e venda de escravos).
Após passar por várias situações horríveis, Kehinde conhece e se apaixona por um português, com quem tem mais um filho: Luiz Gama, que nasce em 1830. Assim temos a romantização de uma história real: Luiz Gama foi um importante jornalista e advogado negro que lutou durante  sua meia década de vida contra a escravidão (eu já tinha lido o livro de Luiz Carlos Santos, sobre ele). Em síntese: o romance conta a história da mãe de Luiz Gama (foto).
Em algumas entrevistas disponibilizadas no youtube, Ana Maria conta todo o processo de produção do romance, que foi justamente um trabalho de muuuuuita pesquisa, leitura, consulta à acervos, e tudo o mais. Mas, voltando à narrativa do romance, Banjoko morre cedo, aos sete anos. Mas o drama maior vem mais tarde, quando a personagem Kehinde se envolve em vários trabalhos e busca conhecimentos pelo Brasil sobre as religiões africanas, passando a ficar longe de casa por longos períodos. Nesse interim, o português, pai de Luiz Gama, casa-se com uma brasileira (afinal, nunca um português assumiria publicamente um relacionamento com uma ex-escrava). Aproveitando a ausência da mãe, o português (que estava atolado em dívidas de jogo) vende Luiz Gama como escravo, mesmo ele sendo livre, para uma embarcação que o leva ao Rio de Janeiro. Após a venda, o português some e nunca mais se tem notícias dele. Então, começa a saga da busca de Kehinde pelo filho perdido. Fazendo novamente um pulo e resumindo tudo ao máximo: eles nunca mais se encontram. Kehinde passa por diversas situações limites, mas consegue se dar bem financeiramente. Ainda relativamente jovem, mas já no final da narrativa, ela acaba voltando para a África, onde segue tendo sucesso financeiro. De lá, a personagem conta como era a vida em um território que ainda estava sendo divido pelos europeus. Ou seja, Uidá, para onde ela volta, e Lagos, hoje capital da Nigéria, eram reinos diferentes mas, de certa forma, pertenciam a um mesmo país. Bem, não vou descrever aqui os outros personagens, como por exemplo, o marido africano com quem Kehinde casa e tem filhos. Mais uma vez tentando ser o mais breve possível, o romance conta os 88 anos de vida da personagem, que atravessa o século XIX, revelando muito da vida dos escravos brasileiros, da política dos primeiros anos do país após a independência, a continuidade do tráfico de escravos, mesmo após a sua proibição legal, a vida na África, a vida dos africanos que compravam a liberdade e voltavam ao velho continente africano, as rixas entre os africanos e os negros nascidos no Brasil, as rixas entre os africanos que retornavam para a África e que se achavam superiores aos africanos que nunca tinham deixado o continente, a escravidão na própria África (nas guerras, os perdedores eram escravizados pelos vencedores e também eram vendidos e comercializados – sendo que muitos desses eram enviados para o Brasil, Estados Unidos, Cuba e todas as outras colônias espalhadas pelo mundo), enfim, é tanta coisa que realmente só lendo o livro para você entender a magnitude da filha da putice que o ser humano é capaz de fazer com o próximo...
Ah, e por que o título é “Um defeito e cor?”. Simples: porque em dado momento, o negro que conseguisse comprar a sua liberdade, para conseguir um emprego, tinha que assinar um documento assumindo ter “defeito de cor”. E isso seguiu por um bom tempo. Aliás, do jeito que estamos caminhando para trás nesse país, não duvido que não surja um decreto bozal propondo a volta de tal documento, bem como “defeito de gênero”, “defeito de ideologia”, “defeito de genes”, etc.
A boa notícia é que, segundo uma das entrevistas da Ana Maria, a Globo está adaptando o livro como série para 2020. Estou muito curioso para assistir e, espero que consiga ser minimamente fiel ao livro, principalmente colocando atrizes africanas para interpretar Kehinde, pois a autora do livro faz a descrição da cor da pele justamente no início da obra, salientando a diferença entre os negros africanos e os negros brasileiros que nasciam filhos de mãe negra e pai branco (ou vice-versa).
Bom, sei que deixei muita coisa importante de fora, pois esse é um livro que faz você viajar longe. Minha única crítica, sob o ponto de vista da narrativa, é que lá pela metade o texto (sempre em primeira pessoa) passa a ser uma carta de Kehinde escrita para o Luiz Gama. Tudo bem a narrativa ser uma carta, mas até então isso não fica claro. Ou seja, você lê até a metade como um romance em primeira pessoa e, de repente, o troço todo vira uma carta, falando “você não deve saber disso” ou “se eu pudesse te falar e ouvir sua voz”, etc. Aliás, falando agora como leitor, também penso que há algumas descrições com detalhes excessivos (possivelmente tentando dar verossimilhança a tudo e, claro, porque depois de toda a pesquisa que autora fez, é normal que ela quisesse expor o máximo possível dessa pesquisa ao leitor). Portanto, considero que seria totalmente possível (e aconselhável, penso eu) cortar umas 200 páginas, ou até mais, fechando a obra em umas 700 páginas. Mas enfim, isso não tira em nada o mérito do livro. Inclusive, eu diria que até a metade da obra a narrativa é de tirar o fôlego e não há nada que pudesse ser suprimido. Porém, depois, talvez para balancear melhor os períodos, a autora colocou todos aqueles detalhes para compensar a falta de ação, como por exemplo, quando descreve a Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, e festas religiosas de todos os tipos.

Ah, e falando em religião, um dos pontos altos do romance é a Revolta Malês, que foi quando escravos muçulmanos planejaram uma rebelião em Salvador para escravizar os mulatos e crioulos (como eram chamados os filhos de escravos nascidos no Brasil) e matar os brancos. É sensacional, porém, como a revolução não deu certo e os seus organizadores e participantes, na sua enorme maioria, foram mortos, essa importante batalha da história brasileira foi praticamente apagada dos livros didáticos (e com a bozaiada no poder, agora é que não vão ganhar espaço mesmo). Aliás, como a região da Nigéria e Benin é formada por uma porcentagem alta de muçulmanos, nada mais normal do que haver muitos muçulmanos no Brasil naquele tempo – a maioria enviados para o nordeste. Porém, assim como os sobrenomes, eles também foram sufocados até não sobrar quase nada da cultura e da religião muçulmana negra no país.
Para encerrar, fica essa dica de leitura e os parabéns a Ana Maria Gonçalves por escrever uma das mais importantes e espetaculares obras da literatura brasileira. E obrigado ao Lázaro Ramos, por escrever sobre essa obra em seu livro, pois sem isso eu nunca teria descoberto esse tesouro da literatura.
Coloco abaixo alguns trechos aleatórios para você ter ideia do que estou falndo:
Sobre a viagem da África ao Brasil: “O calor e o cheiro forte de suor e de excrementos misturado ao cheiro da morte, não ainda do corpo morto, mas da morte em si, faziam tudo ficar mais quieto, como se o ar ganhasse peso, fazendo pressão sobre nós. Já estávamos todos muito fracos, pois era o início do quarto dia sem comer” (p.51).  
Sobre os negros vendidos nos mercados: “O comum a todos eram os ossos, que de tão aparentes quase rasgavam a pele sem viço e sem cor definida, coberta por imensa quantidade de escaras” (p.68).
Sobre poderosos na África que foram escravizados: “Mais tarde, vendo que isso não mais bastava, ele a acusou de feitiçaria e a vendeu aos mercadores de escravos para que a levassem para longe do Daomé, fazendo o mesmo com várias pessoas da família real. Era a primeira vez que isso acontecia na família dos reis do Daomé” (p.132).
Sobre o estupro cometido pelo “dono” branco na frente do pretendente escravo: “Eu queria morrer, mas continuava mais viva do que nunca, sentindo a dor do corte na boca, o peso do corpo do sinhô
José Carlos sobre o meu e os movimentos do membro dele dentro da minha racha, que mais pareciam chibatadas [...] O Lourenço tinha conseguido chorar e, ao perceber isso, o sinhô José Carlos o chamou de maricas e perguntou se estava chorando porque também queria se deitar com um macho como o que estava se deitando com a noivinha dele. [...] Passou cuspe no membro e possuiu o Lourenço também, sem que ele conseguisse esboçar qualquer reação ou mesmo gritar de dor, pois tinha a garganta apertada pelo colar. [...] Virou o Lourenço de frenet, pediu que dois homens do Cirpriano o segurassem e cortou fora o membro dele” (p.171-172).
Sobre a revolta malês: “Entre os pretos havia a ideia de tomar o poder e matar ou escravizar todos os que não fossem africanos, principalmente os crioulos. Mas mesmo entre os pertos havia desunião, quase sempre desde a África, por pertencerem a nações inimigas. Eles não entendiam que no Brasil precisavam comportar de modo diferente, esquecendo a inimizade e ficando todos do mesmo lado” (p.416).
Sobre o falso fim da escravidão: “Mas há um ou dois anos mais ou menos, perguntei a um retornado bastante esclarecido se não havia mesmo mais escravidão no Brasil e ele me disse que ainda havia sim. Não nas grandes cidades, onde os pretos e crioulos eram mais bem-informados, mas havia lugares mais para o interior do país, nas fazendas, onde as pessoas nunca ficariam sabendo que não podiam mais ser mantidas como escravas. A notícia não tinha chegado até elas, e talvez ainda fique assim por algumas gerações” (p.868).
Enfim, o livro inteiro é uma grande citação imperdível. Portanto, reserve um mês da sua vida para mergulhar no tempo e entender um pouco mais sobre o fato de o racismo não ter nada de “mimimi” como ainda insistem os bolsonaristas desse país.   

0 Comentários:

Postar um comentário

<< Home