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terça-feira, 12 de abril de 2011

Tu ves...

Após as discussões acerca de temas relacionados à teoria, história e práticas jornalísticas, o Encontro do Fórum Sul Brasileiro de Professores de Jornalismo (relatado no post anterior) foi encerrado no final da tarde de sábado. Assim, minha primeira missão estava cumprida. Restava passar o resto da noite no hotel e, no domingo, ir aos Plátanos assistir ao Grêmio e Santa Cruz.
Tudo aconteceu conforme o previsto e, após uma caminhada lenta pelas ruas de Santa Cruz, fui para o hotel, onde pernoitei tranquilamente. No domingo, acordei às onze horas, fui no banco, saquei dinheiro, perambulei pela praça, voltei ao hotel, paguei a conta, almocei, voltei às ruas onde perambulei mais um pouco e, depois de observar dois bêbados vagabundos alegres caminharem tropegamente pela praça central dando risada e batendo papo com o cachorro que os acompanhava, resolvi pegar a estrada e ir a pé para os Plátanos, afinal, até a pé nós iremos...
Cheguei lá bem cedo e, na falta do que fazer, comprei uma latona de cerveja no posto que fica ao lado dos Plátanos. Fiquei ali, bocabertiando, olhando o movimento, vendo se flagrava algo emocionante, mas nada de espetacular aconteceu até a bola rolar. Entrei no estádio e fui até as cadeiras, localizadas abaixo das cabines de imprensa, e, mesmo contra a minha vontade, assisti à partida sentado em meio aos sócio-torcedores do Santa Cruz. Queria ficar atrás do gol onde o Grêmio atacava no primeiro tempo, junto com o povo da Geral, mas o acesso era bloqueado. Tive que ficar no mesmo lugar destinado a toda a imprensa. Quando eu, ou alguém, ressuscitar o jornalismo gonzo, vou reivindicar junto a Aceg e aos clubes o direito dos jornalistas gonzos cobrirem os eventos no meio das torcidas organizadas. Não faz sentido um jornalista gonzo ficar longe da muvuca, observando tudo sobriamente. O jornalista gonzo tem que estar lá, bebendo e gritando e xingando o juiz.. mas enfim, enquanto esse dia não chego sou obrigado a ficar no meio do povo chato das cadeiras...
Sobre o jogo, escrevi um texto que foi publicado na minha coluna no Jornal das Missões, mas, como o vagal leitor não gosta de textos sobre futebol, vou pular essa parte. Porém, vale ressaltar a loira que estava lá com camisa do Santa Cruz (foto). Trato de explicar desde já, que a fotografei estrategicamente com o único intuito de elevar a audiência do blog... Mas, como fica claro, posso concluir ao nobre leitor que Santa Cruz é 10!
Findado o jogo, resolvi ir a pé até a Rodoviária. Em resumo, atravessei Santa Cruz a pé. Agora, para o leitor me entender, tenho que voltar no tempo, para a noite de sábado, quando estava planejando a minha volta. Meu plano inicial era o seguinte: como não havia ônibus domingo de noite de Santa Cruz para o Noroeste, eu iria comprar uma passagem de Santa Cruz para Lajeado, onde tinha um ônibus às 23h55. Porém, o carinha da recepção do hotel, que parecia um daqueles vilões de desenho animado que se fazem de sonso para ferrar com os outros (e que tinha ar de sonso), deu a brilhante sugestão: por que você não vai até Santa Maria, que é mais perto? Gênio! Fui para a internet, que estava mais lenta do que o meia Douglas, do Grêmio, e acessei o site da rodoviária de Santa Cruz. Planejei tudo mentalmente: sairia de Santa Cruz às 20h, chegaria em Santa Maria às 22h30, e partiria para o Noroeste às 11h45, chegando por volta das 2h. Perfeito. Se optasse pelo roteiro de Lajeado a minha chegada era prevista para as 4h30.
Cheguei à rodoviária antes das 19h. Fiquei por ali, zanzando, até a hora de sair o ônibus. Como o esperado, cheguei em Santa Maria às 22h30. Fui direto ao guichê, feliz da vida, assobiando Superfantástico Amigo, e disse à moça que vendia passagens:
- Uma para XXX às 23h45.
- Mas não para hoje, né?
- Co-como assim?
- Esse horário não tem no domingo...
- Co-como assim?
- Não tem. Hoje é domingo. Esse horário é só durante a semana.
- Bah! E agora?
Ela não ligou. Ficou ali, me olhando, impassível, com cara de besta, sem piscar e sem expressar nenhuma emoção. Eu que me fodesse. Bocejando, ela olhou no sistema e disse:
- O próximo é às 4h30.
- Bah. Me vê uma passagem dessas – murmurei, soltando um suspiro profundo.
Peguei a passagem, olhei no relógico, 22h42. Fazer o quê?
Resolvi, então, sair do mundo rodoviário. Saí por uma ruazinha, tentando memorizar o caminho. Pensei em fazer como João e Maria e jogar algumas migalhas de pão pelo chão, mas não tinha pão para isso. Andei, andei e andei, passei por um treco do Mac Donalds, andei mais um pouco, e não vi nada de interessante, além de ruas desertas e alguns jovens bebendo em postos de gasolina. Nada de assassinatos, nada de assaltos a mão armada, nada de traficantes brigando com prostitutas, ou de travestir correndo atrás de clientes que não quiseram pagar, como vezemquando se via em Porto Alegre. Segui andando, passei por algumas lanchonetes, mas sequer tinha dinheiro para fazer qualquer coisa interessante, como beber.
Acabei voltando, porém, antes de retornar, me atinei de tentar ligar para a minha prima, Karina, que mora em Santa Maria, para ficar na casa dela até às 4h. Aquele papo maneiro, tipo, você liga a meia noite e diz: “prima, to perdido aqui na rodoviária, posso chegar aí e ficar até as quatro da manhã?”. Então, tudo certo, afinal, eu tinha o número dela no celular. Comprei um cartão de orelhão, disquei os números e ouvi a gravação: “Oi. Este número não existe”. Oi o caralho! – gritei mentalmente. Disquei de novo e ouvi novamente a mensagem. Putaquepariu má! Respirei fundo e segui em frente.
Chegando na rodoviária, senti-me como o Tom Hanks em O Terminal. Olhava no relógio e via: 23h15, 23h17, 23h22, e por aí vai. Os minutos passam vagarosamente, sacumé. Resolvi olhar as revistas que estavam na vitrine da banca. Nunca imaginei que houvesse revista sobre chinelos. Que cosa. Também tem revistas sobre tricô, sobre blusão de lã, sobre receitas, e tinha também as pornográficas, desde a clássica Private, até uma que tinha um cara sem camisa na capa, com o título “O tapa buracos”. E tinha uma Playboy especial com a tal da Ariadne, do BBB, na capa. Mas, enfim. Depois de ler todas as capas de todas as revistas que estavam na vitrine da banca, passei para a vitrine de uma livraria para conferir todas as capas de todos os livros. Tinha de tudo, mas a maioria eram livros de autoajuda: como ter orgasmo, como enlouquecer ela na cama, como pirar ele na cama, como conquistar amigos, como conquistar ele, como conquistar ela, como ser feliz, como ser rico, como criar seu cachorro, etc. Entretanto, no meio de tudo isso, vi um livro que ainda quero comprar: História Regional da Infâmia, do Juremir Machado da Silva. Resumindo, pelo que ouvi falar desse livro, ele desmente toda essa história de tradicionalismo gaúcho, comentando o imaginário que tudo isso envolve, etc.
Quando terminei de olhar tudo (capas de livros e revistas) já era quase uma da madrugada. O sono estava chegando. Minhas pernas estavam cansadas de ficar ou de pé ou sentado. Precisava deitar, me esticar. Volta e meia chegavam e partiam ônibus, entretanto, depois da uma, o movimento foi lentamente se reduzindo, até acabar completamente. Com a rodoviária completamente vazia, deitei-me nos bancos (cada bloco tinha três, um do lado do outro). Com a mochila fiz um travesseiro e com a pasta da PUCRS fiz um porta pés. De tempos em tempos chegava algum ônibus e eu me acordava. Vezemquando até resmungava: “mas que merda esses ônibus”. Já eram duas e meia da madruga quando, meio dormindo, recebi um cutucão. Olhei e vi e ouvi um cara com sotaque carioca vestido de gari rodoviário falando:
- Ei, não pode deitar aí! Desculpe, mas só estou cumprindo ordens...
Pensei em questionar, ao berros, quem lhe daria uma ordem às duas e meia da madrugada, e em mandar o cara se foder e tomar no rabo, mas estava com muito sono para discutir. Apenas disse, lastimando:
- Mas meu ônibus só saí daqui a duas horas...
O cara não falou nada e saiu. Eu fiquei ali, sentado, olhando para o vazio. Ou melhor, para a rodoviária vazia. Que cosa. Comecei a pensar nas coisas importantes da vida, mas nada me ocorria. Só queria dormir. Levantei-me e caminhei. Fui ao banheiro, troquei a bermuda por uma calça e vesti um moletom. Estava esfriando. Dei uma volta pela rodoviária deserta e voltei para o barzinho, que é 24 horas. Queria um cachorro quente, mas o carinha disse que àquela hora só tinha lanche pronto. Para quem tem alergia a ovo, isso é um problema. Peguei, então, aqueles salgadinhos de palitinho e uma latinha de Coca. Quando já passava das três e 15 da madrugada, uma senhora sentou-se perto de mim. Puxei assunto. Não aguentava mais ficar quieto sem nada para fazer. Conversamos sobre assuntos gerais, mas não vou comentar nada aqui, pois estou cansado de ser censurado pelas criaturas desse mundo. Quando o sono já tinha ido embora, chegou o ônibus. Quatro e meia. Entrei e, para a minha sorte, não tinha ninguém ao meu lado. Dormi e só acordei quando cheguei, às sete e meia da manhã. Cheguei em casa, tomei banho, me vesti e fui trabalhar. Começava, assim, mais uma segunda-feira... Foi foda, mas valeu a pena.

5 Comentários:

  • Porra alemao! Eu quero ler a Historia Universal da Infâmia do Borges (não o atacante do Grêmio, o outro). A rodoviária de sta maria é do lado de um shopping, alemao, mas acho que àquela hora já tava td fechado. Mas esperar 4 horinhas não é nada. Uma vez fiquei 14h na rodoviária em curitiba. Acho que uma vez relatei isso em algum dos meus blogs...

    Por Blogger Zaratustra, às 12 de abril de 2011 18:00  

  • Hahahahahahaha.....porrrra deutsch, todo este sacrifício para ver Santa Cruz e Grêmio! hahahahahahaha

    Por Blogger Silvério, às 12 de abril de 2011 18:08  

  • porra alemão, são seis horas, não quatro...

    Por Blogger Eduardo, às 13 de abril de 2011 05:48  

  • Porra alemão! Pior do que esperar esse tempo por um ônibus é perdê-lo no meio do caminho! Eu fiz isso em Soledade. KKKKKK
    Do jogo só valeu a torcedora! Fui!

    Por Blogger Marcos, às 13 de abril de 2011 17:30  

  • hahaha... tche, muitas vezes já esperei naquela rodoviária de Santa Maria. E sei bem como é ficar andando ali, lendo as capas de revistas, os livros... hahaha...

    mas uma coisa que aprendi nessas idas e vindas de San Angel pra casa e vice-versa, foi a cuidar os horários dos ônibus e os dias da semana que eles efetivamente circulam... pra não ter que esperar.

    Mas sempre acabava ficando horas ou na rodo de Santa Maria ou na de Cruz Alta....faz parte...

    abraço ae Manolo...

    ah, já ia esquecendo, que coisa mais linda aquela camisa do Santa Cruz hein... gegege

    Por Blogger Mr. Gomelli, às 14 de abril de 2011 14:13  

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