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sexta-feira, 16 de abril de 2010

50 dias

Abri a porta da geladeira e lá estava ela. Linda, grande, espaçosa, esverdeada por fora, e escura por dentro. Olhei para ela, e a recíproca foi verdadeira. Suspirei. Virei o rosto. Ela ainda me olhava com seus olhos cor de uva. Parecia sussurrar, cantando como uma sereia: “vem!”. Eu a fitei seriamente, como se dissesse: “mas afinal, o que você quer?”. E ela respondeu, com voz sexy: “você, só você”. Estava sozinho em casa. Ninguém ficaria sabendo se eu me entregasse e me deleitasse aos prazeres oferecidos por ela. Era ela e eu, eu e ela, frente a frente. Só nós dois. Comecei a salivar, e a saliva na minha boca foi aumentando, até que respirei fundo, e passei a mão pelo seu corpo, suavemente, sofregamente, babando, antevendo os prazeres que ela me proporcionaria.
Ah, se ela lesse meus pensamentos! Se soubesse que eu a desejava todinha, todinha. Ah, se eu pudesse sentir o seu gosto em meus lábios, secando a minha saliva! Mas não, ela não sabe disso, e, por isso, ela ficou me olhando, ainda na expectativa de alguma reação minha.
A geladeira ainda estava aberta. Caso minha mãe estivesse em casa, já teria me xingado, da mesma forma que xingava quando eu abria a geladeira só para pensar na vida, durante a adolescência. Comecei a fazer os cálculos do custo benefício: só vi benefícios. Era só usufruir só um pouquinho de seu prazer e ninguém ficaria sabendo. Ninguém. Só eu e ela. Um segredo nosso, só nosso. Era tão fácil. O prazer estava ali, na minha frente, me convidando, me torturando, me chamando, se oferecendo semi-nua, como uma prostituta de rua. Enquanto pensava tudo isso, começou a tocar na rádio “Borracho y loco!”. Era como um hino ao prazer que se exibia diante de meus olhos. Por um momento, fiquei hipnotizado por ela, pelos seus olhos, pelo seu corpo, pela sua cor. Dirigi a minha mão em sua direção, ainda hesitante, mas, subitamente, fechei a geladeira e a deixei lá dentro, quietinha, em seu canto. Meu pai a beberá. Todinha. E eu ficarei só olhando. Sedento, mas satisfeito.
O nome dela? Viejo Solar. Uma garrafa de 1,25 litros de vinho argentino. E negando a tentação, completei hoje 50 dias de lei seca. Uma boa bebedeira àqueles que bebem. Façam um brinde em minha homenagem!

2 Comentários:

  • quer dizer que abrir a geladeira e pensar na vida è mal de familia, entao. a italianada que mora comigo acha estranho que fico ali parado olhando sem fazer nada, e depois fecho sem pegar nada, reabrindo logo em seguida com o mesmo ritual

    Por Blogger Zaratustra, às 16 de abril de 2010 às 12:48  

  • hahaha... massa, massa... ri porque meio que adivinhava, mas foi interessante...

    pow...tbm abro a geladeira pra pensar...côsa séria...

    flww

    Por Blogger Mr. Gomelli, às 16 de abril de 2010 às 23:17  

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