A oncinha felina
- Não esquenta não – dizia Roger – Já passei muito por isso. Tudo passa, como já diria algum filósofo cantor...
- Porra, meu – disse Fred, antes de bebericar a caipirinha – não estou nem ligando. Vamos pra balada e arrebentar.
- Cara, eu te entendo. Mas... você quer que eu te diga a real, na cara dura?
- Fala aí. Nada que tu disser vai me atingir.
- Cara, tu ainda gosta dela. Só está bravo... Já passei por isso... Vem com essa história de vingancinha...
- Meu, não fode – cortou Fred.
- Está certo, mas já estou até vendo: vamos sair, se empedrar, você vai tomar três tocos de três minas, vai ficar mal, deprimido, e vai chorar no meu ombro que ainda gosta dela e que não consegue viver sem ela.
- Porra, eu sei disso, não precisa me dizer!
- E eu vou rir muito da tua cara.
- E vai ser bom pracaraí! – retrucou Fred – Vamos rir muito! Vamos beber muito! O mundo é muito grande mermão! Essa é a vida! A vida real!!
Roger tomou o copo de caipirinha da mão do amigo, balançou negativamente a cabeça, e tomou um longo gole. Fred olhava do amigo para o copo, do copo para o amigo, preocupado que ele fosse tomar toda a bira.

Fred só aterrizou das nuvens quando o amigo lhe deu um cutucão e falou em voz alta:
- Pega isso aqui meu! Toma um gole e aprecie essas deusas seminuas!
A voz do amigo mal chegava aos seus ouvidos, que seguiu acompanhando o desfilar daquela criatura magnífica, que estendeu sua toalha num canto da areia e lá sentou-se, puxando de sua sacolinha um pote de creme bronzeador. Como ele queria estar naquele pote! De longe, acompanhou ela colocar o líquido branco na palma de uma das mão, e, com a mão direita, esfregar o creme no braço esquerdo. E assim fez com o braço direito, com as pernas (ah, que pernas!), com a barriguinha, com o pescocinho, com o rosto, com as nádegas (e que nádegas), com os peitos (nesse instante ele ouviu a locução do Pedro Hernesto Deardin gritando “É demais! É demais!”), e assim ia indo, sussecivamente, até que, inocentemente, percebeu que não conseguiria alcançar nas costas. “Veja você!”, falou dele pra ele. “É a minha chance. É a oportunidade da minha vida! Aquela oncinha vai ser minha!”. E, por alguns segundos anteviu toda a felicidade que o aguardava, a abordagem, a descoberta de que ela cursa medicina em uma universidade federal qualquer do Brasil, imaginou o som de sua voz, o gosto do primeiro beijo, a primeira pegada na mão para um passeio romântico à beira-mar, as risadas juntos, as viagens, o nervosismo de conhecer a sua família, as noites dormindo de conchinha, o casamento, o filho com os olhos dela dizendo “papai”, estava quase chorando vendo ela olhar para os lados com ar de criança perdida, quando ele, o seu amigo de infância, seu irmão, seu brother, seu camarada, praticamente sua alma gêmea, resolveu caminhar até ela. E foi à distância que Fred viu ela alcançar para Roger o pote de bronzeador, e viu eles rirem como se a muito fossem namorados de frente para o mar. E foi daquela mesma distância que Fred viu o melhor amigo a conduzir para dentro do mar, e embasbacado, com lágrimas nos olhos, ele viu o maldito Roger lhe beijar os lábios. Naquele instante, o mundo voltou a ser duro demais para o seu coração. E foi então que ele olhou para a caipirinha, pegou-a pela cintura, e engoliu-a de um só gole, percebendo, assim, que nem tudo está perdido enquanto houver caipirinha no mundo.
PS: A foto ilustrativa do conto é da minha parceira e colega de O Rebate, Juliany Luz, que representa perfeitamente todas as descrições feitas no texto. Acessem o blog dela também! (http://orebate-julianyluz.blogspot.com/)
3 Comentários:
Final arrebatador!
Por
Zaratustra, às 16 de janeiro de 2010 às 06:42
Olá Ritter!
Pelo visto recebeu meu e-mail, rss!
Como já havia dito, adorei texto especialmente o final dele, você, como sempre, criativo!
Boa semana pra ti!
Bjos
Por
Juliany, às 17 de janeiro de 2010 às 15:50
Hahahahaha! Comédia! Engraçado é que eu tenho a impressão de já ter ouvido essa conversa entre o Roger e o Fred em algum lugar...
Por
ababeladomundo, às 18 de janeiro de 2010 às 04:17
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