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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Papo cabeça com os mortos


Sexta-feira de Carnaval. Estou em casa, bebendo uma cerveja, conversando com os mortos, pegando conselhos para obter o tão almejado sucesso! Sei que para o conceito contemporâneo capitalista de sucesso não precisaria consultar os mortos, bastaria ligar para o Sílvio Santos, para o Vitor e Léo (não o Victor e o Léo do Grêmio), para a Malisa (ou Maísa?) ou para qualquer pessoa com alto poder midiatico (tipo o Arionzinho). No entanto, prefiro pegar conselhos com os mortos, tomando uma latinha de Skol.
Primeiro conversei com Nietzsche, que em alguns livros apresenta uma auto estima fora do comum, como no Ecce Homo, onde os títulos dos capítulos vão desde “porque eu escrevo tão bem” até “porque sou tão inteligente”. Durante a nossa conversa eu reclamei que muitas pessoas não lembram de coisas que para mim marcaram muito, mas ele me disse, bem-humorado, que essas pessoas são felizes, já que a vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez. De fato, ele tem razão, e cada vez que alguém faz uma jura de amor dizendo “você é único, você é o melhor que já tive”, essa falta de memória deve estar presente. A verdade é cruel, como ele mesmo já antecipava. Depois, eu contei de uma briguinha que tive certa vez com minha namorada, e ele contou que quando começou a terminar com uma mulher na qual teve um quase começo de relacionamento, ele a escreveu: “fiquei magoado, não por me teres mentido, mas por não poder voltar a acreditar-te”, e então, ele me disse uma frase que resume tudo: na vingança e no amor a mulher é mais bárbara do que o homem. Depois, perguntei para ele qual era a fórmula do sucesso, e ele me respondeu com apenas uma palavra: sofra. Então, eu o olhei seriamente, tomei o último gole de cerveja, e segui para a rua.
Vinha caminhando, quando encontrei um velho barrigudo sentado sozinho em uma mesa. Tratava-se de Charles Bukowski. Pedi para sentar-me na mesa dele, e então, ocorreu mais ou menos o seguinte diálogo:
- Vai se fuder – ele me disse.
Eu sentei,
- Olha Buk, li todos os seus livros que foram traduzidos para o português.
- Grande bosta.
- E queria um conselho seu.
- Ta bom, diga lá e vá embora.
- Que conselho você dá para quem quer ser escritor, de preferência famoso, como o senhor?
- Primeiro: senhor é a merda do teu cachorro. Segundo: escritor já nasce feito, não é conselho que vai resolver. E terceiro: para ser escritor deve se escrever como se estivesse mijando. Agora não amola e some da minha frente antes que eu chute esse teu rabo pra longe daqui.
- Olha aqui, seu velho babaca, eu vou embora sim. Mas antes vou fazer uma coisa.
E bebi a garrafa que ainda estava cheia em cima da mesa até o último gole. Ele me olhou, deu uma risada, e disse:
- Já é um bom começo...
Segui caminhando. Andei duas quadras, e então vi um cara com uma mochila nas costas pedindo carona em uma rua próximo da saída da cidade. Logo reconheci que era o bom e velho Keroac. Segui fazendo minha pesquisa, e perguntei-lhe qual era a fórmula do sucesso. Ele respondeu: “pé na estrada e foda-se o sucesso”. Um carro parou e lhe deu carona, e eu fiquei ali, comendo poeira.
Dei seqüência à minha sina e à mesopotânica busca do sucesso, da fama e da glória! Ia voltando em direção ao centro, quando vi em outra mesa um senhor calvo, de cabelos brancos, fazendo uns rabiscos em um papel amassado, à lápis. Aproximei-me, ele levantou seus olhos serenamente, e com sotaque carioca perguntou:
- O quê você quer, garoto?
- A fórmula do sucesso.
- Fórmula do sucesso? Escuta, para ser famoso eu escrevi Garota de Ipanema, casei nove vezes e fui amigo do whisky durante anos. Pergunte a ele a dita fórmula – e me estendeu um copo de whisky. Tomei um gole, que me queimou o estômago. Ele riu. – Ainda falta muito para você, garoto.
Só porque seu nome é Vinícius, seu sobrenome é Moraes, ele acha que sabe tudo, resmunguei. Mas que nada, continuei caminhando. Topei com um senhor de idade, ar sério e tímido. Um dos caras que conheço melhor, pensei ao vê-lo. Tratava-se do tema da minha dissertação de mestrado: Erico Verissimo. Esse cara vai ter que me dizer a fórmula do sucesso. É praticamente meu conterrâneo, não vai me negar nenhuma informação, calculei.
- Ei, Erico! – gritei, com ar bestial. Ele parou e fez um sinal como se dissesse “digaí”. – Eu sou quase teu conterrâneo, sou de Santo Ângelo, mas meu pai é de Cruz Alta, assim como o senhor. Você também é o tema da minha dissertação de mestrado e eu já li 92,4% dos teus livros. Você pode me responder uma pergunta?
- Aham.
- Qual é a fórmula do sucesso?
Ele coçou o queixo, pensou por um instante, e me olhou com ar grave e respondeu:
- Eu, ao contrário de muitos, casei com a Mafalda, vivi com ela até o fim da minha vida, e tive a Clarissa e o Luis Fernando. Então, mande para o diabo o sucesso que o resto você já sabe.
- Obrigado. Muito obrigado – respondi servilmente, e saí de mansinho, sem saber o que fazer.
Ia pensando nas sábias palavras do Erico, quando quase me bati com um jovem, que xingava uma prostituta na porta de um cabaré, dizendo que não a amava mais. Eu o reconheci e aproveitei que ele estava nervoso para perguntar de cara:
- Ei, John. Qual é a fórmula do sucesso?
- Pergunte ao pó! – respondeu-me, irritado.
O velho e bom John Fante continua o mesmo, pensei.
Vinha andando, refletindo sobre todas as respostas, tentando montar uma fórmula infalível para me tornar famoso, ficar rico, entrar para a história da humanidade como um grande pensador, quando vi um dos maiores amigos que já tive nesses 27 anos de vida e que proporcionou as melhores conversas cabeça em mesas de bar. O Aranha. Assim que o vi, berrei:
- Aranha!
- Ritter!
- E aí!
- E aí! Estou na corrida, mas é bom te ver.
- Então não vou tomar muito o seu tempo. Estou fazendo uma pesquisa para saber a fórmula do sucesso. Você sabe alguma coisa sobre isso?
- Não faço a mínima idéia! – e soltou a sua sonora e característica gargalhada, antes de se despedir.
Segui caminhando, animado por ter encontrado o Aranha, e vi um sujeito super magro, fumando no cordão de uma calçada. Caio Fernando Abreu.
- Caio! Hoje é o meu dia de sorte!
Ele me olhou como se dissesse: “quem é esse louco?”.
- Queria te perguntar uma coisa – tratei de falar, antes que ele me mandasse para o inferno por interromper os seus pensamentos – qual é a fórmula do sucesso?
- Não ser hipócrita.
Anotei mentalmente o seu conselho. Em outro barzinho, ouvi uma música que vinha de dentro, perguntando “que país é esse?”. Era o Renato Russo cantando no karaoquê, observado pelo Cazuza. Senti-me intimidado para interromper os caras num momento de pura diversão. No entanto, o Cazuza me viu e disse:
- Chega aí! Toma umas e vamos cantar!
Eu fiquei meio acanhado, e acabei perguntando sem pensar:
- Coéafórmuladosucesso?
- Hã?
- A fórmula aquela, do sucesso, sabe? Coé?
- Ah. A fórmula do sucesso? É super simples: dormir e um dia nascer feliz.
O Renato Russo ouviu, e acabou interrompendo, falando no microfone:
- Não mente pro cara não. Para obter o sucesso é preciso deixar para trás todo o marasmo da fazenda só para sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu...
E então, ele seguiu cantando Faroeste Caboclo, e a galera foi a loucura. Acabei saindo de fininho...
Caminhava entre as pessoas que andavam animadamente pela calçada, cantando e pulando, felizes por estarem vivendo mais um carnaval, enquanto eu estava ali, desolado e feliz por não ter encontrado nem a sombra da resposta para a minha investigação... E agora estou aqui, revivendo essas conversas vivas que tive com os mortos...

3 Comentários:

  • Dudu querida, uauuuuuuuuuuuuu!!! Achei o máximo e particularmente fico com o Érico e com o Caio Fernando Abreu... O resto a gente dá conta. Parabéns, vc está escrevendo espetacularmente bem! Saudades, grande abraço

    Por Blogger Melissa, às 21 de fevereiro de 2009 10:54  

  • eheh muito bom alemao!!

    a parte do John Fante tà impagàvel, me caguei de rir...

    Por Blogger Zaratustra, às 24 de fevereiro de 2009 04:30  

  • Legal tua pesquisa! hahah

    Eu fiz uma parecida com outros mortos, de outros ares:

    Bucky Fuller: "É ter iniciativa. Trabalhe e, acima de tudo, coopere e não se detenha ou tente obter ganhos em cima dos outros."

    Mohandas K.Gandhi: "É ir e fazer o que se quer, mesmo correndo o risco de se quebrar tentando. De forma não-violenta, se possível."

    :D

    Por Blogger BrnLng, às 1 de março de 2009 12:46  

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