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sexta-feira, 28 de novembro de 2008

On The Road São Bernardo - O Hotel misterioso


Como havia contado no post “é só trazer o note”, o hotel em que fiquei em São Bernardo do Campo era meio estranho. Mas toda essa estranheza era justificável, como vocês verão a seguir.
Peguei meu ônibus na rodoviária de Santo Ângelo na terça-feira de meio-dia (sem o note...) e após 20 horas de viagem cheguei na rodoviária de São Paulo às 8h, como havia referido no post anterior. Chegando lá, ouvi alguém no ônibus falando que iria para São Bernardo, e eu me aproximei do tal senhor, como aqueles cachorros de rua se aproximam de alguém que está com um sanduíche, de mansinho, e quando confirmei que o cara ia mesmo para lá, tratei de me informar com ele:
- Você vai para São Bernardo?
- Vou sim.
- Bah, eu também preciso ir lá, só não sei como faço.
- Como sabe que vou para São Bernardo?
- Ah, eu ouvi vocês conversando ali e resolvi perguntar.
- E você fica, assim, ouvindo a conversa dos outros?
- Sim.
- Você é gaúcho?
- Sim.
- E pra onde você vai em São Bernardo.
- Na tal de Avenida Salvador Sergueiro.
- É Senador Vergueiro.
- É, isso mesmo. No tal de hotel Rudge Ramos.
- Nunca ouvi falar. Mas sei um ônibus que passa na Vergueiro.
- Vambora.
- Vamô. Toma uma antes?
- Não, não. Mas pode tomar, eu espero.
E entramos no primeiro boteco que apareceu, e ele e um outro cara que o acompanhava tomaram uma dosesesinha de cachaça. “É pra animar”, me disseram. Deixei que se animassem. Eles me indicaram o ônibus certo, e lá me fui, rumo ao hotel. Cheguei no tal Rudge Ramos (que é também o nome do bairro), estranhei que não havia entrada direto da rua (tinha que entrar pelo estacionamento) e subi uma escadaria até chegar na recepção, que também não era nada convencional.
A recepcionista estava escondida atrás de um vidro, com uma fachada preta para que eu não a visse. Eu me abaixei para enxergá-la, e informei que eu era um dos que haviam ligado para fazer a reserva para o congresso da Metodista.
- Mas já? – ela perguntou – esperava para mais tarde – isso era umas 9h.
- Pois é, acabei chegando mais cedo... então, como funcionam as diárias? Eu terei que sair no sábado às 9h?
- Então (paulista sempre tem a mania de falar “então”), se você ficar até sábado, às 9h, são três diárias. Mas depois você pode pegar por hora. Tipo, 2 horas é 25 reais e 6 horas é 32 reais. Aí você pode ficar até às 15h.
Olhei para o lado e tinha uma tabela na parede com o preço por hora. Que coisa, não? Essa é a diversidade cultural desse país enorme! “Ela deve estar escondida atrás desse vidro devido a violência de São Paulo, naturalmente”, calculei. Peguei a minha chave, apartamento número 53, e fui reto para o meu recinto. Lembrei de uma vez que entrevistei um expert em hotelaria que me disse “os hotéis são iguais em todos os lugares do mundo”. Arrá! Ele estava enganado! Esse hotel é realmente diferente!
Chegando no apartamento, tudo muito ajeitado. O estranho era que só tinha quarto com cama de casal ou com duas camas de solteiro, mas o só com cama de casal era mais barato. E lá estava ela, a cama de casal, gigante, em frente a um enorme espelho, e acima dela tinha um quadro com uma mulher nua pintada, meio de lado, mostrando parte da bunda e os seios. Tu vês. Esses paulistas têm cada uma!
Na frente da cama, havia uma mesinha com dois banquinhos. Larguei minhas coisas em cima dela, tomei um banho, puxei a coberta (estava frio pacas nessa semana em São Paulo) e dormi até o meio-dia. Quando levantei, peguei minha carteira e fui almoçar. Informei-me na recepção sobre restaurantes, onde ficava e Metodista e tudo mais, e saí rumo a galeteria de um japonês, que você falava para a mulher dele “uma coca 600” e ela berrava pausadamente: “u-ma coooo-caaaaa seis-ceeeen-oooooooooos!” e depois dava um sorrisinho típico de japonês, e dizia: “já te levam na mesa”. E eu, meio sem jeito, murmurava um “ok” quase inaudível.
Almocei, passei no banco, andei pela Senador Vergueiro, passei por um campinho futebol de uma escolinha do São Caetano onde um monte de cria vestida de azul corria atrás da bola, vi onde era a Metodista, e voltei. Nada para fazer no hotel, então fui para uma lan e fiquei por lá uma hora, conversando com a Cris e tal e coisa, dizendo que o hotel era meio estranho, mas até que era bonzinho.
Voltei para o hotel já eram cinco horas, e o evento iniciava às 18h. O meu estômago fez “brought” e corri para a privada. Quando fui me limpar, acabou o papel, como diria aquela canção natalina. “Putz frau, não acredito”, pensei. Liguei para a recepção e resmunguei:
- Dá para trazer um papel higiênico no 53?
- Como?
“Como assim, como? Essa mulher é surda?”, pensei.
- DÁ PARA TRAZER UM PA-PEL HIGIÊ-NI-CO NO APARTAMENTO NÚ-ME-RO CINQÜEN-TA E TRÊS???”
- Sim, já levamos.
Dali a pouco tocou uma campainha. Fui abrir, uma espécie de camareira estava saindo. Ela me viu e apontou para uma portinha e disse: “eu coloquei ali”. Eu entrei de volta para o apartamento, e vi que tinha uma caixinha engraçada. Abri a porta, e ali estava o papel higiênico. “Como são discretos esses paulistas”, deduzi.
Depois de terminar as minhas necessidades, tomei banho, me arrumei, e quando ia saindo, tinham duas gurias na recepção chorando de dar risada. A recepcionista me apontou: “esse também veio para o Congresso”. Então elas se apresentaram, disseram que eram mestrandas da UFRGS, mas não paravam de rir. Não entendi o motivo de tanta graça, mas enfim, me despedi com um “nos vemos lá na Metodista” e me fui avenida afora. Chegando na universidade, me deram todas as informações erradas possíveis, fui parar no prédio da Publicidade, onde o carinha ligou para o Departamento de Jornalismo e, vejam vocês, ninguém lá sabia informar onde estava acontecendo o Encontro Nacional dos Pesquisadores em JORNALISMO! Fiquei com aquela cara de “que coisa, não?”. E por fim, o cara me informou que o evento tinha acontecido de dia. “Mas como de dia??!! Eu vim do Rio Grande do Sul até aqui para mudarem o horário sem avisar!!!!”. Mas não adiantou, o cara insistia que o evento tinha sido aberto de dia. Nisso chegou o Diego, um maluco que faz mestrado na USP e que tinham recebido as mesmas informações erradas. Não nos conformamos e vasculhamos o prédio, onde a melhor informação que obtivemos foi:
- De tarde tinha um pessoal ali no auditório.
- É? Mas não sabe o que estava rolando?
- Sei sim. Um cara falava e, quando terminava, os outros batiam palma.
Uma informação e tanto. Não lembro agora como, mas surgiu uma alma iluminada que indicou um outro prédio onde talvez estivesse rolando o encontro, e fomos até lá, e realmente era onde de as coisas estavam acontecendo. Bem, não vou comentar palestra nesse espaço, só me limitarei a comentar que foram todas muito produtivas e interessantes, em especial as falas do Juremir e do José Marques de Mello, que comentou como surgiu o curso de comunicação da USP: “O reitor da época estava numa festa e a filha dele comentou que queria estudar jornalismo, e não havia cursos de jornalismo, então ele resolveu fundar uma faculdade que ensinasse jornalismo na USP. Depois apareceu uma outra amiga (ou prima?) dele, que gostava de artes, e fundaram o curso de artes, e assim surgiu a Escola de Comunicação e Artes (a famosa ECA) da USP”.
Bom, mas nem tudo é brincadeira, e eis que estava eu, sentado em uma das poltronas do auditório do prédio Dogma, ou Dagma, ou Sgima, ou Lama, ou qualquer uma dessas coisas, pois bem, estava lá eu, com a mão no queixo, com ar pensativo, quando surge a Ângela, minha ex-chefe e ex-professora da graduação, que foi quem me indicou o hotel:
- Dudu!!! Me desculpa! Eu não sabia que aquilo era um puteiro!
- Puteiro? Como ãnsim?
- Tu não viu???? Aquilo é um hotel-motel!!
Aí está! Agora eu entendia porque havia a tabela por hora na recepção, porque a entrada era pelo estacionamento, porque havia um espelho gigante no quarto, porque só havia camas de casal, porque não faziam reservas pelo telefone, porque a recepcionista disse que durante a semana era tranqüilo, mas que no final de semana era movimentado, e, principalmente, entendi o motivo de terem colocado o papel higiênico naquela caixinha estranha! Vejam vocês.
- Me desculpa. Se a Cris brigar contigo, diz pra ela me ligar, que eu explico. Sério mesmo – repetia a Ângela.
Eu não lembro o que eu falei na hora, mas devo ter resmungado algo como um profundo “tu vês”. Depois, na confraternização da abertura a gente ia dizendo “por isso que tem a tabela....”, “por isso que tem o espelho...” e quem estava no hotel (aproximadamente uns dez) dava risada, e quem não estava dava mais risada ainda. Mas o pior era quando você ia dizendo para algum professor-doutor: “bem, a gente está num hotel meio esquisito, e tal” e o cara te interrompia e exclamava “ah, são vocês que estão no motel!”. E para piorar minha situação, só havia salgadinho com ovo na dita confraternização, mas isso já dá uma outra crônica. O fato é que voltamos todos juntos para o hotel lá por 22h30, porque no outro dia teriam mais palestras....

2 Comentários:

  • AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA³³³³!!!

    aHUaHuAHUAHUhaU, RAXEI!
    ain ain. ahaha. ain.

    bah, guri! Tu nunca foste num motel antes? aheuaheuahuehuae

    =))

    :*

    Por Blogger Jojo =], às 29 de novembro de 2008 21:32  

  • sim...no início da história já me dei conta o lugarzinho q tu parastes
    hahahahahahaha
    eu morro e nao escuto tudo
    hahahahahahaha
    o que importa é o que interessa né...foi nas palestras então...muito bom!

    Por Blogger carolinaroratto, às 30 de novembro de 2008 18:33  

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