O sol também se levanta
A minha relação com Hemingway sempre foi estranha. O primeiro livro que li foi o superclássico O velho e o mar. Retirei na biblioteca da universidade, há mais de 20 anos, de tanto que ouvia falar, principalmente sendo citado por outros autores que eu lia. Sinceramente: achei um saco. Não curti. A expectativa era muita e acabei me decepcionando. Deixei Hemingway escanteado por alguns anos. Passou a graduação, o mestrado e, quando estava no doutorado, fui fazer meu estágio doutoral em Nova York e, quando visitei Key West, no extremo sul do país, passei pela sua casa, que virou museu, e me encantei. Ao voltar, fui ler Por quem os sinos dobram e adorei. Depois, quando estava desenvolvendo um projeto de pesquisa sobre narrativas de viagem, fui parar em Paris é uma festa, que também curti muito. E, mais ou menos por essa época (2018 ou 2019), li Casados com Paris, de Paula McLain, que teve a genial ideia de escrever uma biografia em forma de narrativa de romance da primeira esposa de Hemingway, contando, como uma ótima ficção, a vida do casal em Paris. E era isso.
Meses atrás, lendo Escrever ficção, do professor Antonio Assis Brasil, fiquei curioso com as inúmeras citações que ele fazia de O sol também se levanta e fui conferir. E aí vou dizer uma coisa: eu esperava uma coisa e, novamente, encontrei outra, mas, dessa vez, para melhor. Pela forma como essa narrativa estava apresentada, eu imaginava um romance com mergulhos psicológicos pesados, pois o enredo era resumido assim: o personagem narrador era apaixonado por uma personagem, mas ele era impotente devido a uma mutilação sofrida na Primeira Guerra Mundial. Enquanto isso, eles mantinham um “relacionamento platônico”, enquanto ela satisfazia as suas necessidades com outro. Bueno, não é bem assim. Diria que essa é uma forma completamente rasteira e míope de apresentar essa obra.
Antes de dar a minha versão, vou apresentar o contexto, que aí se relaciona com o livro Casados com Paris, pois o romance se passa nos anos 1920, quando Hemingway era veterano da Primeira Guerra e morava em Paris. Durante a guerra, ele também foi gravemente ferido e se apaixonou pela enfermeira que cuidou dele, que não quis nada, então, esse romance seria uma forma simbólica de colocar o personagem mutilado como um apaixonado que não podia fazer nada pela amada, como ele, na vida real, ficou de mãos atadas em relação ao seu amor platônico. Ponto.
E agora, conto o que encontrei na narrativa. Primeiro, ele tem uma pegada relativamente semelhante a Paris é uma festa. Trata-se de um narrador americano que vive em Paris com um grupo de amigos, sendo que, dentre eles, está Brett, a moça por quem o protagonista é apaixonado e, de fato, eles trocam beijos e carinhos e ela fica com outros. Mas a narrativa é leve, ele não fica se matutando ou se moendo por dentro com isso, como eu imaginava. Se eu fosse fazer um resumo bem direto, a história é mais ou menos essa: Jake, o protagonista narrador, conta sobre as andanças do seu ciclo de amigos por Paris até que eles resolvem ir juntos para a Espanha para acompanhar a fiesta, uma tourada. Jake entende do assunto e, na segunda parte do livro, é uma narrativa leve e divertida sobre as andanças deles pela fiesta. Claro que acontecem outras coisas: alguns dos amigos de Jake brigam entre si por Brett, que está noiva de um deles, que também não liga muito para o fato de ela sair com outros. E, durante o evento, ela se envolve com Romero, um toureiro de 19 anos (ela tem 34), mas o sentimento que tive ao ler tudo é como se o narrador estivesse contando sobre suas andanças em um carnaval do Rio de Janeiro, pois é um clima de festa, bebedeira e flertes com putarias. Além disso, a história toda se passa em um curto espaço de tempo, então, eu classificaria muito mais como uma narrativa leve de comédia do que como um drama com paixões e sofrimento, como me fizeram imaginar. As touradas, inclusive, se destacam, mas não são páginas, ele realmente faz você se sentir na arena com poucas e precisas palavras. Tudo na medida certa.
Bom, agora, posso dizer que li as principais obras de Hemingway. Contudo, a minha única decepção foi mesmo O velho e o mar. As outras todas me agradaram bastante e, apesar dessas leituras bem espaçadas em termos de anos, reconsiderei a minha opinião sobre ele: não acho um clássico chato, mas também não o considero um supergênio da literatura. Acho um bom escritor, um sujeito que participou de guerras (Primeira Guerra e Guerra Civil Espanhola) e isso afetou a saúde mental dele, levando-o ao suicídio aos 61 anos, quando já estava completamente fora das casinhas. Inclusive, considero ler, num futuro de médio prazo, uma biografia sobre o velho Hemingway.
Sem nada mais, é isso.


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