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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Gabriela, cravo e canela


 Lembro que a primeira vez que tive vontade de ler Jorge Amado foi em 2005, quando participava da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. Estava fazendo meu TCC sobre Erico Verissimo e, naquele ano de comemoração do centenário do escritor, teve uma exposição comemorativa à data e, nela, havia várias cópias de cartas trocadas entre Erico e Jorge Amado falando sobre família e, principalmente, literatura. Aquela amizade ficou gravada em minha mente. Como não havia celular com câmera, eu copiava aquelas correspondências em um bloco de notas. Acho que fiquei horas anotando, tanto é que, quando vi, a exposição havia fechado, garçons começaram a passar servindo vinho e champanhe e, sem querer, fiquei para o evento seguinte, que aconteceria apenas para alguns figurões...

O tempo passou, eu fiz meu TCC e dissertação de mestrado sobre o Erico, até que, lá pelas tantas, li O Quincas Berro D’água, uma novela de Jorge Amado. Adorei. Passou-se mais um bom tempo até que, poucos anos atrás, li Capitães da Areia. Também adorei. Nunca cogitei ler Tieta, pois lembro da novela que assisti na Globo quando era criança. Então, agora, caiu-me nas mãos Gabriela, cravo e canela, que terminei hoje de ler. Não vou fazer um resumo geral sobre a obra, pois há inúmeros espalhados por aí, então vou simplesmente traçar as minhas impressões para, num futuro imaginado, se assim me for permitido, eu consultar esse texto quando o enredo e tudo o mais já estiverem deletados da minha massa cinzenta.

Confesso que peguei o livro com preconceito. Lembro vagamente da novela da Globo sobre o livro e esperava uma história mega clichê: um personagem masculino rico que se apaixona por uma personagem feminina pobre, linda e indefesa. Comecei a ler, mas logo percebi que, no livro, não era nada disso (não assisti à novela, mas, sendo da Globo, consigo imaginar). Para começo de conversa, Jorge Amado dá a pincelada do que vai rolar na primeira parte: um coronel mata a esposa e o amante no mesmo dia em que Nacib, um sírio naturalizado brasileiro e protagonista masculino do romance, conhece Gabriela. Contudo, até você chegar nesse dia, tem muita água para rolar. Ou seja, Gabriela praticamente inexiste na primeira centena de páginas da obra que leva o seu nome. E isso me agradou positivamente por vários motivos.

Primeiro, porque ele apresenta uma cidade, mas não apenas geograficamente, e sim todo o seu ambiente e época: Ilhéus, litoral da Bahia, em 1925. Ali é apresentado um universo de personagens que dão vida e verossimilhança à história. Nessas primeiras cem páginas, você conhece o árabe Nacib, o coronel Ramiro Bastos, o exportador de cacau Mundinho Falcão, o Capitão e o Doutor, as concubinas dos coronéis, como Glória, as prostitutas do cabaré, o conquistador Tonico Bastos, Malvina e muitos outros. Você passa a se sentir um conhecido desse povo todo, como se estivesse em Ilhéus conversando com todos eles no bar do Nacib. E isso é espetacular.

Bueno, ao ler a história e ver que ela não tinha nada a ver com o que eu imaginava (o clichê que eu achava que encontraria), comecei a gostar cada vez mais do romance. Inclusive, não é nenhuma surpresa, pois adorei os outros dois livros que já havia lido do Jorge Amado. Claro que, para ler e curtir, você precisa fazer uma viagem no tempo e considerar a cultura da época, especialmente em uma cidade do interior do Nordeste brasileiro, completamente desprovida de certas consciências sociais que temos relativamente mais avançadas do que naquele espaço/tempo. Contudo, há a todo momento o choque entre o sistema estilo feudo do século anterior (XIX), com a lei sendo a bala e a coragem, e a ideia de progressismo financeiro e de costumes. Obviamente que, como em todos os tempos, há o choque entre o pessoal conservador e o progressista, entre os que se deprimem por as coisas estarem mudando e os que se empolgam excessivamente, e assim por diante.

E sobre os protagonistas? Bom, na primeira parte a gente conhece bem Nacib, o árabe dono do bar, que logo no início da narrativa vê Filomena, sua cozinheira idosa, largar o emprego do dia para a noite para ir morar com o filho. Então, Nacib se encontra com uma questão importante para ser resolvida: achar uma cozinheira urgentemente, pois, além de manter o bar, ele ainda havia aceitado fazer o jantar de um importante evento marcado para o dia seguinte à partida de Filomena. O jeito, para resolver o problema do jantar, era contratar os serviços de duas irmãs gêmeas (idosas e virgens, estilo solteironas dos anos 1920), mas que eram muito caras; ou seja, ele praticamente não teria lucro, apenas não cancelou para não se queimar na praça. E assim passa a primeira parte, com a cidade se dividindo em dois polos (os apoiadores do octogenário coronel Ramiro Bastos e os do progressista – mas forasteiro – Mundinho Falcão), e Nacib no meio, sem poder tomar partido, pois todos são seus clientes. Enquanto isso, ele precisa achar a tal cozinheira, sendo que profissionais dessa área, capazes de fazer as comidas típicas do bar, estavam em falta na cidade.

Porém – não vou me alongar, pois está muito bem descrito no livro e nos resumos – Ilhéus está prosperando economicamente devido à produção e venda de cacau, e sertanejos de todas as partes do Nordeste partem para lá, atravessando matas a pé, fugidos da miséria de suas cidades. E uma dessas figuras é Gabriela, que, durante a travessia, se envolve com Clemente. Enquanto ela está indo para Ilhéus para conseguir emprego de “qualquer coisa” na cidade, ele está fazendo a travessia com o sonho de se tornar produtor de cacau. No fim, quando chegam, um fazendeiro contrata Clemente para trabalhar na roça, enquanto Nacib, num último ato desesperado (pois esses sertanejos recém-chegados se reuniam em um “mercado” para serem contratados), contrata Gabriela, que está completamente coberta de poeira e sujeira, justamente no dia em que acontece o assassinato cometido pelo coronel contra o amante e a esposa. Cansado, ele a leva, mas tendo quase certeza de que seria uma furada, pois uma sertaneja pé-rapada não saberia fazer grandes coisas. Contudo, ele é surpreendido em todos os sentidos: no dia seguinte, quando levanta, há comida deliciosa à sua espera e, mais: Gabriela é linda. E, assim, no final da primeira parte, ao deixar roupas que ele comprou para ela no quarto, Gabriela desperta e, de um jeito um tanto quanto cômico, eles acabam passando sua primeira noite juntos...

Bueno, acabei me alongando e, agora sim, vou resumir, destacando que A PARTIR DAQUI TEM SPOILER PESADO. Digo isso porque, quando eu cheguei ao clímax do romance, como eu não havia assistido à novela, nem visto a série lá dos anos 1970, e também não havia lido nenhum resumo sobre a obra, fui enganado pelo narrador – uma jogada de mestre dele. Inclusive, creio que quem lê o livro sabendo do final não vai ter o mesmo impacto de quem pegou o livro para ler sem saber quase nada sobre o enredo – a não ser que é uma história de amor entre Gabriela e um homem.

Pois bem, vou começar resumindo as outras questões do romance. Em dado momento, a briga política de Ilhéus pega fogo: Mundinho Falcão e Ramiro Bastos estão disputando vários cargos (indicando seus nomes para intendente, deputados, senadores etc.) e, para os cargos que não são municipais, o apoio de Itabuna ganha importância. Então, o intendente de Itabuna conversa com ambos (ele é amigo de longa data de Ramiro), mas acaba se desentendendo com o coronel e apoiando Mundinho. Aí o intendente sofre um atentado quando estava no bar de Nacib, acompanhado de Mundinho, em um dos momentos mais nervosos do romance, pois o pistoleiro é um jagunço que fez a travessia com Gabriela e, após longa perseguição, é ela quem acaba salvando ele. Mas, para não me estender mais e ainda contar o principal do romance, termino dizendo apenas que esse pistoleiro se salva, bem como o intendente não morre com o tiro. A questão política estava praticamente resolvida, mas é finalizada com a morte de Ramiro Bastos pouco antes das eleições. Assim, a turma de Mundinho leva a melhor, para a alegria dos defensores do progresso e do fim de algumas das práticas mais cruéis do coronelismo em Ilhéus.

Mas o principal mesmo é o que se sucede com Nacib e Gabriela. Obviamente, eles se envolvem, mas ela não muda nada: segue ingênua, gosta de flertar com outros homens etc., enquanto Nacib vai ficando bitolado, completamente apaixonado, com medo de perdê-la, pois os principais coronéis e autoridades da cidade dão em cima dela, oferecendo casa montada, pedaço de terra etc. Mesmo temendo o preconceito, ele acaba casando com ela para garantir que não vai perdê-la; porém, ela diz a todo momento que não precisa, que está bom assim, mas que, se seu Nacib quer, ela não vai dizer não.

E aí acontece o seguinte: Nacib tenta transformá-la numa dama, sem sucesso. Mas, ao mesmo tempo, eles são descritos como completamente apaixonados um pelo outro, e é aí que o sem-vergonha (no bom sentido) Jorge Amado pega o leitor. Pois, ao mesmo tempo em que há o conflito entre a vontade de Nacib de “esconder” Gabriela da cobiça dos outros homens, de tentar controlá-la e fazer com que ela se vista e se comporte como as dondocas de Ilhéus, e a vontade dela de ser livre, de brincar, de ir ao circo, de andar descalça, também há a descrição de um casal feliz: do tipo que se dá bem, briga por bobagem, mas se ama na cama.

Você está nesse ambiente, lá pelo final do livro, achando que vai ficar tudo nesse banho-maria, quando, de repente: PAH! Você se surpreende junto com Nacib. Tudo começa quando ele pega um guri que trabalha para ele roubando dinheiro do caixa. Então, ele fica puto e resolve bater no guri, que não aceita numa boa e larga uma frase do tipo: “vai cuidar da tua mulher, que os outros tão furando”. Nacib pega o guri pelo cangote, que se caga todo, e conta o que sabe. Então, no dia seguinte, Nacib finge sair e acaba flagrando Gabriela na cama com Tonico (o filho de Ramiro Bastos, metido a galã, casado e que é até padrinho do casamento de Nacib). E aí seu mundo cai – e o teu, leitor, cai junto. Pois você, mesmo sabendo que aquele casamento foi todo errado, que Nacib oprimia Gabriela etc., se sente traído. E é uma sensação estranha. Triste, eu diria. E o que acontece depois também tem esse ar de tristeza que qualquer pessoa que já viveu o fim de um casamento sabe bem do que estou falando. E o resto não vou detalhar, pois é meio uma ajeitação para dar um ar de “final feliz” à história. Apenas me limito a dizer que os amigos de Nacib o ajudam a anular o casamento (então fica uma coisa do tipo “nunca aconteceu”), Gabriela vai a um terreiro e arma para, às vésperas da inauguração do restaurante colocado por Nacib em sociedade com Mundinho Falcão, desaparecer o cozinheiro e, assim, ele termina tendo que chamá-la de volta, pois nenhuma outra cozinheira no mundo se iguala a ela. Chega-se ao happy end, com os dois voltando a viver como antes do casamento: ela sendo a cozinheira dele, com quem às vezes ele deita, mas também deita com as prostitutas dos cabarés, enquanto ela também passa a não lhe dever nenhuma fidelidade. Algo que eu, particularmente, achei meio impossível de acontecer na vida real, especialmente nos anos 1920, mas que não tira o brilho do romance.

That’s it, folks.

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