.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Meio sol amarelo

Um livrão. Nos dois sentidos: na qualidade e no tamanho. No primeiro quesito, creio que entrou na seleta lista dos 10 melhores que já li (não tenho formada essa lista, mas penso que se a fizesse, “Meio sol amarelo” estaria nela). No segundo, são 500 páginas escritas pela nigeriana (ou melhor, biafrense) Chimamanda Ngozi Adichie. Como fez Erico Verissimo com a história (principalmente das guerras) do Rio Grande do Sul, Chimamanda transformou a guerra de Biafra (1967-1970) num romance épico. Para quem não conhece (como eu não conhecia) esse confronto é uma das maiores tragédias da história da humanidade: mais de um milhão de mortos. Vou resenhar aqui o livro e, por consequência, a história desse conflito.
Primeiro vamos ao contexto histórico, que Chimamanda coloca como pano de fundo, pois o foco são os personagens. Penso que é esclarecedor ter esse mapa, pois eu fui fazendo esse desenho na medida em que lia o livro e, volta e meia, quando pesquisava mais sobre a situação da Nigéria do período e da atualidade na internet. E os personagens problematizam isso tudo.
Bom, comecemos pela independência nigeriana em 1960. A Inglaterra foi o europeu colonizador que, na divisão da África entre os países europeus, ficou com todo o território nigeriano (assim como ficou também com outros países, mas como o livro trata da Nigéria, vou ficar apenas com o caso nigeriano). A divisão, obviamente, foi feita pelos europeus, e os ingleses estavam cagando para quem vivia naquele espaço geográfico. Os ingleses foram que demarcaram as fronteiras da Nigéria com os outros países, sem se importar se havia ou não povos completamente diferentes e rivais lá dentro. Para você entender melhor, a Nigéria é um país majoritariamente muçulmano e a parte cristã fica no sul, onde está Biafra.
Há tribos com suas culturas e suas histórias que foram, antes da independência, massacradas pelos ingleses. Mas, como o livro pega dos anos 1960 em diante, ficarei apenas nesse período. O que resulta de você enfiar no mesmo espaço povos completamente diferentes, principalmente havendo muçulmanos intolerantes e psicóticos no meio? Em conflitos e mortes. Mas, a história não é tão simples assim.
Após a independência da Nigéria, o novo governo, que na verdade era apontado pelo povo como representante dos ingleses, durou até 1966, ou seja, seis anos. Tudo porque, criou-se esse clima anti-governo pela população, tanto do norte, quanto do sul, por se acreditar que o presidente nigeriano era nada mais nada menos do que um defensor dos interesses da Inglaterra, o colonizador e opressor. Esse clima favoreceu a um golpe militar. Nesse golpe, o povo Ibu (de maioria cristã), do sul do país, ficou com a maioria dos cargos de chefia. Assim, de início, todos vibraram com o golpe e as pessoas do sul viviam momentos de prosperidade: tinham dinheiro, havia uma classe média bem parecida com a brasileira, universidades prosperavam. Entretanto, seis meses depois do primeiro golpe houve um segundo: o dos muçulmanos, que também faziam parte do governo, chamados de hauças, contra os ibus. Há ainda outras duas etnias majoritárias no país, mas que foram poupadas pelos hauças. E no que resultou esse segundo golpe? Em massacre. Os hauças começaram a matar indiscriminadamente todos os ibus que viviam no norte. Era a lei do extermínio. Chacinas de famílias inteiras. Soldados ibus, que até então eram colegas dos hauças, também eram mortos. Funcionários do governo, policiais, professores de escolas, universitários, crianças, mulheres, grávidas, todos eram exterminados, forçando o povo ibu a voltar para o sul. No sul, chegavam refugiados e notícias do massacre.
E, óbvio, criou-se um clima propício para o sul proclamar buscar a independência, apartando-se da Nigéria muçulmana. Óbvio que, como tudo isso acontecia na África, o resto do mundo pouco ligou e, quando ligou, era com lentes deturpadas de que o povo do sul era rebelde que queria se separar da Nigéria, um país inventado pelos ingleses. Assim, o sul passou a lutar pela independência de um novo país, que passou a se chamar Biafra e que tinha na bandeira o desenho de meio sol, daí o nome do livro de Chimamanda. Foram três anos de massacre onde a Nigéria teve apoio dos europeus e onde os nigerianos avançaram para o sul, destruindo tudo o que viam pela frente, e impondo um bloqueio internacional ao território de Biafra, sem deixar que lá pousassem aviões da Cruz Vermelha para entregar alimentos e remédios, matando de fome e de doenças milhares de pessoas. Foi através de Biafra que as fotos de crianças africanas com Kwashiorkor (a barriga inchada e o resto do corpo esquelético) se tornaram famosas no mundo inteiro. Óbvio que essa não foi somente uma guerra cultural e religiosa, mas também foi uma guerra econômica e de disputa financeira, pois em Biafra ficava um importante porto da Nigéria, Port Harcourt, além de terras com petróleo. Dá para deduzir que, com Biafra independente da Nigéria, por tabela, a Inglaterra também não conseguiria botar as mãos naquele petróleo com tanta facilidade...
Mas, agora vamos à literatura, que humaniza todas essas informações.
O livro conta com cinco personagens principais: Odenigbo, um professor universitário, que se casa ao longo da história com Olana, também professora. Ugwu, que é o criado de Odenigbo (e que o chama de Patrão), Kainene, irmã gêmea de Olana, que é bem diferente dela tanto fisicamente quanto psicologicamente (enquanto a primeira é uma humanista, a segunda é uma perua da classe média alta nigeriana) e Richard, um jornalista e escritor inglês branco que se apaixona por Kainene e acaba ficando na Nigéria (ou melhor, em Biafra). A curiosidade é que Richard aprende a falar ibu e se torna praticamente um biafrense. Há outros personagens secundários interessantes, obviamente, como o coronel Madu, que faz com que Richard se sinta um Bento de Machado de Assis, em relação a amizade de Kainene com Madu. (a foto, acima, é do flime baseado no livro, que ainda não assisti).
Eu sei que já me alonguei, mas isso se justifica porque o livro é assim: empolgante. Você pega e entra nele, se transporta para a Nigéria, para Biafra, e você simplesmente se apaixona pelos personagens e se emociona com as histórias. No entanto, tentarei ser mais sucinto.
O romance faz algumas poucas alternâncias entre o início dos anos 1960, ou seja, o período pré-guerra, e o final da década, quando a guerra estava ocorrendo. Do início, até o começo da guerra, você se sente como se estivesse lendo um romance sobre famílias da classe média alta brasileira contemporânea: todos os personagens citados viviam bem, tinham uma bela casa, carro, bebiam as melhores bebidas, cozinhavam os melhores pratos. Tudo porque Odenigbo e Olana eram professores universitários. Porém, é curiosa a cena em que Ugwu sai de sua tribo para trabalhar de criado na casa de Odenigbo. A descrição dele vendo pela primeira vez uma geladeira, um aparelho de rádio e televisão é tocante. E, Odenigbo, no início, é um personagem bem engraçado, pois ele não queria um criado, por ter ideias totalmente socialistas e um certo ranço justificável com a Inglaterra e com os brancos. O que, obviamente, complexifica o ingresso de Richard no círculo familiar. Em síntese, o que quero dizer aqui é que esses personagens viviam bem e tranquilamente no sul da Nigéria, viajavam pelo país, tinham parentes e amigos no norte (alguns hauças, inclusive), enfim, a Nigéria é apresentada como um lugar normal e tranquilo para se viver.
Porém, o início da guerra faz com que algo impossível de se acreditar acabasse acontecendo: o massacre, a miséria, a fome, a ruína e a morte de milhões de pessoas. São duas cenas marcantes no romance que exemplificam isso. A primeira é quando Olana estava no norte, visitando um amigo muçulmano, quando começa o extermínio a partir da tomada do governo pelos hauças. Sabendo disso, o amigo de Olana (um hauça) a veste de muçulmana, com a túnica e tudo, e a leva até a fronteira de Biafra. Ela inicialmente dá risada, acha a preocupação dele um exagero do amigo, porém, pelo caminho, ela vê soldados com arma em punho, corpos espalhados pelo chão, grávidas expostas na rua com a barriga aberta e muito mais. Ela volta em um trem lotado para a sua cidade no sul e vê uma mulher levando a cabeça do filho em uma sacola. Outra cena impressionante é quando Richard chega de Londres a Nigéria e se depara com soldados hauças invadindo o aeroporto, matando todos os ibus que encontravam pela frente. E como eles sabiam quem era ibu? Eles pediam para o sujeito falar algo como “Salve Ala” e, pelo sotaque, eles reconheciam os ibus. Assim, logo após conversar com um funcionário do aeroporto, Richard vê o sujeito ser baleado, com os intestinos saltando da barriga aberta pelas balas. Como falei antes, a matança foi indiscriminada: não importava se você fosse funcionário de aeroporto, padre, estudante, mulher, criança, idoso, etc. Bastava ser ibu para ser alvo. Richard, por ser inglês, ainda conseguia circular pelo país com mais liberdade, mas ele acompanha tudo com Kainene, que nesse momento já é praticamente sua esposa. As cidades de Biafra vão sendo derrubadas, uma a uma. A cada derrubada, o povo segue fugindo para a próxima, onde os nigerianos ainda não chegaram. Tudo é narrado pela rádio Biafra que, por sua vez, vende a falsa imagem de que os soldados biafrenses vão colocar os vândalos para correr.
Quem fica para trás ou não quer fugir, porém, acaba sendo morto. Soldados estupram mulheres, matam crianças de forma cruel, destroem o que encontram pela frente. São três anos de terror, pois pessoas, como os personagens Olana, Odenigbo e Kainene, que eram até então da classe média alta nigeriana, passam a ser miseráveis sem renda e sem casa, com apenas a roupa do corpo e que precisam lutar nas filas da rara ajuda que chega da Cruz Vermelha para conseguir remédio, comida ou leite (pois a essa altura eles têm uma filha pequena, que nasceu de uma complexa relação extraconjugal de Odenigbo com a criada da mãe dele, mas que não vou entrar em detalhes aqui). Em síntese, todos ficam miseráveis, desnutridos, verdadeiros trapos humanos. E, crianças até então saudáveis, passam a virar pele e osso com a barriga inchada. Acho que, como já da para perceber, é um romance de tirar o fôlego. No entanto, vale ressaltar que o lado de Biafra da história não é apresentado com nenhuma reverência, pois os solados biafrenses também roubavam, matavam e estupravam mulheres “em nome da causa”. Confiscavam casa, comida, carros, mulheres e tudo o que quisesse em nome da lealdade ao país e à Vossa Excelência. Também recrutavam qualquer homem que fosse caracterizado como “civil ocioso” e, assim, Ugwu acaba sendo incorporado, sem nenhum treinamento, tendo que carregar armas velhas e de pouco poder destrutivo para defender Biafra. Por outro lado, os nigerianos atacavam com aviões cedidos pelos europeus e há uma descrição genial do acompanhamento que Richard faz a dois jornalistas norte-americanos em meio à guerra. Os dois são extremamente preconceituosos e não enxergam os africanos como pessoas. Tanto é que um deles está mais preocupado em apurar a morte de um funcionário italiano da usina de petróleo do que o absurdo que estava acontecendo em todo o território biafrense. “Milhares de biafrenses mortos e esse homem querendo saber se havia novidades sobre a morte de um branco”, reflete Richard.
Enfim, são N pontos e N cenas que poderiam ser usadas aqui para ilustrar o quão bom é o livro e a literatura de Chimamanda (nascida em 1977 e filha de dois sobreviventes da guerra). Porém, encerro apenas dizendo a você, imaginário leitor, para ler esse livro, publicado em português pela Companhia das Letras, pois ele é ótimo, de fácil compreensão e empolgante. E, apesar de Chimamanda não ser jornalista, de certa forma considero que o que ela fez foi uma puta reportagem sobre o que aconteceu na Nigéria-Biafra. E, só para encerrar, o fim da guerra não representou em nada a paz ou a volta da vida como era antes. Os biafrenses foram humilhados e perderam tudo. Richard, por exemplo, ao retornar à casa de Kainene encontra uma senhora que a ocupou, pois ela havia sido abandonada. Já Odenigbo e Olana, além de no caminho serem agredidos e obrigados a carregar lenhas para os soldados nigerianos, encontram a sua casa completamente em ruínas, com fezes humanas por todas as partes (inclusive, a banheira cheia de merda, que àquela altura estavam duras feito pedras). E, obviamente, houve a censura e o controle sobre todos os biafrenses para evitar o surgimento de novos pontos de “ações rebeldes”. Na internet você também encontra material que mostra a independência de Biafra ainda é um sonho oculto de muitos que vivem no sul da Nigéria, mas praticamente impossível de ser alcançado, pois não interessa aos americanos ou europeus tal independência.
No entanto, de minha parte, desejo longa vida aos biafrenses do bem (pois há maus também) e à bandeira que exibe o meio sol amarelo!

1 Comentários:

  • Pronto Ritter, não precisou muito para me convencer. Gostei da idéia do livro e já vai para minha infindável lista de coisas por ler.

    Sobre a questão de Biafra, interessante falar sobre o apoio militar soviético a Nigéria e os causos do lendário "Biafran Airlift", feito por civis americanos e europeus, levando material médico e comida para Biafra em vetustos quadrimotores - já aposentados das linhas aéreas de todo mundo pelos jatos -, arriscando os culhões sem nenhuma segurança e sendo ameaçado o tempo todo pelos canhões dos MiG-17 nigerianos.

    P.S. Tá! O texto tá bom também hahahahahahahahaha

    Por Blogger Ramon Mendes, às 3 de fevereiro de 2018 15:43  

Postar um comentário

<< Home