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domingo, 28 de outubro de 2012

E.T., telefone, minha casa

Às vezes acho que não sou desse planeta. Escrevi na minha coluna de sábado do Jornal das Missões sobre a minha barragem na entrada do jogo Grêmio x Barcelona do Equador no Olímpico pela Sul-Americana na quarta-feira. Não botei o texto aqui, pois tive que resumir demais em função do espaço. Sintetizando novamente, fui ao tal jogo de bermuda, mas fui barrado pelo carinha da Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos (Aceg) sob ordens do outro carinha, da Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Não discuti, simplesmente saí da sala de credenciamento da imprensa tendo 20 minutos para encontrar uma calça. Senti-me como se estivesse numa gincana, tentando convencer alguém a me emprestar uma calça, entrar comigo, e pegar ela de volta dentro do estádio. Algo simples. Mas as pessoas riam e perguntavam “cadê a câmara escondida”. Até que uma hora vi um cara com uma latinha de cerveja na mão, e cheguei de mansinho, como se fosse fazer uma proposta indecente:
- E aí, cara.
- Opa! Tudo bem?
- Tudo. Cara, é o seguinte... Você vai entrar aqui, no portão 3?
Ele se anima:
- Sim, sim. Vou entrar aqui, e você?
- Então. Depende. Preciso de uma calça.
- Ãhm?
- É, se tu me emprestar tua calça, eu entro.
O cara estoura em risada:
- AHAHAHAHHAHAHAHAHAHA. Já imaginei de tudo na vida, menos isso. Um cara pedindo minhas calças no Olímpico!
- Cara, não ri. É sério. Os carinhas da Federação não deixam eu entrar de bermuda, pois sou da imprensa. Então, fizemos o seguinte: vamos ali no banheiro, você veste minha bermuda, eu visto suas calças, pego a credencial ali na sala de imprensa e entramos. Lá dentro, vamos reto no banheiro e destrocamos tudo, sacou?
- Cara, entendi, mas quem garante que tu vai devolver minha calça?
- Mas você vai comigo. Te devolvo de boa.
- Mas tem outro problema.
- Qual?
- Que número é tua calça? 44?
Na verdade é 46, mas respondi:
- Isso.
- Ih, não vai dar. A minha é 40. Você vai estourar ela.
- Poutz.
- Por que não compra uma lá na loja?
- Tô sem grana.
- Pega no cartão.
- Eu tenho cara de quem usa cartão?
Então, fiquei ali, bebendo com o carinha, rindo da situação. O maluco dizia: “rapaz, vou ter que criar um blog pra contar essa história, ou colocar no Facebook. Ninguém vai acreditar! Nunca pensei que iam pedir minhas calças no Olímpico!”. Como diria o Pedro Ernesto Denardin: inacreditável mesmo.
22h. Desisti. O pátio do Olímpico estava praticamente deserto, fora alguns atrasados que ficaram bebendo e corriam em direção aos portões. Fui me retirando do estádio, como um cão proibido de entrar no supermercado onde só os humanos entram, e aí vi uma capela. Nunca percebi aquela capela. Cheguei lá, e fiquei conversando com a dona Elza, a vovozinha que cuida da capela. Ela contou que tinha um altar, com um presépio, mas o padre que fazia missa lá foi embora e roubou o troço. “Não dá pra confiar nem em padre”, disse dona Elza. Ela ainda contou algumas histórias do Renato pulando o muro do Olímpico pra fazer festa e se queixou que os jogadores de hoje em dia são tão blindados que ela nem sabe quem são. Realmente cada vez mais me convenço de que estão querendo matar o futebol de vez...
Bom, escrevi o tal texto, questionando se faz alguma diferença para o leitor saber se estou escrevendo a matéria de bermuda, de calça, de terno, só de cuecas ou pelado? Se estou de pau duro ou a meio mastro?
Enfim, o que importa é o texto, carajo! E outra: até entenderia o argumento de “você está trabalhando cobrindo um evento, como você quer ir de bermuda?”. Mas é jogo de futebol e o calor é do caralho! Se você vai cobrir algo onde todos estão de calça, ou de terno e gravata, você se veste conforme a ocasião. Mas no Olímpico, naquela noite, 90% do estádio estava de bermuda! Imaginem o Hunter Thompson cobrindo o Kentucky Derby de terno e gravata? Fala sério! Ele, como os outros presentes, estavam de bermuda. E mais: como alguém vai fazer uma matéria literária, investigativa ou diferenciada tendo que estar uniformizado e identificado como IMPRENSA, com todas as letras, no campo onde acontecem os acontecimentos.
Enfim, tem coisas que acontecem que me fazem querer voltar para marte, como a vovó que veio falar comigo no centro hoje de tarde e, ao saber que eu era jornalista, me sai com essa: “se eu não fosse assistente social, seria jornalista. Eu adoro a Veja! Tu sabe que antes tinha um pessoal dizendo que a maconha não fazia mal, mas nessa última Veja saiu na capa que faz mal sim. Agora está decretado: maconha faz mal. Tá lá na Veja”. Fiquei me questionando se deveria agir como um Paulo Francis e dizer para a senhora: “querida vovó, não leve a mal, mas não quero conversar contigo” ou se agia educamente e oferecia um baseado pra ela, ou ainda se saia de fininho. Resolvi optar pela terceira alternativa.
Para fechar um dia, concluí que no passado eu também fui um idiota completo. Cheguei a essa conclusão ao ver centenas de pessoas comemorando euforicamente a vitória do novo prefeito de Pelotas no segundo turno. Eu já fiz isso, nos meus tempos de irracionalidade. Como alguém pode sair da rua para comemorar algum resultado político-partidário? Quanto mais roubam, quanto mais absurdos acontecem nesse país, mais as pessoas comemoram resultados políticos-partidários.
É algo como: vamos lá, estamos desempregados, falidos, sem dinheiro, enrabados, estuprados, foderam com todo mundo, a cidade está caindo aos pedaços, mas esse novo Messias vai nos salvar de todos os males possíveis e imagináveis! E, depois de quatro anos, o povo continua tão ou mais miserável do que era, e o circo se repete, incessantemente, pois a burrice e a alienação continuam na mesma.
Bom, já está tarde, e acho que o pessoal do planeta marte está emitindo sinal para se comunicar comigo. Vou lá ver o que eles querem.
Hasta!

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