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segunda-feira, 7 de março de 2011

As guerras do Brasil - Ferrovias já!

No Brasil, teoricamente, não há guerra. Porém, na prática temos dois tipos de guerra: a do tráfico de drogas e a do trânsito. A meu ver, o problema mais urgente e que atinge a todos os brasileiros, do Oiapoque ao Chuí, é a guerra no trânsito. Infelizmente, entra ano e sai ano, e milhares de brasileiros perdem a vida nas estradas anualmente. Entretanto, o acidente do último final de semana, que resultou em 27 vítimas fatais, foi a gota d’água. É preciso, urgentemente, que se tirem os caminhões das estradas. Um caminhão andando na estrada é um tubarão a solta no mar, cheio de peixes. Não da mais. A tragédia de Santo Cristo comprovou o óbvio: os caminhões não podem conviver pacificamente com outros veículos. Lembro-me que, certa vez, viajando de madrugada rumo ao litoral, passamos por um caminhão virado no meio da pista em Santa Catarina. Eu era pequeno, devia ter uns 10, 12 anos, mas lembro-me como se fosse hoje que fiquei pensando: poxa, se a gente tivesse passado naquele local na hora que o caminhão virou, ele poderia ter esmagado todos nós!
E foi isso que aconteceu no acidente que arrasou, não só Santo Cristo e as Missões, mas todo o Estado. O ônibus estava passando exatamente pelo local onde, mais uma vez, um caminhão perdeu o controle devastando tudo que via pela frente.
De minha parte, nas próximas eleições, já tenho a fórmula que o candidato a presidente terá que usar para conquistar meu voto: apresentar um bom projeto, ou para se investir na construção de redes de trem, ou para criar estradas exclusivas para caminhões, e, então, eles que se acertem na estrada deles. Sei que isso exigiria obras faraônicas, mas, no caso, é completamente necessário. Que aumentem os impostos, que criem pedágios ou, simplesmente, que parem de roubar, mas façam essa obra! Ou ainda, que criem condições para que empresas invistam no transporte ferroviário. Que incentivem a construção de ferrovias. Que coloquem dinheiro público em algum programa nesse sentido. É urgente! Milhões de vidas serão poupadas com uma obra dessas.
Claro que, simplesmente criando isso não resolveríamos o problema 100%. Além de obras, também é preciso revolucionar a cabeça do brasileiro. As pessoas agem como se estivessem em guerra: uma quer ultrapassar a outra, não importa se é em local proibido ou não, jovens querem ir exibir seus carros, como se fossem a extensão de seus pênis, podre de bêbados e, depois de conquistar uma Maria-gasolina não consegume levantar nada de tanto que beberam na noite... Infelizmente o homem criou uma ferramenta que não sabe como usá-la.
Acho que, assim como eu, praticamente todos os leitores já perderam pessoas próximas ou conhecidas em acidentes. Eu já vi amigos meus, colegas e conhecidos se envolverem em acidentes, mas dois, em especial, posso dizer que mudou a minha vida.
O primeiro foi em um ano novo, dia 1° de janeiro de 1995. Meu primo Gilberto Silvello estava voltando de um passeio na Fonte Ijuí. Além dele, estavam no carro a esposa, Lígia, o filho Luciano, de 3 anos, e dois sobrinhos de Lígia, irmãos, adolescentes, um guri e uma guria. Era por volta das 17h quando meu primo viu um carro vindo na contramão. Ele foi com o carro para o acostamento, mas não adiantou. O outro carro, conduzido por um motorista bêbado, chocou-se frontalmente com o carro do meu primo. Ninguém sobreviveu. Meu primo e a esposa, que eram médicos, estavam começando a colher as frutas de tudo que tinham plantado arduamente durante anos. A tragédia mudou bruscamente a vida de toda a família: meus tios, meus primos, minha mãe, meu pai, meu irmão, minha irmã, ninguém nunca se recuperou do choque. Passaram-se mais de 15 anos e, sempre que alguém viaja de carro, fica um clima de apreensão no ar.
O segundo também foi traumatizante. Meu colega Felipe Brem, conhecido como Aranha, que se formaria comigo no mesmo semestre, também envolveu-se em um acidente. O amigo dele, que estava dirigindo, perdeu o controle do carro, que saiu da pista e capotou. Ele foi o único a morrer no acidente. Poucos dias antes estávamos tomando cerveja no bar, planejando a nossa formatura e a nossa vida de formados. Assim como no primeiro caso, também nunca me recuperei dessa perda, por mais que a gente não fique dizendo isso a toda hora para todo mundo.
Resolvi contar essas histórias porque sei que muitos leitores passaram pelo mesmo e, infelizmente, muitos ainda vão passar por isso. A tragédia de Santo Cristo não pode passar batida. Não é possível seguir como está. Essa guerra tem que parar, e já! Coloquem uma viatura em cada canto das rodovias, tirem os caminhões das estradas, façam o que for necessário, mas não destruam mais milhares de lares todos os anos. Uma perda em acidente de trânsito é uma perda irreversível e, por mais que a imprensa esqueça anos depois o quê se passou, aqueles que perderam seus entes jamais vão voltar a ter a vida que tinham antes. Eu digo isso por mim e por todos que passaram por isso. Juízo para todos. E que os políticos parem para pensar no que eles podem fazer para reduzir isso. Do simples vereador ao presidente da República. Por favor.
* Texto publicado em A Tribuna Regional

Para os leitores do blog, coloco a foto, publicada em Zero Hora, do enterro das vítimas de Santo Cristo. Imagens desse tipo tinham que ser coladas em Brasília para ver se os políticos criam vergonha na cara para tirar os caminhões das estradas. É triste.

3 Comentários:

  • o aumento de imposto nao dà, mas è necessàrio faze alguma coisa. atè porque o brasil tem muito imposto mal usado.

    esperemos pelo melhor

    Por Blogger Zaratustra, às 8 de março de 2011 12:29  

  • Pra quem tá do ladinho de Sto Cristo como eu os dias têm sido horríveis. Uma colega de trabalho do meu namorado perdeu o marido (27ª vítima) além de parentes e está no hospital na cama ao lado do sogro. Adolescentes e crianças pequeninas perderam pai e mãe. Por aqui o clima é horrível.
    Já passou a hora de algo ser feito. O pior é que quando fazem, pioram. Segundo novas informações, o motorista do caminhão bitrem só viajava na madrugada por ser proibido viagens desse tipo de caminhão durante o dia em feriados prolongados. Segundo a família, ele não interrompeu a viagem porque queria ver o filho. Não deu. Mais um órfão.

    O que mais fiz nesses últimos dias foi lembrar do Aranha. Saudade daquela criatura. Com certeza tá aprontando todas com o Cara lá de cima.

    Por Blogger Dilea Pase, às 8 de março de 2011 16:24  

  • Eu ainda viajei de trem minuano, saia de Ijuí as 19h e chegava em POA às 7h do dia seguinte, viagem confortável e segura. Dou força por novas ferrovias e, porque não, hidrovias também.
    Do falecimento do Beto, tenho uma lembrança sobrenatural, a Zê (3ª esposa, ela se dizia meio bruxa)ouviu choro e lamentaçãoes bem na hora do acidente(morávamos em Alvorada, grande POA) e me perguntou se eu estava ouvindo também. Respondi que não. No dia seguinte estava a notícia no jornal. Loucura.

    Por Blogger Marcos, às 9 de março de 2011 11:14  

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