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terça-feira, 1 de março de 2011

Tributo ao mestre

No dia 9 de fevereiro postei aqui, nesse humilde blog, o texto “Um grande escritor, um grande homem”. Naquela ocasião, Moacyr Scliar já estava internado em estado grave. Ali, naquele texto, contei tudo o que tinha para contar em relação ao Scliar (entrevista que fiz, palestras que assisti, livros que li e troca de e-mails), portanto, não repetirei tudo novamente. Entretanto, senti-me na obrigação de deixar aqui alguma espécie de homenagem ao grande homem e grande escritor que, inclusive, foi um dos gatos pingados que já leu esse blog.
Agora, após sua morte física, fico pensando que está acontecendo com ele o que já aconteceu com muitos outros: depois de seu desencarnamento vão triplicar a venda de seus livros, cadernos especiais, DVDs, produtos multimídia, etc. E, sinceramente, considero isso ao mesmo tempo bom e muito triste. Por que Scliar não estava nas capas dos jornais, não era lido por todos (tinha muitos leitores, sim, mas muitos vão ler seus livros agora, devido à curiosidade causada pela sua morte), enfim, por que não era lido por todos quando era vivo? Por que não era tema de entrevistas com presidentes, governadores, senadores, quando era vivo? Por que nas entrevistas feitas com o Lula e a Dilma nunca se perguntou: “escuta, senhora presidente, que livros de literatura você gosta? O que a senhora acha dos grandes escritores da contemporaneidade, como o Verissimo e o Scliar?". Digam-me, caros leitores!? Por que depois que a criatura morre, todo mundo pára tudo e vai lá ver o que ela escreveu e, se embasbacando com a qualidade da obra, arregalam os olhos e exclamam: “Nossa, ele era um gênio!”. Carajo! Ele sempre foi gênio, sua obra sempre esteve ali, a disposição de todos, nas livrarias, nos jornais, entretanto, depois que o cara morre até aqueles que nunca leram um livro, ao ver um monte de matérias na televisão e na internet, murmuram para si mesmos: “mas eu preciso ler esse cara”. Tudo bem, vá ler o cara que morreu, que é muito bom, mas leia também os vivos enquanto são vivos.
Dentre as experiências que tive com a obra do Scliar, lembro-me que, quando o vi falar na Feira do Livro de Porto Alegre de 2009, no Centro Cultural Erico Verissimo, mudei todo o meu dia para ir vê-lo. Na época eu morava com a minha irmã no bairro Partenon. A palestra era numa segunda-feira à noite. Saí do nosso apartamento no Partenon no final da tarde somente com o objetivo de ir ver a palestra do Scliar. E, após vê-lo falar sobre Euclides da Cunha e Gustave Le Bom, concluí, esperando o ônibus de volta para o Partenon: valeu a pena. E, enquanto isso, também criticava mentalmente a população porto-alegrense, pois, em uma cidade com quase dois milhões de habitantes não é admissível que apenas umas 50 pessoas reservem algumas horas de um dia qualquer para ir assistir ao Scliar falando sobre outros mestres da literatura e do pensamento universal. Entretanto, aposto que agora que ele morreu, se ele voltasse do além para dar uma palestra sobre qualquer assunto, os porto-alegrenses lotariam um Olímpico ou um Beira-Rio para vê-lo falar. São coisas da vida. São coisas da morte. Sorte de quem se ligou em se inteirar da sua obra e da sua vida enquanto ele ainda estava aqui, porque a partir de agora todas as homenagens são póstumas.

4 Comentários:

  • Poi zé alemao... e o Sarney?

    Por Blogger Zaratustra, às 1 de março de 2011 05:34  

  • é sempre assim... Parece que a gente quer sempre com mais afinco aquilo que não tem mais.
    Enfim, mas pra ti não ficar triste, Scliar foi uma companhia literária desde a infância. Lembro bem quando ele foi numa feira do livro da EFA e eu ganhei um autógrafo no Um país chamado infância, há tantos anos atrás. Depois, lembro da gente tietando ele na feira do livro de 2003, naquela excursão da turma da foto. Acho que ainda tenho uma foto tua com ele, tenho que achar... Isso possivelmente depois de ler Centauro no Jardim, que me fez ir atrás de outros livros dele, e prestar mais atenção nas suas colunas na zero hora.
    Grande perda, mas que bom que há um grande acervo e a possibilidade dele continuar imortal pelas letrinhas! (então para de reclamar das pessoas mané!)

    Por Blogger Lara, às 1 de março de 2011 06:00  

  • eh verdade! esqueci dessa da feira do livro. e eu to com a tua foto com ele! auhauhauha. mas q bah! q cosa....
    e, dessa da efa, isso eh outra coisa: ele ia pra todo lugar, não eh como outros que soh querem fica enfurnados na capital e soh saem de la pra irem pro rio, sp, NY. esses cães tinham q a prender com ele. falowww

    Por Blogger Eduardo, às 1 de março de 2011 09:11  

  • Eu conheci o Scliar com o Centauro no Jardim e depois vieram outros além da ZH, primeira página que eu procurava pra ler. Lembro dele em Santa Rosa em algum ano da minha adolescência. Ele e Charles Kiefer, e isso me marcou muito. Kiefer um chato (desculpe, mas não consigo gostar dele depois daquela palestra), cara de Três de Maio se achando e Scliar já um consagrado escritor de Porto Alegre que na nossa imaginação era looonge, um ser super simples.
    Mas uma coisa, infelizmente, é real. No Brasil, em vida, fazem mais sucessos os BBBs e mulheres frutas alheios. Pra ser reconhecido, é preciso morrer, sorte que o nosso Scliar é imortal.
    Com todas essas homenagens feitas a ele no início da semana, teve uma frase que gostei muito "Você está certo meu amigo. Não só as férias são curtas, a vida também".
    Um salve pro Scliar.

    E eu não fui naquela excursão de POA, mas era da turma de foto buáááááá.

    Por Blogger Dilea Pase, às 2 de março de 2011 04:27  

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